Notas iniciais
Minha primeira - e espero que venham outras - fanfic da categoria de Blindspot. Como falei na sinopse, é uma história entre Roman e Jane, porém (claro) tem momentos Jeller, porque eu não resisto ao meu otp haha Enjoy, se joguem :) Beta: Janaina Costa ❤

As portas do elevador se abriram e ela saiu de lá decidida, andando a passos apressados e até esquecendo-se de dar os habituais "bons-dias" para aqueles que cruzavam seu caminho. O que era incomum desde que recuperara a confiança de todos ali.

As íris esverdeadas tinham um brilho de determinação.

Kurt Weller precisava ouvi-la, essa situação com Roman já estava se estendendo por tempo demais e ela não poderia deixar que aquilo permanecesse. Ele era seu irmão e estava sem memória. Por sua culpa. Jane sabia que ele não faria mal a ninguém, porque, assim como ela mudou e deixou de ser uma assassina de sangue frio, Roman também mudaria.

Jane olhou pelas grandes portas de vidro e o viu sentando à mesa, revisando alguns documentos. Aproximou-se e levou a mão até a porta, abrindo-a. Kurt a fitou e ela sentiu seu coração pular uma batida, era sempre assim quando seus olhares se encontravam. Por mais irritada ou magoada que ela estivesse, seu coração – espontaneamente – ainda respondia a ele.

— Jane. – a voz grave que ela tanto amava pronunciou sem nome e, por alguns segundos, ela se esqueceu de seu propósito ali.

"Deixe para olhá-lo feito uma boba em outra hora, Jane. O assunto agora é Roman", seu inconsciente a advertiu.

— Weller, eu quero pedir algo importante a você. – ela disse após acalmar seus instintos.

O sorriso nos lábios do homem diminuiu e a expressão séria – e um pouco carrancuda –, que ele costumava levar na face, voltou. Ele já podia imaginar qual era o pedido. Jane vinha lhe pedindo a mesma coisa há semanas e, por mais que lhe doesse negá-la algo tão "simples", ele não podia ceder. Não confiava em Roman a ponto de deixá-lo livre como ela queria.

— Pode dizer. – o tom de sua voz, antes suave ao pronunciar o nome dela, retornou à dureza habitual.

Ela respirou profundamente e mordeu o lábio inferior, remexendo os dedos das mãos para tentar se acalmar. Sabia que aquele assunto poderia gerar uma nova briga entre eles.

— É sobre Roman. – a voz saiu mais rouca que o normal e ela pigarreou, tornando a falar – Kurt, ele está preso naquela cela há tempo demais. Deixe-o livre um pouco.

Vendo que seu parceiro protestaria, ela falou rapidamente: – Eu me responsabilizo!

O agente puxou o ar de seus pulmões e o soltou em seguida, e repetiu a ação por mais duas vezes, passando os dedos nas têmporas e procurando se acalmar. Não queria começar outra briga por aquele assunto. Já estava cansado daquilo. Sempre que Jane falava em dar liberdade ao irmão, os dois discutiam e se machucavam com palavras.

Jane analisava a reação dele, vendo a luta interna que Kurt travava consigo mesmo e tentando entender o que poderia estar se passando em sua mente. Ela torcia para que aquele silêncio fosse por ele estar considerando a hipótese, e não por outro motivo que ela sabia que não terminaria bem.

Kurt a encarou, fitando aqueles olhos verdes, que ele já desistira de negar a si mesmo que amava, o olhando esperançosos. Talvez – talvez— ele pudesse mesmo considerar seu pedido. Talvez não fosse tão má ideia assim; precisava arriscar.

— Tudo bem, Jane. – disse com os dentes cerrados, torcendo para não arrepender-se depois – Vou deixar que Roman saia da cela.

