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Notas iniciais
Boa leitura :)

Aquela festa não era o meu lugar.


Eu sabia disso desde o momento em que cruzei a porta da casa enorme em Queen Anne, com Angela ao meu lado, puxando-me pela mão como se eu fosse uma criança perdida. O som da batida da música vibrava pelas paredes, e o cheiro de cerveja, perfume doce e algo que me lembrava vagamente alguma coisa que minha mãe fumava se misturava no ar.


Angela conhecia alguém que namorava alguém que era amigo do dono da casa. Eu não fazia ideia de quem era o dono, nem me importava. Estava ali porque a alternativa, passar mais uma noite trancada no meu quarto, ouvindo a voz cada vez mais alta da minha mãe e o silêncio do meu padrasto e sentindo o ar pesado daquele apartamento, era insuportável. Então eu fui.


E agora, dez minutos depois, estava encostada numa parede, segurando um copo que ninguém me perguntou se eu queria, e observando aquele mundo que não era o meu.


Era tudo cheio de brilho, risos fáceis e corpos bonitos. As garotas usavam vestidos que eu não poderia pagar nem com três meses de salário, enquanto os caras carregavam uma confiança de quem nunca tinha precisado se preocupar com o aluguel. A casa era de uma família rica, obviamente. Dava para ver pelo piano de cauda encostado na parede da sala, pelos móveis caros, pela piscina iluminada lá fora.


Eu me sentia uma impostora, mas estava acostumada a me sentir assim. Tinha passado a vida inteira sendo a garota que não pertencia, a que observava de fora, a que precisava lutar para se encaixar sem perder a compostura.


— Quer beber alguma coisa que não seja água? — Angela gritou perto do meu ouvido, sorrindo.

— Prefiro continuar sóbria — respondi, também gritando.


Ela revirou os olhos, mas não insistiu. Angela era boa assim. Entendia os meus limites, mesmo sem saber exatamente de onde eles vinham.


— Eu vou falar com o Ben. Você fica bem?

— Vai. Eu me viro.


Ela hesitou, mas a verdade é que eu me virava. Sempre. Me ajeitei contra a parede, tomei mais um gole da água e deixei os olhos vagarem pela sala.


Foi quando o vi.


Perto da janela, com um copo na mão, rindo de algo que um amigo dizia. Mas não foi a risada que me chamou atenção. Ele parecia, de alguma forma, presente. Enquanto a maioria dos caras ao redor falava alto demais, gesticulava demais, tentava provar alguma coisa o tempo todo, ele apenas... existia. Calmo, com os ombros relaxados e com o cabelo em um tom estranho que não era ruivo nem castanho caindo sobre a testa.


Ele olhou na minha direção naquele momento. Não foi um olhar rápido, daqueles que passam e fingem que nunca aconteceram. Foi um olhar que ficou. Ele me viu encostada na parede, com meu jeans do Walmart e a jaqueta que eu tinha comprado por cinco dólares na obra social dos mórmons que viviam no bairro, e sustentou o contato por um segundo a mais do que seria educado.


Desviei, sentindo meu rosto esquentar. O que estava acontecendo comigo? Eu não ficava constrangida por caras bonitos. Não tinha tempo para isso. Caras bonitos eram distração, e distração era a última coisa que eu precisava agora.


Voltei a observar a festa, mas sentia um zumbido estranho no ar, como se os olhos dele ainda estivessem em mim. E, alguns minutos depois, quando levantei o olhar de novo, ele estava mais perto.


Não por minha causa. Ele tinha se movido para a cozinha, a poucos metros de onde eu estava, e conversava com uma garota loira que ria de algo que ele dizia. Ela tocou o braço dele, e ele sorriu educadamente, mas não correspondeu o flerte. Não parecia interessado.


Me forcei a desviar o olhar outra vez.


— Você está sozinha?


A voz veio da minha esquerda, e eu me virei rápido. Era um cara de cabelo escuro que sorria como se tivesse acabado de me dar um presente.


