Notas iniciais
Muito obrigada pelos reviews e pela recomendação. Eu adorei. ^_^

Hoje seria minha última cartada, o dia decisivo pra tentar reconquistar o velho amor. Liliana andava muito distante nas últimas semanas.

Ela disse o mesmo de mim, mas tenho certeza que estou bem com ela.

Mas ela, sei não!

Anda com umas conversas sobre como está cansada, querendo sair do seu mundinho e expandir seus conhecimentos, ampliar sua visão do mundo com uma nova perspectiva. E eu não estaria nesse novo mundo dela, imagino.

Entendam, pra mim tanto faz ficar sozinho ou não. Mas o que custava eu tentar manter o nosso relacionamento?

Se não conseguisse, paciência.

— Você devia chamar-la pra sair. – Dom me disse, enquanto almoçávamos numa lanchonete – Aposto que ela gosta do bom e velho romantismo de esquina.

Então a levei pro alto da cidade, num campo aberto, aonde alguns casais iam à noite pra namorar e divagar sobre seus relacionamentos.

Estava no carro do meu pai, que tinha teto retrátil, pra usufruir o clima romântico da noite e ver as estrelas, apesar da massa cinza e espessa no céu, de fumaça e fuligem.

Ela estava particularmente mais acessível naquela noite, e nosso papo fluiu bem. Conversamos sobre a vida profissional e pessoal, e eu, sempre tão distraído e desinteressado em relação a questões amorosas, sentia interesse incomum na conversa.

Falei que ela devia insistir na faculdade, que isso era o mais importante pro seu futuro, evitando menosprezar o seu emprego de garçonete.

E ela toda preocupada com os ensaios da banda e as minhas composições, que eu tinha que me dedicar mais e coisa e tal.

Coloquei o CD novo e disse pra ela tentar viajar na música. Ela sorriu e disse que estava gostando. Em segundos, nos beijávamos intensamente. Em minutos, estávamos sem roupa, vendo as poucas estrelas do céu através do teto do carro. Ao final, ela encostou a cabeça no meu colo e fiquei alisando aqueles cachos avermelhados com um sentimento de paz que senti poucas vezes em minha vida urbana ordinária.

Olhei pro seu corpo adormecido sobre o meu e pensei como eu a amava e a odiava ao mesmo tempo. Essa contradição chegava a me enjoar.

Comecei a viver o clima angustiante daquele ano de 1997. Faltavam três anos (na verdade dois e quatro meses) pro simbólico ano 2000, e só falavam do tal do bug do milênio, enquanto o mundo caía em miséria e egoísmo entre as pessoas.

Acordei Liliana subitamente — queria ir pra casa jogar xadrez com meu insone vizinho, como de costume.

Antes que ela ficasse furiosa, menti dizendo que ela estava em mais uma crise forte de bruxismo, rangendo os dentes como uma fera.

Ela fez uma careta torta de sono, se vestiu e fomos embora.