O sorriso na face da mulher cresceu de uma forma que ele jamais havia visto antes, iluminando seus olhos com um brilho genuíno. Aquele sorriso o quebrou por completo. Jane Doe, Remi, Alice – ou qualquer que fosse seu nome –, fora a única mulher capaz de acender aquele sentimento tão intenso e, ao mesmo tempo, tão puro dentro dele.

Ele sorriu de volta, incapaz de mostrar-se indiferente ao sorriso que ela lhe oferecia.

— Mas estabelecerei limites.

— Tudo bem.

— Ele não sairá de dentro desse prédio e só poderá andar por aí em sua companhia, e por curtos espaços de tempo. – ela assentiu e ele acrescentou – E evite que ele veja em que estamos trabalhando.

Aquela última frase a incomodou, mas não discutiria. Weller concordou em liberar Roman, ainda que de forma mínima, daquela cela sem ventilação e luz natural.

— Obrigada, Kurt.

Jane lhe deu seu típico sorriso de lado e aproximou-se dele, plantando um beijo rápido em sua bochecha, o que causou um formigamento – já tão familiar – na pele de Kurt.

Seus olhares se cruzaram e a tensão sexual entre ambos se instalou de forma tão repentina e intensa que quase se tornou palpável. Era algo já inevitável. Sempre que momentos como aquele aconteciam, eles se desligavam do mundo a seu redor e entravam em um universo somente dos dois.

"Dê meia volta e saia já dessa sala, Jane Doe. Roman primeiro, depois você brinca de casinha com o senhor cara fechada", seu inconsciente – inconveniente, como sempre – tornou a adverti-la e trazê-la para a realidade.

— Eu… vou até… Roman. – ela disse com dificuldade, ainda se recuperando da sensação que a proximidade de seus corpos lhe causava.

Kurt sorriu, aquele sorriso que deixava seus olhos miudinhos, e fazia o coração dela pular uma batida, e assentiu ainda extasiado com a proximidade do rosto dela ao seu.

Com muito esforço, ela se afastou e virou as costas, indo em direção à porta.

— Jane! – a moça parou, apenas virando o rosto na direção dele – Só… tome cuidado.

— Não há nada com o que se preocupar, Weller. – ela respondeu de forma doce e seguiu em direção à cela de Roman.

#

Aquele cubículo esbranquiçado e silencioso tornara-se sua casa nos últimos tempos – e únicos que ele tinha na memória –, era uma sensação estranha, perturbadora e realmente angustiante ter a mente em branco. Saber que você tem um passado e não se lembrar de absolutamente nada dele. Não se lembrar, sequer, de quem você é, de como você costumava agir, das coisas que você gosta e desgosta.

Mas, de uma coisa ele sabia, ficar preso naquele minúsculo espaço não era a melhor forma de recuperar suas lembranças. Roman abraçou as próprias pernas e deixou a cabeça tombar para o lado, encostando-se ao vidro – a única das quatro paredes que lhe permitia ver algo além de concreto –, perdido em seus próprios pensamentos.

Passos apressados vindo em sua direção o tiraram de seus devaneios e ele levantou os olhos, apenas para ver a irmã se aproximando com o seu sorriso; aquele que ele sabia que Jane separara somente para ele. Era inevitável não sorrir de volta. Mesmo não lembrando totalmente dela, Roman sabia que a amava, que sempre a amou. Ela era sua irmã, seu único familiar.

— Oi. Como está? – ela perguntou, colocando a mão no vidro.

— Indo…

— Bom, tenho uma notícia que pode levantar um pouco seu ânimo. – informou com animação e, ao ver que conseguira a atenção dele, continuou – Consegui permissão para você sair daqui.

— De verdade? – finalmente uma notícia boa.

Roman sorriu para ela mais uma vez – gesto que se tornara frequente sempre que ela estava por perto –, em agradecimento. Sabia que Jane vinha tentando convencer Weller a deixá-lo sair daquela cela.

— Sim, mas… – hesitou e diminuiu o tom de voz – será por pouco tempo e só podemos andar pelo prédio.

