Vizinhos
6 Clarissa
“For sweetest things turn sourest by their deeds;
Lilies that fester smell far worse than weeds.”
— Sonnet XCIV, William Shakespeare.
Talvez eu tenha me tornado aquilo que tanto tentei evitar.
Ou talvez eu sempre tenha sido isso.
Só precisava de alguém como ele para me mostrar.
Clary
Vagabundo.
Desgraçado.
Filho da puta.
Cachorro.
Uma lista infinita de adjetivos degradantes se instala na minha mente — todos destinados a ele.
Por mais que eu tente manter alguma racionalidade, a sensação de traição se instala em meu peito como um nó. Um nó sujo, quente, que eu nem sabia que existia até agora. Não temos um acordo, nunca houve promessas… mas a mágoa é real. Quase física.
O pior de tudo? Eu não tenho a quem culpar além de mim mesma.
Fui burra.
Burra e carente.
Se tivesse parado de inventar desculpas pra continuar beijando aquela boca imunda, talvez… talvez não estivesse aqui, fervendo.
– Calma, você vai quebrar o meu pires. – Emy tenta aliviar a tensão do outro lado do balcão. – Eles só estavam dançando, vai ver não aconteceu nada…
Ela mesma não acredita no que está dizendo.
– Eu sei exatamente o que aconteceu. – cuspo, sem conseguir conter. – E você também. Não tenta me enganar, Emily.
Ela ergue a mão, como quem pede trégua.
– Ei, ei. Eu só estou repetindo o que vi. Quem estava se esfregando era ele, não eu. Eu só… só estou te contando.
Tomo um gole do chá e sinto o gosto amargo invadir minha boca. Nada se compara àquilo que está fervendo dentro de mim.
Humilhação.
Pensar nele agora é como rever uma fotografia antiga, desbotada. Na hora parecia tudo tão vívido. As risadas, o jeito que ele me olhava… Parecia real.
Mas agora, com as peças se encaixando, percebo: aquilo nunca foi sobre mim.
Era sobre ele.
Sobre o que ele queria.
E eu? Só mais uma distração.
Um cretino.
É como se uma máscara tivesse caído, revelando o rosto verdadeiro. Talvez ele sempre tenha sido esse cara. Talvez eu só tenha enxergado o que queria ver.
A verdade é que algo nele me iludia. Ele sabia exatamente como fazer isso. Com o toque, o olhar, as palavras — aquele teatro de aproximação cuidadosa, que parecia inofensivo demais pra ser real.
E eu caí. Como uma idiota.
A pior parte não é imaginar ele tocando outra. É saber que o toque era o mesmo. Que ele fez com ela o que fazia comigo.
Como se nada tivesse significado.
Como se eu fosse uma repetição.
E, mesmo assim, meu corpo reage como se ele ainda fosse meu.
Egoísta. Eu sei.
Mas… será que é mesmo pedir demais ser única, só uma vez na vida?
Será que é mesmo sonhar alto demais querer que algo — qualquer coisa — finalmente dê certo?
O toque dele tinha significado pra mim. Agora, perdeu todo o poder.
Virou técnica. Mecânica.
Nada.
E isso destrói o pouco que ainda restava.
Burra.
Burra.
Burra.
Preciso respirar. Recuperar o controle.
Eu não vou ser arrastada outra vez.
Talvez o problema seja eu.
Peter me ensinou isso da forma mais cruel possível: quando alguém te deseja, mas não te escolhe. Quando te quer por perto, mas não o suficiente para ficar.
E agora Sam…
Mesmo roteiro, outro rosto.
Outra versão da mesma mentira disfarçada de carinho.
É como se eu carregasse uma maldição invisível: tudo que se aproxima, quebra. Tudo que tento construir, afunda.
E no fundo, uma parte de mim já esperava. Porque nada dura. Nada nunca dura pra mim.
Desde que minha mãe morreu, essa casa ficou grande demais, fria demais.
Meu pai virou um fantasma agressivo, e eu aprendi a andar nas pontas dos pés pra não acordar os monstros dele. Meu irmão está longe, construindo a própria vida, como se essa aqui já tivesse sido abandonada há tempos.
E eu fiquei — sozinha.
