King’s Road – Londres

21:43

A vingança comprimida aumenta em violência e intensidade.

Isso é a mais pura verdade, quando se aplica aos parâmetros humanos. A jovem mulher baixou a cabeça até o tórax do homem que ela tanto desejou ter em mãos. Não era especialmente musculoso, mas ele havia marcado sua história tão fundo quanto fosse possível. Ele tinha uma barriga elevada e tanto ela quanto as costas eram revestidas de pelos grisalhos. Não era alguém com que ela se relacionava por puro desejo carnal; para saciar a vontade incessante e prazerosa de sentir algo penetrando em seu corpo como se violasse as portas de um templo inócuo.

No entanto, não se pode obter algo sem dar algo em troca; e ela estava disposta a se sacrificar para conseguir tudo aquilo que queria. Ele a penetrava vigorosamente e seus gemidos agudos reverberavam pelo amplo aposento em que se encontravam. West End, comumente conhecido como o reduto daqueles seletos cidadãos mais abastados de Londres. Foi favorecido pela elite aristocrática porque geralmente o vento era contra a densa e impura cortina de fumaça disparada das fábricas em ascensão.

A respiração lenta e ofegante do homem por debaixo dela tornou-se mais perceptível, ele se permitiu dar um tapa em suas nádegas expostas e subitamente um vergão rósea formou-se, como se ela tivesse feito uma tatuagem a poucas horas.

– Você não é de falar muito, não é mesmo? – Disse ele, enquanto sua voz truculenta era absorvida pela mulher.

– Apenas o necessário... – respondeu ela, deixando visível um sorriso malicioso no canto dos lábios.

Ela levantou-se de um salto e vestiu com agilidade a camisa social masculina que estava pendurada na cabeceira da cama. Serviu perfeitamente bem em tamanho, limitando-se a revelar mais que o meio de suas coxas lisas e macias. Displicentemente, ela dirigiu-se até a cozinha e despejou vinho branco em duas taças; ela apreciou com seu olhar as bolhas subirem até a borda do copo e estourarem fragilmente.

Seu parceiro estava ocupado em apreciar a vista da janela que dava para o céu noturno salpicado de estrelas e ao longe, no horizonte, a pequena Praça de Sloane Square rodeada pelos faróis de automóveis que circulavam pelo bairro.

– Beba. — Acrescentou ela quando o homem virou-se ao perceber seu reflexo pálido atrás dele.

Ele tomou a taça das mãos dela e levou-a a boca, sentindo os lábios tocarem o vidro frio. Fechou os olhos e a inclinou, bebendo o líquido em goles rápidos e generosos. Depois se sorver tudo até a última, abaixou a xícara. Um sorriso débil formou-se em seus lábios e um choque violento percorreu todo seu ser, antes de seu corpo já sem vida cair com estrépito no chão de mogno.

Menos um, pensou a mulher aproximando-se de uma bolsa e retirando de lá um par de luvas descartáveis de nitrila e vestindo-as em suas mãos longas. Com certo esforço, ela encontrou no armário da dispensa álcool em grande quantidade. Desrosqueou a tampa e saiu andando pelos cômodos do apartamento criando uma linha do combustível inflamável. Por fim, vestiu um, sobretudo feminino cuidadosamente dobrado em sua bolsa e agarrou um isqueiro. Suas mãos alvas apalparam o bolso esquerdo do casaco e encontraram um cigarro amassado. Ela acendeu o isqueiro e seus olhos claros cintilaram como se a chama fosse um alimento a saciar seu apetite. Pequenas espirais de fumaça ergueram-se no ar e ela apreciou uma tragada contemplativa ao examinar o resultado final da noite.

Girou a maçaneta e abriu a porta, então, permitiu-se olhar para dentro uma última vez. Com dois dedos ela retirou o cigarro dos lábios carnudos e lançou-o no chão. As chamas elevaram-se instantaneamente, engolfando o apartamento; se alimentando de tudo que fosse tão podre quanto seu dono suíno.

Descendo em disparada as escadarias de mármore, suas vestes farfalhavam à medida que galgava os degraus e escapava pela porta do fundo do prédio, dando para a noite escura e serena.

Notas finais
Aqueles que gostaram da história comentar o que acharam e sugestões sobre possíveis melhoras no enredo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.