Viva la Vida
1 Preparação.
Notas iniciais
Eu decidi postar mais uma fanfic aqui. Por que não, não é mesmo?
Não tenho certeza se me empenhei o bastante nela, mas espero que sim, apesar de não ter tido visualização nenhuma nos outros sites de fanfics (risos de tristeza)
Boa leitura.
O corpo febril desperta violentamente com um espasmo.
Nunca confiava em ninguém e nada. Nem mesmo no próprio ar que respirava.
Não depois da revolução governamental. Naquele mesmo dia completavam-se dez anos que a mesma havia se concretizado.
Enma se lembrava mais do que ninguém que não fora uma revolução boa; muito pelo contrário. Uma única religião baseada nos princípios do novo ditador, foi empregada; todos os hereges manifestantes foram mortos. Um sistema machista, opressor e sem liberdade de imprensa foi adotado, escondendo – ou ao menos tentando esconder – todos os crimes do governo, mantendo a população calada e na palma das grossas e descuidadas mãos do governador.
Não houvera nada de sutil na mudança. Todas as igrejas, ou locais de cultos foram demolidos de um dia para o outro. Casas inspecionadas, em busca de símbolos religiosos contrários foram queimadas. Mulheres, mortas, estupradas e proibidas de fazer qualquer coisa sem a autorização de seus responsáveis (pais ou maridos), sem motivos aparentes. Canais de televisão, rádio e internet moderados por oficiais.
Caos total. Dez anos vivendo nas sombras.
Entretanto, Enma não possuía tempo de pensar nisso. Não agora.
Ela pretendia comemorar tal data de forma diferente, um protesto terrorista. Quando fosse meio dia, haveria uma pequena explosão no centro da cidade, por meio de certas dinamites que havia instalado pelo sistema subterrâneo desativado da cidade.
Obviamente, muitas noites de sono haviam sido tiradas dela por aquilo; encontrar uma entrada para o subterrâneo, contrabandear dinamites, mapear toda a cidade e conseguir fazer tudo sem ser vista.
Mas valeria a pena. Algo a dizia que sim.
Não lhe importava quantas vidas teria que tirar para ser notada. Não lhe importava todo o sangue que já tinha em suas mãos.
O governo tinha mais. Enma tinha certeza.
Por fim, acaba levantando de seu colchão velho jogado no chão. Seu cômodo único a agradava e acolhia de forma impressionante. Mofado, abafado, solitário e escuro.
“Parece minha vida”, pensou, com um sorriso.
Se olha através de um espelho amarelado e manchado, pendurado na parede. Suas olheiras evidenciavam o pesado trabalho que tivera nos últimos dias, sem ajuda. Seus cabelos longos emaranhados pareciam cada vez mais negros, e seus olhos castanhos soltavam faíscas de algo parecido com ódio, vingança, e talvez medo.
Mas o medo não deveria se mostrar presente em sua missão.
Era simples. Riscar um fosforo, e passar a pequena chama para o fio dos explosivos.
Se pensasse demais, sabia que hesitaria, e consequentemente, falharia.
Sacudiu sua cabeça, tentando manter tais pensamentos longe. Passou a mão pelos fios grossos, mas desistiu após perceber que seria inútil tentar se pentear. Afinal, por quê o faria?
Olhou por um relógio velho pendurado em sua parede de tijolos, e notou serem sete e meia. Apesar de cedo, ela não possuía tempo para mais nada. Precisava planejar uma fuga, coisa que não havia feito por descuido e ansiedade puros.
Se espreguiçou mais uma vez em frente a seu espelho, admirando a jaqueta de couro tamanho extragrande, a única que havia conseguido roubar de uma loja para aguentar o cruel frio do inverno. Apesar do agasalho pesado, usava shorts curtos de malha cinza. Ela não precisava estar totalmente quente, precisava ter liberdade para correr.
Ás vezes sentia que era a única coisa que poderia fazer sem ser perseguida.
