Vivendo um dia de cada vez
2 Apostas e quimioterapia
Notas iniciais
– Hora de acordar dorminhoca.
– Que horas são? — Resmungo.
– 9h. Quer dormir mais um pouquinho? — Quero. É claro que eu quero.
Aí eu lembro que tenho câncer. E o que eu mais quero é que me tratem como uma menina normal. Não quero ter mais tempo para dormir só por que sou doente. Meu Deus, eu quero que me tratem como uma pessoa normal só isso!
– Não. Tudo bem. Tenho que tomar meu remédio.
Tiro as cobertas e as deixo de lado na cama. Calço minha pantufa cor-de-rosa e vou para o banheiro do outro lado do quarto. Caminho até a gaveta de remédios e pego um frasco com uma fitinha verde que diz ''9h''. Sim. Cada frasco de remédio tem uma fitinha de cor diferente. E daí? os nomes são super complicados. Coloco um comprimido na palma da mão e engulo. Sem gosto.
Saio do banheiro e minha mãe continua na cama. Ela quer conversar comigo. E quando é para conversar comigo não é coisa boa.
– O que foi? — Pergunto caminhando para mais perto dela.
– Precisamos conversar. Senta aqui meu amor. — Ela dá batidas na cama para eu sentar ao seu lado.
– Não sou mais criança. Fala logo.
– Vamos ter que dar início a quimioterapia.
Quimioterapia. A palavra ecoava na minha mente. Não tenho medo de fazer quimio. Vou cortar meu cabelo. E dai? Vou fazer mais tratamento. E dai? Eu aguento. Sou forte. Mais minha mãe não. O maior medo da minha mãe era eu fazer esse bendito tratamento. Deve ser por que eu estou a caminho de 'não me recuperar' e morrer logo de uma vez.
– Mãe eu vou ficar bem. — eu falo para reconforta-la.
– Eu tenho fé que vai. — Uma lágrima escorre pela sua bochecha.
– Você vai ver como eu vou ficar de careca. Vou estar linda e sexy. Todos os meninos vão cair aos meus pés. Você vai ver. Espera só. Você vai até comprar um taco de beisebol para espantar esses meninos daqui de casa.
– Ah meu anjo. Até nesses momentos você me faz rir. — Ela dá uma risadinha.
– Mãe, me promete que você vai seguir em frente se acontecer alguma coisa?
– Bea...
– Promete que vai arranjar um namorado, transformar meu quarto em uma galeria ou até fazer um bazar com minhas roupas?
– Não posso prometer o que não vou cumprir.
Como eu pensava. Quando eu morrer minha mãe não terá mais vida. Vai morar em uma quitinete e morrer de depressão. Não quero isso para ela. Quero que ela siga em frente.
– Então me promete que vai ficar forte nesse tratamento? Me ajuda a ser forte também?
– Claro Bea. Vamos ser fortes juntas minha pandinha. — Ela me abraça.
Pandinha? Ah ela lembrou. Eu e minha mãe trocamos elogios frequentemente. É um jeito de passar o tédio. Ela me chama de pandinha e eu a chamo de panda. Vou explicar melhor. Na minha primeira internação, minha mãe dormiu no hospital por que se recusava a me deixar lá. Ficamos horas assistindo uma reportagem dos pandas no Nat Geo. Acabou que começamos a nos chamar assim em homenagem a mãe panda e sua filha. Nos identificamos.
– É assim que se fala panda!
– O que você quer comer hoje?
– Panquecas e bacon por favor.
x.x.x
– Xeque-mate. — Grita Louse.
– Ah assim não vale. Você não joga direito! — Aimee derruba o jogo. Ela é assim mesmo. Muito temperamental.
– Se você não aceita perder o problema é seu. — Grita Louse.
– Cala a boca.- Aimee diz fazendo uma cara de brava
– Parem de brigar crianças. Eu estou tentando ver o filme. — Falo apontando para a tv.
– Desculpe mamãe. — Eles falam em uníssono.
– Ah, acho que vou me acostumar rapidinho com isso. — Falo rindo.
– Não podemos mudar a aposta? — Fala Aimee.
– Na-na-ni-na-não. Vocês perderam e vão ser meus filhos até o o mês acabar.
– De quem foi essa ideia? — Aimee grita.
– Do Louse. Não basta ser esquisito, precisa ter ideias esquisitas também.
– Eu não sou esquisito. Eu sou um gênio. A intenção não era perder né.
A aposta foi a seguinte: Se eu fizesse a quimioterapia antes do mês de outubro eles iriam ser meus filhos e escravos durante um mês. Se eu não fizesse eu seria a filha e escrava deles. Bom, eu ganhei.
Como minha mãe, eles também não aceitam o simples fato que eu vou fazer a quimio por que estou morrendo. Coisa complicada.
– Quando que você vai começar a quimio? — Aimee fala com uma voz baixa o suficiente para ser triste.
– Semana que vem. Minha mãe acha que quanto mais rápido eu começar mais rápido eu vou terminar.
– E você o que acha? — Louse pergunta.
– Eu acho que vou ficar linda e sexy careca. Já estou até prevendo a chuva de garotos sobre mim.
– Quanta auto-estima. — Fala Louse.
– Tenho que ter né. Não vou ficar em depressão e chorando pelos cantos só por que eu vou morrer. Eu quero aproveitar o 'resto' da minha vida.
– Você não vai morrer. — Aimee fala de imediato.
– Já conversamos sobre isso.
– Não. Você está errada. Você vai ver, com a quimio você vai melhoras rapidinho.
– Gostaria que fosse verdade.
x.x.x
– Pronta para ficar careca? — Minha mãe fala sorrindo. Um sorriso falso.
– Você prometeu que vai comprar peruca para mim. Você prometeu!
– Eu sei filha. Assim que sairmos daqui vamos passar na loja e comprar.
– Vou cobrar. — Sorri. Ao contrário da minha mãe, era verdadeiro.
Entro na sala da Dra. Madison e sento na cadeira.
– Oi Bea! — Ela me cumprimenta com nosso aperto de mão secreto.
– Oi. — Debbie é minha oncologista desde do começo do tratamento. Ela ´a melhor de todas.
– Pronta para arrasar os corações dos garotos?
– Se estou pronta para começar a descer mais um degrau para o caminho da morte? Não.
– Ah Bea. Você vai ver que linda que vai ficar.
Ela liga a máquina e começa a passar na minha cabeça. Sinto cada mecha caindo no chão. Tento não prestar atenção no barulho. Fica calma. É cabelo, ele vai crescer. Isso não é nada comparado ao tratamento que você vai passar. O cabelo cresce.
– Pronto. Você está linda. — Olho para o espelho.
– Nossa, pensei que eu ia ficar mais feia. Até que não estou tão ruim assim. — Alívio.
Debbie abre a porta e minha mãe chega a sala com um só passo.
– Ah que fofa! Vamos comprar as perucas?
– Lenços, gorros e tocas também.
x.x.x
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