Você já foi atingido pelo súbito desejo de fazer parte de algo grande? De não se limitar as fracas amordaças humanas que todos nós temos?

Eu sou definida por esse desejo, por esta constante inquietação.

Alguns diriam que isso é ruim, mas já eu acredito que um dia este incomodo me levará longe.

Para Lucca, as coisas eram mais simples.

Ele tinha abraçado as suas mordaças humanas.

Seus sonhos eram concretos, palpáveis e de fácil acesso. Ou pelo menos, em tese.

Como sua melhor amiga, como uma pessoa cis, eu pude apenas assistir e apoiar a sua luta constante para conquistar seu lugar de direito no mundo. Estava lá em seus anos de estudo na faculdade, trabalhando em um café infestado de atores meia boca, insatisfeitos com a quantidade de glúten em toda comida. Estava lá em seu primeiro estágio de importância, com pessoas que só sabiam tagarelar a respeito das suas próprias conquistas. Mas, acima de mim, estava o medo constante.

Presente, em todos os dias da sua vida, o medo de ser descoberto o enclausurou em medidas para acobertar a sua verdadeira identidade.

Senti–me liberta quando ele gritou aos céus que era trans.

Infelizmente, ele só se sentiu mais preso em sua constante necessidade de se provar melhor do que todos, apenas por ser quem era.

Muitas vezes, eu não sabia se aquela era uma necessidade real, se o mundo realmente cobrava aquilo dele, ou, se tudo era fruto da sua mente.

O que eu sabia era que precisava estar ao seu lado, sempre.

E foi assim, às nove horas da manhã de uma terça–feira nublada que o meu fardo foi cobrado.

—Não posso falar agora, estou trabalhando. – Atendi o telefone irritada.

—Preciso de você. – Sua rouca voz preocupada normalmente tinha aquele tom.

—O que aconteceu? – Suspirei.

Sentei–me em algum canto, aquilo duraria algum tempo.

—Acabei de ser chamado para o maior evento da minha carreira. É o meu primeiro trabalho completamente solo.

—Então você não realmente precisa da minha ajuda, certo?

—Sarah!

—O que?

—Essa mulher... Condessa Camille Delaféri.

—Uma Condessa? Quem ainda usa esses títulos ridículos?

—Me deixe terminar, Sarah!

—Tudo bem.

—Ela tem uma filha deficiente que vai fazer 15 anos. Eu preciso de uma festa inteira direcionada para as pessoas que tem algum tipo de deficiência. Não tenho a menor ideia de onde começar.

—E é por isso que você precisa da minha ajuda? – Bufei.

—Sim.

Felizmente, ideias como aquela dançavam em minha cabeça em sintônia certa e corriqueira. Não me bastou um minuto digerindo a informação e eu sabia exatamente do que ele precisava.

Só não sabia muito bem se era o que ele queria.

—Minha casa, hoje à noite às 7 horas. Você vai pagar a comida.

Saí do armário de vassouras e voltei a sala de aula com todos aqueles adolescentes.

Respirei fundo.

Lá ao fundo da sala, com longos cabelos loiros e óculos escuros quadrados, abraçada a um Golden Retriever estava a resposta para o problema de Lucca.