Visões
16 XVI. Escolhas
Notas iniciais
Lion e Jason permaneciam calados, cada um em um sofá esperando com que a garota voltasse. Ao ouvir passos nas escadas, ambos fitaram-na abruptamente, saindo de seus pensamentos internos.
– Você está bem? – Jason perguntou já se levantando.
A menina enxugou os olhos com a manga da blusa e assentiu lentamente. Seu rosto estava completamente vermelho de tanto chorar. Ela encostou-se na parede da escada e manteve a cabeça baixa.
– Vocês podem dormir aqui em baixo se quiserem. Eu... – Ela começou.
– Nós não dormimos. – Lion murmurou sem expressão.
– Mas devem estar cansados. – Insistiu.
– Alexia, — Lion levantou-se do sofá onde estava sentado e caminhou até ela. – não se preocupe com a gente, ficaremos bem. Temos que nos manter acordados para proteger você. – Ele a encarou nos olhos.
– Mas...
– Lion tem razão. – Jason falou aproximando-se dos dois. – Também acho melhor ficarmos todos juntos, para prevenir ataques de surpresa.
– Tudo bem. Eu vou pegar um cobertor lá em cima.
Os dois assentiram e a menina subiu as escadas novamente.
– O que deu em você para falar que não dormimos? – Jason começou. – Ela já está confusa com os undeads que matamos esta tarde.
– Cedo ou tarde ela vai descobrir o que somos, Jason. – Murmurou calmo.
– Quanto mais tarde melhor. – Retrucou.
– Ela é o oráculo, é bem capaz que descubra por si mesma.
A boca de Jason tornou-se uma linha fina. Respirou fundo, fechou os olhos lentamente e quando os abriu novamente, Alexia estava descendo as escadas.
– Estou cansada, vou dormir no sofá maior.
– Ficarei vigiando lá fora, qualquer coisa me chamem. – Lion falou já saindo da casa.
Jason ficara observando Alexia dormir. Notou que seu corpo estava tenso e então suspeitou que mais uma visão viria. Sua testa começou a suar frio. Rapidamente pegou um pano qualquer na cozinha e começou a enxugar a testa dela. Sua pele ficava cada vez mais pálida e suas veias mais evidentes. Lion entrou abruptamente, ele percebera que havia algo de errado.
– Quer ajuda? – Perguntou.
Jason assentiu rapidamente com a cabeça e Lion aproximou-se dos dois.
Alexia estava na floresta novamente. Parecia estar perdida, sem rumo. Ela olhava por todos os lados, ouvia passos vindo em sua direção. O medo a consumiu em fração de segundos e por um segundo parou de respirar.
– Alexia? – Era uma voz conhecida. – Eu sabia que você voltaria.
– Demian... – Murmurou em voz baixa.
– Sentiu muitas saudades de seus pais?
– Eles não tinham nada a ver com isso! – Explodiu, começando a deixar lágrimas caírem.
– Eu quero você minha jovem. – Ele disse num tom sério. – Vou lhe fazer uma proposta: Você vem comigo e faço seus pais voltarem à vida.
– Não acredito em uma palavra do que diz! – Aumentou o tom de voz.
Demian a encarou de forma assassina. Aproximou-se dela e segurou seu rosto com uma das mãos apertando cada vez mais. Alexia tentara soltar-se mas quanto mais se mexia, mais doía seu rosto.
– Você se esqueceu de quem eu sou? – Rosnou as palavras e apertou ainda mais o rosto dela, em seus dedos começaram a crescer garras afiadas, estas perfurando o rosto da menina. Ela gritou tentando golpeá-lo com as duas mãos livres, mas ele as segurou com sua mão esquerda. – Se eu estivesse no seu lugar, tomaria cuidado com as palavras.
– Me solta! – Falou entre os dentes. Começou a sentir um líquido quente escorrer pela sua bochecha.
Ele tirou suas garras lentamente do rosto dela, agonizando-a. Virou de costas e deu um sorriso maligno sob o ombro. Foi embora sem hesitar.
A menina estava ajoelhada no chão com as duas mãos no rosto. Lágrimas misturavam-se com o sangue.
~
Lion segurava a mão esquerda da garota notando que ficava cada vez mais fria. Sua pele fria e seu rosto pálido deixavam-na com aparência morta.
– Ela vai ficar bem. – Murmurou Lion notando a preocupação de Jason. – Não se preocupe.
Jason o encarou tenso com o canto dos olhos, mas nem pensou em discutir, no momento estava completamente focado na garota, esperando com que ela acordasse.
De repente, marcas num tom roxo escuro apareceram profundamente em sua pele. Parecia que alguém estava apertando o rosto dela com força. Aquilo assustou ambos os homens. Eles se entreolharam preocupados.
