Vivici Sampel - Utopia
3 Exóticos guerreiros
Os nossos novos amigos eram bem hospedeiros, me ofereceram uma rede em um quarto com vários soldados, dormir em rede sempre foi bem agradável exceto com companheiros barulhentos como os draconianos que suspiram fortemente ao dormir. Assovios foram bem presentes nesta noite, mas não foi problema, acabei praticamente hibernando.
A linda manhã de sol nascente vista por um desfiladeiro é uma das pequenas coisas que este universo nos proporciona e que nem todos os seres a aproveita. Sempre de manhã eu repenso algumas coisas, uma leve meditação que assim considero, hoje decidi subir na morada em que dormi.
Acordei diferente, um reconhecimento de campo inimigo é algo diferente, altas chances de morte sem termos a certeza de onde fomos golpeados, sempre me deixava aflito mesmo com todos os meus anos de experiência, explorar nunca foi considerado meu potencial.
Sempre me pergunto se ajudar pessoas é realmente necessário para eu conseguir construir uma família, viver em paz, ter minha própria taverna e lá receber meus amigos e viajantes, assim como sou hoje. Deixei minha família para trás para realizar o sonho de alcançar a patente mais alta em uma guilda ladina, os eclipses, poderosos ladinos capazes de se camuflarem permanente quando a lua aparece dominados dos céus, toda furtividade à prova de magias reveladoras, o maior medo dos grandes magos. Praticamente um imortal.
A frequência em que me pergunto isso vai aumentando conforme minha idade: Será que valeu a pena todo esse esforço?
–- Vivici, venha cá por favor. — Disse a linda sacerdotisa.
Dei um salto de cima da morada e cai suavemente ao lado dela.
–- Você já pode ir pro circo, eu já te disse inúmeras vezes, eles costumam pagar bem nas grandes metrópoles. — Debochou de mim.
–- E você poderia trabalhar comigo então, não é mesmo mulher barbada? — Eu coloquei uma mão na sua cintura e puxei em minha direção.
–- A mulher barbada que você teve relações... — Disse ela me fintando bem nos olhos. Aqueles olhos claros cor de mel que me seduzem desde criança.
–- Esse é o nosso segredo, não espalhe para todo o continente, discrição por favor. — Ri levemente e ela me beijou.
–- Tranquilo casal, ninguém vai saber do seu segredo... — Gargalhou Zurich com seu cabelo louro desarrumado e roupa desajeitada. Qualquer semelhança com um rapaz atropelado por animais era mera coincidência.
–- Estamos a salvo de intrigas. — Disse Arcádia rindo.
Acabamos rindo de mais algumas ironias e sarcasmos durante uma hora, até sermos convocados pelo líder. Explanei meu plano para todos os presentes. Sentia o medo em suas vozes pelas respostas curtas que davam. Confesso que o plano era audacioso e muito perigoso. Por fim a maioria decidiu seguir o plano e partimos rumo à vila dos agressores.
O bosque nos dava o frescor naquele dia quente, atípico por estarmos no final do outono, discutíamos as maneiras de como se portar em uma batalha pois os draconianos apesar de serem inteligentes, não tinha um conhecimento amplo sobre táticas de guerra, assim rumores me contavam. Em todos esses anos de vida, tive muitas batalhas, considerando entre todas as raças existentes os draconianos são os seres mais equilibrados assim posso dizer, eles possuem um grande manejo de armas e de magia e um grande senso de defesa, em batalhas individuais é necessário um pouco de sorte além da habilidade para vencê-los. O maior desafio em questão não seria a batalha em si e sim a quebra dos paradigmas de soldados de baixa autoestima, os próprios orcs são exemplos de que altos níveis de coragem ganham batalhas sem levar em conta que são grandes seres idiotas mas ao longa de várias gerações desenvolveram ótimas habilidades táticas.
As horas se arrastavam lentamente, conforme andávamos em direção ao norte a temperatura ia diminuindo, marchávamos em velocidade considerável em grande aclives das planícies, estávamos neste momento perto da entrada de uma densa floresta. Território inimigo suponho. Meu coração disparou, estava guiando centenas de guerreiros para um possível abatedouro. A densa floresta possuía uma alta umidade, área semelhante a um pântano, possuía pouco espaço para o céu quando fomos realmente engolidos naquele lugar asqueroso, tenho certeza que foi má ideia encurtar o caminho apesar dos raios solares nos iluminando continuava a ser um local estranho. Sensação de sermos vigiados, outrora tinha esses pensamentos que eram facilmente combatidos em minha cabeça, mas agora a sensação perfurava minha consciência, sentia que algo de ruim poderia acontecer, ter os companheiros aniquilados e conseguir sair vivo, teria que conviver em eterna loucura por tê-los levado à morte. Ou mesmo morrer, todo esta grande jornada chegaria ao fim por uma falha gravíssima de minha parte. Todos esses pensamentos babacas cessaram após termos cruzados horas depois, agora tínhamos três grandes jacarés para o almoço que fora abatidos facilmente e enchemos nossos reservatórios d'água, o sol já tinha atingido o topo do céus e se deslocara a metade do trajeto para se pôr, paramos para iniciar o almoço.