Bem, isso ainda era melhor do que passar 24 horas preso ali.

— Certo. E quando eu poderei sair?

— Agora mesmo.

Ela se endireitou e abriu a porta de vidro, dando passagem para que ele saísse dali.

— Obrigado por isso. – Roman falou ao passar por ela – Eu sei que só tive permissão de sair por você ter insistido para permitirem.

— Roman…

— Tudo bem, Jane. Eles devem ter seus motivos para não confiarem em mim. – ele disse pensativo – Às vezes, nem eu mesmo confio.

A tristeza em sua forma de falar fez o coração da moça apertar-se. Ela conhecia perfeitamente aquela sensação. Aquela incerteza em si mesmo. Não saber se você faz parte dos "bonzinhos" ou dos "vilões". Ela sabia muito bem o quão desconcertante era aquele conflito interno que seu irmão estava vivendo.

— Vamos? – perguntou sorrindo para espantar aquele clima pesado que se instalara.

— Vamos.

#

Os dois caminhavam pelos enormes corredores do prédio do FBI. Jane, atendendo ao que Kurt lhe pedira, buscou caminhos que evitavam Roman de ver em que sua equipe estava trabalhando. Não que ela duvidasse de seu irmão, mas era melhor não vacilar com Weller, sabia que ele apenas cedera àquele pedido por ela.

— Então, – Roman falou, chamando sua atenção – você e Weller…

Ele deixou a frase inacabada, porém ela o compreendeu. Abaixou o rosto sentindo-se corar e deixou suas curtas e negras madeixas cobrirem-lhe a face, passando a mão esquerda por seu braço direito, de baixo para cima.

Sinal de nervosismo.

— É… complicado. – disse, por fim.

— O que pode ser assim tão complicado?

— Eu não sei.

Ela deixou a frase morrer e suspirou profundamente. Realmente não sabia o que era tão complicado entre os dois. Talvez ausência de reciprocidade. "Ou ausência de coragem", seu inconsciente voltou, de onde quer que ele estivesse, para importuná-la. Jane bufou e virou o corredor, talvez fosse uma boa ideia praticar um pouco de luta com Roman.

— Sabe… talvez você deva conversar abertamente com ele. – Roman disse, seguindo os passos da irmã, e ela o olhou.

Era estranho falar desse tipo de assunto com ele, mas, pensando bem, talvez não fosse assim tão má ideia ter com quem conversar a respeito de seus sentimentos conturbados. E quem poderia ser melhor que seu próprio irmão?!

— É. Talvez eu deva sim.

Jane abriu a porta que levava ao tatame e estendeu o braço, indicando para que ele entrasse.

— Que tal praticar um pouco?

— Adorei a ideia. – ele sorriu de forma significativa e adentrou o local.

Jane o seguiu, fechando a porta atrás de si, e o observou encurvar o corpo em posição de combate no centro da sala. Ela caminhou até Roman e posicionou-se da mesma forma.

Eles estavam sozinhos e teriam privacidade, algo que ambos prezavam. Então, deram início à diversão.

Jane deu o primeiro golpe e Roman se defendeu. Era uma luta corpo a corpo, utilizando braços e pernas. Apenas para manterem-se em forma e Roman "dar uma esticada" em seus músculos. Ele passava tempo demais enclausurado.

Os golpes continuaram, um atacava e o outro se defendia. Em um movimento rápido, Jane lhe desferiu um soco e Roman a segurou pelo braço, girando-a contra seu corpo e arremessando-a ao chão, sem exercer uma força exagerada.

Jane levantou depressa e voltou a se posicionar, porém, ao fazê-lo, ela notou que o irmão tinha um olhar distante, alheio ao momento presente. Ele teve uma lembrança, ela conhecia bem aquela expressão na face dele.

— Roman? – a moça o chamou hesitante, aproximando-se devagar para não assustá-lo.

Ele se mantinha parado, quase estático, com o olhar distante.

