Vivité
3 Negócios à parte
Notas iniciais
Talvez tenha sido a pior noite da vida de Reyna. Talvez? Não, ela tinha certeza. Seu ódio e repugnância do general só aumentavam a cada segundo, juntamente com o ódio de si mesma. Reyna desejava apenas uma segunda chance para recomeçar, de um jeito diferente, totalmente fora desse mundo horrível no qual tinha nojo de dizer que era um trabalho. Sentia falta de sua mãe, dos seus conselhos, do amor materno. Sentia falta de uma família. Amélia talvez fosse a única pessoa em que pudesse confiar de verdade. Era sua única amiga, única ''família".
Em meio a todos esses pensamentos, Reyna imaginava como e onde a sua filha estaria. A culpa e o pecado do abandono ocupavam um grande espaço no fardo de Reyna.
Passando a mão pelo pescoço, lembrou-se de sua corrente. Havia sido um presente de sua mãe, passado de várias gerações. Era uma bela jóia de puro ouro brilhante, acompanhada de um pingente em forma de cruz, onde atrás deste, havia escrito: Crede te. Antes de partir de volta para Quirón, Reyna deixou a jóia com a bebê, presa ao seu pescoço. Assim como o que estava gravado no pingente, queria que sua filha, diante dos problemas, acreditasse em si mesma.
O sono de Reyna foi interrompido pela rouca, fina e histérica voz de Senvon, dizendo:
—Acorde, já! Preciso de seus serviços agora mesmo!
Reyna virou-se, totalmente descabelada e com olheiras, na direção de Senvon.
—Meu senhor, por favor, será que posso descansar só mais um pouco?
—Claro... -disse ele em tom de ironia. -Que não! Vamos, levante! Ou quer ficar sem seu pagamento? Quero você o mais rápido possível na sala de negócios, vamos! -gritava o homem, acompanhado de palmas. Logos depois, retirou-se.
Em pouco tempo, Reyna já estava na sala de negócios, totalmente bela, como sempre, porém, com olheiras. A sala de negócios localizava-se no subterrâneo da estalagem. Era um local bastante iluminado, com um pequeno palco circular com cortinas ao centro e bancadas rodeando-o. A sala era usada para a decisão de dois destinas: venda e demissão. Reyna não sabia ao certo o porque de estar ali.
—Minha querida, achei que não fosse chegar... Não pode deixar os nobres esperando. -disse Senvon levando-a em direção ao centro. -Fique aqui, quieta, chamarei nossos compradores.
Reyna segurou Senvon pelo braço.
—Meu senhor, porque estou aqui? Que compradores são estes? -disse a jovem em tom de dúvida.
Com um sorriso maléfico, respondeu-a:
—Surpresa, querida! Esqueci de avisar-lhe... Alguns nobres de grandes estalagens estão interessados em sua compra... Agora fique quieta e me deixe chamá-los.
Em pouco tempo, entraram doze homens que ocuparam as bancadas. Os mesmo olhavam para Reyna em tom de admiração. Todos permaneciam num silêncio constrangedor e, de vez em quando, alguns comentavam entre eles coisas que não era possível entender. Após um tempo, o silêncio foi quebrado por Senvon.
—Senhores. -todos os homens colocaram-se de pé. -Bem vindos à nossa estalagem. A única que possui belezas como essa, em Quirón. -disse apontando para Reyna ao centro. Os homens a aplaudiram. Senvon sussurrou: -Faça uma demonstração, desfile. Vamos!
Reyna demonstrou um pouco da sua habilidade de dança e logo depois desfilou frente aos homens, deixando-os boquiabertos. Os mesmos aplaudiram novamente.
—Agora, admiremos sua beleza natural, minha querida... -Senvon puxou uma longa cortina que se fechou em torno de Reyna. -Terá de se despir.
—Isso é realmente necessários, senhor? -sussurrou Reyna entre a cortina.
—Cale a boca e ande logo com isso, garota!
Enquanto despia-se, passavam diversas emoções pela mente de Reyna. Odiava aquela vida. Odiava ter nascido. Ninguém a respeitava fora da estalagem, era simplesmente mais um corpo bonito; não tinha sentimentos, nem alma, apenas um instrumento de prazer.
A cortina levantou-se. Reyna estava tímida diante de todos aqueles homens contemplando sua nudez.
—Está tímida porque, garota? Este é o seu trabalho. -disse um homem na bancada rindo. Depois de seu comentário, alguns homens riram.
—Se ela não está habituada a esse tipo de coisa, cabe a nós respeitarmos, senhores. -disse outro homem na bancada. Reyna estava o observando desde a sua chegada. Era um homem forte e de boa aparência. Reyna ficou surpresa e lisonjeada com o comentário. -Caso não se sinta bem, podemos pular para a próxima etapa...
Reyna não respondeu; não tinha o direito de responder até que Senvon lhe permitisse.
—Quem pensa que é, senhor? -outro homem gritou. -Faz parte da avaliação, ela tem que exibir-se.
O defensor de Reyna levantou-se e disse:
—Eu sou o nobre de Vaiski, filho do Rei Seon IV, príncipe de Vaiski, e digo que se ela não se sente bem, cabe a nós respeitar.