— Estou esperando uma amiga — respondi, sem sorrir.

— Sua amiga pode esperar um pouco mais, não pode?

— O que você tem a ver com isso? Não estou interessada, caso não tenha ficado claro.


Ele riu, como se eu tivesse contado uma piada.


— Relaxa, eu só queria conversar.

— E eu só queria ficar em paz.


O sorriso dele vacilou, e um traço de irritação passou pelos olhos. O cara estranho abriu a boca para responder, mas foi interrompido.


— Ela já disse que não está interessada.


A voz era calma, mas carregava uma autoridade que o fez se endireitar. Levantei os olhos e encontrei o ruivo de antes parado ali, com as mãos nos bolsos e o cenho levemente franzido. O cara da camisa polo olhou de um para o outro, murmurou algo sobre "não querer problema" e se afastou.


Fiquei parada com o coração batendo estranhamente rápido.


— Obrigada — falei, com a voz saindo um pouco mais ríspida do que eu pretendia. — Eu não precisava ser salva, mas obrigada.


Ele ergueu as sobrancelhas, um canto da boca se erguendo.


— Eu sei que não precisava. Você parecia estar lidando muito bem.

— Então por que interferiu?


Ele deu de ombros.


— Porque Alistair estava sendo um idiota e você estava desconfortável.


A franqueza me pegou de surpresa. Eu estava acostumada com caras que tentavam parecer heróis. Mas ele não parecia estar tentando me impressionar. Parecia apenas... entediado com a cena toda.


— Como sabe que eu estava desconfortável? — perguntei, cruzando os braços.


Ele inclinou a cabeça, os olhos verdes percorrendo meu rosto com uma calma irritante.


— Porque você está encostada na parede como se quisesse furar um buraco até o outro lado. E a sua mão não parou de girar esse copo desde que eu cheguei.


Olhei para a minha mão. Ele tinha razão. Fechei os dedos com firmeza e soltei uma risada curta.


— Você é bem observador.

— Só quando me interessa.


O ar entre nós se tornou mais denso. Havia algo na forma como ele me olhava — sem tentar me despir ou me encaixar em alguma categoria — que me deixava desconfortável e ao mesmo tempo estranhamente desperta.


— Como se chama, senhor observador? — perguntei, porque era melhor manter o controle.

— Edward. Edward Cullen.

— Bella.


Ele estendeu a mão, e eu apertei. O toque foi breve, mas a pele dele era quente, e os dedos longos envolveram os meus com firmeza. Senti um arrepio subir pelo braço.


— Bella, sem sobrenome — ele repetiu, como se provasse o nome. — Não acho que te vi por aqui antes.

— É a primeira vez e provavelmente não vou voltar.


Edward sorriu, e o sorriso transformou o rosto dele. Deixou de ser apenas bonito para se tornar magnético.


— Por quê? Não gostou da festa?

— Não gosto de gente fingindo ser o que não é.


Ele arqueou uma sobrancelha.


— E você acha que estou fingindo?

— Não sei. Está?


Edward ficou em silêncio por um momento, com os olhos presos aos meus. Não era uma pausa desconfortável, era como se ele estivesse decidindo se eu merecia uma resposta verdadeira.


— Não. Talvez eu esteja fingindo que estou gostando, mas não finjo ser o que não sou. Aliás, lá vai: sou um estudante de pré-medicina cansado que veio a uma festa para agradar um amigo e está se arrependendo a cada minuto.


Soltei uma risada baixa.


— Medicina? Então você é inteligente.

— Isso é um elogio?

— É uma observação.


Ele deu outro passo, aproximando-se o suficiente para que eu pudesse sentir o cheiro dele. Não era perfume caro, não era cerveja. Era algo limpo, amadeirado, com um toque de frio, como se ele tivesse acabado de chegar da rua.


— E você? — ele perguntou. — O que faz?

— Trabalho num café no turno da manhã e estudo.

— Para quê?

— Para sair daqui.