— Roman. – chamou novamente, dessa vez, com a voz firme.

— Eu me lembrei dela… – ele falou, mais para si mesmo do que para a irmã.

Jane entendeu a quem ele se referia e sentiu os nervos aflorarem. O que ele havia visto?! Qual lembrança voltara à memória dele?!

— Sheperd. – ela disse, apenas para vê-lo confirmar com um aceno de cabeça.

— Estávamos os três: você, eu e ela. O lugar parecia um galpão, não sei ao certo. – ia narrando e ela sabia perfeitamente que memória havia sido aquela – Tinha apenas uma mesa, e Sheperd… ela estava entre nós… ela lutava contra nós dois, Jane.

O olhar aflito voltou à face dele, e ela sentiu seu coração esmagar-se dentro de seu peito. Odiava ver aquela angustia sempre presente no rosto de seu irmão. Ela o amava, não sabia explicar, mas o amava intensamente.

— Roman, fique calmo. Não se esforce tanto.

— O quê nós estávamos fazendo, Jane?

— Roman, e-eu… nós… – ela se perdia nas próprias palavras.

Temia que o restante daquela memória viesse à tona.

— Não se lembra?

— Roman, acho melhor eu ir falar com Weller sobre essa nova lembrança. – desviou o assunto, precisava de um tempo para arrumar uma saída – Talvez devêssemos chamar Karen Sun para te ajudar a aclarar isso.

— Tudo bem. Eu preciso voltar para lá, não é?!

— Só por enquanto. Preciso falar com Weller.

— Certo. – ele assentiu e ambos saíram da sala.

Dirigiram-se calados para a cela de Roman. Ele repassando a lembrança na mente, tentando recordar algo a mais. Ela nervosa, temendo que ele se lembrasse de mais alguma coisa sobre aquele dia.

— Voltarei logo. – ela disse ao fechar a cela e se apressou em encontrar seu parceiro.

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— Kurt! – Jane chamou afobada, andando apressadamente em direção ao agente.

Ele estava voltando para sua sala com alguns documentos em mãos. Trabalhava em um novo caso.

— Jane? – a voz grave tinha um tom de preocupação.

Ele a segurou pelo braço, trazendo-a mais para perto de si e olhando em volta para se certificar de que ninguém pudesse ouvi-los.

— O que aconteceu? Roman…? – ele deixou a frase inacabada.

— Sim, é sobre ele. Vamos entrar? – indicou a sala dele com a cabeça.

O assunto devia ser tratado em particular.

Kurt assentiu e a guiou para o local, fechando a porta atrás de si, sem soltar o braço da moça. O silêncio dela o estava preocupando muito, ele tinha o olhar duro e a mandíbula trincada, já imaginando o pior. Começava a se arrepender de ter liberado Roman, sempre soube que aquilo não seria uma boa ideia.

— Então? – incentivou-a a começar a falar.

— Roman teve uma nova lembrança. – optou por ir direto ao ponto – Ele se lembrou do dia em que eu tirei sua memória.

Aquilo o alarmou. Roman havia se lembrado?! Tudo estava perdido, então.

Jane continuou.

— Ele não se lembrou disso exatamente. Mas está próximo, Weller. – falou rapidamente – Ele se lembrou do nosso confronto com Sheperd.

— Então ele ainda não sabe que mentimos sobre quem tirou a memória dele?

— Não.

Kurt respirou aliviado e, enfim, largou o braço de Jane. Nem tudo estava perdido, pelo menos não ainda.

— Talvez ele nem chegue a lembrar, Jane.

— Talvez?! Mas e se ele lembrar? – exclamou exasperada, a voz rouca aumentando dois tons – Ele vai me odiar, Weller. Eu menti para ele, para minha única família. Ele não confiará mais em qualquer um de nós… ele nunca mais confiará em mim.

