Visco ou Azevinho?
1 Cartinha do Papai Noel
Apesar do Inverno e da temperatura regulada dentro do escritório de um alto prédio em Chicago, Felícia Hardy sentiu o corpo quase borbulhar. Ela não sabia dizer se era por raiva ou por saudade. Não importava, porém.
Afinal, estava ali na sua cara; era preto no branco, em letras serifadas e indiferentes aos seus sentimentos ou ao suposto clima festivo do fim de Dezembro: a cláusula exigia a presença in loco de um dos donos da propriedade durante o "Festival das Luzes Eternas", entre 22 e 25 de Dezembro, para validar o contrato. Um contrato, ela suspirou, que seu pai assinara há meses e Felícia jamais suspeitou.
Era uma surpresa, quem sabe. Uma surpresa para lembrá-la de quando era menina e amava as casas feitas de biscoitos de gengibre, sempre parando na vitrine de cada confeitaria no caminho para observar vilarejos feitos de biscoito, glacê e luzes de vela ou à bateria. Sempre segurando a mão do seu pai só para ver mais um pouquinho. Uma surpresa que remetia à doçura, uma viagem de pai e filha ao passado.
Mas a verdadeira surpresa foi um acidente de carro estúpido em Junho. Ataque cardíaco ao volante. A batida veio em seguida. Ele não teria sobrevivido ao impacto, se tivesse sobrevivido ao infarto fulminante.
Seis meses depois, Felícia ainda lidava com papeladas, contratos, taxas, assinaturas, advogados, contadores, pastas e o cartório. O maldito cartório.
E agora, teria que lidar com uma casa pequena, adquirida em um leilão, daquela cidade do interior estúpida, Hollow Oak, com uma praça com o óbvio e frondoso carvalho ao centro.
A propriedade em questão era listada e sinalizada no mapa turístico distribuído a milhares de visitantes. Uma publicidade gratuita e valiosa, embora Felícia não tivesse intenção de ficar com a casa; nem para morar, nem para investir, não importava o charme da madeira ou o jeito que a neve se acumulava nas beiradas, igual glacê.
Ela tinha parado de gostar do Natal aos dezessete anos. Agora, aos trinta e dois, não estava no clima para as festividades natalinas. Muito menos tinha saco para interagir com o comitê especial, formado por proprietários das casas e estabelecimentos “aconchegantes” e caricatos do mapa turístico. Em Hollow Oak, um turista podia cortar um pinheiro, fazer seus próprios ornamentos, visitar uma pequena loja de globos de neve, comprar ou participar de fornadas de doces caseiros na confeitaria “Botões de Açúcar”... Felícia temeu que a creche local lhe obrigasse a adotar um elfo.
Afirmou para si mesma que a viagem seria curta e serviria de desculpa para ninguém incomodá-la naquela semana de Natal, nem com convites falsos, nem com os convites oferecidos por pena. Era apenas uma… Obrigação contratual. Dessa forma, não teria que lidar com mais taxas e poderia vender a casa futuramente sem dores de cabeça. Ou assim ela esperava.
Ao final do dia, a mala estava pronta e o carro abastecido para uma viagem de três horas. Queria ir, assinar e sumir por uma chaminé igual à figura mais ilustre da noite.
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