A resposta saiu antes que eu pudesse pensar. Crua, direta, verdadeira, mas eu não esperava que Edward entendesse as entrelinhas. Seu olhar suavizou e ele assentiu devagar, como se soubesse exatamente o que eu queria dizer.


— Sair daqui — repetiu. — Para onde?

— Qualquer lugar que me trate melhor do que as quatro paredes do meu quarto.


Ele não perguntou o que havia de errado com o meu quarto. Não me olhou com pena, nem me tratou como uma coitada. Em vez disso, desviou o olhar para a festa ao redor, aquela sala cheia de pessoas que nunca tinham dormido com fome ou passado uma noite em claro por causa de uma discussão violenta.


— Isso aqui é tudo cenografia — ele disse, baixinho. — As pessoas vêm, bebem, riem e vão embora. No dia seguinte, ninguém lembra de nada. É vazio.


Virei o rosto para encará-lo.


— Então por que você está aqui?

— Porque às vezes é mais fácil estar no vazio do que lidar com o barulho.


As palavras me atravessaram. Não eram poéticas demais, não eram uma tentativa de me impressionar. Eram apenas verdadeiras. A mesma verdade que eu carregava comigo todas as noites, no silêncio do meu quarto, planejando um futuro que parecia distante demais.


— Eu conheço esse barulho — murmurei, sem querer.


Edward me olhou de novo, e havia algo no rosto dele que eu não soube identificar na época. Só muito tempo depois entendi: era a sensação de ser visto. De verdade.


— Eu sei — ele disse.


E foi isso.


Não foi um grande gesto, não foi um flerte ridículo, não foi um salvador com capa e montado num cavalo branco. Foi um garoto bonito, em uma festa cheia de gente vazia, olhando para mim como se eu fosse a única pessoa real naquele lugar.


A noite continuou ao nosso redor, barulhenta e alheia, mas nós ficamos ali, encostados na parede, falando de planos, de como era estranho se sentir sozinho mesmo cercado de gente. Ele me contou sobre a pressão da família, sobre a faculdade, sobre o medo de não ser bom o bastante. Eu contei que dormia com a porta trancada, que tinha um caderno cheio de anotações para um plano que eu chamava de "saída de emergência", que queria ser alguém que não precisasse de ninguém para sobreviver.


— Mas você não precisa estar sozinha para sobreviver — ele disse, a certa altura.


Eu ri, sem humor.


— Fácil falar tendo uma vida perfeita.


Edward não se ofendeu. Apenas ficou em silêncio por um instante, com os olhos fixos no copo vazio.


— Perfeita não é, acredite em mim. E se você pudesse... não sei, sentir que existe um lugar onde pode baixar a guarda. Seria bom, não?


Algo apertou no meu peito.


— Não sei — respondi, honesta. — Nunca tive isso.


Ele não disse nada, apenas deslizou a mão até a minha, os dedos tocando os meus de leve.


— Talvez um dia.


A voz dele era baixa, quase um sussurro. E, por um momento, naquela casa imensa, no meio de uma festa que não era minha, eu permiti que uma fresta de esperança se abrisse.


Quando Angela voltou, no que poderiam ser minutos ou horas depois, encontrou-nos sentados na escada dos fundos, com os ombros se tocando, em silêncio.


— Bella? — ela chamou, hesitante.


Levantei a cabeça, sorrindo.


— Já estou indo.


Edward não me pediu meu número, não tentou me beijar, não fez promessas vagas de ligar ou me procurar no dia seguinte. Apenas me olhou, com aquele sorriso de canto, e disse:


— Até mais, Bella.

— Até, Edward.


Quando saí daquela casa, levando comigo o frio da noite e um nome novo na memória, eu não sabia que aquela conversa mudaria tudo. Mas havia uma certeza crescente no meu peito, uma sensação rara e perigosa de que, pela primeira vez em muito tempo, eu não queria ir embora.

***

Cinco dias se passaram antes que eu visse Edward Cullen novamente.


