Vênus era uma garota nova. Deveria estar no auge dos seus 14 anos.

Me lembrava de ter 14 anos. Da sensação de tudo ao seu envolto te engolir, do sentimento de perda, da falta de sentido que o mundo ao meu redor fazia.

Mas, claramente, eu não tive os mesmos 14 anos que ela.

Com 5 anos, Vênus sofreu um acidente de carro, no qual seu pai dirigia discutindo com a sua mãe e ela dormia silenciosamente no banco de trás. O triste e clichê acontecimento que levou a jovem a perder a visão.

Ainda que, de todo, eu achasse que a sua visão era bem melhor que a minha.

Durante anos, a garota com os grossos cabelos longos e loiros fora minha aluna, e, todos os dias, ela me impressionava com alguma visão nova a respeito do mundo.

Sendo sempre guiada por sua cadela, ela tocava as pessoas ao sorrir. Gargalhava sempre que esbarrava em algum lugar novo. Nunca pedia por ajuda.

Na maior parte dos meus dias, queria ser como ela. Feliz, livre das amarras humanas que me prendiam a um ciclo infinito de infelicidade.

Ela era perfeita para ajudar Lucca, porque era perfeita para me ajudar também.

No final do dia, estava sentada a minha sala acariciando meu gato. Não tive tempo de arrumar nada, mas não estava incomodada, afinal, ela não estava enxergando a pilha de roupas sujas bem a sua frente.

—Qual seu sonho, Sarah? – A sua pequena cabeça redonda não se moveu, ainda fitava o nada, sem parecer apontar para qualquer objeto especifico.

—Como assim? – Respirei fundo, me sentando a sua frente.

—Em que tipo de coisas você pensa antes de ir dormir? Quais são seus sonhos e metas de vida? – Tateando o ar, ela conseguiu achar meu rosto, deitou suas mãos em minhas bochechas e sorriu.

—Eu queria fazer algo que realmente importa para um tanto de gente.

—Mas você já faz isso.

—Então eu não sei. – Suspirei.

—Eu acho que, na verdade, você só queria fazer algo que realmente importasse para você. – Ela comprimiu os lábios.

E ela tinha razão.

A leve batida na minha porta era facilmente reconhecível.

—É ele? – Ela sorriu.

—Acho que sim, vou responder a porta.

Segurei suas pequenas mãos e as coloquei de volta em seu colo, então me levantei e fui até a porta. Olhando pelo olho magico, vi o topete alto e negro, o terno limpo e a cara de impaciente.

Abri a porta em êxtase. Vê–lo sempre fazia meu coração palpitar.

—Sarah. – Ele sorriu.

Sua rouca voz já havia passado por várias mudanças e aquele timbre era o meu preferido.

O abracei, ação que o desconcertou um pouco – como sempre o fazia. Então ele se virou para a vastidão de dentro do meu apartamento.

Com as sobrancelhas, julgou a bagunça, mas apenas com a sua boca caindo ao chão ele demonstrou reação ao ver a jovem sentada em minha mesa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.