Sozinha com os ecos.
Sozinha com a minha fome de sentir alguma coisa.
Então eu finjo que não ligo, que não sinto — mas sigo mergulhando no que machuca. Como se o caos fosse o único preenchimento possível pra esse buraco que ninguém nunca soube ocupar.
Porque é mais fácil lidar com a dor que eu escolho do que com o vazio que me foi imposto.
Mas nem isso é suficiente.
Nem o caos.
Nem a raiva.
Nem o desprezo.
Nem ele.
Aprendi, com os meus erros, que mostrar fragilidade é como entregar o pescoço ao carrasco. Ninguém hesita em apertar a corda. A crueldade é um instinto. Um reflexo.
E eu cansei de me fazer alvo.
Chega de lamentações.
Depois de Leviatã, passei a respeitar uma única coisa capaz de me oferecer segurança real: a arte.
Independente da beleza ou da sua ausência. Independente do que provoca — fascínio ou repulsa.
A arte simplesmente é.
E exige que a encaremos como tal.
Cada obra é um espelho distorcido, uma ferida aberta ou um abraço silencioso.
É o que me resta quando as palavras falham.
É onde minhas sombras encontram tradução.
Onde meu caos se organiza o suficiente para existir fora de mim.
Me perder em uma pintura, em uma escultura, em um fragmento da história… é a única forma de reencontro que conheço.
É fuga.
É alívio.
É o único lugar onde sou inteira — mesmo sendo feita de estilhaços.
E, ainda assim, até nisso ele conseguiu se infiltrar.
A arte também tem o cheiro dele agora.
O peso do seu corpo colado ao meu naquele banheiro frio e sofisticado. O som grave dos gemidos dele presos ao meu ouvido, como uma canção maldita que não sei esquecer.
A lembrança do nosso desejo engolindo tudo ao redor, transformando o museu em palco para a nossa ruína silenciosa.
A forma como ele me tocou como se quisesse marcar território em cada centímetro da minha pele.
Como se, por um instante, eu tivesse sido a única coisa capaz de salvá-lo de si mesmo.
Ou de afundá-lo de vez.
E depois… o retorno à rotina. O disfarce da normalidade.
Até que estivéssemos a sós.
Até que ele se tornasse, de novo, uma necessidade urgente — como ar. Como veneno.
Nunca parece o suficiente entre nós dois.
Mas terá que ser.
Porque continuar desejando alguém que me quebrou — e que quebrou tudo — talvez seja o erro mais familiar de todos.
Passo o dia com Emy, tentando me distrair — ou fingindo que consigo. Pelo menos até que pensar nisso tudo se torne inevitável.
Mas, antes que o colapso me alcance, cedo ao impulso e dou uma espiada pelas cortinas grossas da sala. A garagem da frente está vazia. O carro dele não voltou.
Ontem de manhã, antes de sair, Sam sussurrou algo sobre voltar em breve. Eu não dei atenção. Estava com sono demais, envolta no calor dos cobertores. Os lábios dele tocaram minha testa como se fosse algo normal — e talvez esse tenha sido o erro.
A normalidade entre nós nunca existiu.
E talvez nunca vá existir.
Tento me ocupar. Coloco um filme qualquer para rodar com Emy, mas as cenas parecem borradas, como se a lente da minha mente estivesse manchada. Nada prende minha atenção.
Levanto, caminho pela casa sem rumo, abro a geladeira como se fosse encontrar um sentido entre as prateleiras. Pego uma maçã, mastigo sem vontade. Tudo continua igual.
Vazio.
Emy, no entanto, permanece ao meu lado.
Fala de tudo e de todos, enche o ambiente com a leveza que só ela consegue ter. Planeja a festa de Halloween com entusiasmo forçado, tentando me puxar para longe de mim mesma.
— Veja pelo lado bom: vamos poder criar uma lista de barrados só para colocar o nome dele no topo — ela diz, com um sorriso maldoso que quase me faz rir.
Estamos afundadas entre cobertores e travesseiros na sala, com as pernas entrelaçadas, como fazíamos quando éramos adolescentes fugindo da realidade.
Lá fora, o frio ajuda a compor essa falsa sensação de abrigo.
