A letra da minha nova composição tinha de ser finalizada em duas semanas. Mas eu estava sem cabeça.

Minha namorada estava cada vez mais ausente e minha mãe, faria uma cirurgia para retirar enormes cistos do ovário, que poderiam — ou não — ser malignos.

— Oitenta por cento de chance de ser benigno — dizia o médico. Mas ela não parava de chorar.

Um dia, entramos no carro e coloquei o CD que comprei no player. Aqueles ruídos esquisitos começaram a ressoar.

— Isso é música? — ela indagou para minha surpresa, com um desprezo cortante.

— Você ainda vai gostar mamãe. De tanto ouvir.

Seguiu-se um resmungo e eu resolvi trocar do CD pro rádio. Um pastor clamava pela salvação de todos os pecadores.

Na outra estação, tocava hip-hop. Na terceira, futebol, meu time perdia.

Tentei novamente e parei na que tocava músicas mais alegres e comuns aos ouvidos dela. Fiquei sentindo falta daquelas guitarras melódicas e do vocal lamentoso.

Quando finalmente chegamos em casa, ela já estava mais tranquila. Jantamos todos juntos; eu, meu irmão e minha mãe.

Depois fui para o meu quarto, para curtir meu CD tranquilamente. Adormeci ouvindo-o, o que já estava virando rotina.