Notas iniciais
Não me odeie. Eu não sabia o que fazer. Não tenho prática nesse tipo de coisa e muito menos tenho prática em flafe. Meu coração é darksexual e eu só sei angst.

O nome dela era Vitória, como a rainha.

Nunca tinha entendido o motivo por ter esse nome. Ela não era nem de perto membro da realeza, embora a visita destes não fosse incomum em seu lar. Vivia em um diferente tipo de castelo, mas com certeza não podia dizer que lhe faltava alguma coisa.

Porém, embora ela nunca pudesse enunciar as palavras, ou mesmo ter a coragem de assumir essa verdade para si mesma, para sua total felicidade, a única coisa que faltava era um meio de sair daquele lugar.

A vida de uma cortesã nunca seria fácil.

A Inglaterra da Rainha Vitória era uma força imparável. Muitos previam que logo o Império tomaria conta do mundo. Diziam que nunca tinham tipo essa força, que tudo estava diferente. A menina Vitória apenas sorria educada quando ouvia essas conversas no salão do bordel, mas considerava essa a piada do século. Mesmo com a Moral Vitoriana, tão puritana, tão afeita as regras, homens ainda eram homens e os salões das cortesãs sempre estavam cheios.

― Vitória, tem que deixar essa visão pessimista de lado ― Diana aconselhava enquanto penteava os cabelos negros de sua pequena protegida. ― Isso não é um defeito. Imagine como iríamos comer se eles não viessem até nós? Teríamos que trabalhar na rua, e sabe como isso está perigoso, com esse louco matando as prostitutas.

Vitória apenas suspirava enquanto a proprietária do lugar continuava a falar.

― Já tem dezesseis anos. Está na hora de tomar juízo. ― Diana levantou-se sorrindo e puxou a menina consigo, rumo aos guarda-roupas. ― Seus dias do mês já acabaram?

― Sim, madame ― Vitória respondeu, cansada. ― Já tem alguém pedindo por mim?

― Vossa Graça, o Duque de Manchester está de volta.

Vitória se virou para sua mestra, os olhos escuros arregalados em surpresa.

― Eu achei que ele ficaria na Índia até o final do ano!

― E quem consegue ficar longe de você, minha cara? ― Diana tocou com seu indicador o nariz de Vitória.

― Ele não voltou por minha causa, mama. ― Revirou os olhos.

― Garota esperta ― falou com aprovação na voz. ― Não podemos nos dar ao luxo de ter favoritos ou amores. Toda vez que paramos de pensar para sentir, a tragédia bate a porta. Lembre-se de sua mãe.

Tudo que Vitória queria responder era para que Diana lembra-se de si mesma, mas mordeu a língua para depois sorrir ao falar:

― Eu lembro, mama.

A mãe de Diana tinha sido uma prostituta de rua que caiu nas graças de um Visconde e veio para aquele bordel, onde ficaria segura e sempre a espera dele. Ela acumulou esperanças de que um dia moraria no castelo, mas no fim, ela ficou grávida e ele a trocou por outra.

Vitória não cometeria o mesmo erro. Nunca acumularia esperanças. Porém, isso não significava que não tivesse um favorito.

Estava no salão, com outras cortesãs distraindo alguns aristocratas que comentavam a recente onda de crimes. Algumas moças faziam charme e fingiam terror para que os nobres fingissem que as protegeriam. Vitória sorria, seus olhos faiscando como um gato correndo pela noite.

E então o Duque chegou e tudo se desvaneceu ao redor.

― Eu senti sua falta, menina ― o Duque disse no momento que cruzaram as portas do quarto de Vitória.

― Mentiroso. ― Ela sorria, mas se recusava a jogar o jogo que as outras garotas jogavam.

Ela sabia que seu preferido gostava de sua sinceridade.

E o Duque sorria enquanto se aproximava para tocar seu rosto que pouco a pouco, ficava mais parecido com o de uma mulher feita.

― Ninguém mais tem essa boca atrevida. Como eu poderia não sentir falta?

― Acredito que apenas sentiu falta do que essa boca atrevida pode fazer, vossa graça.

O Duque riu enquanto era empurrado para a poltrona mais próxima.

― E você, sentiu minha falta? ― ele perguntou enquanto Vitória sentava-se em seu colo.

― É, eu acho que sim ― respondeu, acariciando o cabelo grisalho do Duque. ― Sabe que não tenho muito tempo pra isso.

― Já lhe disse que se quiser, pode viver no ducado. Madame Diana não vai proibir.

Vitória riu, deliciada.

― Eu, morando na mesma casa que é da sua esposa e dos seus filhos?

― Você teria uma casa só sua.

― Meninas como eu nunca tem nada, meu querido. ― O beijou ternamente. ― Sabe que sou imensamente grata por seu carinho e sua preferência, mas por favor, me deixe aqui.

― Eu não entendo, Vitória.

― Eu não quero ser como um livro esquecido numa prateleira qualquer ― falava triste, mas sustentava o sorriso. ― Gosta de mim, eu acredito nisso, mas eu a cada dia que passa estou mais velha, e logo vai se encantar por outra mais jovem do que eu. Não minta para mim ou para si mesmo. É um cavalheiro, e mentiras não devem surgir de vossa boca.

― A senhorita está crescendo e ficando a cada dia mais admirável, minha cara. Parece que foi ontem que a conheci, mas já se passaram dois anos.

― Vossa graça sempre gostou das jovens e elas gostam de serem gostadas pelo Duque. ― Vitória se levantou para servir vinho para seu preferido. ― É gentil e tem paciência. Como eu disse, um cavalheiro.