Nesse intervalo, fiz um esforço considerável para convencer a mim mesma de que a noite da festa não tinha significado nada além do que realmente tinha sido: algumas horas conversando com um desconhecido. Não tínhamos trocado telefones, ele não sabia meu sobrenome e eu não tinha nenhuma razão concreta para acreditar que nossos caminhos voltariam a se cruzar.


Ainda assim, pensei nele mais vezes do que gostaria de admitir.


A lembrança aparecia nos momentos mais inconvenientes. Durante uma aula particularmente longa, enquanto eu copiava alguma coisa do quadro sem realmente prestar atenção. No ônibus de volta para casa. À noite, quando abria o caderno onde mantinha todas as contas do meu plano de sair da casa da minha mãe e encontrava, no meio dos números, aquela frase irritante sobre não precisar estar sozinha para sobreviver.


Eu continuava discordando dela.


Minha rotina também não oferecia muito espaço para romances imaginários. Eu passava a primeira parte do dia na escola e, três vezes por semana, seguia direto para o café onde trabalhava até o início da noite. Aos sábados, fazia o turno da manhã. O dinheiro não era muito, mas cada hora atrás daquele balcão representava alguns dólares a mais dentro do envelope escondido no fundo da minha gaveta, portanto eu raramente reclamava.


Na quinta-feira daquela semana, cheguei ao trabalho pouco depois das quatro com a cabeça cheia demais para pensar em qualquer outra coisa. Troquei a blusa pelo uniforme no banheiro minúsculo dos funcionários, prendi o cabelo e comecei o turno no automático.


O movimento do fim da tarde costumava ser previsível: estudantes buscando cafeína, pessoas saindo do trabalho, mães com crianças cansadas demais para permanecer sentadas e aposentados que pareciam ter escolhido aquele lugar especificamente para observar quem entrava e saía.


Foi perto das cinco que a porta se abriu e as coisas mudaram. Eu estava entregando um pedido e, quando voltei para o caixa, reconheci o cabelo bagunçado e os olhos verdes que já tinham ocupado espaço demais na minha cabeça naquela semana.


Parei por uma fração de segundo.


A surpresa no rosto dele foi tão imediata que eliminou qualquer possibilidade de aquilo ter sido planejado. Edward olhou para mim, depois para a placa atrás do balcão, como se precisasse confirmar que realmente estava no lugar certo. Então sorriu.


Meu estômago fez uma coisa inconveniente, mas continuei atendendo. Quando chegou sua vez, ele apoiou as mãos no balcão.


— Bella sem sobrenome.

— Edward Cullen.

— Você trabalha aqui.

— Meu avental diz que sim.


Ele soltou uma risada baixa e olhou ao redor.


— Eu nunca tinha entrado aqui antes.

— E por que decidiu entrar hoje?

— Eu tinha uma aula por perto e precisava de café.


A resposta era simples demais para ser inventada.


— Isso é um pouco decepcionante.

— Esperava uma história melhor?

— Talvez alguma coisa envolvendo destino, encontros marcados por algo superior, essas coisas.


Edward inclinou a cabeça.


— Você acredita em destino?

— Não.

— Então o café parece mais seguro.


Tive que conter um sorriso enquanto olhava para a fila que começava a se formar atrás dele.


— Vai pedir alguma coisa?

— Um café puro de tamanho grande, para agora.


Esperei.


— Só isso?

— Tem algum problema com o café puro?

— Nenhum. Só esperava mais criatividade de alguém que estuda medicina.

— Pré-medicina.

— Ainda pior.


Ele pagou, levou o copo para uma mesa vazia perto da janela, tirou um livro enorme da mochila e começou a estudar e fazer anotações. Aquilo deveria ter sido o fim.


E, por quase uma hora, foi. Eu trabalhei, Edward estudou.


Às vezes nossos olhares se encontravam, e sempre que isso acontecia um de nós desviava primeiro. Não havia motivo para transformar aquela coincidência em alguma coisa maior do que era.


