Virus
5 Capítulo 4 - USS Enterprise
Aos poucos abri meus olhos ao perceber que havia um garoto ruivo e cheio de sardas gritando ao meu lado:
- Ele está acordando!
Em ato de defesa, tentei me levantar, mas estava cansado demais para isso. Eu estava em uma sala com paredes brancas e lisas com apenas uma grande janela retangular atrás da cama em que eu estava e uma porta a minha frente.
- Acalme-se Vincent. Eles só querem ajudar — Natallie estava a minha direita, vestia um moletom cinza escuro, calças Jeans e um tênis simples. Provavelmente, alguém havia a emprestado as roupas. Quando me virei para ela, ele olhou para o outro lado, fugindo do meu olhar.
- Eles salvaram nossas vidas – disse Natallie olhando para o chão.
- Encontramos vocês dois na praia da Little Islands University – completou o garoto ruivo.
Little Islands são um conjunto de ilhas que formam a cidade em que eu moro. É uma pequena cidade dividida em dois distritos. O distrito de Doring, o qual eu moro a área urbana da cidade e o Distrito de Carmelo, que é uma área mais industrial. Possui poucas casas, e muitas indústrias. Existe uma terceira ilha onde se localiza a uma Universidade.
- Sua amiga nos contou tudo que aconteceu com vocês nos últimos dias – disse um homem negro de cabeça raspada encostado na moldura da porta – sou Jonathan Partelli, prazer.
- E onde estamos? – perguntei mais fraco do que esperava.
- Bem vindo a USS Enterprise! – disse o garoto ruivo com empolgação – Sou Lucas Oran, prazer!
- O que? Nós estamos em uma nave espacial? – perguntei surpreso.
- Infelizmente, não... Mas pode chamar disso se quiser! – respondeu Lucas.
- Lucas e sua imaginação fértil! – disse um homem de meia idade entrando no quarto acompanhado de uma mulher e um par de gêmeas de cabelos curtos e escuros– Sou George Collins. Essa é Julia Webb – ele apontou para a mulher loira ao seu lado.
- Katherine e Elisabeth Lewis – disse Katherine, uma das garotas.
- Este é só nosso pequeno barco, Vincent. Desculpe pelo incomodo de meu filho – disse George fitando Lucas.
- Não foi nada, mas se não for muito incômodo, alguém, por gentileza, poderia me trazer um copo de...
Como um apagão inesperado, meus pensamentos esvaíram-se completamente. Uma forte dor de cabeça tomou conta de mim e foi se espalhando pelo meu corpo até eu não poder mais distinguir a dor da realidade. Ouvi uma voz muito distante dizer – Ou gritar – algo como ‘’ Ele esta transitando! ‘’.
O que aquilo significava? Eu estava morrendo? A morte parecia estar se tornando algo familiar. Ouvi novamente algo muito distante, ainda mais baixo ‘’ Dê isso para ele ‘‘.
Eu estava em completa escuridão, uma longa e assustadora escuridão. Virei-me a procura de algo para focalizar minha visão, mas não havia nada. Fechei meus olhos, tentei sentir algo, uma mínima sensação, qualquer coisa – havia algo – senti alguém me observando, senti o desespero subir pelo meu corpo. Era como se uma daquelas gotas frias no meio de um banho de água quente tivesse feito caminho contrário pelas minhas costas. Abri meus olhos e vi. Ela estava lá. Uma pequena luz no fim do túnel. Era como se ela me chamasse – quase podia ouvi-la sussurrar meu nome – tomei fôlego, mesmo sem saber se eu tinha um corpo, e comecei a correr na direção da luz. Corri o mais rápido que pude. Corri até sentir somente a ponta dos meus pés tocarem o chão. Corri até sentir que meus pulmões iriam explodir a qualquer momento, mas havia algo errado, não com meus pulmões, mas sim com a luz. Ela não estava ficando mais intensa. Eu não estava me aproximando dela, estava me distanciando. Não importava o quão rápido eu corresse, ela só se afastava – não desista! – não adiantava, eu não podia alcança-la – corra mais rápido! – ela está mais longe – pule!
Subitamente, voltei ao pequeno quarto do barco. Natallie que estava a minha direita, segurava uma garrafa com um líquido vermelho e viscoso.
- O que aconteceu? – perguntei ofegante.
Todos me fitaram por alguns segundos.
- Você estava voltando ao seu estado inconsciente – respondeu George.
- Como assim?
