Vivendo um dia de cada vez
3 Lembranças e sorrisos desfeitos
Notas iniciais
– Tudo menos preto. — Disse colocando a peruca de volta na prateleira.
– Rosa? Você sempre quis ter um cabelo rosa. — Ela pegou a peruca e a colocou na minha cabeça. Fui até o espelho e fiz careta.
– Nossa. Que demais! Quero essa. — Entreguei para minha mãe e fui para sessão seguinte.
Passei por uma vendedora que veio me atender. Disse que estava procurando gorros e lenços. Ela foi gentil e educada. Ufa. Ainda bem que ela não foi incherida e perguntou porque eu precisava de perucas, gorros e lenços.
Peguei um lenço florido. Tirei a peruca e o coloquei amarrado na minha cabeça. Caminhei até o espelho mais próximo.
Olhei meu reflexo e meu pensamento viajou para quando começou toda essa merda. Quando minha mãe não sorria mais.
– Mãe eu odeio fazer esse exame.
– Você precisa filha. Todo ano você você faz. Porque não quer fazer agora?
– E todo ano eu sempre fiz com má vontade.
– É rápido. Nem vai sentir dor.
– Sinto sim! Você sabe que odeio injeções.
– Sei, mas não posso fazer nada Bea. Precisamos ir. A médica vai pensar que aconteceu alguma coisa.
~1 mês depois (dia que a mãe da Bea foi buscar os resultados)~
– Olá. Eu sou a Diana. Vim buscar os resultados da minha filha.
– Sua filha é Bea Miller?
– Sim. Algo de errado com os exames dela?
– Ér... Só um minutinho. — A recepcionista pega o telefone. — Dra. Madison? A sra. Miller está aqui. Quer que eu a mande para sua sala?... Só um minuto. — Ela tira o telefone e olhar para mulher preocupada na sua frente. — Está vendo aquele corredor? Vire a direita e entre na primeira sala. A dra. Madison gostaria de dar uma palavrinha com você.
– Tem algo de errado com a Bea? — Ela pergunta com a voz trêmula.
– A dra. irá te explicar.
Preocupada, a Sra. Miller segue o corredor e entra na primeira sala a direita. Dra. Madison se levanta e pega uma água.
– Bom dia sra. Miller. Peço desculpas por essa situação. Sei que está nervosa. Preciso que se acalme. Tudo bem? Pegue essa água. — A dra. entrega a água para a sra. Miller e se senta.
– Dra. pode me dizer o que está acontecendo?
– Quando nossa equipe recebeu o exame da sua filha percebemos que tinha alguma coisa errada. Eu mesma decidi avaliar o exame. Bom, eu sou oncologista e trato pessoas com diversos tipos de câncer.
Ao saber que a dra. Madison era oncologista, a sra. Miller ficou pálida e fria.
– Sua filha está doente, infelizmente não é uma doença fácil de ser curada. Irá levar tempo.
– Ela está com... câncer? — Falar aquela última palavra traiçoeira foi muito difícil para ela.
– Sim. Sinto muito.
Houve um silêncio, mas logo depois a dra. o interrompeu.
– Bea está com leucemia, câncer no sangue. A simples menção da palavra leucemia geralmente assusta muito as pessoas. Esse medo provém de duas fontes principais. Primeira: as leucemias são muito frequentes em crianças e as famílias atingidas por esse drama transmitem uma imagem dolorosa da doença. Segunda: no passado, leucemias eram enfermidades quase sempre fatais. Dizer que alguém tinha a doença era praticamente um sinônimo de sentença de morte num prazo curto.Hoje, o panorama mudou muito. Para as leucemias agudas, de início abrupto e evolução rápida, e para as leucemias crônicas, de evolução mais lenta e muitas vezes assintomáticas e descobertas num exame de sangue de rotina, há métodos que permitem diagnóstico preciso.
Absorver toda aquela informação não foi fácil.
Assim que chegou em casa, ela sentou no sofá e chorou. Chorou muito. Sabendo que sua filha estava na escola permitiu-se uns momentos de sofrimento.
– Mãe? O que houve?
– Filha, eu tenho uma notícia... muito ruim... — Ela não sabia como dar aquela péssima notícia para sua filha. — Fui pegar seus exames hoje. A médica disse que você está doente. Muito doente.
– Estou com o que? Me sinto tão bem.
– Uma doença grave, que remédios não podem curar.
Bea ficou fria e de repente desmaiou.
– Filha? Filha você está aí? — Minha mãe me chamou quando chegou perto da sessão. — Aí está você. Achei uma peruca que é a sua cara...- Sequei minhas lágrimas e olhei para ela sorrindo.
– Azul? Amo azul. — Disse indo em sua direção e pegando a peruca de sua mão. Tarde demais, ela já tinha percebido minhas lágrimas. Ela me abraçou.
– Tudo vai melhorar. Você vai ficar bem. Tudo isso vai acabar e vamos voltar a sorrir como antes. Acredita em mim.
– Estou tentando. Mas... está difícil. — Digo com a voz fraca.
x.x.x
Fale com o autor