— Não acho que o Sam vai aparecer. Não tão cedo. — murmuro, com base nos padrões de ausência e retorno dele.
Ele sempre reaparece… mas nunca sem estratégia.
— Espero que não mesmo. Se ele estragar a minha festa, não respondo pelos meus atos regados a álcool e desprezo — Emy rebate, revirando os olhos. — E você precisa relaxar um pouco, Clarissa. Voltar a respirar.
— É. — é só o que consigo responder. Porque respirar dói.
Ela me observa em silêncio por alguns segundos. Me lê como se fosse um livro que já decorou.
Então solta:
— Eu só não entendo por que você ainda se deixa enganar. — Sua voz não é dura, mas tem um peso. — Ele é problemático, e você sabe disso. Por que ainda se importa?
Desvio o olhar. Como explicar algo que nem eu entendo direito?
Porque ele me tocou de um jeito que ninguém nunca tocou.
Porque, mesmo sendo tudo o que eu não deveria querer, ele é o único que consegue me fazer sentir algo real. Algo que ultrapassa a dor.
Com Lockwood, não há conforto. Só tensão. Desejo. A guerra silenciosa entre o que sei que preciso… e o que ele arranca de mim.
Mas, quando ele me olha, eu sei — ele vê.
Não só a superfície. Ele vê tudo.
Cada falha. Cada sombra. Cada pedaço meu que até eu mesma tento enterrar.
E ele não recua.
Ele se aproxima, como fogo. E queima tudo.
Mas, ainda assim, fico.
Porque, por mais errado que pareça, há um consolo perverso em ser vista na minha totalidade — e ainda ser desejada.
Sei que ele não é bom para mim.
Sei que me entregar a isso é permitir que ele me destrua aos poucos.
Mas quando ele me toca… minhas cicatrizes não parecem só marcas. Elas ardem com um sentido.
Como se, pela primeira vez, fossem parte de algo maior.
Ele não me olha como se eu fosse frágil.
Ele não tenta me consertar.
E, de algum jeito torto, isso me faz sentir que talvez — só talvez — tudo o que sou, inclusive a parte que dói, vale alguma coisa.
Só que… isso nunca é suficiente.
Nem mesmo ele.
Nem mesmo esse fogo.
Porque, no fim, o vazio permanece.
E a verdade é que ninguém jamais preencheu esse lugar em mim.
Nem Sam Lockwood.
Com Sam, o mundo é mais escuro. Mais intenso. Mais real.
Eu sei que não é certo — que talvez ele esteja brincando com fogo, me arrastando até o limite do que sou capaz de suportar.
Mas, por um momento, quando estamos juntos, tudo o que sinto é a necessidade de continuar. De me jogar mais fundo. De descobrir até onde essa queda pode me levar.
Ele é o único que me faz acreditar que o vazio que carrego dentro de mim não é o fim de tudo. Que pode, talvez, ser o começo de algo excitante — se eu tiver coragem de atravessar o medo.
É isso que me faz querer mais, mesmo sabendo que Lockwood não vai me salvar.
Mas eu também não preciso de salvação.
O que eu preciso é sentir que, de alguma forma, ainda estou viva.
E ele é o único que me faz sentir assim.
— Eu sei o que é — digo, minha voz mais fria do que queria. — Mas… não sei. Não consigo parar de pensar nele. — Respiro fundo, tentando controlar a frustração que me corrói. — Como posso explicar isso?
Emy dá de ombros, se ajeitando no sofá. Seus olhos suavizam quando ela cruza as pernas sob o cobertor.
— Você tá se fazendo de vítima — diz, sem agressividade. Só uma verdade crua, daquelas que ardem mais por vir de quem nos ama. — O problema não é ele. É você. Você ainda se importa porque está tentando encontrar algo que não existe.
A encaro em silêncio, lutando contra o impulso de rebater. Mas, no fundo, as palavras dela fazem sentido.
Um quebra-cabeça torto, desconfortável, que ainda assim se encaixa.
Talvez ela esteja certa.
Talvez não.
Mas o que eu sei é que ela não entenderia. Nem se tentasse.
Horas se passam.