– O que vamos fazer? – Jason perguntou tenso.
– Não! – Lexie levantou-se do sofá assustada.
Lion e Jason a fitaram tensos. Ela passou as duas mãos pelo rosto e sentiu pequenos furos, onde Demian havia a machucado.
– Alexia, o que aconteceu? – Jason perguntou.
Ela não respondeu. Levantou-se rapidamente do sofá onde dormira e se encaminhou para o banheiro do andar de baixo. Acendeu a luz e viu marcas roxas em suas maçãs do rosto, mas aos poucos foi sumindo. Abriu a torneira e lavou o rosto.
– Você está bem? – Lion falou dentro do banheiro, próximo demais dela.
Ela levantou-se abruptamente, havia levado um susto. Virou-se para ele e viu seu rosto bem próximo ao dele. Ele a encarava nos olhos, enquanto a mesma desviava o olhar para baixo.
– Estou bem. – Murmurou baixo.
– O que você viu? – Perguntou.
Ela o encarou novamente e sussurrou:
– Demian está por perto. – Engoliu um nó na garganta e voltou a falar no seu tom normal: — Temos que sair daqui o mais rápido possível.
Lion saiu do banheiro dando espaço a ela. Jason os encarava com receio:
– Demian? – Perguntou.
Alexia assentiu e ele levantou-se.
– Na visão... Ele te machucou? – Ele perguntou.
– Ele apenas segurou meu rosto com força. – Murmurou ainda tensa com a visão.
– Não era isso que as marcas no seu rosto, explicavam. – Retrucou Jason, preocupado.
– Ele perfurou o rosto dela com suas garras. Já o vi fazendo isso com outros, mas eles morreram. De qualquer forma, Demian quer ela viva. – Explicou Lion.
Jason o encarou perplexo, não via a necessidade de ser tão claro na frente de Alexia. Lion revirou os olhos e pegou a mochila que a garota levava durante a ida deles até a casa. Lexie a pegou e colocou-a nas costas, depois correu até a cozinha e procurou uma faca.
– Pegamos todas. – Lion afirmou ao avistar a figura da garota vasculhando a cozinha inteira.
Ela o encarou com cautela e Lion se aproximou.
– Pegue. – Murmurou levantando a mão direita, onde segurava uma adaga negra.
Alexia o encarou, duvidava de sua confiança sobre ela, mas mesmo assim levantou seu braço para apanhar a adaga.
– Lion, é melhor não. – Jason falou encostado no batente da porta da cozinha.
– É a única forma de ela defender-se e aprender a usar uma adaga, Jason. – Murmurou por cima do ombro.
– Vocês não precisam ficar discutindo minhas escolhas o tempo todo. – Murmurou a garota tirando a adaga da mão de Lion.
Os rapazes se entreolharam, Jason fuzilava Lion com os olhos enquanto o mesmo o ignorava por completo.
Alexia colocou a adaga negra em dos bolsos de dentro da jaqueta que usava. Ela foi até uma das estantes e pegou a foto em que Max e Jannie estavam na festa de seu casamento, guardando-a no bolso de seu jeans. Lexie espiou pela janela da sala de estar e notou que o seu ainda estava escuro, provavelmente não dormira bem, abriu a porta e saiu, atrás dela vinham Lion e Jason.
– É melhor sairmos daqui o mais rápido possível. – Alertou ela.
Jason assentiu e indicou ao norte com a cabeça. Os três adentraram a floresta para poder prosseguir o caminho despercebidamente.
– O que aconteceu na sua visão? – Jason perguntou, quebrando por completo o silêncio que prevalecia entre eles.
Lion aproximou-se para ouvir a resposta. Eles já estavam longe suficiente do acampamento, mas ainda era capaz de que aparecesse algum perigo. Estavam sempre atentos.
Alexia sentiu-se insegura ao ouvir a pergunta. Respirou fundo e engoliu em seco e então respondeu:
– Demian me fez uma proposta. – Pausou. – Disse que seu eu fosse até ele, faria com que Max e Jannie voltassem a vida.
– Ele não pode fazer isso, a não ser que os possua novamente. – Lion afirmou. – Ele nunca faria uma boa ação como esta, o máximo que faria é levar o corpo de seus pais para a cela onde você ficaria.
Alexia o encarou com tristeza, mas podia imaginar algo assim vindo de um demônio.
– Não acredite no que Demian te fale, tudo bem? – Lion perguntou olhando para ela.
Alexia assentiu lentamente e baixou a cabeça. Resolveu prender-se em seus pensamentos, era a única coisa que faria sentir-se melhor enquanto andavam cada vez mais para lugares onde não conhecia.
(Continua...)
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