Vizinhas de Salem
1 Capítulo 1
Quando se está no colegial, qualquer coisa que lhe façam ou que lhe digam pode parecer o fim do mundo. Como se um pingo de chuva se tornasse uma tempestade. Pertencer ao grupo dos invisíveis é um privilégio de poucos, e um sonho para aqueles que não conseguem passar despercebidos pelos idiotas com os músculos maiores que o cérebro. Mas, se você não está entre os atletas, ou entre os populares, ou até mesmo na banda da escola que mal consegue se apresentar por falta de talento, com certeza sua vida é um inferno.
Passei o primeiro ano do colegial sendo chamada de bruxa, ou melhor, estavam acusando minha mãe de bruxaria. No começo foi difícil de ignorar, mas depois de um tempo, quando me chamavam de bruxa, eu até que amaldiçoava uma pessoa ou outra. Obviamente eu não tinha poder nenhum, mas mesmo assim acreditavam nas coisas que eu dizia. Cheguei até a colocar um rato morto na bolsa da minha maior inimiga. Assim como o nome, a Ashley se encaixa no padrão de menina perfeita da escola. Rica, bonita, loira e arrogante.
Tudo começou no ano passado, na aula de educação física. Estávamos à turma, jogando vôlei, quando acidentalmente atingi a Ashley com a bola. E assim surgiu nossa guerra, a pior coisa que poderia ter me acontecido. A garota até foi na minha casa e disse ter achado as provas de que minha mãe era uma bruxa. Tinha até fotos, mas eu mesma procurei pelos objetos e não achei nada. Obviamente todos preferiram acreditar nas palavras de Ashley.
E enfim o grande dia havia chegado. O segundo ano do colegial. Evitaria ao máximo chegar junto aos outros alunos, por isso saí mais tarde de casa. Chegando à escola, quase todos já haviam ido para suas aulas, mas eu ainda estava no meu armário encarando cronograma do dia, tentando criar coragem para enfrentar meus demônios. Na porta da sala, hesitei em dar o primeiro passo adentro, mas mesmo assim segui em frente, gradativamente, até chegar à cadeira mais distante de toda a turma.
Ignorei todos os olhares e comentários arrogantes, até mesmo as palavras do professor que fingi não ouvir quando entrei. Sentada, coloquei a mochila no chão e encarei o quadro por tanto tempo que o ambiente ao meu redor havia congelado, mas apenas na minha mente. Quando voltei à realidade, percebi que o professor ainda falava comigo, mas não consegui juntar as palavras soltas no ar e chegar a uma conclusão. Então, me atrevi a perguntar, timidamente.
— Quê? — Assim que falei todo mundo riu, mas o professor logo conteve a multidão.
— Eu perguntei o motivo do seu atraso, senhorita Vênus. – Respondeu o professor, educadamente.
— Acordei atrasada, desculpe.
— Vou deixar passar por ser o primeiro dia de aula, mas da próxima vez terá que me acompanhar até a direção.
— Com toda certeza. – Falei ironicamente, mesmo sabendo que poderia levar uma advertência ali mesmo.
Depois de toda uma aula ignorada, me levantei e fui à busca da próxima sala, e infelizmente trombei na Ashley e nas suas seguidoras zumbis. Claramente tentei desviar e fugir dali o mais rápido possível, mas se formou um paredão de garotas vestidas com roupas rosa de grife a minha frente. Forcei contra a barreira, mas as garotas me empurraram de volta, acabando com todos os meus planos de fuga. Por fim me restou enfrentar o diabo em forma de gente.
— Oi Ashley, esqueceu sua dignidade por aqui?
— E desde quando resolveu me enfrentar desse jeito, bruxinha? – Ela falou afrontosamente, enfatizando a última palavra, seguida de risadas forçadas de suas escravas.
— Desde quando você resolveu interditar o corredor. Então é melhor sair da minha frente porque não quero chegar atrasada na próxima aula. – Falei tentando controlar o nervosismo na minha voz.
— E se eu não sair? O que você sozinha vai fazer contra nós cinco? – Ela falou, mas antes que pudesse se vangloriar, larguei minha mochila e a puxei pela camisa, jogando-a no chão.
Quando tentei me aproximar de Ashley para terminar o serviço, duas de suas seguidoras me pegaram por trás, enquanto uma me batia forte na barriga, e outra a ajudava levantar. Quando todas se aproximaram de mim, e já havia uma multidão assistindo, Ashley me deu uma tapa na cara, e em seguida fui largada no chão, enquanto as pessoas ao redor desfrutavam do meu sofrimento.
Assim que toda a multidão se dispersou quando ouviu a voz do diretor no megafone, tentei me levantar, mas só consegui ficar de pé com a ajuda de um garoto, o único que aparentemente sentiu pena de mim. Provavelmente era novo e não sabia de minha reputação. Pedi para que fôssemos para a quadra da escola, antes que o diretor me visse nesse estado, causando futuras situações desagradáveis ao lado de Ashley.