Quando Emy vai embora, a solidão preenche a casa com uma intensidade quase sufocante. É como se o silêncio tivesse som, como se cada canto ecoasse a ausência.
Respiro fundo e, tentando escapar dos meus próprios pensamentos, pego o celular e ligo para Nick.
Desde que ele se mudou para Londres, as mensagens ficaram mais curtas. As ligações, mais raras.
E eu também não tenho feito muito esforço.
A universidade, os estágios nas galerias, Sam… tudo me consome de um jeito que mal percebo o tempo escorrendo entre os dedos.
Sinto falta do Nick, mas não sei mais como dizer isso sem parecer deslocada.
O telefone toca três vezes antes de ele atender.
— Olha só, será que é o submundo me chamando? — ele ironiza, e consigo visualizar sua expressão debochada, as sobrancelhas arqueadas num desafio teatral.
Dou uma risadinha, apesar de tudo.
— Sim. O diabinho das más ideias tá te convocando pra uma festa de Halloween aqui em casa. Sábado que vem.
— Ah, mas será que a Emy ainda gosta dessas coisas? — ele pergunta, e o tom brincalhão na voz dele me alivia mais do que eu esperava.
Sorrio de leve.
— Ela adora. E claro que vai obrigar todo mundo a se fantasiar — digo, revirando os olhos. — Eu inclusive. Se não escolher logo, ela vai me deixar de fora.
— Então é missão dupla — Nick diz, animado. — Fechado. Posso passar o fim de semana aí, matamos a saudade, botamos a vida em dia. Já ia sugerir algo, mas tô tão atolado que não consegui parar pra respirar.
– Sem problemas, eu também ando na correria – respondo, ainda deitada no sofá, olhando para o teto. A luz da tarde entra pela janela, iluminando a sala de um jeito morno, como se o tempo estivesse devagar, mas eu tivesse pressa. – Faz tempo que a gente não se vê direito, né?
Ele dá uma risadinha do outro lado da linha.
– Hm, tenho que arranjar uma fantasia… Sem dúvidas o diabinho das más ideias não vai me deixar entrar sem uma.
– Óbvio que não. Se não tiver fantasia, é barrado na porta – digo, rindo, brincando de fazer a autoridade, embora, no fundo, eu saiba que a Emy vai ser a verdadeira chefe da noite.
– Ah, claro. Vou arranjar algo bem insano então, já que você me deixou no controle da fantasia – Nick brinca de volta, fazendo uma voz exagerada, como se já estivesse planejando algo bizarro.
– Se você aparecer com alguma coisa ridícula, a gente vai te zoar até o fim da festa – retruco, com um sorriso no rosto, mesmo que ele não possa ver.
– Eu sou o mestre das fantasias ridículas. Não se preocupe – ele responde, rindo com leveza.
A conversa segue descontraída, como sempre. Nick tem esse dom de tornar tudo mais fácil, mesmo quando o mundo parece prestes a desabar. Mas, por trás da leveza, percebo a hesitação antes da próxima pergunta.
– E como… como estão as coisas por aí? – ele pergunta, a voz um pouco mais baixa, mais cuidadosa. – Digo… em casa.
Fico em silêncio por um segundo. Só o suficiente para o peso da pergunta se fazer presente.
– Do mesmo jeito – murmuro. – Ou pior, talvez. Eu nem sei mais. Ele quase não fala comigo. Chega, come alguma coisa, e se tranca no quarto ou no escritório. Às vezes parece que nem lembra que eu existo… outras vezes, bem, você sabe como ele fica.
Nick suspira do outro lado da linha, pesado. Ele sabe. Sempre soube.
– Queria poder te tirar daí, Clarinha. Você não devia continuar nesse ambiente.
Fecho os olhos por um momento, sentindo um nó se formar na garganta.
– Eu sei. Mas é o que tem por enquanto.
– E o Nick de dezesseis anos aqui jurando que ia invadir essa casa com uma espada de plástico pra te resgatar… – ele tenta quebrar o clima, e eu rio, apesar de tudo.
– E ainda levaria uma surra do meu pai só de olhar torto pra ele – brinco, tentando soar leve, mas há uma ponta amarga na minha voz. A verdade nunca foi exatamente engraçada.
