Eu voltei pra sala, mas ela estava praticamente vazia a única pessoa dentro dela era a Mary. Foi ai que eu me lembrei. Era aula de educação física e a única pessoa que fica na sala nesse horário é a Mary.

Meu jogo de basquete. Eu já estava atrasado e não queria que o Farofa pensasse que eu estava fugindo. Desci correndo as escadas em direção ao vestiário. No caminho encontrei com a Mabi e umas amigas dela.

- Ta ai. Você só corre para aula de educação física ne Thi? – Algumas das amigas da Mabi riram com o comentário dela. Confesso que ela não esta muito errada.

- É que o Farofa me chamou para jogar basquete e eu já estou atrasado.

- Ai, ai. Vocês homens só resolvem as coisas assim. – Ela riu e foi o sorriso mais lindo que eu já vi. Eu não quero perde-la. Não posso perde-la – Faz uma de três pontos pra mim Thi? — Quando eu comecei a jogar basquete minha mãe comprou uma cesta e colocou na porta da garagem de casa e sempre que me via jogar a Mabi pedia uma cesta de três pontos.

Ela me deu um beijo na bochecha, desejou boa sorte e foi pra quadra.

Eu fiquei parado igual um bobo com a mão no lugar onde a Mabi havia dado o beijo. Voltei a mim e fui para o vestiário. Vesti o uniforme correndo. Se tinha uma coisa pior do que o uniforme azul-militar de todos os dias era o laranja com branco da educação física.

Cheguei na quadra já ofegando, mas em tempo de entrar no time.

Basquete era o único esporte que eu gostava. Lembro que quando nos mudamos para New Valley a tia Carmem sugeriu que minha mão me colocasse nas aulas de natação junto com o Rodrigo. Nadar que é bom eu não aprendi, sempre ia pra quadra ver os outros jogar e de tanto pedi minha mãe acabou me colocando no basquete. A maior vantagem de jogar basquete desde quanto tinha 9 anos era que eu sempre era escolhido para um time.

A ideia do Farofa era de me colocar no time dele, mas já estava cheio. O irônico é que ele me chamou para jogarmos juntos.

Quando o jogo começou vi que a Mabi e suas amigas estavam na arquibancada, ou seja, era vencer ou vencer.

O jogo começou e na primeira marcação do Flavio, que era o dobro de mim, fui parar de costas no chão e para minha surpresa o Farofa me estendeu a mão e xingou o cara do próprio time.

O que me doía mais era que eu e o Farofa éramos amigos ate ano passado quando ele começou a namorar com a Mabi. Ele continuava legal e super educado comigo, mas eu não conseguia mais ser amigo dele e pelo visto ele percebeu e sabe o motivo.

Nos minutos que se seguiram eu fiz vários pontos, mas não o que a Mabi havia pedido. Finalmente a chance. Eu consegui passar pelo Cristiano e pegar a bola. Mirei e teria acertado a cesta de 3 pontos, mas o Flavio mais uma vez me deu uma fechado. Desta vez eu cai e bati a cabeça no chão. Senti uma dor muito forte que foi substituída por um frio insuportável. Eu abri os meus olhos e tentei ficar de pé, mas ainda estava tonto com a pancada que recebi. Olhei em volta e percebi que não estava mais na quadra. Era um lugar escuro, olhei para cima e não conseguia ver o céu, no lugar dele havia uma massa de nuvens vermelhas. Tinha neve por todo lado e na minha frente havia um lago congelado e dentro do lago eu vi... corpos presos no gelo alguns presos da cintura para baixo, outros estavam presos ate os ombros e de outros só pude ver a cabeça. Eles pareciam emitir um grito inaudível de terror e lastimas. Me forcei a ficar de pé. Ainda meio tonto e com muito frio, eu estava com o uniforme de Ed.Fisica, comecei a andar em direção ao lago. Uma figura encapuzada me chamou a atenção. Ele era o único que não estava congelado a partir da cintura, somente os seus pés estavam presos no gelo.

- Tente não gritar comigo desta vez e, por favor, não pronuncie o nome do Anjo Caído. Logo em frente, atravessando o lago esta o seu palácio. – A voz era familiar.

- Pai?

- Pelo menos você não gritou.

- O que eu estou fazendo aqui e que lugar é esse? Não me diga que eu estou no...

- Sim você esta. Mais precisamente no nono circulo. Este é o Lago Cocite e estamos na Esfera da Judeca, é o local onde estão os maiores traidores da historia e é aqui que o Anjo Caído me mantém preso.

- Como eu vim parar aqui? Não me diga que eu bati a cabeça com tanta força que acabei morrendo?

Eu ouvi uma risada vinda do meu pai, não sabia se era de sacarmos ou se ele achou graça no meu desespero. Eu não gostava nada de não poder olhar nos olhos dele.

- Eu te trouxe aqui. Precisava te contar uma coisa...

- Espera um minuto! Se você é prisioneiro aqui como foi que me trouxe pra ca? – Eu estava no inferno? Sempre o imaginei diferente, mesmo assim não estava gostando de estar ali.

- Eu nem sempre estive preso no Lago Cocite. Eu aprendi muita coisa aqui e uma delas foi como evocar espíritos, mesmo que por pouco tempo. Eu evoquei o seu pra ca. Meu filho deixe as perguntas para depois. Ele se materializou no mundo humano e vai tentar...

Aquilo não me agradava mesmo. Ele, preso no inferno por vender a minha alma, vem dizer que não devo confiar no Lucem.

- Eu não vou te ouvir, não ate você tirar o capuz.

Meu pedido aparente não foi bem recebido. Ele ficou calado por um tempo e falou que não tínhamos tempo. Eu insisti e comecei a dar as costas. Por que ele não queria me mostrar o rosto? O que ele escondia?

- Thiago, não vá... Tudo bem, eu vou tirar o capuz.

No momento em que ele começou a retirar o capuz que lhe cobria todo o rosto os corpos, antes imóveis, começaram a se mexer e um vento ainda mais gelado soprou forte vindo do meio do gelo. Uma criatura alada gigantesca produzia a ventania com suas azas. O gelo começou a subir, alias os corpos estavam afundando ainda mais no gelo. Meu pai era um deles. Agora ele estava ate os joelhos. Quando me virei para olha-lo nos olhos me assustei, senti um medo que fez o meu coração congelar como aquele lago.

Meu pai era moreno como eu, mas os seus olhos eram mais claros era mel. Meu Deus! Era ele! O assassino da Mabi!

Não sei bem como, mas eu cai no gelo e quando me levantei estava na quadra da escola. Parece que o tempo não passou, pois estavam todos normais, como se eu tivesse acabado de cair. Eu olhei para ela, a Mabi parecia preocupada comigo, não mais do que eu estava com ela. Sem pensar duas vezes sai correndo e fui direto para sala do Rodrigo e da Jessy. Eles queriam uma prova de que podíamos confiar no Lucem. Pois eu a tive. Meu pai escondia o rosto porque sabia que eu já havia o visto. Ele vai matar a Mabi.