Mesmo assim, quando meu intervalo chegou, percebi que ele continuava ali.


Peguei meu sanduíche e um livro na mochila. Normalmente teria ido para a pequena sala dos funcionários, mas todas as mesas do fundo estavam vazias e o lugar parecia menos abafado do que de costume. Sentei algumas mesas distante da dele.


Edward percebeu, mas não falou nada. Durante alguns minutos, cada um continuou ocupado com a própria atividade. Foi ele quem quebrou o silêncio.


— Então essa é a parte em que fingimos que não nos conhecemos?


Levantei os olhos do livro.


— Nós nos conhecemos?

— Conversamos por algumas horas, não conta? — devolveu.

— Depende de quanto você bebeu.


Ele levantou o copo na minha direção.


— Era só água, assim como o seu.

— Certo, então talvez conte.


Edward sorriu e voltou para o livro. A ausência de insistência acabou me fazendo falar outra vez.


— Você realmente entrou aqui por acaso? — Ele olhou para mim e assentiu. — Porque seria estranho se tivesse me procurado.

— Saber só seu primeiro nome teria dificultado bastante esse processo.

— Isso nunca impediu pessoas estranhas.

— Você tem experiências preocupantes, Bella.


Voltei a ler. Alguns segundos depois, ele perguntou:


— Trabalha sempre depois da escola? Aliás, eu achei que você estivesse na faculdade.


Olhei para cima.


— O que te diz que eu estava na escola?


Edward apontou para minha mochila no chão. O zíper aberto deixava metade de um livro didático à mostra.


— Muito observador.

— Já ouvi isso antes, onde será que foi?


Revirei os olhos.


— Respondendo à primeira pergunta, trabalho aqui quatro dias por semana.

— Deve ser cansativo.

— Às vezes.


Ele assentiu e não perguntou por quê, o que me chamou atenção. Não houve a próxima pergunta previsível.


Por que trabalha tanto?

Seus pais não te ajudam?

Para que precisa do dinheiro?


Edward simplesmente aceitou a informação.


Nos minutos seguintes, conversamos sobre coisas sem importância. Ele tinha passado a tarde numa aula particularmente ruim de química. Eu tinha uma prova de história na manhã seguinte. Descobri que ele odiava café com açúcar e ele descobriu que eu levava livros para o trabalho porque havia momentos em que o salão ficava vazio o suficiente para ler algumas páginas.


Meu intervalo terminou antes que qualquer assunto chegasse perto de se tornar importante.


— Preciso voltar.


Edward também não tentou continuar a conversa enquanto eu trabalhava. Ficou mais algum tempo e foi embora pouco depois.


Quando percebi que sua mesa estava vazia, senti uma pequena decepção. Imediatamente me irritei comigo mesma por isso.

***

Ele apareceu novamente quase duas semanas depois.


Dessa vez, eu não estava esperando. Ou, pelo menos, era o que dizia.


Era sábado e o movimento tinha diminuído perto das dez da manhã quando vi Edward atravessar a porta.


Ele me reconheceu imediatamente, mas não parecia surpreso. Dessa vez, ele parecia satisfeito.


— Então esse café existe mesmo — comentou ao chegar ao balcão.

— Você voltou.


As palavras saíram antes que eu pudesse impedir.


— Aqui estou eu.

— Gostou do café?

— Não particularmente.

— Então por que voltou?


Ele olhou para o quadro de preços por um segundo.


— Estou tentando dar uma segunda chance.

— Ao café?


Edward me olhou por um momento.


— Entre outras coisas.

Meu rosto esquentou e peguei um copo antes que ele pudesse perceber.


— Café preto, no copo grande?

— Você lembra.

— É um pedido difícil de esquecer pela completa falta de personalidade.

— Eu estava quase me sentindo especial.

— Não se acostume.


Ele levou o café e, mais uma vez, abriu livros numa mesa. A segunda visita tornou a terceira menos estranha. Edward não vinha todos os dias, nem nos mesmos horários. A terceira visita demorou uma semana inteira, mas as próximas vieram com intervalo de dois dias.


