Viver na morte que é a existência.
1 Prólogo
Nasce o sol, desperto e tento levantar da cama todo o meu ser. É assim que deve ser, não há sentido em viver quando só se levanta o corpo da cama. Arranjo-me ao espelho — nobre objeto, nunca me falhou. Este reflete tudo de mim, quase diria tudo em mim mas isso seria menosprezar o pouco de alma que me resta. Saio do quarto e caminho em direção à porta, chego à rua e sigo em frente, por entre os tons de outono. Nunca tive que me preocupar com o meu destino, em todo o lado há quem sofra. Vendo o sol descer, decido voltar a casa. Hoje entreguei 14 contratos. Ao todo 12 adultos e 2 crianças decidem se realmente vale a pena viver. Como Osíris sinto minha alma dividida em 14 pedaços. Nos primeiros tempos jurei nunca entregar um contrato a uma criança mas parece que as crianças já aprendem a sofrer antes de saberem escrever o nome. Pouco antes de adormecer, pergunto-me o que sou. Não tenho respostas. Pergunto-me o porquê de ainda não ter assinado o meu contrato. Tenho respostas e, na solidão de um homem que já pouca humanidade tem, fecho os olhos na noite taciturna. Não mais viverei.
É um novo dia. Nasce o sol, desperto e falho miseravelmente a levantar da cama todo o meu ser. Arranjo-me ao espelho e, na perfeição do objeto, vejo tudo em mim refletido nele. Saio do quarto e caminho em direção à porta. Na rua, pela primeira vez, não matarei. Só vivo poderia atender aos lamentos de quem sofre. De súbito, quase como um tiro piedoso a quem dolorosamente deixa para trás a sua existência, ouço uma voz vinda da floresta. As folhas não são mais castanhas e a minha alma não é mais vazia. Tenho destino. Ofegante chego à floresta e vejo uma silhueta no lago. Imediatamente volto a aprender a amar, corro na sua direção e percebo que neste dia poderei morrer. Envolvido pela inocência do amor, morrerei na ausência da procura. Se na vida não vivi, pelo menos viverei na morte. Afinal parece-me que viver é não precisar de justificação para a vida. No lago, quebro as barreiras da realidade. O meu amor é agora matéria mais densa que a água e começo a afundar. Fecho os olhos e finalmente descanso nas águas de um mundo que nunca antes me tinha amado.
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