Voando juntos

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Boa leitura!

Eram quase oito horas da noite. Gustavo estava em casa, mexendo no computador. Era um garoto magricela, de olhos e cabelos castanhos, pele clara e 13 anos de pura nerdisse. Depois de alguns minutos, ele desligou o computador, se levantou da cadeira e foi pegar uma sacola no outro lado do quarto. Levando o embrulho, desceu as escadas e procurou os pais.

— Mãe, pai, eu estou indo na casa da Selena. — O garoto falou tranquilamente para os dois adultos, que estavam na sala de estar, ao lado de uma mala.

— Tudo bem, mas não volte muito tarde. Pegou o presente? Tem certeza que vai ficar bem esse fim de semana?

— Sim, mãe. Eu não sou mais uma criança.

— Okay, só não se esqueça de comer. Tem comida de verdade na geladeira, não fique comendo miojo e outras porcarias.

— Tá bom, eu não vou morrer em um fim de semana.

Os responsáveis fizeram mais algumas recomendações de última hora e se despediram. Gustavo se dirigiu até a porta da frente, enquanto os pais terminavam os preparativos para a viagem.

— Até segunda! — Disse o pai.

— Até! — Respondeu o filho, já saindo de casa, balançando a sacola enquanto andava.

Um pouco depois, ainda na mesma quadra, o menino chegou ao seu destino. Tocou a campainha da última casa e ouviu passos pesados se aproximarem.

— Entre. — Júlio Hubner falou rudemente.

— Ah, sim. A Selena...

— Está lá em cima, pode subir.

Estranhando o comportamento do homem, Gustavo subiu as escadas. Seguiu pelo conhecido corredor e entrou em um dos quartos. Lá, foi imediatamente abraçado por uma garota. Ela tinha longos cabelos escuros como a noite. Os olhos eram de um azul intenso. Tinha a pele bastante clara, mas isso não ficava tão evidente devido a maquiagem que usava.

— Gus! Você está atrasado!

— Eu sei, os meus pais queriam se certificar de que eu ficaria bem sozinho.

— Ah, entendo. Pode vir aqui quando quiser, aqui tem comida e a minha valorosa companhia! — Ela brincou.

— Obrigado pelo convite. Acho que vou vir pela comida mesmo. — Selena riu e bateu no ombro do amigo. — Enfim, feliz aniversário.

— Você já me disse isso hoje.

— Mas antes eu não tinha um presente.

Gustavo estendeu a sacola do presente, que foi pega pela garota. Ela agradeceu e se sentou na cadeira da escrivaninha para abrir. Era um livro de tamanho mediano, que pelo desenho na capa, parecia ser de fantasia. Selena sorriu.

— Você sabe que eu não leio muito. — Ela falou, meio rindo.

— Sim. E estou tentando mudar isso.

— De qualquer jeito, obrigada de novo. Se foi você que escolheu, tenho certeza que eu vou gostar. Senta aí. — Sinalizou para a cama.

Gustavo sentou e franziu as sobrancelhas, intrigado.

— O que foi? — Perguntou a menina, sabendo que algo não estava certo.

— O seu pai. Ele não foi muito gentil hoje, como sempre foi. Pensei que ele gostasse de mim.

Selena olha para baixo, como se já estivesse esperando isso.

— Ele gosta. Mas nesses últimos dias, ele não está agindo normal. Acredita que ele não queria que você viesse aqui? Eu tive que insistir bastante e fazer a cara de coitada.

— Nossa, a cara de coitada. Então a coisa deve ser séria mesmo. Será que eu fiz algo errado?

— Não, não. — Ela negou veementemente. — O problema deve ser alguma outra coisa. Bom, vamos mudar de assunto? Eu tenho bolo de chocolate aqui, quer?

Ela pegou da mesa dois garfos e um bolo, com alguns pedaços faltando.

— Parece que alguém estava com fome. — Gustavo disse, achando engraçado.

— Eu nem estava, mas você sabe como eu amo chocolate. Do jeito que eu como, logo vou ficar gorda.

— Você não deveria ficar se preocupando com isso. Apenas coma e pronto, seja feliz.

E assim eles ficaram, por mais pelo menos uma meia hora, comendo o bolo e conversando, principalmente sobre a escola. Lá, eles tinham mais amigos, mas nada se comparava a relação que eles possuíam. Eram melhores amigos desde que podiam se lembrar. Um conhecia ao outro melhor do que a sim mesmo. Estavam sempre unidos, independentemente das circunstâncias. Raramente brigavam, e se acontecesse, não ficavam mais do que um dia desse jeito.