― Tenho calafrios imaginando você com um desses depravados. Pode estar crescendo, mas continua incrivelmente pequena diante desses homens, menina.

― Mama me protege, não se preocupe. ― Entregou uma taça de vinho, mantendo a outra consigo. ― E eu posso aguentar muita coisa. Eu sou mais forte do que pareço.

― Eu sei. ― E os olhos do Duque brilhavam de admiração. ― Porém, eu não me incomodaria em olhar mais de perto.

Vitória soltou sua deliciosa risada mais uma vez, para deleite daquele que a assistia desfazer os laços do vestido até que este caísse no chão, a deixando apenas com suas roupas de baixo.

E os olhos do Duque brilharam ainda mais, e havia um desejo ardente naquele olhar.

― Se continuar me olhando desse jeito, vou começar a acreditar na música que derrama nos meus ouvidos todas as vezes que chega aqui, meu querido Duque.

― Não tenho pretensões de ficar apenas olhando, menina atrevida.

Mais tarde, entre os lençóis, Vitória era colocada a par dos negócios do ducado. Era parte do trabalho. Os homens vinham ali para fugirem um pouco de suas vidas estressantes e acabavam desabafando nos ouvidos daquelas que acham que nunca poderiam tocá-los, mas Vitória sabia que poderia derrubar muito deles com um sussurro no ouvido certo.

― E o que minha menina fez enquanto estive fora? ― ele perguntou em certo momento.

― Realmente quer saber? ― Ela apenas ria. ― Além do óbvio, eu li alguns livros. Sabe que não somos bem-vindas na cidade, então não sou muito de passear.

― Uma palavra sua e seria tratada como princesa, Vitória.

Porém ela sabia que não poderia suportar o dia em que ele a rejeitaria.

Aquela sexta-feira foi diferente. O Príncipe de Gales voltou de sua viagem pela Europa e logo após deixar sua esposa no Palácio de Buckingham, se dirigiu ao salão de Madame Diana.

Várias garotas correram para tentar ganhar a preferência do príncipe, que como sua fama dizia, estava mais que satisfeito em receber as atenções de belas mulheres. Vitória foi uma das poucas que não foi, e a única a estar desacompanhada. Permaneceu perto da janela, observando a movimentação no salão.

E sorriu quando o príncipe a viu.

Ele mandou que a chamassem depois de alguns minutos.

― Porque se esconde, menina? ― inquiriu.

― Não queria incomodar Vossa Alteza Real.

― Belezas como a sua nunca incomodam. Como se chama?

Fingiu constrangimento e olhou para os próprios pés.

― Vitória.

Príncipe Eduardo arregalou os olhos, em genuína surpresa.

― Como minha mãe.

Vitória assentiu.

― Não achei que seria de bom tom trazer esse assunto.

― Acho que é uma menina esperta. ― O Príncipe se levantou, empurrando a cortesã que esteve em seu colo. ― Porém, acredito que precisamos encontrar outro nome para você.

― Como gostaria que eu me chamasse, Vossa Graça?

― Helena. Como a mais bela mulher a existir.

E Vitória sorriu.

E finalmente ela tinha o ouvido certo para escutar os segredos a ela confiados, e derrubar aquele que odiava com todas as suas forças, que iludiu sua mãe, que a deixou naquele castelo para servir de entretenimento para outros homens.

O Príncipe a desejava, e para ele, fazer aqueles pequenos favores não era nada.

E o Visconde de Rochford caiu.

O Duque notou. Notou que sua menina, a menina que ele amava com todo seu coração, estava com a mente distante. Os olhos continuavam carinhosos e ele sabia que ela ainda o amava, mas não podia fingir que Vitória não estivesse com a mente em outro lugar.

E ele não podia fazer nada sobre isso.

Não foi uma surpresa quando Vitória disse que seria sua última noite.

― Vai com o Príncipe, não vai?

― Sabe que eu amo você, meu querido. ― Vitória não chorou, mas podia ter chorado. ― Porém, prefiro deixá-lo antes que você me deixe.

― Eu nunca a deixaria.

― Eu não posso me dar ao luxo de acreditar nisso. Se eu der um filho ao Príncipe, ele me presenteará com uma casa e uma pequena renda ― Vitória explicou. ― E nenhum sofrimento, por que não o amo.

― O Visconde de Rochford caiu em desgraça. A Rainha não quer ouvir falar no nome dele. Eu sei que foi obra sua.

Vitória sorriu.

― Todos nós precisamos exorcizar os demônios que julgamos estar destruindo nossas vidas. Eu meramente exorcizei o meu.

O Duque olhou triste para sua menina, que não era mais tão menina.

― Está em uma estrada perigosa, Vitória.

Ela apenas sorria e o beijou uma última vez.

― Sabe, eu não entendia porque minha mãe me deu esse nome, mas agora eu sei. ― Acariciou-o. ― Eu posso ter perdido coisas valiosas, mas no final, eu venci a única coisa que eu realmente precisava vencer.

― Seu pai?

― Não. A mim.

E Vitória realmente venceu. Em Paris, já conhecida como Helena, acompanhando o Príncipe que a protegia, venceu sua concorrência e se tornou uma valiosa arma política. Porque ela escutava, e sabia quem merecia as informações.

E Vitória perdeu. Porque continuava a sonhar com as noites de sua adolescência e com aquele que sempre a chamaria de menina e conheceria seus segredos e a amaria apesar deles.

Notas finais
Sou péssima em finais.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!