- Quando pessoas da sua... – George hesitou – espécie não se alimentam, elas começam a perder a consciência até só pensar em buscar seu único alimento que pode saciar sua fome.
- Zumbis! – disse Lucas.
- Lucas! – repreendeu George.
- E... Qual seria esse alimento? – perguntei voltando a atenção para mim.
- Sangue. Sangue humano. – respondeu Jonathan como se fosse algo normal.
Deixei minhas costas tocarem a parede atrás de mim e baixei minha cabeça olhando para minhas mãos. As coisas estavam claras agora, eu havia mesmo me tornado um monstro – do pior tipo – olhei para Natallie, ela ainda evitava meus olhos. Parecia saber de algo.
- E como vocês sabem de tudo isso? – perguntei.
- Sou como você, Vincent. – respondeu Jonathan.
- E nós também. – disse Elisabeth, uma das gêmeas.
- O que ainda não entendemos, é o porquê de todas aquelas pessoas na cidade não terem reagido da mesma forma... – pensou alto George – sei que você ainda tem muitas perguntas, Vincent, mas você e Natallie precisam descansar, além disso, precisarei de uma ajuda lá na cozinha – ele fitou Lucas, que se retirou de cabeça baixa — vamos, deixem os dois descansarem! – todos saíram do quarto, deixando somente eu e Natallie.
O pequeno e quadrado quarto, possuía apenas uma cama de casal, o que obrigava Natallie a deitar-se do meu lado. Ela virou-se de costas para mim, como se, a todo custo, evitasse meu olhar. Eu sabia que ela estava cansada, não queria a encher de perguntas, não agora que, finalmente, havíamos encontrado pessoas como eu, e ainda melhor, até alguns humanos! – será que podíamos confiar neles? – eles nos abrigaram entre seu grupo, mesmo não nos conhecendo. As coisas estavam indo bem, pelo menos por enquanto.
†††
Para o jantar, George, Lucas e Julia haviam preparado um grande salmão com arroz, batata, maionese e salada. Jonathan contava como havia encontrado o grupo. Ele disse que salvou a vida de George, e desde então, estava com eles. Katherine contava alguma piada muito engraçada já que Lucas não parava de rir junto com Elisabeth e Julia.
- Para onde vocês estão indo? – perguntei.
- Para nosso doce abrigo. Conseguimos ‘’limpar’’ alguns andares de um prédio lá em Carmelo. Não é o melhor lugar do mundo, mas é um bom começo. – respondeu George.
Após o jantar, todos foram para seus quartos. No barco havia quatro quartos, dois de casais e dois de solteiros. Jonathan ficava em um quarto de solteiro junto com Lucas, Katherine e Elisabeth em outro, George e Julia em um de casal, e agora, Eu e Natallie no outro.
Antes de entrar no quarto, deixei Natallie entrar e então fechei a porta.
- O que foi Natallie?
Ela ficou parada de costas para mim por uns instantes.
- Qual é o seu problema? – Eu disse um pouco mais alto que o esperado.
- Eu sabia de tudo, Vincent! – Ela virou-se para mim com os olhos cheios de lagrimas – sabia antes mesmo de acontecer e não fiz nada para impedir!
- Calma, do que você está falando?
Ela sentou-se na cama.
- Meu pai... Ele começou tudo – disse ela soluçando.
- Tudo o que?
- Tudo, Vincent! Tudo que está acontecendo! – ela começou a chorar.
- Calma Natallie... – aninhei-a em meus braços – continue...
- Está bem – Ela enxugou seus olhos – em borá não pagassem o que ele merecia, meu pai, Robert Momm, era um microbiólogo muito bom. A empresa pela qual ele trabalhava estava entrando em crise então seu chefe disse para ele criar algo que superasse toda a concorrência. Meu pai criou então, uma bactéria que, independentemente, era capaz de regenerar qualquer tecido. Ele não fazia ideia do que havia acabado de criar; aquela era a cura de várias doenças – Ela enxugou os olhos novamente – só que as pessoas erradas puseram suas mãos na criação dele. Eu não sei por que, mas eles a modificaram, e lançaram-na por todo o planeta. O que eu faço Vincent? Meu pai causou tudo isso!
- Não! A culpa não foi dele, e muito menos, sua! – Natallie me abraçou e deixou suas lagrimas caírem.
Tudo que tínhamos de fazer agora era cuidar uns dos outros. As coisas estavam bem agora. Estávamos seguros.
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