Viúva Negra: A lenda de Phil Ruffalo
1 O início
Notas iniciais
Já estávamos à deriva há quase uma semana e a tripulação não queria obedecer minhas regras de queimar o nosso maldito rum, mesmo ele sendo o pior rum dos sete mares. A viagem estava sem ação alguma, o vento pouco batia nas velas eles passavam mais pelos buracos daqueles panos milenares, que nunca foram trocados, desde a época do lendário Capitão Haus Cambridge. O mar estava pouco agitado, o barulho de peixes mortos batendo no casco do navio ecoava pelos ouvidos de todos. A noite de lua cheia estava propícia a abater outros navios, mas estávamos tão no fim do mundo que só restavam carcaças do que um dia foram navios tripulados. A névoa, já verde com a podridão dos peixes mortos pelas Mermaids, subia para onde eu estava, o cheiro forte tomou conta da proa e de todo o resto do navio, os marujos mais fracos acabaram vomitando até as vísceras fora.
A bela noite, que de bela só tinha as estrelas, estava um porre, minha garrafa do pior rum dos sete mares estava pela metade, e eu estava sem saco algum para continuar tomando aquela porcaria. O navio estava balançando normalmente, porém, cada vez mais estava indo mais bruscamente para os lados.
— Phil... Phil — um marujo gritava apavorado subindo as escadas para chegar ao meu leme — Eu acho que é o...
— Não... Não! — interrompi o velho barbudo, que no lugar de uma perna, tinha um pedaço de madeira — Reformule sua frase, acho que faltou um "Capitão" logo no começo!
— Desculpe Capitão! — ele me respondeu, tirando e balançando o chapéu em minha direção. Aquele homem era muito estranho, nunca havia o visto antes e a pele dele dava uns sinais de tremedeira — Estava falando que acho que é o grande Kraken, ele deve estar abaixo de nós, e provavelmente vai nos virar...
— Desculpe marujo velho, mas não acredito em lendas idiotas! — respondi, com coragem — Deve ser apenas um grande cachorro do mar! E pelo que escutei nas tabernas, se um Kraken aparece, junto dele escutamos os gritos das insuportáveis Mermaids, e eu juro que não estou ouvindo nada!
Mal acabei a frase, e uma grande onda invadiu a superfície do navio, levando alguns marujos para as bordas. As ondas começaram a ficar mais leves, e algumas coisas estranhas começaram a aparecer no mar, diante a névoa. Eram as insuportáveis Mermaids, um monstro metade peixe, metade pessoa, mas uma pessoa muito feia. Elas pulavam fora d'água e faziam um barulho muito agudo, mas não era um barulho comum, era mais um grito horrível e muito alto, que fazia qualquer tímpano saltar para fora do ouvido.
— São Mermaids, Capitão! — o velho teve que gritar, para suas palavras serem mais altas, que aqueles gritos horrendos, porém ele cada vez mais me parecia estranho. Ora o vejo de um jeito e ora de outro — O que faremos?
— Mexam essas bundas! — gritei para os marujos que estavam sem saber o que fazer lá em baixo — Levem o rum para o compartimento de carvão, e coloquem fogo! Não iremos esperar esse monstro afundar nosso navio!
A tripulação estava toda borrada por causa do Kraken, mas eles tinham mais medo de mim, do que qualquer monstro dos mares, então eles começaram a me obedecer, logo, o antigo Viúva Negra estava a todo vapor novamente, o leme tremia como se nunca tivesse tido fogo para poder se mover. Girei o leme totalmente para esquerda e ele deu um baque, voltando para a metade, fazendo mais água entrar no convés. A névoa subia cada vez mais rápido, e a visão estava ficando cada vez mais precária, o cheiro ficava mais forte, e os gritos muito mais altos.
De repente, grandes tentáculos subiram das águas, contei na virada de olhos, mais de vinte, a tripulação começou a carregar as balas das escopetas, pois as Cimitarras, os Sabres e os Floretes, não iam dar conta daquelas glândulas gigantes, nem se quisessem.
O Viúva Negra não tinha tanto poder de força, como a sucção do Kraken, o barulhos das madeiras estalando ao quebrarem era inevitável. O navio já estava intacto a mais de um milênio, mas justo quando eu estou no comando dele, esse monstro desgraçado aparece?!
— Mais rum! — eu berrei, sem soltar o leme — Não vou perder para esse monstro, coloque mais rum, precisamos de mais potência, muito mais!
Olhei para baixo, e vi Mernes, um marujo com um tapa olho, passando a mão no pescoço, eu sabia o que aquilo queria dizer: A porcaria maldita do rum tinha acabado.
— Droga, droga, droga, droga, droga! — comecei a resmungar sozinho, sabia que estávamos em uma grande enrascada e tudo por causa de um rota mal feita — Só por Thor nós vamos sair vivos daqui, ou pelo menos com o Viúva inteiro!
— Isso mesmo Capitão Phil! Você é brilhante! — o estranho marujo da perna de pau, falava rindo — Thor pode nos ajudar! Posso dar uma ordem a eles?
— Sinta-se à vontade! — respondi com medo, afinal, nunca deixei nenhum estranho dar alguma ordem para esses bundões.
— Ergam o mastro de Thor, marujos! — a voz do velho marujo perneta, saiu basicamente pela culatra, parece que já faz um tempo que ele não altera a voz. Falando nisso, a voz dele não é tão grossa, se depender dela ele tem no máximo vinte e sete anos — Ergam o mastro de Thor! Agora!
A tripulação olhou diretamente em meus olhos, me fitando como se quisessem dizer: “Quem é esse? E por que diabos ele está dando uma ordem direta para nós?”, eu somente gesticulei com a mão para eles prosseguirem, e foi o que fizeram. Dois homens começaram a rodar um leme que estava na horizontal, e uma barra de metal começou a sair do convés, do meu convés!