Todos na sala ficaram surpresos e calaram-se.
—Senhores... -disse Senvon, suando de nervosismo. -Peço a calma e compreensão de todos... Passo a palavra para Reyna, vamos ouvir o que tens a dizer.
Houve um silêncio. O nobre de Vaiski trocou olhares com Reyna, e então ela disse:
—Não sinto-me bem, peço perdão, senhores. -após sua fala, pediu que Senvon subisse as cortinas.
A negociação encontrava-se na ultima sessão: o leilão. Todos estavam apreensivos pois não queriam perder a oportunidade de ter a beleza daquela mulher em suas estalagens.
—Agora, lancem suas ofertas. Sejam bastante generosos, pois não é todo dia que há uma mercadoria desse porte. -disse Senvon
Então houve um grande murmuro entre os homens em toda sala. Ouvia-se preços altíssimos e ofertas comprometedoras em suas conversas.
—Eu, nobre de Trenton, ofereço vinte e duas peças de ouro por ela! -gritou um homem da bancada. -Alguém oferece mais? Eu sabia q..
—Eu ofereço vinte e quatro peças de ouro! Em nome de Bran!
Houve um longo silêncio e ninguém cobriu a oferta. Senvon anunciou a contagem, quando o nobre de Vaiski disse sua oferta.
—Eu, ofereço trinta e cinco peças de ouro e quinze de prata.
Senvon novamente iniciou a contagem. Ninguém cobriu a oferta do príncipe e Reyna agora era a mais nova prostituta do reino de Vaiski.
—Então senhores, encerro nossa sessão. Agradeço a todos os presentes e parabenizo o nobre de Vaiski pela compra. Não irá se arrepender. -disse Senvon. -Espero que à noite venham aproveitar nossos serviços.
Após sua fala, os homens saíram da sala, depois deles, Reyna e o seu comprador. Ambos seguiram em silêncio até a saída. O nobre parou em sua frente e disse:
—Me chamo Ron. -ele estendeu a mão para um aperto, mas foi ignorado.
Reyna desviou do príncipe e seguiu caminho. Estava profundamente abalada, mas ao mesmo tempo sentia vestígios de felicidade, pois nunca mais iria ver Melfik. Mas sua amiga, Amélia, era sua confidente... era única. Não encontraria ninguém igual a ela. Mas Reyna não tinha escolha, teria de ir para Vaiski. Era uma prostituta de muito valor, mas valor monetário. Não tinha direito de opinar.
Apressada, deslocava-se pelos corredores até o quarto de Amélia. No caminho esbarrou-se com Farah, a meretriz mais velha da estalagem. Era totalmente exagerada em suas maquiagens e possuía mãos enrugadas com unhas enormes. Farah transbordava falsidade, principalmente em seu olhar. Mas no fundo, Reyna sabia que ela era uma boa pessoa.
—Olhe por onde anda, garota. -disse ela. -Soube que vai para outro reino... As notícias espalham-se rápido...
—Me desculpe, Farah. E sim, é verdade. Vou para Vaiski.
A mulher demonstrou surpresa.
—Antes de tudo, senhorita Farah, por favor...
—Me desculpe, senhorita Farah. — disse Reyna em tom de ironia.
Farah deu-lhe um sorriso desbotado. Quando ela estava saindo, a senhorita pediu para que esperasse.
—Menina Reyna, estou vendo que agora tens bastante poder. Vaiski é um reino nobre e sempre foi exaltado pela sua grandeza. Acredito que será muito bem paga por lá, mas uma hora, minha querida, acabará como eu, vivendo de migalhas num local que você ajudou a sustentar.
—Sempre soube disso, Farah. -Reyna deu uma pausa. -Senhorita Farah. Essa vida de prostituta não dura para sempre. Mas o que posso fazer?
—Ainda és jovem, tem uma longa vida pela frente.
—Não entende? Sou uma prostituta, quem me dará valor? Ninguém. A vida é difícil fora desse inferno. Não sabes o quanto sofri, enquanto estive fora.
Farah soltou um longo suspiro. Pôs as mãos no rosto de Reyna e disse:
—Você quem sabe, minha querida. Mas lembre que a vida é um constante recomeço. Não podes se dar por derrotada assim tão fácil. As pedras que hoje atrapalham sua caminhada, amanhã enfeitarão sua jornada. Portanto, não tenha medo, não seja pessimista, pois o sentido da vida é viver: Vivité.—logo depois retirou-se e deixou Reyna sozinha no corredor.
As palavras da mulher deixaram Reyna intrigada. Tinha percebido que era pessimista e sempre tudo dava errado por conta disso. Reyna sentia em si, algo mudar. Talvez fosse Vaiski fosse seu recomeço, ou talvez não. Mas de qualquer forma, seria um episódio de sua longa caminhada, e não podia esquecer o motivo da vidar: viver, a todo e qualquer custo.
"Vivité" sussurrou Reyna com as mãos ao peito. E então seguiu em frente no corredor, considerando aqueles passos, como os primeiros de sua nova jornada.
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