Ele nunca perguntou meus horários, nunca apareceu perto do fim do expediente esperando que eu saísse com ele. Simplesmente entrava, comprava café e estudava. Se meu intervalo coincidisse, conversávamos. Se não, trocávamos duas ou três frases no balcão.


Aos poucos, fomos aprendendo coisas sobre o outro.


Edward odiava café com açúcar, mas colocava mel no chá. Tinha uma irmã que parecia ter transformado a invasão de privacidade numa demonstração de afeto. O pai era cirurgião e a mãe trabalhava com projetos de decoração e filantropia — mais um indicativo de que estávamos em realidades financeiras muito distintas.


Ele descobriu que eu gostava de ler durante os intervalos, que odiava matemática apesar de ser boa nela e que preferia os turnos de sábado porque conseguia passar boa parte do dia longe de casa.


Essa última informação escapou numa manhã. Edward estava sentado à minha frente durante o intervalo quando a conversa levou a isso.


— Você sempre parece mais tranquila aos sábados.

— Porque minha mãe dorme até tarde.


Ele esperou.


— E isso é bom?


A pergunta foi cuidadosa o suficiente para me dar a opção de não responder.


— Significa que quando eu voltar para casa provavelmente ainda não aconteceu nada.


Edward abaixou os olhos por um instante.


— Entendi.


Nenhuma pergunta sobre o que poderia acontecer, nenhuma expressão de pena. Talvez fosse justamente por isso que, alguns minutos depois, fui eu quem continuou.


— Às vezes ela fica difícil.


Não sabia como explicar Renée sem transformar minha vida inteira numa conversa que eu não queria ter. Edward pareceu compreender o limite.


— Você não precisa se explicar, se não quiser.


A frase me aliviou de uma forma quase embaraçosa.


— Obrigada.


Mudamos de assunto e falamos sobre livros durante vinte minutos.

***

Foi assim por algumas semanas, nada grande o suficiente para ter um nome.


Edward aparecia, eu trabalhava. Conversávamos, depois ele ia embora.


Até que comecei a perceber quando não aparecia e isso me incomodou mais do que deveria. Numa sexta-feira, a porta abriu tantas vezes que parei de contar quantas delas me fizeram levantar os olhos esperando ver aquele cabelo impossível.


Ele não veio e eu disse a mim mesma que não importava.


Edward Cullen tinha uma vida que existia completamente separada da minha. Faculdade, amigos, família, provavelmente dezenas de cafés muito mais perto do campus. Ele não tinha qualquer obrigação de continuar entrando naquele.


Na terça-feira seguinte, a porta se abriu perto das cinco e meia e lá estava ele. A primeira coisa que senti foi alívio.


A segunda foi irritação por ter sentido alívio.


— Você sumiu.


O sorriso apareceu devagar em seu rosto, me causando uma sensação estranha que foi direto para a área abaixo do meu umbigo.


Droga.


— Você percebeu minha ausência, então.

— O café perdeu um cliente, isso pode afetar nossos lucros.

— Imagino.


Preparei o café antes que pedisse e coloquei diante dele. Edward olhou para o copo e depois para mim.


— Você decorou.

— Continua sendo um pedido de dois ingredientes.


Pegou o copo.


— Provas.

— O quê?

— Você ia perguntar por que eu sumi. Tive duas provas e um seminário, passei quase uma semana vivendo na biblioteca.

— Parece saudável.

— Não foi — respondeu, e me questionei se ele conseguia entender ironias.


Ele deu alguns passos em direção à mesa, então parou e se virou para mim.


— Senti falta daqui.

— Do café?


Edward sustentou meu olhar.


— Entre outras coisas.


Dessa vez ele foi embora antes que eu conseguisse responder.


***

A troca de números de telefone só veio quase um mês depois.


Até então, nós já sabíamos coisas demais sobre o outro para duas pessoas cuja comunicação dependia de encontros na cafeteria.