Desvencilhou-se das distrações, e buscou pelo seu mapa do subterrâneo. Havia um caminho, o mais afastado, onde poderia sair com segurança da explosão, saindo do lado oposto do bueiro por onde entraria.
Entretanto, o caminho, bloqueado por alguns destroços deveria ser limpado antes do ato.
Enma tomou que deveria ir naquele momento.
Desceu as escadarias do prédio abandonado, o qual decidira chamar de lar, e seguiu por ruas mais escondidas, menos prováveis de haver uma patrulha de militares.
Seus passos silenciosos nas ruas cinzentas e vazias eram apressados. Há dez anos atrás, uma rua como aquela fora um ponto comercial maravilhoso, com famílias e vendedores sorridentes.
Agora, tudo que se ouvia, eram janelas sendo fechadas as pressas por donas de casa, tentando aparentar não haver ninguém ali. O uivo do vento frio da manhã, e as folhas de árvores sendo balançadas e derrubadas.
Era tão poético como a natureza não se curvava ao Homem mesmo em situações como aquela.
Por um triste momento reflexivo, Enma se imaginou como uma árvore, não manipulada, livre e inabalável. Ela acabou por sorrir.
“Talvez em outras vidas, Enma. Não seria ruim.”, pensou.
Continuou seu caminho melancólico por mais alguns minutos solitários, chegando ao beco bem conhecido por ela. A entrada no chão estava tapada por alguns pedaços de papelão, tijolos e pedras, antes, consideradas as casas dos moradores de rua.
Agora que todos os moradores de rua foram condenados a pena de morte, tudo aquilo se transformara em apenas lixo.
Enma tirou cuidadosamente os objetos que encobriam sua passagem, e abriu a tampa de bueiro. Uma escada a aguardava. Antes de descer por completo, ela colocou novamente a tampa e torceu para que ninguém notasse.
Com sorte, em meia hora, ela conseguiria tirar todo o entulho que bloqueava sua segurança, voltar para casa e preparar-se física e mentalmente até o grande ato.
Mais uma vez, seguiu seu melancólico caminho. Como sabia, pedaços da estrutura bloqueava a passagem. Enma, sem pensar em outra solução, decidira que retiraria tudo manualmente, se amaldiçoando por não possuir um plano daquela vez.
Após alguns bons minutos, mãos machucadas, e suor escorrendo, ela finalmente sentia que estava perto de acabar. Sentia o doce gosto da vitória sem antes mesmo executar o planejado.
Mas o doce fora invadido por um amargo susto ao ouvir uma voz, cantarolando em uma língua desconhecida, provavelmente vinda do outro lado dos destroços. Se preocupou, mas logo notou que aquilo não representava ameaça alguma.
Afinal, as mulheres não eram permitidas trabalhar para o governo.
“Terei de expulsar aquela garota”, decidiu.
Ela continuou a retirar o entulho, ouvindo a voz cantarolando pouco mais alto. Não sabia os motivos daquela pessoa estar ali, mas também não se interessava. Queria apenas seu caminho livre.
Quando finalmente terminou, conseguiu enxergar finalmente a dona da voz. Estava ajoelhada, de olhos fechados, e com um pequeno altar contendo estatuetas de figuras que pareciam místicas, um livro consideravelmente grosso, e algumas velas coloridas acesas, iluminando e seus cabelos louros, longos e ondulados. Não notara até então o barulho de Enma.
Para não atrapalhar o culto, oração, ou sabe-se lá o que a garota fazia, Enma cruzou os braços, e aguardou que cessasse. Não demorou muito para a garota finalmente parar a música, abrir os olhos e virar a cabeça lentamente para a morena.
— Você faz barulho demais. – Ela disse, ainda ajoelhada. Não tinha emoção na voz.
— Você me ouviu? – Enma pergunta, irritada por dentro.
— Claro que sim. Como poderia eu não ouvir alguém acabando com uma parede inteira de entulho?
— Eu pensei que... – Enma começou, mas logo se interrompeu. – Quem é você?
— Alda. Você...?
— Não te interessa. – a morena responde, vendo Alda erguer uma sobrancelha. – Como achou esse lugar? O que faz aqui?