–- Se retirarem o couro e vende-lo... Esqueci que nos falta tempo. O couro no mercado élfico é bem valorizado. — disse Zurich.
–- Não será de total desperdício, irei queimá-lo e fazer uma bela capa para o senhor. — apontei para ele e ri.
–- Ótimo Vivici, um couro desses queimado é leve e resistente contra possíveis flechas e espadas. — Após falar, cortou um pedaço de carne do jacaré com uma pequena adaga e se deliciou. — Essa carne está ótima, uma pitada de pimenta dos gardenes ficaria espetacular aqui!
Me aproximei do líder e indaguei-o. -- Estão se sentindo bem?
–- Sem problemas, eu pensara que fosse uma marcha mais longe e dificultosa. — Dizia ele feliz. — Agora poderei me vingar dos infelizes que assolam a minha vila. Serei o primeiro a queimá-los e comê-los sem o menor remorso. — Seus olhos faiscavam e o tom de voz tornou-se sombrio. Eu entendia seu ponto de vista, se eu tivesse passando pela mesma situação, não seria diferente, aliás, seria pior...
–- Vivici, nós estamos muito longe do local? — Arcádia perguntou, a expressão de tristeza me comoveu um pouco.
–- Somente mais uma hora de caminhada.
–- E o que iremos fazer quando chegar lá?
–- Iremos esperar o anoitecer para checarem o local, ficaremos a uns 5 quilômetros de uma enorme fortaleza pela nossa segurança, segundo o soldado que consultei.
–- Entendi...
Luiza se divertia no meio dos draconianos, disputava uma brincadeira de lançamentos de rajadas de fogo. Estávamos bem a vontade no meio de descendentes de dragões mágicos.
Continuamos a seguir pelo caminho dito pelo soldado draconiano, o sol agora ocupava sua posição semelhante à três horas da tarde, assim suponho. Enquanto caminhava era difícil não pensar no que planejei a noite inteira, o sucesso dependeria de mim pois tracei e planejei o plano totalmente sozinho. Confio em minhas intuições. Comecei a pensar novamente, será que tudo aquilo que iria passar, valeria a pena depois? Enfim...
Estávamos em uma planície elevada e fui alertado por um guerreiro draconiano que há alguns quilômetros dali possuía um pequeno grupo indo em direção perpendicular a nossa. Quando observei, tinha grande certeza que eles iriam para o mesmo local que nós. Pedi a Luiza para sinalizar com o objetivo de sermos vistos. Ela criou uma forte coluna de fogo, que poderia ser vistos a quilômetros de distância. Fomos vistos e sinalizaram com uma coluna de pedra. No mesmo momento decidi hesitar e não preferi que alguém fosse de encontro, mas após a poucos minutos veio um soldado de encontro a nós.
–- Olá aventureiros! Para onde estão indo? — Nos indagou um enorme cavaleiro em seu forte cavalo cinzento. Após realizar a pergunta, ele nos mostrou a face meio-orc. Os seres dotados de pais humano e orc são seres em sua maioria gerados pelos estupros ocorridos em vilas orc a mulheres viajantes. Compartilham traços selvagens dos orcs (presas, focinho, pelos) e características físicas e mentais dos humanos (capazes de serem inteligentes iguais aos humanos totalmente puros, rosto mais delicado, mãos e pés sem garras).
–- Estamos indo em direção ao forte drákar, fomos atacados por eles. E quais são seus objetivos? — Respondeu e perguntou o líder.
–- Estamos na mesma situação, una-se conosco e unidos venceremos.
–- Aceitamos o convite!
–- Me respondam uma questão. Precisamos de um local para descansarmos queremos atacar a noite. — Após realizar a pergunta, ele desmontou do seu cavalo.
–- Sabemos um ótimo local, nos acompanhe que queremos explanar nossos planos. — Respondi saindo de trás dos draconianos.
–- Certo. A maga que estão convosco poderia invocar mais uma coluna de fogo para meus guerreiros virem de encontro?
–- Sem problema. — Respondeu Luiza e rapidamente já invocou uma enorme coluna de fogo.
A marcha continua. Explanei os nossos planos e o cavaleiro explanou os deles, chegamos a um consenso de unir as melhores partes e formamos um só. Minha desconfiança com novos parceiros de batalha acabara após ele citar Sabiná, minha cidade natal, e meu tio Louis, poderoso arquimago. Aliás, após ficarmos calados meus pensamentos estavam bem longes da batalha que iria acontecer.
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