Visita Noturna

1 Apagar das luzes


Notas iniciais
Bem pessoal, mais uma fiction bem curtinha, dessa porque essa era a proposta do DeLiPa. Não vou falar muito porque senão minhas notas ficam maiores que a fic

Havia chegado no horário marcado, atraso não era coisa de seu feitio. Entrou sem anúncio algum no lugar. Mesmo sendo comum chegar de surpresa, esta se tratava de uma daquelas vezes em que era esperado.

A sala estava parcamente iluminada, um fio fraco e intermitente de luz — que escapava da fresta da porta do banheiro — fazia-se como único farol ali. Mas ainda era possível ver, sobre a escrivaninha, uma garrafa de uísque pela metade; ao lado, um copo vazio cheio de sentimentos afogados. Havia também um bilhete lá em cima, escrito com palavras antigas e mofadas.

Era sua terceira chamada àquele endereço. Nos dois encontros anteriores, não haviam conseguido consumar aquele desejo persistente. Na primeira vez, envergonhado, o próprio anfitrião — repleto de lágrimas, amarguras e arrependimentos — mudara de ideia e mandara-o embora. Não estava preparado, mas isto era compreensível, a maioria nunca está... No segundo contato, ele já seguro naquilo que fazia, acabaram sendo flagrados pela irmã dele quando estavam na cama. Não fora uma das melhores formas de ser expulso de um lugar.

E agora estava ali uma terceira vez.

Diferente do que a maioria teria feito depois das recusas, retornou prontamente. Sem mágoas, sem ressentimentos, isto não fazia parte de sua índole.

Encontrou-o no banheiro. Sob a luz quebradiça daquela lâmpada velha; desde sua primeira visita ela estava daquele jeito: zunindo, piscando e fraquejando. Se considerando seu estado precário, era até surpreendente vê-la vingar tanto tempo.

Ele estava dentro da banheira. Os braços abertos eram o convite definitivo. Olhos sonolentos encararam o recém-chegado, mal demonstravam conseguir enxergá-lo; mas parecia ter certeza de quem se tratava... E estava certo. Um sorriso de cristal abriu-se sem muita força, parecia, pela primeira vez em muito tempo, aliviado depois de tanto sofrimento carregando aquele fardo dentro do peito… Sim, ele estava feliz de vê-lo ali mais uma vez. Agora, sem a possibilidade de interrupções.

O visitante aproximou-se de seu anfitrião com calma. Agachou-se à altura da banheira e ficou encarando-o por poucos instantes. Afagou-lhe os cachos loiros da cabeça e os pelos do peito molhados de vermelho.

Quando aproximou-se do rosto cansado, viu uma lágrima solitária correr-lhe a face. Ele balbuciou algo, mas a voz estava tão fraca que não era possível saber se era em arrependimento ou em gratidão.

O hálito gélido preencheu-se com um beijo igualmente frio.

Ao afastar dos lábios, aquela luz — que há tempos fraquejava — enfim se apagou.

Notas finais
Um abraço para todos que leram. Espero que possam deixar aquele feedback maroto nos reviles. Um abraço do urso. Woof
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!