A voz dela falhou no final da frase e grossas lágrimas brotaram em seus olhos. Jane sentia o coração bater acelerado devido ao medo de Roman se lembrar de tudo. Temia pela reação dele, pelo que aquela revelação faria com a relação dos dois. Temia que ele a rejeitasse e perdesse de vez o rumo de tudo.

— Jane. Jane. – ele a chamou, segurando-a pelos dois ombros e buscando sua total atenção – Olhe para mim. Respira, Jane. Respira.

Weller a puxou para seus braços, acolhendo-a em um abraço apertado e reconfortante. Passava as mãos pelas costas dela, de cima para baixo, repetidas vezes, tentando acalmá-la. Sentia o corpo dela tendo leves espasmos devido ao choro que não cessava.

— Shhh. Jane, vai ficar tudo bem. Acalme-se.

Somente após alguns minutos naquela posição sentindo o afago dele, foi que ela, finalmente, conseguiu se acalmar. Ouvia o coração de Kurt batendo forte no peito e aquele som era extremamente reconfortante. Sentia-se tão em casa nos braços dele que até parecia que nada de mal poderia lhe acontecer.

Jane levantou a cabeça, sem se mover um milímetro para longe dele, e os olhares de ambos se encontraram. Ela tinha o rosto levemente corado, os olhos ensopados e os lábios muito avermelhados. Aquilo atinou os sentidos de Weller. Ele tirou uma de suas mãos das costas dela e a levou para o rosto da moça, deslizando-a da bochecha dela até sua nuca.

A respiração de ambos já começava a se desregular.

Jane, ignorando os protestos de seu inconsciente, passou os braços em volta do pescoço de Kurt e ficou na ponta dos pés, aproximando seus lábios dos dele e roçando-os. Ele fechou os olhos, sentindo a maciez dos lábios dela passando timidamente pelos seus e a puxou ainda mais contra si, iniciando um beijo voraz, repleto de desejo, que foi correspondido com a mesma intensidade.

Aquele contato já conhecido por ambos despertou o desejo adormecido, apagando todo e qualquer problema que estivesse acontecendo naquele momento. Apenas eles importavam e a batalha, onde não fazia diferença quem seria o vencedor, que suas línguas travavam. O coração de ambos estava acelerado. As mãos de Jane, presas na nuca de Kurt, o puxavam mais e mais para si, impedindo que houvesse uma mínima distância entre seus corpos.

Vagarosamente, o beijo foi cessando e as respirações entrecortadas foram voltando ao normal. Porém, Kurt ainda a manteve presa em seus braços. Uma mão no centro de suas costas e a outra lhe acariciando a face.

— Jane. – ele disse em um suspiro e ela sorriu envergonhada, mordendo o canto de seus lábios.

— Kurt, a gente precisa conversar, mas… agora não é o momento.

— Eu sei. E nós iremos conversar, eu… – hesitou em terminar aquela sentença, mas eles haviam decidido ser sempre sinceros um com o outro, então ele o faria – Eu quero que isso aconteça. Nós dois.

Aquela frase trouxe um brilho diferente no olhar dela. Um brilho esperançoso e apaixonado, que não passou despercebido por Kurt.

— Eu também.

"JANE DOE, VOCÊ SE LEMBRA DO PORQUÊ DE ESTAR AQUI?", seu inconsciente gritou enfurecido e ela piscou os olhos ao lembrar-se de seu desespero de minutos atrás. Roman. Ela tinha que resolver essa situação logo.

— O que faremos a respeito de Roman? – Jane questionou, retomando ao tema que a levara até ali.

A mudança repentina de assunto o trouxe de volta à realidade deles.

— Bom, acho melhor chamarmos a doutora Sun. Ela poderá nos ajudar com isso, achar alguma solução.

Kurt se afastou dela e foi em busca de seu celular. Quanto mais cedo a chamassem, mais cedo essa situação se resolveria.

