Visões
22 XXII. Desconfiada
Notas iniciais
Não ouvia mais nada. Não via mais nada. Não sentia mais nada. Aquela era o caminho para a morte? Alexia estava perdida, sentindo o braço arder como nunca ardera antes. Gritou com a dor e em seguida, sentiu uma mão pesada sobre seus lábios. O que era aquilo? Esforçou-se para abrir os olhos, mas algo a impedia. Aos poucos o sentido da audição foi voltando. Conseguiu ouvir um barulho de água. Estava perto de um rio ou algo assim?
Mais uma vez seu braço ardeu e tentara gritar com tal dor, mas a mão continuava tampando sua boca.
– Se alguém nos encontrar agora, estaremos mortos! – Uma voz grave murmurou.
O homem enfaixou o braço da menina com faixas. Depois tirou a mão da boca dela, vendo-a respirar forte e tossir algumas vezes. Ela sentou-se e tirou a venda que cobria seus olhos. Piscou os olhos devido a claridade, aos poucos foi se adaptando a luz. Seus olhos procuraram desesperadamente por Lion, até encontrar a figura de uma pessoa diferente. Piscou mais algumas vezes, para enxerga-lo.
– Jason? – Chamou ainda com a vista embaçada.
– Exatamente. – Murmurou sorrindo. – Surpresa em me ver?
– O-onde está Lion? O que aconteceu com ele? – Ela perguntou ficando louca por respostas.
– Lion... – Ele baixou a cabeça, tenso. – Lion está morto.
– O que? Mas como? – Ela perguntou surpresa.
– Eu cheguei e você estava jogada de um lado e ele do outro. Tinha um homem aproximando-se de você, provavelmente queria seu sangue. – Pausou e encarou a garota. – Lion estava esfaqueado em várias partes do peito, um dos cortes com certeza atingiu seu coração.
– Não... Não pode ser.... Lion não está morto! Ele não está... Morto. – Gaguejou sentindo os braços de Jason em volta de si.
Ela hesitou. Simplesmente não o abraçou de volta. Jason acariciava seus longos cabelos negros enquanto a abraçava a força. Ela o empurrou para longe, encarando-o.
– Lexie, não podemos ficar aqui. – Ele murmurou ainda a abraçando. – Aqui é perigoso, Demian nos acharia facilmente.
Ela afastou-se, cambaleando para o lado. Jason tentou segura-la, mas ela recusou, forçando o próprio corpo a controlar-se.
– E para onde vamos? – Ela perguntou confusa.
– Vamos voltar para o acampamento. – Murmurou. – Eles estão abrigados do outro lado da floresta.
Ela abriu um sorriso minúsculo e disse:
– Você os encontrou...
– Sim. – Falou sem olhar para ela.
Não sabia o porquê, mas não confiava nele. Ele estava estranho, diferente. Também não acreditava que Lion estivesse morto. Ela o alimentou, fez o certo, ele simplesmente não podia morrer assim. Tem algo muito mal contado nesta história e ela sabia disso.
~
Foram noites difíceis acampar com Jason para prosseguirem no dia seguinte. A jovem garota não dissera uma única palavra, só aceitava o que Jason trazia para o jantar. Nem um agradecimento, nada. Estava de luto por Lion, o que ela sentia por ele era diferente. O amava, sabia disso. Se não o amasse não teria arriscado a própria vida para deixa-lo vivo. Culpava-se por ele não conseguir se salvar.
Agora era Jason que tentava conversar com ela, mas recusava-se a falar muito. Não sentia-se bem. Não ali, não naquele momento.
– Vai querer mais um pouco? – Jason pergunta abruptamente.
Lexie balançou a cabeça negativamente.
– Você nunca mais vai falar comigo? – Ele perguntou.
Ela o encarou incrédula. Será que era difícil respeitar o luto de outra pessoa?
– Como você se machucou? – Perguntou gélida.
– Encontrei alguns obstáculos no caminho. – Murmurou olhando fixamente para ela.
– Você está mudado. – Murmurou voltando a tirar mais um pedaço da carne de marmota que Jason caçara.
– Eu cresci, como disse encontrei obstáculos no caminho. – Murmurou.
– O que você encontrou? – Ela perguntou.
– Demian... – Falou baixo e abaixou a cabeça. – Consegui fugir dele.
– Demian não permitiria que ninguém fugisse tão fácil. – Indagou encarando-o.
– Não disse que foi fácil. – Falou gélido.
Então ela calou-se. Sentada em volta da fogueira numa noite fria. Tudo estava tão calmo. Mal parecia que ela e Jason estavam sendo caçados por um demônio e seus aliados vampiros. Ela o encarou novamente. Ele estava tão mudado. Não se parece nem um pouco com o Jason que conhecera ao decorrer dos tempos.
Começou a se perguntar se já tinha descoberto o caso de Jannie e Max. Já fazia tanto tempo... Talvez ela fosse conhecida como a filha desaparecida de um casal morto ou talvez, como a filha que assassinou os pais durante a madrugada.
Suspirou terminando de comer a carne do animal morto e deixando sua pele de lado. Deitou-se no chão coberto de folhas secas e fechou os olhos lentamente.
~
– Alexia! – Gritou alguém. – Lexie, ajude-me!
Era Lion, ela tinha certeza disso. O procurou ao redor da floresta, avistando seu corpo encostado num tronco de árvore. Parecia estar ferido. Aproximou-se dele rapidamente e ajoelhou-se a seu lado. Ele estava sem a camisa, mostrando os cortes fundos de uma adaga qualquer. Uma delas dava diretamente para o coração, como Jason dissera.
– Lion! – Ela o abraçou, enquanto ele grunhia com a dor do corpo da menina contra o seu. – Você está vivo!
– Preciso lhe dizer uma coisa... – Ele murmurou fraco.
– O que? – Perguntou.
– A qualquer momento, Demian estará em sua sombra, tome cuidado... Ele pode te iludir, Lexie. – Tossiu mais algumas vezes e esforçou-se para continuar respirando. – Fique viva. Darc precisa de você... Meu caminho acabou aqui. – Ele disse com os olhos fixos nos dela.
– Lion, não! Não deixe-me só! – Ela gritou. – Eu preciso de você, fique comigo.
– Você sabe cuidar-se sozinha... Não precisa mais de mim. – Murmurou quase inaudível.
– Lion, não... Por favor. – Suplicou com lágrimas contornando seu rosto.
Lion esforçou-se para ficar ereto e fechou os olhos lentamente.
– Adeus Lexie...
– Lion...? – Chamou-o. – Lion por favor... Resista. Eu preciso de você... Estou com medo...
Ela encarou o rosto dele, vendo-o empalidecer ainda mais. Ela o desencostou da árvore, fazendo-o deitar-se com a cabeça apoiada numa raiz exposta. Deitou-se ao seu lado e ficou ali por um tempo, chorando em cima de seu corpo morto.
– Não me deixe... – Sussurrou.
Levantou-se lentamente e encarou seu rosto uma última vez. Aproximou-se de seus lábios e hesitou. Acariciou seu cabelo castanho escuro, depositando um beijo em cada olho fechado. Depois foi até seus lábios e beijou-o como uma despedida. Um beijo tenso e doloroso, lágrimas escorriam e de repente afastou os rostos, deitando mais uma vez ao seu lado.
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