Viridis Mortis
1 Nuvens e tornados
Notas iniciais
O barulho da chuva me desconcentrava do cadáver em nossa frente. O Dr. Sean seguia seu monólogo, tentando desvendar a causa da morte sem nenhum sucesso. Na análise externa do corpo não encontramos feridas, cortes ou hematomas; era só o corpo de um senhor idoso que morreu de velhice. Sua pele, levemente queimada pelo sol, era marcada por linhas fundas ao redor dos olhos e próximo ao nariz, e seu semblante era sereno. Seu rosto parecia com o dos avôs em filmes natalinos, que sempre tinham uma balinha no bolso para dar aos netos. Quando abrimos o corpo, entretanto, as coisas começaram a ficar mais estranhas.
– Como esse coração está tão saudável? E esses pulmões... podiam ser de um adolescente! – exclamava o Dr. Sean enquanto o sono de segundos atrás se dissipava do meu corpo.
– Ele devia se exercitar regulamente – eu disse, sabendo que minhas palavras passariam inertes por seus ouvidos.
Enquanto analisávamos o corpo, Dr. Sean me explicou que os policiais encontraram o corpo do senhor Muller depois de seus vizinhos o declararem como desaparecido pela manhã. Ele havia faltado à caminhada matinal com seu vizinho da frente e ao aniversário de sua melhor amiga na noite anterior, algo que jamais faria sem dar uma justificativa. Quando os policiais abriram a porta de sua casa, o encontraram sentado em sua poltrona de olhos fechados e com sua roupa de caminhada; eu e o doutor havíamos acabado de chegar do almoço quando eles o deixaram no necrotério e preenchiam o relatório, enquanto eu preparava o laboratório.
Órgão por órgão nós seguíamos apurando, e a única conclusão que chegamos é a de que esse senhor deveria ter vivido por no mínimo mais cem anos. Já faziam 4 meses desde que eu comecei meu estágio no necrotério municipal e nada em minha curta experiência (e, aparentemente, nem na vasta experiência do meu mentor) conseguia explicar como aquele senhor morreu. Sua aparência os colocava na casa dos 80 anos, mas nada nos ajudava a apontar a causa fisiológica de sua morte – esse homem deve ter tido a vida mais saudável na história da humanidade.
– E com o intestino grosso nós concluímos a necrópsia. Mas como o Senhor Muller morreu? É como se seu corpo tivesse simplesmente decidido parar de funcionar, como se seu coração tivesse simplesmente escolhido parar de bombear o sangue. Qual sua opinião, Félix?
– Bom... está tudo em ordem. Todos os órgãos intactos e em excelente estado. Parece que se fizéssemos uma massagem cardíaca ele voltaria a vida agora mesmo, aqui na maca. Eu realmente não consigo entender professor. Nem mesmo um mal súbito poderia explicar essa morte.
– Sim, eu concordo. – disse, por final. Eu podia ver que esse caso o deixaria sem dormir por dias. – Mas o detetive precisa de uma causa para a morte, e como pelo menos podemos afirmar que não foi assassinato, vou seguir com o mal súbito. Pegue o formulário pra mim, vamos acabar logo com isso.
A tarde seguiu tranquila. Nenhum outro cadáver apareceu, mas a chuva seguia aumentando cada vez mais. Ao preparar o corpo do Sr. Muller para a funerária algo me chamou a atenção – um medalhão acinzentado, em forma de semicírculo, preso a uma corda de couro por cobre derretido. O design era simples, rudimentar. Destoava de seus pertences. Parecia aquelas quinquilharias vendidas em lojas de conveniência no meio da estrada. Nada chamava atenção em específico... mas algo nele despertou minha curiosidade. A maneira como a luz dançava ao seu redor ao invés de iluminá-lo, como ele parecia ser mais velho do que realmente aparentava – em partes como o próprio Sr. Muller –, sua própria essência ressoou com cada parte dos meus sentidos. Era como se o medalhão respirasse comigo, como se tivesse a muito tempo soterrado e aquele fosse seu primeiro gole de ar em décadas. Pelo relato dos policiais, o Sr. Muller não tinha parentes e seus pertences seriam doados para a caridade. Com essa meia desculpa, me convenci de que ninguém daria falta daquela bijuteria velha e a levei comigo, guardando-a em minha mochila.