#

As imagens daquela luta desconexa – ao menos para ele – não paravam de passar em sua cabeça, como um loop infinito. Roman se esforçava para se lembrar de algo mais, estava se forçando a isso desde que essas imagens lhe invadiram a memória, mas não obteve sucesso.

Voltou a se concentrar nos fatos. Ele e Jane lutavam contra a mulher que deveria ser sua mãe. Mas por quê?!

Fechou os olhos e se concentrou, como havia sido instruído a fazer das outras vezes. Concentrou-se nos detalhes da cena: o galpão, a mesa solitária, a cadeira que estava em pedaços por Jane tê-la destruído para soltar-se.

E, então, a lembrança ficou mais clara. Ele segurava uma arma antes de aquela luta começar e a estava apontando para Jane. Tentou se concentrar no cheiro de pólvora que já conhecia, e imagens diferentes foram chegando à sua mente espontaneamente.

Ele atirou em Sheperd para proteger Jane. E depois eles fugiriam. Ele estava ferido e Jane o levou para algum lugar, cuidaria de seu machucado.

Roman mantinha os olhos fechados, as lembranças vindo com toda a força em sua mente. Ele sentia que finalmente obteria respostas. E, então, ele se lembrou. Não. Não podia ser. Jane, foi ela que…

— Roman? – a voz daquela que agora dominava-lhe os pensamentos o acordou de volta para a realidade.

Ele encarou o par de olhos verdes o olhando aflitos. Kurt estava com ela e também o encarava. Roman trincou os dentes enrijecendo a mandíbula e fechou a mão em punho, forçando tanto os dedos que suas juntas ficaram esbranquiçadas.

— Roman, está tudo bem? – ela perguntou, notando a expressão enfurecida no rosto de seu irmão.

A resposta não veio, ele apenas a fitava. A lembrança do rosto dela próximo ao seu, daquela seringa em suas mãos, as palavras que ela havia falado. E, então, outra memória lhe veio, mas não uma de seu passado: a lembrança de Jane lhe afirmando que Sheperd fora a responsável por sua perda de memória.

Ela mentiu, mas por quê?!

— Você se lembrou de algo mais? – Jane tornou a perguntar, já imaginando a que se devia o silêncio e a expressão dura na face de rapaz.

— Sim. – foi tudo o que ele disse.

Lágrimas de raiva brotaram em seus olhos e ele abaixou o rosto, tentando encontrar algum controle dentro de si. Precisava descobrir o porquê de ela ter mentido.

— Não foi Sheperd, foi você. – a voz saiu baixa, quase inaudível.

— Roman… eu… o quê você lembrou?

— De você. – a dureza na voz dele a atingiu como lâminas afiadas – Você me fez isso, e ainda mentiu para mim. Você me usou, Jane. VOCÊ e não a Sheperd!

— Acalme-se, Roman. Vamos conversar civilizadamente. – Weller interveio.

— Civilizadamente?! – ele riu em deboche – Minha memória foi tirada de mim sem nenhum motivo aparente e contra a minha vontade e, agora, você quer me falar de civilização?

Ele praticamente cuspia as palavras.

"Eu fui mantido preso nessa cela como um animal perigoso desde que vocês me trouxeram para esse prédio. Eu fui impedido de ter qualquer direito aqui, eu não optei por nada disso. Minha memória foi tirada de mim; minha liberdade foi tirada de mim; meus direitos foram tirados de mim. Acho que quem precisa de civilização aqui não sou eu".

— Roman, deixe eu explicar. – Jane praticamente implorou ao irmão.

— Explique. Estou esperando.

Ele estava disposto a ouvir, ainda que estivesse enfurecido e a ponto de matá-la, ele estava disposto a ouvir. E ela usaria essa chance para tentar reverter as coisas. Não podia perdê-lo, não agora que ele já ocupava quase todo o seu coração.

Jane puxou o ar e se aproximou do vidro que os separava, colocando as duas mãos espalmadas naquela superfície transparente.