— E aquele lá, o Lucas? — Gustavo questionou. — Você gosta dele?

— O quê? Não! Ele definitivamente não faz o meu tipo.

— Bom, ele parece gostar de você. Ele até me perguntou se a gente estava namorando.

Selena quase se engasgou com um pedaço do bolo, que continuava comendo até agora. Olhou para o amigo, chocada.

— É isso que nós parecemos? Céus, meninos e meninas não podem mais serem amigos que as pessoas já vêm com esse papo. Bom, lamento pelo Lucas, porque eu não gosto dele. E você?

— Eu o quê? — Ele perguntou, confuso.

— Gosta de alguém?

— Ah, não exatamente. Mas aquela sua amiga, a Juliana, parece ser legal.

— Ela é! Você devia falar mais com ela, quem sabe alguma coisa floresce.

— Nah, eu sou tímido. Abrir a boca só para depois ser dispensado? Não, obrigado.

— Ela não te dispensaria. E desse jeito, só ficando no seu canto, nunca vai conhecer alguém especial. Você prefere ficar com os seus amigos, conversando sobre as novidades intelectuais.

— Por enquanto vou continuar assim mesmo. Daqui a alguns anos, eu tomo jeito na vida e começo a me preocupar com isso.

— Mas daí pode ter sido tarde demais! — Selena se levantou, exaltada. — A pessoa especial...

De repente, ela parou de falar e cambaleou, com a visão turva. Tentou se apoiar na bancada, mas acabou derrubando um livro grosso da escola, fazendo um barulho alto.

Gustavo também se levantou e pegou nos braços da amiga, tentando fazer com que ela se equilibrasse novamente.

— Selena? — Chamou, preocupado. — Você está bem?

Em seguida, a porta se abriu bruscamente, assustando os dois jovens. Era o pai da garota, que viera correndo por causa do barulho. Ele tinha um celular em mãos.

— Ah, não! Eu sabia que isso ia acontecer. Afaste-se! — Gritou para Gustavo, assustando-o.

— Mas o quê...? Eu não estou entendendo. — Selena estava apoiada nele, não parecia estar nada bem e nem disposta a largar o amigo.

— Não precisa entender, é melhor você ir embora! — Júlio insistiu.

Um ruído estranho veio do andar de baixo. Era como se um pássaro tivesse se chocado contra a porta. Como se sua vida dependesse disso, o pai saiu correndo do quarto e foi abrir a porta.

Gustavo guiou Selena até a cama e a deitou, temporariamente aliviado pelo pai dela ter ido embora junto com a sua bizarrice e mal humor.

— Sel, você precisa me dizer o que está sentindo... — Ele se ajoelhou ao lado da cama. — Consegue me dizer?

— A... a cabeça... — Gaguejou.

— Está doendo?

— Parece... que vai explodir.

O garoto olhou ao redor, sem ter a menor idéia do que fazer. Em um instante ela estava ótima, no outro quase desmaiou. Ele estava tão pensativo que não ouviu os apressados passos subindo novamente es escadas. Desta vez, o Júlio não estava sozinho.

Uma mulher de fisionomia vagamente familiar tomou a frente, se aproximando de Selena. Tinha os cabelos pretos aparados na altura da orelha. Colocou a mão na testa dela e forçou os olhos da garota abrirem mais, analisando qualquer sinal suspeito.

— Ela disse que a cabeça dói muito... Que parecia que ia explodir. — Gustavo falou, tentando ajudar.

A mulher se endireitou e colocou as mãos na cintura, surpreendentemente calma.

— Tudo normal. — Afirmou.

— Normal?! — Indagou o pai de Selena, achando tudo aquilo um grande absurdo.

— Sim. Eu te falei o que poderia acontecer...

— Mas não disse que agiria tão rápido!

— Isso é diferente para cada pessoa, as reações variam. Mas acredite em mim, ela está bem. Logo passará. Acho que ela deveria ir pra minha casa, vai ser melhor de explicar toda a situação. Já deveria ter ido antes, mas você foi teimoso e não deixou.

— Situação? — Gustavo interrompeu, confuso e impaciente. Parecia que aqueles dois tinham esquecido da presença dele. — Que situação? Do que vocês estão falando? O que é que está acontecendo? E porque vocês não estão fazendo nada para ajudar a Selena?

A menina estava na cama, começando a se revirar. Tinha cãibras por todo o corpo. Praticamente não conseguia prestar atenção no que os outros estavam falando. O pai dela, angustiado, se abaixou no outro lado da cama e acariciou a cabeça da filha, que agora não parava de se mexer.

— Para começar, qual é o seu nome? — A mulher falou.

