Visio Nocturna - Primeiro Desafio
23 Capítulo 22
Eu havia descoberto que o medo nos deixa paralisado, mas a surpresa causa um efeito semelhante. A Mabi teve que cutucar o entregador de pizza que estava com fones de ouvido e de costa para porta, olhando um grupo de garotas que passava. Eu ainda estava com a mão erguida no ar imaginando uma cobra gigante voando em direção ao meu pai que veio tirar a vida da Mabi. Quando olhei para o meu anel ele estava totalmente prateado e imóvel. O entregador ficou me olhando e depois olhou para a Mabi de cima a baixo, eu não gostei nem um pouco daquilo, passei por ela, peguei a pizza e fiquei encarando o entregador que não se intimidou nem um pouco e antes de ir embora ainda chamou a Mabi de gatinha. Eu senti muita raiva dele, mas a Mabi me mandou entrar e não caçar outra briga que com certeza eu levaria outro soco. Que ótimo! Alem de gordo a Mabi ainda me chamou de fraco. Nos fomos pra cozinha e começamos a comer a pizza lá mesmo. Eu estava tenso, confuso. Fiquei o dia todo imaginando o Rafael entrando pela porta e atacando a Mabi. Talvez eu tenha interpretado de maneira errada, apenas me desesperei e coloquei a ideia fixa de que seria hoje. A Mabi já havia comido duas fatias de pizza enquanto eu ainda estava na metade da primeira. Ela me perguntou se a pizza estava ruim, eu só respondi que estava cansado de tanto estudar e que depois de uma longa noite de sono – e uma conversa com o Lucem – eu ficaria melhor. Eu esperava que o Rafael fosse entrar a qualquer momento por aquela porta e nos atacaria, mas nada aconteceu. Depois de alguns minutos que mais pareceram anos ouvimos o carro dos pais da Mabi entrando na garagem e antes mesmo do motor desligar dava para ouvir o Rodrigo brigando com o pai dele. Já era de se esperar que isto fosse acontecer afinal o Rodrigo participou, contra a sua vontade, de uma reunião de médicos que durou mais de 7 horas. Os dois entraram aos berros pela porta da sala e atrás deles a tia Valeria tentava, em vão, fazer com que o marido e o filho parecem de gritar. O Rodrigo e o Tio Augusto passaram pela sala e foram direto para o escritório. A Mabi deu um suspiro e me olhou sem graça a tia Valeria que deve ter ido buscar uma água na cozinha ao me ver também ficou sem graça, mas me deu um abraço e começou a perguntar sobre o trabalho, nesta hora eu senti um arrepio familiar e uma voz tão suave quanto o vento me chamando. Sem duvida era ele. Falei alguma coisa sobre minha mãe ficar preocupada comigo me despedi rapidamente e fui embora. Acho que as duas pensaram que eu fiquei sem graça pela briga do Rodrigo com o pai. Literalmente corri pra casa o que era meio sem precisão, já que era só atravessar a rua.
Abri a porta e a casa ainda estava toda apagada. “Estranho minha mãe não ter chegado ainda” pensei alto.
“Não precisa se preocupar com ela. Esta tudo bem”.
Lucem estava sentado no sofá tomando uma xícara de alguma coisa. Assim que eu entrei ele fez sinal para que eu me sentasse. Achei engraçado alguém me mandar sentar na minha própria casa. Sentei na poltrona de frente pra ele. Por um tempo ele ficou apenas me olhando, tomava um gole de xícara e tornava a me olhar. Aquele silencio já estava me incomodando.
- Por você me chamou?
Lucem tomou mais um gole antes de me responder.
- Na verdade, foi você que me chamou, quando estava na casa em frente. Eu não queria te chamar, mas você estava demorando. Então, em que posso ajuda-lo?
Lucem apoiou a xícara em um pires e no mesmo instante ela se desfez em fumaça. Eu fiquei um tempo parado olhando a fumaça ate ela se dissipar, então contei pra ele do meu sonho, enquanto falava mostrei a marca das presas da aranha. Falei que o Rafael ia atrás da Mabi hoje, mas que ate agora não tinha aparecido. Eu ia começar a perguntar sobre meu sonho de hoje à tarde, mas ele ergueu a mão e me perguntou de onde eu havia tirado a certeza de que o meu pai ia aparecer hoje. Eu não respondi, na verdade por ter visto imagens enquanto estava acordado eu tirei esta conclusão.
“Thiago” Lucem estava me olhando como se olha para uma criança de 5 anos “Você tirou uma conclusão precipitada sobre isto. Eu sei que você esta assustado, quem não ficaria? Estes dois dias foram de muitas informações, mas você precisa manter a calma. Este anel que esta na sua mão reage de acordo com as suas emoções.” Eu falei que não era tão fácil manter a calma, mas apenas ergueu a mão novamente o que me fez calar no mesmo instante. “Você é o primeiro a usar este anel. Nem mesmo eu sei os poderes que ele possuiu, por isso mantenha a calma e confie em mim. Quanto ao seu sonho, devo dizer que você deu muita sorte de ter sobrevivido a este ataque. A sua ansiedade ativou o anel e a energia dele deve ter atraído um dos feiticeiros servos de Asmodeus um dos Sete Príncipes do Inferno, as aranhas são suas leais servas. Você deve estar se perguntando o que mais ele faz, mas deixarei que você descubra sozinho.” Ele deu um sorriso ao dizer esta ultima frase, se levantou e veio em minha direção. Eu tinha mais perguntas para fazer, mas por algum motivo elas desapareceram da minha mente. “Acalme-se e não se preocupe tanto ou você vai acabar surtando.” Lucem saiu pela porta da sala, por um momento em pensei que ele ia se desfazer em fumaça como a xícara. Assim que ele saiu pela porta eu ouvi o carro da minha mãe estacionando. Olhei para o relógio da sala e vi que já eram 22:30. Ainda era cedo, mas eu fui para o meu quarto antes de me deitar mandei uma mensagem para o Rodrigo perguntando como tinha sido na reunião dos médicos ele logo me respondeu que tinha sido muito chata, mas que amanhã me dava mais detalhes. Eu me deitei e logo dormir e pela primeira vez sem ouvir vozes me chamando. Foi um sono tranquilo, como eu nunca tive.
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