Vive Le France

12 The Drama Club


#Sophie

Depois de um mês da minha viagem com o Noah, eu estava puro amorzinho com ele. Uns achavam que a gente estava namorando, outros achavam que era tudo fachada e que eu ainda amava o Gabriel, entre outros boatos que todo colégio tem. Numa segunda feira, no meio da aula de História, a professora de teatro entrou na sala e apresentou a aula extracurricular que tem todo ano.

– Bom dia galera, bom dia Nando, desculpa atrapalhar a aula de vocês, mas eu tenho que dar o aviso logo, se não o prazo de inscrições passa e ninguém faz aula. Então, como muitos de vocês sabem, todo ano eu apresento as minhas aulas extracurriculares de teatro, que acontecem no período de 05 de março até uma semana antes do fim do ano letivo, datas ainda a decidir. As aulas acontecem nas segundas, quartas e sextas, e no período de agosto a outubro temos as nossas apresentações, né? Vou deixar a aula de Fernandinho em paz agora, e quem estiver interessado pode passar na coordenação pra pegar o papelzinho da matrícula, certo? Se alguém tiver dúvidas, fale agora ou se cale para sempre. Ninguém? Ok, beijos, boa aula.

Pensei nisso durante o resto da aula, já que eu sempre fui apaixonada por teatro, meu sonho era ser atriz e fiz algumas aulas quando tinha 11 anos. Ansiosa, fui com a Bia na coordenação, peguei meu papelzinho e me inscrevi lá mesmo, fim, eu já fazia parte do The Drama Club. Quando chegou o dia da primeira aula, tinham 4 garotas(eu, a Bia, porque enchi muito o saco dela, a Nathalia, a esquisita lá da sala que eu não sei o nome e outra garota da oitava série) e 1 garoto. Advinha quem? O Gabriel. Era perseguição, é isso? Pois bem. A pedido da professora, sentamos no palco(descalços) em círculo:

– Bom, já que todos são alunos novos, pouquíssima gente por sinal, eu gostaria que vocês se apresentassem. Falem mesmo, em voz alta, não tenham vergonha. Você, ruivinha... não, pera, temos duas ruivinhas... a de casaco branco. Pode começar?

A ruivinha de casaco branco em questão era eu. Fiz que sim com a cabeça e comecei a me apresentar.

– Meu nome é Sophie, sou da França, tenho 14 anos, faço 15 em maio...

– Diz o que você gosta de ouvir, de comer, de fazer nas horas vagas, do que gosta e do que não gosta... essas coisas. Hoje temos muito tempo, a aula vai ser só pra a gente se conhecer. – pediu a professora, com os olhos brilhando. Doida.

– Bom... ah, sei lá. Eu gosto de ler, ouvir música, jogar com o meu irmão e o meu pai, cozinhar com a minha mãe, e sou apaixonada por comida japonesa.

– Ler o que? Escuta que tipo de música? Joga o que com os homens da casa? Sua mãe cozinha com você? Caramba, que família perfeita. Quando eu tinha a idade de vocês, minha mãe não deixava eu chegar perto do fogão, nem com ela por perto. Saco.

Aquela professora tinha sérios problemas. Ou ela era muito, mas muito legal. Para não “magoá-la”, eu respondi as perguntas dela.

– Eu leio qualquer coisa que me conquiste na sinopse ou até mesmo na orelha do livro. Escuto música eletrônica, indie e músicas da época da Marilyn Monroe. Jogo futebol ou videogame com eles, e sim, cozinho com a minha mãe. É o hobby dela, então, quando ela chega mais cedo do trabalho, nós que preparamos o jantar. Caso contrário, pedimos pizza ou qualquer outra coisa.

– Gente do céu, preciso conhecer sua mãe para uma amizade sincera e duradoura. Certo, agora... Você, loirinha.

A loirinha em questão era a garota da oitava série, que eu só encontrava nos intervalos e na hora da saída. Tinha uma cara de nojenta... E realmente era.

– Meu nome é Maria Júlia, tenho 14 anos e gosto muito de teatro. Quero ser atriz quando crescer, estou disposta a passar por cima de qualquer pessoa pra alcançar o sucesso, mesmo que pareça errado. – disse ela, me encarando.

Desnecessário, já que eu estava distraída olhando para a cara de sofrido do Gabriel e só percebi que ela me encarava porque a Bia me cutucou. No fim de todas as apresentações, a professora se apresentou. Ana Flávia, 35 anos, o gosto musical era igual ao meu, aliás a personalidade dela era bem parecida com a minha. Ponto pra mim, já que se a convencida da oitava série tentasse me lascar, eu já tinha a chefe a meu favor.

No dia seguinte, eu passei o intervalo inteiro abraçada ouvindo música com o Noah, e quando já estava perto de tocar o sinal, a Bia chegou correndo, com lágrimas no rosto inteiro, falando em soluços:

– Sophie, pelo amor de Deus ou de qualquer outra coisa que você acredite, vem aqui comigo. Corre, garota.

