Passei o Natal com alguns familiares e amigos na casa de minha tia Carmélia.

Minha mãe caminhava vagarosa com os curativos da recente cirurgia e meu pai andava na pancada com a atual mulher, vinte anos mais nova.

Estava caindo na vodca outra vez, pude perceber quando ele ligou no dia vinte e quatro com a voz afoita e ao fundo “When you don't believe a word I says”, na voz do Rei do Rock.

Eu não estava bem naquela noite, aliás, há meses não lembrava de me sentir plenamente bem, a não ser em alguns momentos isolados, como na última vez que saí com a Liliana.

Por falar nisso, ela me ligou desejando boas festas e comentou que desejava fazer uma viagem de carro pra alguma praia passar a virada do ano.

Mostro um forçado interesse pela proposta, desligo o celular e ligo pra Sarah, que já estava na balada — essa não curtia passar o Natal com a família.

Ela pergunta da minha compra, se estou curtindo o novo som. Nesse instante, a lembrança daquele CD me traz um súbito bem-estar e digo que ela deveria ouvi-lo comigo.

Ela logo concordou e, de imediato, algo remexeu dentro da minha calça.

Não chegamos a combinar nada concreto, mas só a possibilidade já me deixou ansioso. Aquele fim de ano estava uma correria, cheio de dúvidas e desafios.

Ainda tinha de encarar a maratona da noite de Natal, onde as pessoas saíam de casa com suas roupas mais caras, distribuindo sorrisos e apertos de mão mecânicos.

Três horas e pouco da manhã estou aliviado por estar em casa, deitado com a cueca furada em minha cama suja, porém aconchegante.

Começo a imaginar que poderia ser agradável viajar e curtir a passagem de ano com Liliana na praia, como ela sugeriu.