Edward sabia em quais dias eu normalmente trabalhava, não porque tivesse perguntado, mas porque começara a reconhecer o padrão. Eu sabia que às quintas ele costumava estar mais cansado porque tinha laboratório cedo. Ele às vezes trazia um livro que achava que eu gostaria e deixava sobre a mesa durante o intervalo. Eu devolvia na semana seguinte com comentários escritos num pedaço de papel enfiado entre as páginas.


Ainda assim, quando um de nós saía daquele café, o outro desaparecia.


Foi ele quem finalmente tornou aquilo estranho em voz alta. Era uma noite chuvosa e meu turno tinha terminado pouco depois das sete. Eu saí pela porta da frente e encontrei Edward sob o toldo, guardando alguns livros na mochila.


Ele tinha acabado de sair também.


— Vai para casa? — perguntou.

— Eventualmente.


O ônibus ainda demoraria quinze minutos e esse horário nunca era o melhor para estar em casa. Edward olhou para a chuva.


— Posso esperar com você?

— Você tem um carro, por que ficaria esperando o ônibus?

— Para te fazer companhia.

Balancei a cabeça e começamos a caminhar até o ponto. Ele já tinha oferecido carona uma vez, semanas antes, que recusei, e nunca ofereceu novamente. Não fiquei ofendida, na verdade gostei de não precisar dizer não duas vezes.


Quando chegamos, a chuva tinha engrossado. Ficamos lado a lado observando carros passarem pela rua molhada.


— Isso é meio ridículo — disse Edward, depois que um carro quase nos ensopou ao passar rápido demais.

— O quê? Você ficar aqui comigo?

— Eu sei onde você trabalha, quais livros você gosta e que você odeia quando alguém dobra o canto de uma página. Mas, se amanhã esse café fechar, eu não tenho como falar com você — Edward tirou o celular do bolso, mas não o estendeu imediatamente. — Posso ter seu número?


A pergunta parecia muito maior do que deveria. Não era como se eu nunca tivesse dado meu telefone para alguém mas, até então, Edward existia num lugar específico e restrito. Eu podia encontrá-lo no café, conversar e voltar para casa, deixando aquilo do lado de fora. Dar meu número significava deixar que atravessasse a fronteira.


— Você levou bastante tempo — comentei.

— Eu estava tentando não te assustar.


Ele estendeu o telefone. Digitei meu número e, quando apareceu o campo para o nome, escrevi apenas Bella.


Edward olhou para a tela quando devolvi.


— Ainda sem sobrenome.

— Você ainda não perguntou.

— Achei que fosse proibido.


Sorri.


— Swan.

Ele levantou os olhos.


— Bella Swan.


Ouvir meu nome inteiro na voz dele provocou alguma coisa estranha no meu estômago. Edward guardou o celular no instante em que meu ônibus apareceu ao longe.


— Então posso mandar mensagem?

— Imagino que esse fosse o objetivo.


Revirei os olhos e subi no ônibus. Escolhi um lugar perto da janela e meu telefone vibrou antes mesmo que o veículo andasse.


Edward Cullen: Agora eu também sei seu sobrenome. Foi uma noite produtiva.


Olhei pela janela. Edward ainda estava no ponto.


Bella Swan: Não se empolgue.

Edward Cullen: Tarde demais.


O ônibus começou a andar. Guardei o celular, mas o sorriso permaneceu.


Nada tinha mudado radicalmente, eu ainda precisava concluir o ensino médio em dois meses, ainda trabalhava depois das aulas porque precisava de dinheiro, ainda tinha um envelope escondido e um caderno com contas que diziam quanto faltava para conseguir sair de casa.


Edward não era uma solução para nenhuma dessas coisas e eu começava a gostar justamente disso. Ele não tinha entrado naquele café procurando uma garota para salvar, tinha entrado porque precisava de café e, por acaso, eu estava ali.


Talvez eu ainda não estivesse pronta para admitir o quanto gostava dessa diferença.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.