Visio Nocturna - Primeiro Desafio
3 Capítulo 2
Assim que abri a porta da sala Half, o labrador do Rodrigo pulou em mim.
-Eu já não te falei para deixar o Half na coleira! Ele ainda vai matar alguém de susto
Rodrigo veio rindo na minha direção, ele sabia que o “alguém” era eu mesmo. Half era o único cachorro que eu gostava, mas ainda tinha medo quando ele vinha correndo e pulava em mim.
Quando eu tinha 5 anos fui mordido por um dos cachorros da minha tia – ela tinha 7 cachorros – tive que tomar 3 injeções. Desde então comecei a ter medo de cachorro e mais ainda de agulha.
— O Half só quer brincar um pouco – O Rodrigo veio em meu socorro – Você já é bem grandinho para ter medo de cachorro.
Ele falou grandinho com uma ironia típica dele. Rodrigo é alguns meses mais novo que eu, mas todos pensam que ele é mais velho só por causa do tamanho.
— E ai? – ele perguntou – Caiu da cama?
— Não. Digamos que o Dr. Fernando vai ter mais uma historia de terror hoje à tarde.
— Cara, é serio você podia escrever um livro com esse tanto de pesadelo que você tem.
Não dava bem um livro, nunca fui muito bom em redação, mas em ter pesadelos nisto eu era ótimo. Quando eu tinha 6 anos de idade tive o meu primeiro pesadelo, foi assustador. Lembro-me muito bem dele.
Eu estava na casa de minha tia Bia, brincando com meus primos. De repente a cozinha começou a pegar fogo. Um de meus primos me carregou para fora da casa enquanto os outros foram verificar se minha tia estava bem. Nesta hora uma nuvem cobriu o céu e tudo ficou escuro, eu vi mãos saindo do chão e elas começaram a me puxar do colo do meu primo ele me segurou com mais força e correu para mais longe. Eu ouvia gritos vindos da casa e da terra começou a sair corpos em chamas que corriam em direção à casa de minha tia. Eu a ouvi gritar. Alguém chamou meu nome e nesta hora eu acordei gritando e chorando. Dois dias depois fomos ao velório de minha tia. Ladrões entraram na casa e colocaram fogo nela, meus primos estavam na aula, deram sorte, mas a tia Bia não. Desde então tenho tido pesadelos assim, nem sempre eles se realizam, mas eu nunca os esqueço.
Um som muito forte me trouxe de volta a realidade. Quando olhei para o lado vi que o Rodrigo estava correndo atrás do Half.
— Eu te falei para deixá-lo na coleira
- Que tal uma ajuda ao invés de ficar ai parado?
Muito contra a minha vontade fui correndo atrás dele. Quando ele avistou o Half parou de correr.
- O que foi isso? – ele me perguntou
- Não sei. Parece que foi um acidente de carro. Olha! Tem fumaça vinda da outra rua. Vamos dar uma olhada.
Rodrigo prendeu o Half na coleira (graças a Deus) e fomos andando em direção da fumaça. Quando chegamos à esquina vimos uma cena familiar pra mim.
Um carro bateu em um poste. Tinha fumaça saindo do capô. Rodrigo prendeu o Half em uma arvore e corremos para ajudar. Quando chegamos mais perto vimos que o motorista estava caído no chão e respirava com dificuldade.
- o senhor esta bem? – perguntei para o homem caído
- É claro que ele não esta bem Thiago. Chega pro lado.
Rodrigo era bom em primeiros socorros. Seu pai era medico e sonhava que Rodrigo se tornasse um também. Sonhava mesmo. Rodrigo sempre dizia que queria ser jornalista. Direto dava pra ouvir as brigas dos dois.
THIAGO! THIAGO!
Uma voz familiar gritava o meu nome. Como sempre parecia que era o próprio vento me chamando. A ignorei, Dr. Fernando sempre me dizia que as vozes eram apenas resultadas de noites sem dormir.
THIAGO! THIAGO!
Desta vez foi como um sussurro. Um calafrio percorreu o meu corpo. Tudo ficou cinza de repente. Eu ainda estava na rua e comigo estavam o Rodrigo e o senhor acidentado. O único problema é que agora a rua estava cheia de corpos caídos e um cheiro de morte pairava no ar.
- Rodrigo vamos embora daqui – Eu o chamei, mas ele não se mexeu.
- Anda logo – eu o puxei, mas minha mão atravessou o seu corpo.
Foi ai que eu percebi que “eu” podia me ver, logo ali, parado perto do senhor caído. O mais estranho era que ele era a única coisa com cor no meio do cinza escuro da rua.
- Você é Thiago?
A voz dele cortou o meu coração como um metal gelado. Um sim bem baixo foi tudo o que saiu de minha boca.
- Finalmente eu te achei. Estive te procurando.
- A mim? Por quê? – Meu tom de voz foi firme, mas eu estava tremendo de medo.
- Eu fui enviado pelo seu pai para te dar um recado
Espera ai! Meu pai?
Só quem já passou 16 dias dos pais em casa sabe como é a dor de não conhecer o seu pai. Minha mãe conta que ele a deixou grávida, de 8 meses, e nunca mais deu noticias. Ate agora...
- Você errou de Thiago. Meu pai não pode ter me mandado um recado
“Mas ele mandou” — Aquela voz estava me deixando meio tonto – “Esta noite, por exemplo, mas como você não quis ouvir ele me mandou”.
Hoje à noite? Será que foi quando...
- Thiago, não há mais tempo. Escute o que eu tenho para te dizer! Seu pai está morto morreu há 10 anos, desde então ele tenta conversar com você. Não fuja como toda noite. Escute-o! Ele...
Neste momento os corpos, antes caídos, se levantaram e vieram não na minha direção, mas do sei-la-o-que-ele-é que começou a dizer “escute-o! escute-o esta noite!” O chão se abriu e os “mortos” arrastam o homem para o buraco. Seus gritos de agonia me fizeram cair pra trás.
- Thiago! Thiago! Acorda cara!
Abri os olhos, sentindo que não fazia isto há muito tempo e dei de cara com o Rodrigo, minha mãe e um cara de branco.
- O que aconteceu? – eu perguntei me levantando, mas uma mão me empurrou para baixo. Eu olhei em volta e vi que estava dentro de uma ambulância!
- Você começou a suar e ficar frio, cara – o Rodrigo começou a falar – Ai você desmaiou. Eu liguei para sua casa e para o hospital.
- Só isso? – eu tive que perguntar
- Foi. Uai!
“Uai” Rodrigo só falava uai quando estava mentindo. Achei melhor não perguntar mais nada. Tinha uma coisa me perturbando: Meu pai morreu há 10 anos, meus pesadelos começaram há 10 anos.
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