Roman a encarou, esperando que ela começasse a falar.

— Tudo bem. – ela disse, respirando profundamente para estabilizar sua voz – Eu não vou mais mentir, suas lembranças estão corretas. Eu tirei sua memória. Mas eu fiz isso para tentar salvar você, para tentar concertar as coisas para você.

— Não entendo seu ponto de vista.

— Quando… quando eu saí daquela mala no meio da Times Square, eu estava sem memória, estava perdida no mundo e estava sozinha. E, então, eu fui acolhida aqui. Eles me deram uma casa e uma família. E eu percebi que podia, enfim, fazer algo de útil.

Ela falava sem parar ao menos para respirar. Precisava ter a confiança dele de volta e, para isso, lhe contaria tudo.

"Com o passar do tempo algumas lembranças foram voltando à minha mente e eu percebi que eu não havia sido uma boa pessoa no passado, mas, além disso, eu percebi que eu não queria mais ser aquela pessoa do meu passado. Eu gostava – e ainda gosto – dessa nova versão de mim mesma e… eu pensei… já que eu pude mudar e me tornar alguém melhor, já que eu consegui a confiança de todos aqui e deixei para trás aquele caminho obscuro, o mesmo poderia acontecer com você".

— E para isso você precisaria mentir para mim?

Weller, que ainda permanecia parado próximo a ela, voltou a falar. Não podia deixar que ela lidasse com toda aquela confusão sozinha; confusão essa que ela nunca quis que acontecesse. Ela não escolheu mentir para o irmão.

— Jane nunca quis mentir para você, Roman. Minha equipe e eu achamos que seria mais seguro ocultar de você essa informação.

— Mais seguro para quem?! Para mim… ou para vocês?

— Para todos. – Weller disse com firmeza – Porém Jane nunca quis concordar com isso.

A moça virou o rosto para encarar seu parceiro. Seu coração se derreteu por ele tê-la defendido assim, por ele ter intercedido em favor dela. Ela sorriu timidamente para Kurt – que captou o ato por sua visão periférica – e voltou a atenção para seu irmão.

Roman estava mais calmo, porém a expressão endurecida ainda permanecia em sua face. Seus olhos tinham uma lamúria que trazia um grande desconforto para Jane. Ela daria qualquer coisa para tirar aquela dor do olhar dele.

— Eu preciso de um tempo para processar tudo isso.

— Roman… – Jane tentou falar, porém ele a cortou.

— Depois. Eu quero ficar sozinho agora.

A moça assentiu e abaixou o rosto, os olhos marejados e uma dor dilacerante em seu peito. Weller passou o braço em volta do corpo dela e a puxou para si, aconchegando-a em seus braços. Os dois saíram a passos lentos, deixando Roman sozinho novamente com seus pensamentos.

Aquilo era demais para ele aguentar sozinho. Sem memória e enganado pela única pessoa que confiava. Será que ainda poderia confiar nela? Será que ela lhe havia mentido outras coisas? Só o tempo lhe traria essas respostas.

Roman deixou seu corpo escorregar pela parede à medida que densas lágrimas escorriam por seu rosto, até que desabou no chão. Um grito ensurdecedor e repleto de angustia saiu de sua garganta e ele esmurrou a parede com força, quase quebrando os ossos de sua mão. Mas isso não importava, aquele pequeno machucado nem se igualava ao ferimento que havia sido aberto em seu peito com aquela descoberta.

— Você acha que ele me perdoará? – Jane questionou a Weller, a voz falha devido ao choro que se intensificou ao ouvir o urro agoniante de seu irmão.

— Dê um tempo a ele, Jane. Apenas o tempo poderá decidir isso.

Kurt respondeu e a apertou ainda mais em seus braços, pensando que, se tivesse sorte, talvez seu carinho pudesse juntar todas as partes quebradas do coração dela.

Talvez.

Notas finais
E então? Comentem, por favor ;)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!