– Não duvido – ele diz. – Mas, falando sério, se um dia você precisar de qualquer coisa… Qualquer coisa mesmo… você me liga, tá?
– Tá.
– Promete?
– Prometo, Nick. Obrigada.
– Só não esquece o meu moletom, hein – digo, tentando mudar de assunto.
– Meu moletom, você quer dizer, né? – ele retruca, e posso sentir o sorriso dele na voz.
– Tanto faz… só não esquece – respondo, antes de desligar a chamada.
Fecho os olhos mais uma vez, tentando guardar aquela sensação de leveza. Ele sempre soube como aliviar qualquer coisa, até mesmo o peso de um dia ruim.
Mas a leveza dura pouco.
Ele entra com os passos pesados, como se carregasse o peso do mundo nas costas. A expressão cansada, os ombros tensos, a testa vincada por horas de silêncio e dor acumulada nos corredores frios do hospital. Há algo de inumano naquele olhar vazio, como se ele tivesse esquecido, há muito tempo, como ser apenas um homem — e não apenas um médico, um executor de diagnósticos, um corpo funcional que volta para casa como se cumprisse pena.
Ele me encara rapidamente, apenas para certificar-se de que estou ali, e então desvia os olhos.
— Oi, pai. — digo, a voz baixa, quase automática.
— Clarissa. — ele responde, sem parar, sem tirar o casaco, indo direto para a cozinha como sempre faz.
Silêncio.
É sempre esse silêncio.
E não é do tipo confortável.
É aquele que pesa, que preenche todos os espaços com a certeza de que nada aqui é seguro.
Aquele silêncio que grita, mesmo sem som.
O mesmo de quando eu era criança, e minha mãe ainda estava viva, e ele entrava do mesmo jeito — o rosto duro, os olhos perdidos em um lugar onde eu nunca conseguia alcançá-lo.
Fico ali, parada, como se eu fosse uma estranha na própria casa.
E talvez eu seja.
A diferença é que, agora, não tem ninguém entre nós para fazer isso parecer normal.
Minha mãe se foi.
Meu irmão está longe demais.
E eu… continuo aqui. Tentando costurar as pontas de algo que já nasceu rasgado.
Respiro fundo, voltando lentamente para o sofá. O cheiro dele ainda está no ar — aquele cheiro de hospital misturado com o de cigarro barato, mesmo que ele diga que parou há anos.
E tudo volta: as brigas abafadas pelas paredes, os tapas rápidos e frios, os olhares dela tentando me proteger sem dizer nada.
Ele vai direto para a cozinha, sem me dirigir um olhar, sem uma palavra. Como se eu fosse só parte da mobília — invisível, silenciosa, tolerada.
Eu o sigo, os passos lentos, quase hesitantes. Observo enquanto ele pega uma garrafinha de água na geladeira.
Meu pai permanece ali, parado, enquanto a água escorre no copo. Os olhos dele estão perdidos em algum lugar onde ninguém pode alcançá-lo. Talvez nem ele mesmo.
Um homem ausente, mesmo estando aqui.
– Quer que eu prepare algo pra comer? – pergunto, numa tentativa frouxa de me distrair dos meus próprios fantasmas. Ofereço ajuda como se isso pudesse resgatar alguma parte de nós. Mas no fundo, é só desespero disfarçado.
– Comi na cafeteria do hospital. – ele responde, seco. Não levanta os olhos.
O silêncio que se instala é o de sempre — denso, insuportável. Um abismo invisível que ele cavou entre nós ao longo dos anos.
Fico parada na soleira da porta da cozinha, os lábios comprimidos, o peito apertado. O medo não foi embora. Nunca foi.
Ele pode fingir que mudou, mas meu corpo ainda sabe o que é reconhecer uma ameaça.
– Convidei o Nick pra passar o final de semana em casa – comento, quase num sussurro. Uma tentativa tola de normalidade, como quem joga uma boia no mar revolto esperando que ela não afunde.
– Por quê? – ele pergunta, e o tom não é neutro. É uma lâmina.
– Como assim “por quê?” Ele é meu irmão. – respondo, sentindo a tensão subir pelas minhas costas, o desconforto se instalando como uma febre súbita.