Deixei o Noah sentado na cantina com cara de “que saco” e fui correndo até algum lugar cheio de gente. E fui parar no pátio principal, no caso, a entrada do colégio. Da porta, pude observar o motivo do desespero da Bia, que estava estirado no meio da rua. Um garoto de cabelos bem loirinhos, quase brancos, parecidos com o tom de pele e um casaco preto da Alemanha. Era o Gabriel, que parecia inconsciente e tinha um filete de sangue ao lado da sua cabeça.

– G- GABRIEL? Não, não, não, não... o que foi que você fez, garoto? Ou o que fizeram com você? – desesperei-me, ajoelhada ao lado dele.

– Você veio! – disse ele, com a voz fraca e os olhos semiabertos, lágrimas escorrendo pelo rosto.

– GENTE, ALGUÉM PODE ME DIZER O QUE ACONTECEU? — gritei, com a cabeça dele no meu colo.

– Eu vi tudo, foi atropelamento, menina Sophie. Não é pra te preocupar não, mas parece que o garoto tava esperando o carro se aproximar pra se jogar no meio da rua. Parece até que queria se matar. – contou o porteiro, seu Isaías.

A Bia confirmou a história com a cabeça, e entrou correndo no colégio. Talvez pra não ver mais o melhor amigo sofrendo, ou talvez para buscar alguém ou alguma coisa. Eu pedi pro Isaías chamar uma ambulância, mas isso já havia sido feito, há uns 10 minutos. Então... Eu só podia sofrer junto com o Gabriel, que respirava com dificuldade.

Olhei pra trás e o Noah assistia tudo encostado na porta do colégio. Sem reação, ele se virou e desapareceu pelo colégio. Mas será possível que esse garoto não tinha um pingo de compaixão pelo melhor amigo? Ou ex-melhor amigo? Não importa, aquilo não era hora de orgulho. A ambulância finalmente chegou, e eu tive que deixar o Gabriel ir embora com os paramédicos. Eu queria ir, mas a professora Giovana (melhor amiga da mãe dele) achou melhor ela ir junto. Deixei, né... amiga da família, e eu, a ex-namorada... optei pelo mais ético. Voltei pro colégio e assisti às aulas restantes com amargura e o coração apertado, já que eu não sabia se o acidente foi grave ou não.

Na hora da saída, meu pai já estava me esperando na porta do colégio, parado junto ao carro. Quando entramos e sentamos, ele ligou o ar condicionado e preparou-se com um sorriso no rosto para me dar uma notícia. Mas, antes, sentiu falta do meu irmão.

– Cadê seu irmão?

– Ele tem basquete, pai. Hoje é quarta.

– Oh, verdade. Bom... Filha, eu e sua mãe estamos nos organizando para ir à Disney, nas férias de Julho. O que você acha? Não se preocupe, você ficará num quarto e seu irmão em outro. – disse ele, rindo.

– Ô, pai... que legal! Adorei. – respondi, esboçando felicidade.

– O que aconteceu? Quer ir pra outro lugar?

– Não, não tem nada a ver com a viagem...

– O que foi? Não quero te ver triste. Foi o Noah?

– Quem dera. Sabe o Gabriel?

– Foi ele? Ah, eu mato esse mauricinho.

– Ele não fez nada. Pelo menos, contra mim... Ele foi atropelado hoje, na hora do intervalo. E segundo as testemunhas... parece que ele se jogou de propósito.

– Mas esse menino não tem nada na cabeça? É rico, boa pinta, tem bons amigos, uma relação ótima com os pais... Qual é a dele?

– Pai, o problema sou eu.

Não aguentei. Desabei mesmo, chorei na frente do meu pai, coisa que eu só fiz duas vezes na vida: quando nasci e quando meu cachorrinho foi atropelado por um táxi, lá na França.

– Não. Para, para, para, pelo amor de Deus, não fique assim... Você não é e nunca será o problema dele... Tem que ter outro motivo...

– Claro que sou eu, pai. A única coisa que ele quer mais do que tudo na vida sou eu, e ele não me tem mais. – gritei, enquanto a cachoeira de lágrimas jorrava dos meus olhos.

Desesperado, meu pai lembrou-se da única coisa que realmente me acalmava: sushi. Paramos num restaurante japonês perto de casa e achou melhor almoçarmos por lá, já que a secretária estava doente e minha mãe tinha reunião até mais tarde. Escolhemos uma mesa mais escondida, perto do jardim de inverno, onde eu poderia chorar à vontade. E foi isso que eu fiz. Chorei, chorei, chorei mais, chorei de novo. Chorei comendo, chorei bebendo, chorei comendo sobremesa, chorei quando a conta chegou... Chorei até chegar em casa, quando senti uma forte dor de cabeça e desabei no sofá.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.