Visões
1 Prólogo.
Quais são os seus sonhos, Lucca? — Indaguei.
Seus grandes e verdes olhos me julgaram, carregados de raiva.
—Você realmente acha que essa é a hora certa para me fazer este tipo de pergunta? — Seus lábios juntos em desprezo não aliviavam a tensão de sua testa cheia de linhas de expressão.
—A minha mente só funciona desta maneira. Quando é colocada em pressão, ela só...
—Foge pra um mundo muito distante da realidade? — Ele ergueu a sobrancelha esquerda, se sentando no meio fio ao meu lado.
Aos poucos sua face se suavizou, ele sabia que os problemas iam se resolver a medida que relaxasse. A única dificuldade até que isso ocorresse era relaxar.
—Exatamente. — Suspirei.
—No momento, eu sonho em não estar aqui, em não estar tão próximo de perder tudo que eu trabalhei anos para conseguir. — Seu cenho se fechou novamente.
—Não esse tipo de sonho. Eu quero saber o que você imagina quando coloca a cabeça no seu travesseiro antes de dormir, o que te ajuda a desligar.
—Não acho que eu tenha disso. — A súbita realização do que acabara de dizer o atingiu assim que sua boca se fechou, sabia disso pela careta indigesta que fez.
—Isso é triste. — Olhei para frente.
O sol já vinha dormir. Estávamos muito atrasados, desesperados e sem nenhuma possível saída para todo aquele problema.
Sabia o quanto aquilo era importante para ele. Talvez o trabalho mais importante que já havia feito.
O que eu não sabia era o que fazer a seguir.
—Lembra como a gente se conheceu Sarah? — Ele sorriu, ainda vidrado no horizonte incerto – Penso naquilo, naqueles dias simples... Tudo que queria era chegar na aula e sentar ao seu lado. Eu acho que sonho com aquilo, com aquela paz de saber que, no final das contas, existia alguém que me entendia e me respeitava, sem me fazer muitas perguntas.
—Ainda existe. — Soquei de leve seu braço, sendo contagiada pelo seu sorriso.
Nos conhecemos na escola. Não em um daqueles clichês de filmes em que você esbarra com a pessoa e ela é o amor da sua vida. Nos conhecemos no sujo banheiro do segundo andar, chorando juntos ao chão e sem nenhuma perspectiva de sair dali.
Naqueles dias, Lucca já sabia muito bem o que era: um garoto trans. Mas como já é de se imaginar, não foi uma experiência agradável dividir isso com seus pais ou com a escola. Era por isso que ele estava no banheiro feminino, jogado no chão e chorando aos soluços enquanto comia bolinhos Ana Maria.
Naqueles dias, eu não sabia nada sobre quem era. As coisas eram mais palpáveis dentro da minha cabeça. Preocupava-me com notas, com a faculdade daqui há três anos. Eu me preocupava. Era por isso que fui ao banheiro feminino me jogar ao chão ao lado do garoto que seria meu melhor amigo, chorar e comer bolinhos Ana Maria.
Talvez, eu concordasse com ele. Talvez fosse tudo mais fácil antes.
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