O que vejo em seu olhar agora não é cansaço. É algo antigo. Familiar.
A ameaça silenciosa.
– Esta casa continua sendo minha. – ele sibila, os dentes cerrados, a voz gélida. – E quero ser consultado antes de você trazer qualquer convidado.
Os dedos dele apertam o copo com tanta força que os nós ficam brancos. O silêncio se estende, pesado. Cortante.
Eu conheço esse padrão. O início da tempestade.
– É só o Nick – digo, tentando manter a calma. Mas a minha voz não é calma. Ela está implorando. Ou resistindo. Ou as duas coisas ao mesmo tempo.
No fundo, sei que não estou pedindo permissão. Estou protestando. Um gesto pequeno. Um risco.
E então, acontece.
O ar muda.
Denso. Irrespirável.
A raiva dele se materializa num movimento súbito: o braço se ergue, e o copo voa.
O impacto é seco, brutal.
O vidro cruza o ar com um assobio mortal.
O impacto contra a parede é ensurdecedor.
A água explode em todas as direções, respingando em mim, no chão, nos armários.
Os estilhaços voam como lâminas.
Um deles atinge meu rosto.
O corte é afiado e imediato.
Uma dor aguda, ardente.
Fecho os olhos, instintivamente, enquanto sinto o calor do sangue escorrendo, lento, pelas curvas da minha bochecha.
O copo está em pedaços.
Como eu.
Abro os olhos, ofegante.
O chão à minha frente está coberto por fragmentos de vidro, tão brilhantes que quase parecem belos.
Mas não há beleza aqui.
Só destruição.
Deliberada.
Meu pai respira pesadamente. Está imóvel.
O olhar fixo no estrago.
E por um segundo, eu acho que ele vai dizer alguma coisa.
Um pedido de desculpas.
Uma justificativa.
Uma mentira qualquer.
Mas tudo o que ele faz é avançar um passo.
E com os olhos ainda úmidos de raiva, ele grita:
– Por que você não me escuta, porra?! — A voz dele enche a cozinha. Estoura dentro de mim. – Já disse para parar de me questionar!
Ele cospe as palavras com desprezo, como se estivesse cuspindo algo podre.
Como se minha existência o ofendesse.
E então ele se aproxima.
A mão dura segura meu rosto com força, puxando-o com brutalidade.
Seus olhos analisam o corte como se eu fosse um projeto malfeito.
– Mantenha pressionado. Depois, lave. Se sangrar mais, vejo se vai precisar de pontos. – diz, com a frieza de quem diagnostica um estranho na sala de emergência.
Depois me solta.
Como se eu queimasse.
Como se nunca tivesse sido sua filha.
E então vai embora.
Como se nada tivesse acontecido.
A porta do quarto bate com força.
Mais uma barreira. Mais uma ausência.
E a casa respira de novo.
Eu também.
Mas o que ficou… é o estilhaço dentro de mim.
Estou cansada.
Cansada de lutar.
Cansada de perder.
Cansada.
Fico ali, parada, o sangue quente escorrendo lentamente pela lateral do meu rosto, descendo pelo maxilar e manchando o colarinho da minha blusa. A pele arde, mas não mais do que o que está acontecendo por dentro.
Não me movo. Não ainda.
Espero o som dos passos dele sumir. Espero a casa se calar, como se esperasse que ela me dissesse o que fazer. Mas a casa não diz nada. Ela apenas assiste.
Meus dedos tremem quando toco o corte, não por dor, mas porque meu corpo ainda não entendeu que a ameaça passou. Ainda não se convenceu de que estou segura, mesmo que ele tenha fechado a porta.
Seguro firme na beirada da pia e fecho os olhos por alguns segundos, tentando controlar a tontura que me alcança em ondas curtas. O sangue ainda pinga, devagar. E eu penso: isso não devia ser normal.
Mas é.
Ando até o banheiro com passos leves, como se tivesse medo de ser ouvida. Como se minha existência devesse ser sempre silenciosa. Pego uma toalha e pressiono contra o ferimento, observando a vermelhidão se espalhar pelo tecido branco.
Olho para mim no espelho. E não me reconheço.