Segui com minhas obrigações do dia e momentos depois já subia as escadas para o piso principal, indo para a biblioteca. Foi quando a sirene começou a tocar. Imediatamente recebi o alerta de tornado no celular. Aparentemente nos próximos 40 minutos a cidade estaria em alerta amarelo, o que era de praxe pra quem mora em Oklahoma nessa época do ano. Quando guardei o celular no bolso, vi Kazuto sentado no banco próximo da entrada. Estava usando somente uma camiseta e jeans rasgados, com o boné virado para trás segurando os cabelos e o headphone sobre a cabeça. Era como se a chuva e frio lá fora simplesmente não existissem. Ele estava completamente absorto em seu celular, mas assim que subi o último degrau seus olhos se viraram para mim, e seu sorriso, como todas as vezes, me fez corar.
Eu conheci Kazuto há menos de um mês, quando ele me pediu ajuda para entender o ciclo de Krebs. Desde então nos víamos quase todos os dias depois do meu estágio, quando nos encontrávamos na biblioteca para estudar. Ele queria entrar no meu programa de medicina e eu, completamente hipnotizado por seu jeito cativante e seus quase 2 metros e músculos torneados, me dispus a ajudá-lo. Ele era a única outra pessoa com quem eu conversava fora da sala de aula, além do Dr. Sean, e até agora não sabia o que éramos: se era só amizade, se ele queria algo a mais... ele podia uma pessoa difícil de entender; em nossas sessões de estudo ele sempre perguntava da minha vida, sobre meus hobbies e ouvia tudo atentamente, mas nunca entrava em detalhes sobre si mesmo. Só mencionava vagamente que sua família veio de longe em busca de oportunidades, já que seu negócio tinha falido em Boston. Quando me dei conta ele já estava se movendo em minha direção, e por alguns segundos eu me senti mais leve que as folhas sendo arrastadas pela tempestade lá fora.
– Você se atrasou hoje. – disse ele, se colocando ao meu lado e caminhando em direção à saída.
– Não é você quem está adiantado? – eu respondi, enquanto conferia o relógio – De novo? – completei enquanto sorria para ele
– É... acho que você está certo, fessor – concluiu, com seu jeito bobo e sedutor. – É porque está chovendo muito, e como você não tem carro, fiquei preocupado.
Não tinha jeito, esse cara era mesmo incrível. Além de se comprometer a pagar meu jantar depois de nossas sessões de estudo, como forma de agradecimento, ele me dava carona sempre que eu precisava. Ao voltar para casa todas as noites, para ir ao mercado, até para ir ao dentista uma vez. E sempre com aquele mesmo sorriso bobo no rosto, de quem não se importava nem um pouco de mudar os próprios planos para me ajudar.
– Como o clima estava feio resolvi te buscar pra gente ir pra biblioteca, mas agora acho que vamos ter que ir direto pra casa, antes do tornado chegar. – disse, guardando o headphone.
Saímos do prédio rapidamente. Ele insistiu em ir na frente e trouxe o carro até a entrada para que eu não me molhasse. Dentro do carro estava gelado, então tirei meu moletom da mochila enquanto observava Kazuto. Ele mantinha os olhos na estrada e sua roupa estava ensopada.
– Você não tem uma roupa de frio aqui no carro? Vai pegar um resfriado se continuar assim – Perguntei enquanto acabava de colocar meu moletom. Olhei no banco doe trás tentando encontrar alguma roupa seca, mas só vi seu caderno e os livros de fisiologia que usaríamos para estudar.
– Não... eu esqueci de pegar antes de sair de casa. Você tem alguma para me emprestar? – perguntou, sem tirar os olhos da rua.
Revirei minha mochila e só encontrei uma camisa que tinha usado no dia anterior, que tinha esquecido de pôr pra lavar.
– Só tenho essa, – disse, enquanto segurava a camisa sobre a mochila. – mas está usada.
– Pelo menos não está molhada – disse enquanto tirava sua camisa com a mão direita.
Ele era claramente musculoso, e eu já me peguei imaginando o que ele guardava sob a camisa, mas nada me preparou para ver seu corpo molhado tão de perto. Eu me sentia um adolescente de novo, como se tudo de ruim que aconteceu no Ensino Médio nunca tivesse acontecido e eu ainda fosse o menino ingênuo e ainda mais tímido de 7 anos atrás.
– Tá cheirosa – Disse casualmente. Em um rápido movimento ele pegou a blusa da minha mão e passou sobre o pescoço, enfiando os braços com uma destreza digna dos mágicos dos shows de talento, enquanto mantinha o volante sob controle. Peguei a camiseta ensopada de sua mão e a coloquei no banco de trás, me concentrando em não pensar muito no que acabei de ver, enquanto nos aproximávamos da minha casa. A chuva estava cada vez mais forte, f inalmente se tornando uma tempestade propriamente dita.