— Bom, me parece que não te interessa... – Ela respondeu, se levantando, mostrando seu mais alta que Enma. Virava as costas, e seguia em direção a uma escada, onde provavelmente fora por onde entrara.
E por onde Enma deveria sair quando tudo explodisse.
— Espere. – A mais baixa pede. – Sou Enma. Agora me diga o que faz aqui.
Alda se vira lentamente.
— Estava executando minhas crenças, já que não posso fazer isso em público. – Ela se aproxima. – E se abrir a sua boquinha sobre isso, terei de abrir a minha boquinha sobre suas dinamites, estamos entendidas? – Ela cerrou os olhos de íris castanhas.
O corpo do Enma gelou no mesmo momento.
— Como você sabe?
— Não é nossa primeira vez aqui, Enma. Eu já te vi muitas vezes enquanto rezava. Estávamos separadas por aqueles destroços, que não são muita coisa. Eu consegui te ver colocando-as, e eu não sei o que pretende com isso, mas eu não me interesso. Desde que não arruíne meu local.
Alda era esperta. Até demais.
— E por quê eu contaria das suas crenças para eles? Estou justamente tentando armar algo contra o governo. Não é para ser crime acreditar no que quiser.
A loira pareceu ter amolecido um pouco.
— Vai explodir quando? – Ela perguntou, mudando de ideia e se interessando subitamente.
— Hoje mesmo. Ao meio-dia.
Alda sorriu.
— Em cima das dinamites fica o quê?
— Alguns prédios do centro. Eles não vão cair, eu acho.
— Bom, acha que vai matar alguém?
— Mesmo que eu vá, não me importo. Não mais. O que tenho a perder e me arrepender? – Enma suspirou, de cabeça abaixada.
— Não sei se devo concordar com seus métodos, mas... Parece que é com uma boa intenção. Como vai deixa-los saber o que quer?
— É óbvio o que quero. Acabar com tudo isso, assim como a maioria dos cidadãos.
Alda se convenceu.
— E você já tem tudo pronto?
— Bom, minha rota de fuga é essa...
A loira assentiu.
— Mas você sabe o que tem do lado de fora? Os soldados patrulham a área. Vai ser pega. Precisa de ajuda.
— Como você poderia me ajudar? – Enma perguntou descrente.
— Eu conheço os soldados. Eu passo pela rota deles todos os dias, e eles até me cumprimentam. Acham que eu vou colher flores do campo ao lado. Mas sem eles perceberem, eu entro aqui, faço o que devo fazer, pego umas flores idiotas lá em cima, e volto pra casa. Posso dizer que é minha amiga, mas para isso, terá que mudar seu plano.
Enma passou a prestar mais atenção, erguendo o rosto.
— Vai ter que vir comigo, vestir roupas como as minhas, e explodir as dinamites por esse lado. Então, quando sairmos, vamos direto para o bosque, demoramos um pouco até a explosão acontecer, e voltamos com flores. Ninguém vai notar. – Alda continuou.
A morena se irritou um pouco. Teria de usar um vestido claro como o dela. Teria de ser simpática com malditos soldados.
Refletia se valeria a perda de orgulho.
— Você já não colheu flores hoje? – Colocou o empecilho.
— Eu digo que quero mostrar o local a você. Eles confiam em mim, Enma. Só resta você decidir.
Enma, relutante, concorda.
Alda estava sendo gentil, turbinando seu plano quase falho. Além de que a morena não conversava com uma alma faziam meses. Se sentia acolhida.
— Então, me encontre na praça central as dez e trinta. Para dar tempo de organizarmos tudo, ok? – Alda disse, finalmente. – Foi bom te conhecer, Enma. Espero que isso vire uma amizade. – Sorriu.
A mais baixa sorriu involuntariamente de volta.
“Também espero”, pensou.
Notas finais
Eu revisei algumas (várias) vezes, mas vai saber né...
Obrigada se leu até aqui, e (talvez) até o próximo ^^
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