Vejo os olhos que aprendi a esconder, a boca que aprendeu a não responder, e o sangue de alguém que não merecia isso. Tento limpar o rosto, mas o corte é profundo, e cada vez que toco, o ardor volta, junto com uma náusea surda.
Sento no chão frio do banheiro, encostada na parede. É só por um segundo, só até as coisas pararem de girar.
E ali, naquele chão gelado, a pergunta sussurra na minha mente: e se, da próxima vez, ele não errar o alvo?
Me encolho, abraçando os joelhos.
Respiro fundo, uma, duas, três vezes.
Conto os segundos até o tremor passar.
Mas ele não passa.
E então, como se o mundo lá fora lembrasse da minha existência, o celular vibra sobre o sofá. O som ecoa como uma batida de soco no peito. Eu me levanto devagar, tentando parecer inteira, mesmo estando em pedaços.
É Nick.
Mensagem curta.
“Clary… tá tudo bem aí? Não sei por quê, mas fiquei com uma sensação estranha. Me responde.”
Meus dedos pairam sobre a tela. Não sei o que dizer. Não sei como dizer.
Mas, pela primeira vez, penso que talvez eu devesse.
Talvez… eu não precise continuar fingindo.
Fico olhando para a mensagem de Nick como se ela pudesse me salvar. Como se, de alguma forma, aquele texto curto tivesse o poder de puxar meu corpo de volta à superfície.
Mas eu continuo no fundo.
Seguro o celular com força, os dedos suando, as palavras travadas na garganta.
Digito:
“Acho que ele me machucou de verdade dessa vez.”
Apago.
“Tá tudo bem, só tô cansada.”
Apago de novo.
Fecho os olhos, deixando a testa repousar contra a tela fria. A pele pulsa onde o vidro cortou. A toalha já está ensanguentada, largada no canto do banheiro. Me sinto como ela: suja, esquecida, descartada.
Respiro fundo, o tipo de respiração que a gente aprende a fazer pra engolir o choro. Mas ele vem mesmo assim, traiçoeiro. Começa como uma ardência no peito, um tremor nos ombros, até que estou chorando baixo, com os punhos apertados no colo.
Não quero que ele veja.
Não quero que ninguém veja.
Mas também… não quero mais ficar sozinha com isso.
Digito de novo. Dessa vez, deixo as palavras escaparem:
“Hoje foi ruim. Ele ficou fora de si. Acho que me cortei, mas tá sob controle. Só… queria que você estivesse aqui.”
Aperto enviar antes que minha covardia me impeça.
O silêncio depois da mensagem enviada parece mais cruel do que antes. Mas, ao mesmo tempo, é um alívio. Como se alguém tivesse acendido uma vela num quarto escuro.
O celular vibra quase de imediato.
“Vou sair do trabalho mais cedo amanhã. Chego no fim da tarde. E se ele fizer qualquer coisa de novo… você vai embora daí comigo, Clarissa. Eu juro por tudo.”
Nick só usa o meu nome inteiro quando está realmente preocupado. Só quando ele lembra que, por trás de tudo, eu ainda sou só uma garota tentando sobreviver dentro da própria casa.
Apesar disso, ele sabe que é melhor não me ligar.
Me levanto com dificuldade, lavo o rosto, tentando ignorar a ardência do corte. Observo a pele ferida refletida no espelho, vermelha, aberta. Um lembrete. Um aviso.
Volto para o quarto como quem retorna de uma guerra. Cada passo é pesado. Cada sombra parece maior. Me deito, puxo as cobertas até o queixo e encaro o teto.
Penso em Lockwood.
Penso no silêncio carregado dele, no jeito como me olha quando acha que ninguém está vendo.
Penso em como é estranho que até mesmo a escuridão dele pareça mais segura do que meu próprio lar.
Mas então lembro que ele também machuca.
De um jeito diferente.
Mais lento.
Mais sedutor.
Mais difícil de resistir.
Fecho os olhos, o corte ainda latejando, o corpo exausto.
Mas é dentro da mente que a dor realmente mora.
E ali, ela não para nunca.
Amanhã vai ser sábado.
O dia da festa.
E talvez, no meio de todas aquelas máscaras…
Eu finalmente possa me esconder.
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