— Gustavo. — Ele respondeu, sem saber o porque de isso ser relevante no momento.

— Bem, Gustavo... Eu me chamo Carolina, sou a tia materna da Selena. Isso pode ser difícil de acreditar, mas é a verdade: A nossa família é um pouco peculiar. Nela, quando as garotas completam 13 anos, a sua verdadeira natureza se revela. A de harpia.

Gustavo estava processando as informações, incrédulo, enquanto o pai da Selena repreendia a tia por revelar tanto.

— Eu sei quando é quanto é necessário contar. A escolha é minha. — Argumentou ela. — E Gustavo, ela vai para a minha casa agora. Por isso, você precisa ir embora. Dentro de alguns dias, a Selena vai poder voltar, muito melhor. Então vocês poderão conversar e ela vai te explicar tudo.

— N-não. — Todos foram surpreendidos quando a própria Selena contestou. Sua voz soava muito estranha. — Quero que ele fique comigo.

Os dois adultos se olharam: eles sabiam o quanto a garota podia ser teimosa, mesmo no estado em que estava.

— Ele vai. — O pai de Selena afirmou.

Assim, ele e Gustavo ajudaram Selena a se levantar da cama e, cambaleando, ir até o carro do pai. Carolina estava dirigindo em alta velocidade, enquanto a sobrinha começava a gemer. O pai e Gustavo se olharam. Ao contrário da mulher, eles não pensavam que tudo estava bem.

Gustavo ainda não tinha entendido direito o que estava acontecendo. Aquela maluca tinha falado algo sobre a família delas ser de harpias... Gustavo podia até acreditar naquilo, mas não compreendia como essa informação se relacionava ao fato da amiga estar passando mal e de eles estarem indo para a casa da tia dela.

Em menos de meia hora, eles chegaram a um grande casarão do subúrbio. Todos entraram na sala de estar, que era moderna, espaçosa e bem iluminada.

Selena caiu no chão. O pai dela quis levantá-la, mas Carolina o impediu.

Então, todos presenciaram a transformação. A garota tremia enquanto penas escuras brotavam de seus braços. Estas também apareceram entre os cabelos e a nuca. Abaixo do shorts, sua pele se tornou mais grossa, algumas poucas penas surgiram. Os braços tinham se tornado asas que juntas mediam quase dois metros, mas as mãos continuavam visíveis. Em poucos instantes, Selena tinha mudado de garota para harpia.

Carolina não estava surpresa, via aquele tipo de coisa toda hora. Júlio já tinha visto o fenômeno na esposa falecida, mas era chocante ver em sua filha. Gustavo estava paralisado, mal acreditando no que seus olhos viam. E a pobre Selena, estava assustada consigo mesma.

— Pronto, querida. — Tranquilizou a tia, finalmente se aproximando . — Já passou, só a primeira vez que é assim.

Selena estava melhor, não sentia mais dores como antes. Porém, estava aterrorizada, olhando para o próprio corpo.

— Terão outras vezes? — Ela perguntou, infeliz, quase chorando. — Eu não quero.

— Não é uma opção, querida. Agora vai ser assim. Isso também aconteceu comigo. Você pode voltar a sua forma original, mas sempre vai se transformar de vez em quando. Existem vários estágios, você não precisa ir longe se não quiser. Pode sempre se manter próxima da forma humana.

— Eu não quero.

— Mas, querida...

— EU NÃO QUERO! — Selena gritou e foi como se algo tivesse explodido. Carolina, Júlio e Gustavo foram jogados para trás, e o ambiente pareceu ficar mais escuro.

O pai de Selena gemeu para se levantar do chão, com uma mão nas costas.

— Pai... Me desculpa, eu não sei como isso aconteceu... Eu não queria fazer isso... — Ela correu para ajudá-lo a se levantar.

— Realmente tão poderosa quando a mãe. — Carolina concluiu, impressionada.

Gustavo se levantou sozinho. Agora que tinha sentido na pele, estava começando a realmente acreditar nas coisas.

— Selena. — A tia chamou. — Logo você vai conseguir controlar melhor os seus poderes e habilidades. Eu posso te ajudar aqui.

— Mas vocês sempre souberam que isso ia acontecer? — Ela fixou o olhar no pai e na tia, que abaixaram a cabeça. — O tempo todo?

Eles não negaram. Magoada, Selena não sabia mais se podia confiar na própria família. Esconder informações dessa magnitude não era uma atitude que ela considerava aceitável.

— E você? — Ela olhou para Gustavo. — Estava sabendo de algo?

— Eu? Não, eu estou tão surpreso quanto você.