Obviamente o garoto era mesmo um novato, já que não sabia qual caminho seguir para chegar à quadra. Fui o guiando, até que passamos por uma das inúmeras salas do colégio, que fez com que o garoto parasse e olhasse através do vidro da pequena janela da porta antes de continuarmos. Depois de uns trinta segundos, seguimos rumo ao nosso destino.
Chegando à quadra, pedi para que o garoto me deixasse ali e fosse embora, mas ele insistiu em me fazer companhia. Ficamos em silêncio por um bom tempo, até que me recuperei dos socos e voltei a respirar normalmente. Depois de pedir novamente que o garoto fosse embora, ele me respondeu que não poderia ir para a sala, pois preferia faltar à aula a chegar atrasado. Enfim, dei liberdade para que finalmente pudesse tirar suas dúvidas sobre mim.
— Então, por que aquelas garotas estavam lhe batendo?
— É uma história complicada. Mas para resumir, aquela garota que joguei no chão resolveu me perseguir depois que acertei uma bola nela, durante uma partida de vôlei.
— Sério? Parecia ser algo mais sério. – Incentivou o garoto para que eu contasse mais.
— Claro que depois da bola, foram acontecendo outras coisas. Ela até fala que sou uma bruxa. Aliás, todo mundo acha que eu sou uma bruxa.
— E você é?
— Claro que não. Se fosse, já teria feito algum feitiço para que o cabelo da Ashley caísse. – Brinquei, percebendo que o garoto não sabia quem era a Ashley. – Ashley é a garota que me odeia.
— Ah, sim. Mas como você se chama?
— Sou Vênus. E você?
— Prazer, sou o Tobias. – Falou o garoto, estendendo a mão para que eu o cumprimentasse.
Entramos mais uma vez no mundo paralelo do silêncio, enquanto ouvíamos música nos fones de ouvido. Vez ou outra, o garoto, agora conhecido como Tobias, dava uma olhada para o meu celular, mas disfarçava. Depois de sua terceira espiada, tirei meus fones e o entreguei meu celular, para que finalmente matasse sua curiosidade.
— Toma, pode pegar.
— Por quê? Eu só queria ver o que você estava ouvindo.
— É melhor você pegar, me sinto menos incomodada se você estiver com o celular e não espiando como se ninguém estivesse vendo.
— Você é arrogante desse jeito ou só está agindo assim para me afastar? – Ele fala ironicamente, mas fico em silêncio por um tempo. – Desculpe, não quis ser...
— Muita gente me acha estranha e prefere não se aproximar, mas ainda há pessoas que tentam se aproximar de mim. E respondendo sua pergunta, sim, eu sou arrogante desse jeito com as pessoas, não para afastá-las, mas para saber se elas são capazes de me suportar nos meus piores dias. – Termino antes que ele retorne a se desculpar. – Me desculpe por ser grossa contigo, eu deveria ter te agradecido por ter me ajudado.
— Sem problemas.
Fico em silêncio depois do constrangimento causado pela minha arrogância. Aproximo-me do Tobias e espio enquanto ele bisbilhota meu celular, especificamente minhas músicas. Encosto a cabeça em seu ombro, percebendo o quão alto ele é. Levanto o rosto e observo seu cabelo bagunçado e seus olhos escuros, com a aparência de quem não dorme bem há alguns dias. Tomo o celular de suas mãos e escolho uma música dentre as várias outras da minha playlist
— The Smiths?
— Sim, eles são incríveis. – Respondo alegremente. – É uma das melhores bandas de Rock Alternativo, mas poucas pessoas da nossa reconhecem isso.
— Nossa, uma banda dos anos 80. Entendo porque não tem amigos. – Ele brinca, forçando seu ombro contra o meu.
— Ah, não. Não me diga que você é um desses jovens alienados que ouvem música ruim. – Respondi, revidando contra seu ombro.
— Na verdade, eu prefiro um Rock mais atual. – Ele põe os fones no meu ouvido, com uma música gritante, mas um pouco suportável.
— É pior do que eu imaginava. Talvez eu gostasse mais dessas bandas atuais se conseguisse entender uma frase por completo.
— Ok. Talvez eu gostasse mais de você se ouvisse música atual.
— Para sua informação, eu ouço música atual. – Ponho os fones de volta em seus ouvidos.
— Jake Bugg? Parece música antiga.
— Dá para ouvir sem reclamar? – Rio, e coro por ele rir de volta.
Ficamos mais algum tempo discutindo sobre nossos gostos musicais, até que o sinal para a próxima aula toca, nos trazendo de volta para a triste realidade. Caminhamos juntos pelos corredores até chegar à minha sala. Alguém passa e fala alguma bobagem, mas apenas ignoro enquanto o Tobias ri. Trocamos algumas últimas palavras até que ele segue caminho para sua sala.
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