— O que é aquilo, marujo? — perguntei indignado, pois não sabia de onde aquela coisa saiu e muito menos o motivo dela estar ali — De onde saiu isso?
— Capitão Phil, eu apresento-lhe uma das últimas peças do metal Uru! — ele me respondeu — Esse metal foi usado para forjar o Mjölnir, e a espada de Odin! Ele não é lindo?
— Sim, ele é magnifico! Mas, esse metal está extinto a mais de setecentos anos! — eu respondi ainda mais indignado com aquilo — Como pode ser Uru?
— Mais precisamente a setecentos e oitenta e cinco anos, Capitão! — ele me respondeu rindo, rindo de uma forma jovial, não forçada como se fosse um velho — Ele foi extinto! Mas o Viúva é milenar, lembra?! Quando ele foi construído, o metal ainda era muito comum, e foi vendido por preço de banana, ele é uma relíquia, deve valer mais de novecentos mil moedas de ouro!
— Então o Viúva é um navio de sorte, não é mesmo?! — eu joguei essa pergunta no ar — Espera, você disse: mais de novecentos mil moedas de ouro?
O marujo colocou a mão na testa e revirou os olhos. Bem feito, ninguém me mandou contar o preço do metal. Olhei de novo para o convés e o metal já estava bem alto, no céu nuvens escandalosamente negras se formavam em cima do Viúva, trovões já davam para ser escutados, e quando eu menos esperava, um raio caiu diretamente no Uru, e logo um cheiro de carne assada tomou conta do navio, os tentáculos se desgrudaram do casco. Finalmente.
O Kraken havia caído de volta ao mar, mas não fora morto, apenas levou um pequeno dano em sua estrutura. Depois disso Viúva saiu da inércia fazendo todos caírem de seus postos.
Estávamos a todo vapor novamente, bom quase, o importante é que os ventos estavam a nosso favor agora. A escuridão da noite ainda assombrava nossos corações de marujos, e as malditas Mermaids ainda não tinham calado a boca. O importante era que o Kraken tinha sido vencido, pelo menos por um momento. O magnifico trabalho do Uru foi muito bom, a eletricidade do relâmpago foi direto para baixo do navio, onde a cabeça do monstro deveria se encontrar.
— Escuta meu velho marujo! — falei colocando a mão no ombro dele. O marujo da perna de pau deu uma pequena afastada, parecia receoso com alguma coisa — Me digas qual o nome, do homem que ajudou a salvar meu navio!
— É James! — ele me disse convicto, parecia que havia perdido o receio, que a pouco o incomodava — É James Harper!
— Espera é James Harper?! Que interessante! — respondi a ele meio intrigado, isso não estava me cheirando bem — O mesmo nome do filho da rainha da Noruega! Deves ter muito desgosto desse nome!
— Na verdade além do mesmo nome, somos o mesmo homem! — ele me respondeu, e riu quando viu a cara de besta que fiz — Isso mesmo, entrei a bordo faz uns cinco dias, enquanto ainda estavam atracados no porto, e enchendo a cara naquela taverna vagabunda!
— Você tem muita coragem para um protegido do governo, meu caro! —respondi apontando minha espada para o pescoço dele, eu estava desconfiado daquele homem, maldito dia — Eu deveria mandar trancar você no porão e depois de te atordoar muito fazer meia volta e te deixar naquele porto, com sua pele toda ensanguentada.
— Faça isso Phil Ruffalo! — ele respondeu, abaixando a ponta da espada com a mão esquerda e me encarando — Faça, você é preso em dois tempos, só por ter sequestrado algum protegido!
— Não, não, faltou um Capitão no inicio dessa frase seu verme! — eu disse, enrolando a trança da minha barba os dedos — Se você é de berço, como diabos perdeu sua pata?
— Ah! Isso?! Achei que você conhecia um pouco de ilusionismo! — ele me respondeu ironizando minha pergunta, eu continuava sem entender, pois na verdade, eu nunca tinha visto nenhum protegido da Noruega — Essa belezinha é obra do "pó dos tolos", ele faz os tolos como você, verem o que eu quiser! E tem gente aqui, que me enxerga normal, pois o pó só funciona com os tolos mesmo! Um pouco irônico, não é Capitãozinho?
Aquelas palavras não desceram pela minha garganta, eu odeio quando menosprezam meu titulo de Capitão, puxei minha pequena Peixeira da bainha, e acabei fazendo um pequeno rasgo no seu pescoço, fazendo o sangrar por muito tempo, os gritos de dor e agonia dele conseguiam ser mais irritantes que os das Mermaids, ele acabou caindo no chão por causa da dor, parecia uma criancinha chorando por causa de doce.
— Barney! — eu berrei para o convés, apontando meu dedo diretamente ao tal homem — Venha buscar esse verme! Amarre-o lá no porão, se eu enxergar ele na minha frente hoje, o farei andar na prancha!
Ele assentiu, e logo aquele protegido sumiu da minha área de visão, perderíamos mais uns três dias voltando até a Noruega. Mas já que o garoto escolheu deixar o sangue azul para trás, ele vai ter que esperar mais algum tempo para desembarcar do meu navio! Talvez mofe por cem anos no porão. Mas eu vou ter que ter um papo cara a cara com ele, e se ele não aceitar minhas ordens, terei que fazer uma visitinha ao meu velho amigo Umbu Jones, um velho conhecido que me deve alguns, ou vários favores. Tenho certeza que aquele velho irá adorar ter uma alma nova para trabalhar no seu convés imundo.
Fale com o autor