Selena respirou fundo. Olhou para os próprios braços, irreconhecíveis devido às penas escuras que os cobriam.

— Eu preciso de tempo para digerir tudo isso. — Ela falou. — Posso ficar sozinha?

— Claro, filha, nós vamos subir para o segundo andar. Qualquer coisa é só chamar.

O pai e a tia saíram do recinto, e Gustavo estava prestes a acompanhá-los, mas Selena o interrompeu.

— Você não! Pode ficar aqui. Quero dizer, se ainda quiser ser meu amigo.

O garoto voltou a se aproximar dela.

— Do que você está falando? Por que eu deixaria de ser seu amigo?

Ela abriu as asas que agora possuía. Seus olhos lacremejaram. Tudo parecia muito estranho e desconfortável para a garota.

— Por causa do que eu sou agora. — Explicou.

— Mas isso não faz qualquer diferença na nossa amizade. Uma mudança no lado de fora não afeta quem você é de verdade, no lado de dentro. Vou ficar com você, ainda mais agora, com todo esse lance. Pode contar comigo.

Selena ficou emocionada e o abraçou desajeitadamente devido às penas sensíveis.

— Além do mais, eu achei o máximo. — Ele complementou.

— Diz isso por que não foi você que se transformou em harpia. Olha o meu estado, a minha cara! — Ela apontou tristemente para um dos espelhos do cômodo. Seu rosto estava de fato meio estranho e para a garota, que sempre foi vaidosa, era difícil aceitar a mudança. — E o pior é que eu não sei quando vou poder voltar ao normal.

— Você vai se acostumar. — Gustavo falou, tentando ser positivo. — E você pode não perceber agora, mas isso aí deve ter muitos benefícios.

— Tipo o quê? Não precisar de fantasia no dia das bruxas? Vou estar sempre vestida de galinha humana.

— Não. — Ele riu. — Mas você vai poder voltar ao normal eventualmente e vai estar bela como sempre. E pense, você vai poder chegar a qualquer lugar... voando.

— Voar? — A menina repetiu, bem menos aflita. — Mas será que eu vou conseguir? Não imagino que deve ser fácil.

— Você vai saber, com o instinto. Está no seu sangue de ave de rapina.

— Sangue... — Selena fez uma longa pausa, pensando no passado de sua família. — Sabe, a minha mãe morreu quando eu era tão pequena... Eu nunca teria imaginado uma coisa dessas. E lembrar que o meu pai e a Carolina sabiam o tempo todo me deixa furiosa.

Gustavo pensou em um meio de melhorar a situação. Não que quisesse defender o que os parentes da amiga fizeram, mas porque não gostava de ver Selena daquele jeito.

— Tenho certeza de que eles tinham uma boa razão. Talvez só quisessem te dar uma infância mais tranquila. Você seria o que é hoje se soubesse da verdade desde o início?

— Acho que não, mas...

— Então está resolvido! — Gustavo interrompeu, com um sorriso no rosto. — Por que não subimos para o segundo andar, informamos aos dois que está tudo bem, e ainda aproveitamos para tentar voar?

— Claro, Gus. — O garoto deu alguns passos em direção a escada. — Mas primeiro, obrigada. Por estar aqui, por não se importar.

— De nada. Eu sou seu amigo, não sou? É isso que eu faço.

Os dois ascenderam, alegres. Os adultos se aliviaram em ver Selena mais calma, mas não comentaram nada. Quando os jovens falaram de voar, Carolina sugeriu irem no terraço.

Lá, a garota experimentou as grandiosas asas, batendo-as. A tia a instruiu e a garota até conseguiu subir alguns metros do chão. Depois de pousar, ela tentou de novo, e desta vez, chegou a mais de dez metros no meio da escuridão que era o céu da noite. Então, teve uma idéia. Eles estavam na altura de um suposto terceiro andar, por isso seria fácil alçar vôo pulando da beirada. Selena pegou no braço de Gustavo e o levou ao parapeito. Ele a seguiu, sem saber sua intenção.

De repente, a menina o agarrou e pulou. Mesmo surpreso, Gustavo não se preocupou, pois confiava na amiga. Juntos, os dois planaram por vários metros, até que caíram desajeitados na grama. Riram até não poder mais.

A partir dali, eles continuariam unidos como sempre, voando juntos numa nova fase da vida.

Notas finais
Espero que tenha ficado bom. Eu nunca tinha escrito um capítulo tão grande. Escrevendo essa oneshot, até fiquei com vontade de escrever um long, se passando anos depois. Alguém aí leria? Compartilhem suas opiniões nos comentários, por favor.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!