Vivendo Do Passado
22 Cap 22 - Mickey chegando ao limite
Duas semanas se passaram. Mickey continuava morando no hotel, e uma vez a cada três dias passava em casa para pegar roupas, em horários que a esposa não estaria. Nunca mais vira Lília. A jovem havia pedido demissão da empresa, no mesmo dia em que fora até Olívia. Era estranho trabalhar sem a presença da assistente, sentia-se vazia. O trabalho se transformara em algo que era obrigada a fazer no dia a dia, algo que apenas a machucava mais. A saudade lhe corroía por dentro, a medida que continuava a sentindo em intensidade cada vez maior, mesmo com o passar do tempo.
Tanta coisa tinha acontecido, e de repente, sua vida lhe parecia totalmente de pernas pro ar. A mulher que sempre imaginara que passaria toda a sua vida, naquele momento era a que menos lhe fazia falta. Todas aquelas brigas a consumira por dentro, por todos esses anos, e finalmente se dera conta de que não era mais possível negar esse fato. O relacionamento das duas havia se perdido, diante de tantas acusações e discussões. Mas o amor... haveria ele se perdido também, nesse caminho?
A recepção do escritório estava uma bagunça, e Jonas havia tentado, sem sucesso, convencê-la de contratar outra secretária.
– Não, de jeito nenhum, não há necessidade.
– Como não há necessidade, Mickey? Você não pode ser advogada e secretária ao mesmo tempo. E aquilo lá está uma bagunça, se me permite dizer. Você precisa de alguém para substituir a Lília, com urgência.
– Não. Eu não consigo nem considerar a idéia de substituir Lília, Jonas. Não consigo.
– Mas ela pediu demissão, Mickey. Ou você está pensando em chamá-la de volta?
– Não sei. Pela primeira vez na vida, eu não sei de nada. A vida parece que está caminhando sem mim, seguindo uma direção que nem eu mesma consigo entender ou acompanhar.
Algo no olhar da irmã, fez com que Jonas finalmente começasse a estranhar o seu comportamento. Sabia que a irmã estava se separando de Olívia, e que estava morando em um hotel, mas não havia entendido até então o que havia acontecido para chegarem a essa atitude.
À princípio, teria imaginado que seria a mesma razão de sempre, que gerava todas as brigas do casal, e que finalmente poderiam estar se culminando em um possível término: os ciúmes extremos de Olívia. Agora, entretanto, começava a supor que poderia ter ligação com Lília.
– O que está acontecendo, Mickey? Eu não compreendo. Você e a Lília... vocês... ?
Mickey o olhou em silêncio por alguns instantes, e então gesticulou com a cabeça em concordância. Jonas levou as mãos ao queixo, em sinal de absoluta surpresa.
– Ela pediu demissão por minha causa. Está apaixonada por mim.
– Meu deus! E você nem pensou em me contar isso, quando ela pediu demissão?
– Me perdoe, Jonas, mas a minha vida já está confusa o bastante, para ainda ficar dando detalhes para os outros.
– E se ela nos processar? Assédio sexual é algo grave e...
– Processar pelo o que? Não, nós não tivemos nada. Eu apenas... não sei... Nós...
– Por isso você saiu de casa?
– Não. Bom, não apenas por isso. Você sabe que eu e Olívia já estávamos com problemas muito antes dela aparecer em minha vida.
– Sim, eu sei. O que nunca entendi foi como você suportava aquilo.
– Por muito tempo eu pensei que aceitar as falhas de Olívia era uma espécie de obrigação como esposa. Acreditava que o nosso relacionamento ainda poderia ser recuperado, e que algum dia poderíamos voltar a ser como antes. E que nós seríamos muito felizes juntas.
– E agora não acha mais?
– Para te falar a verdade, não. Bom, acho que não. Estou muito confusa.
– E isso tem a ver com Lília, obviamente. Você está apaixonada por ela. Como eu pude não perceber isso antes? Vocês estavam sempre juntas no trabalho, bastante próximas.
Mickey se calou. Não haveria muito o que dizer, nem sabia se poderia contestar o irmão, já que aquele era um assunto realmente confuso para ela. Simplesmente deixou que o irmão tivesse suas próprias suposições do fato, que nem ela mesma sabia ao certo qual era.
No final da tarde, Mickey estava organizando uns papéis na mesa de sua sala, quando uma antiga cliente chegou, e bateu na porta do escritório. Ainda havia um horário marcado, mas diante de tanta confusão dos últimos dias, a advogada simplesmente esquecera de verificar a agenda. Fora até a sala, e abriu a porta.
Com o olhar confuso, encarou a simpática senhora que conhecera há mais de 2 anos, quando fora contratada para pedir a pensão alimentícia das crianças, após a senhora ter sido abandonada pelo marido.
– Sra. Mavel, como vai?
– Temos um horário marcado para 17h30.
– Nós? Eu não... — Fez silêncio, constrangida, enquanto olhava finalmente a agenda — Bem, claro que sim. Não sei como isso me passou. É que estamos sem secretária, e isso complica um pouco a eficiência do trabalho. Me perdoe por isso.
– Sem secretária? Mas e aquela jovem adorável... como ela se chama mesmo...? — Pensou por um instante — Lília?
– Ela pediu demissão há 2 semanas. — Mickey respondeu amargamente, evitando encará-la.
– Que estranho. — Disse, com a voz abafada, que imediatamente causou curiosidade em Mickey.
– Por que?
– Porque há algum tempo atrás eu cheguei um pouco mais cedo, e a ouvi no corredor falando no telefone sobre o emprego. Devia estar no horário de almoço. E ela disse a alguém no telefone que nunca seria capaz de largá-lo, pois havia algo aqui que a prendia. Eu lembro que prestei atenção, coisa que não tenho costume, porque as palavras dela me deixaram realmente emocionada. Era uma bela declaração de lealdade. E quando ela desligou o celular, e me viu, eu lembro de ainda ter dito: A Sra. Ramos tem sorte de ter você.
Mickey virou de costas enquanto a Sra Mavel lhe contava o que acontecera e limpou uma lágrima que insistira em sair de seus olhos.
– Ela teve problemas pessoais, e devido a isso precisou se ausentar da empresa. — Explicou, tensa.
– Ah, então ainda tem uma possibilidade de volta?
– S-sim. — Respondeu, atordoada com a insistência da mulher.
– Fico feliz.
– Bom, acho que podemos começar agora.
E as duas entraram no escritório, para discutir o andamento do processo. Cerca de 30 minutos depois, Mickey acompanhou a Sra Mavel até a porta, e depois retornou quase tropeçando ao banheiro. Lavou o rosto, que tinha uma aparência nervosa, e começou a chorar descontroladamente. Tudo o que sentira até então, todos os sentimentos reprimidos — amores, desejos, mágoas, saudades -, que havia segurando por semanas dentro de si, de repente, fora colocado para fora.
Jonas estava de saída, quando ouvira o abafado choro vindo da sala da irmã. Entrara no banheiro, preocupado, e a abraçou instintivamente.
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