Assim que ele estacionou o carro nossos celulares dispararam de novo, juntamente com a sirene de alerta de tornado. Saímos correndo do carro e entramos no meu apartamento, onde minha roommate já arrumava suas coisas, para seguirmos para o abrigo de tornados no fim do corredor. Fomos direto para o quarto, onde peguei meus documentos enquanto sentia seus olhos atentos sobre mim. Peguei o passaporte, laptop e tudo de importante que consegui encontrar que coubesse na minha mochila. Seguimos rapidamente para fora, fechei a porta de casa e seguimos direto para o abrigo. Lá dentro estava Kelsey, minha colega de quarto, nossos vizinhos da frente e seu cachorro e mais três pessoas que eu não reconheci, provavelmente moradores do andar de cima. Sentei em um banco vazio próximo a parede, com Kazuto do meu lado.
– Acho que não vamos conseguir estudar hoje, fessor – disse, inclinando seu corpo de modo que seu ombro tocasse no meu.
– É... acho que não vamos estudar tão cedo.
A tempestade continuou, o alerta amarelo logo se tornou vermelho, e os poucos de nós que tinham conexão com a internet mantinham os outros informados sobre o avanço do tornado. Eu não conseguia manter minha perna parada, e minhas unhas estavam quase sangrando entre meus dentes quando Kazuto tomou minha mão na sua, olhando em meus olhos e dizendo com os lábios “tá tudo bem, fica tranquilo”. Algo naquele gesto me fez relaxar imediatamente. Minhas pernas se acalmaram e eu consegui controlar minha respiração. Seu toque era frio, mas ao mesmo tempo reconfortante, como gelo colocado sobre um tornozelo torcido.
Depois de quarenta longos minutos as sirenes pararam, e recebemos a notificação de que o tornado havia se dissipado. A tempestade seguia firme lá fora, mas agora podíamos voltar para casa sem o risco de sairmos voando por aí.
– Comprei um bolo pra gente tomar café – Disse Kelsey, enquanto seguíamos o corredor de volta para casa – aquele gostoso de laranja – concluiu.
– Adoro bolo de laranja! – Kazuto respondeu, sorrindo como se a frase tivesse sido dita para ele.
Kelsey me lançou um olhar acusatório, como quem queria dizer “ele vai ficar lá em casa essa noite?” e eu não soube como responder. Kelsey não era exatamente uma amiga, mas nos dávamos bem. Ela era uma imigrante assim como eu, e a distância da família nos aproximou de uma certa forma. Um não ficava no caminho do outro, mas sempre estávamos prontos para nos ajudar nos momentos difíceis.
Assim que chegamos no apartamento Kelsey preparou a mesa com o bolo e eu fiz o café. Conversamos um pouco, onde ela viu que Kazuto era bom ouvinte e muito engraçado e não um doido em potencial, e logo seguimos para nossos quartos. Comecei a desfazer minha mochila, guardando os documentos e tudo mais em seu devido lugar, quando derrubei o colar no chão.
– O que é aquilo? – Kazuto perguntou, com uma expressão que nunca tinha visto em seu rosto.
– Ah, isso? – disse, pegando o medalhão do chão – encontrei no hall de entrada do hospital. – Menti. Por que eu menti?
– Entendi – respondeu, consternado.
Seu olhar agora era sombrio. Ele fitava o medalhão em minhas mãos como uma pessoa sedenta olhava para uma jarra de água. Nada propriamente havia mudado. Ele não deu nenhum passo em minha direção, suas mãos ainda estavam nos bolsos, mas eu sentia como se ele estivesse pronto para dar um bote.
– Por quê? – questionei. Seus olhos permaneciam fixos no medalhão. – Sabe algo sobre ele? Acho que é só uma bijuteria velha que alguém esqueceu no hospital, e eu peguei por curiosidade.
– Sim, parece mesmo. Acho que já vi um parecido na loja que meus pais tinham. Posso ver?
Algo em seu tom voz deu calafrios. Era como uma mãe tentando convencer seu bebê a soltar um bicho que pegou no jardim. Quase como uma ordem disfarçada. Como soubesse algo sobre esse troço, como se fosse importante. Porque ele não dizia logo o que queria com isso? Parecia estar mentindo também. Quando me dei conta, percebi que estava prendendo a respiração. Será que ele conhecia o senhor Muller? Por que eu me sentia tão protetivo desse colar?
– Hum, mais tarde, o que Acha? Ainda tá cedo, ainda podemos estudar um pouco. – Ele me fitou com um olhar confuso, como se não esperava que eu negasse seu pedido. Contra os meus próprios instintos, resolvi realizar seu pedido. –Bem, porque não. – disse, estendendo minha mão. Ele cuidadosamente pegou o medalhão em suas mãos, com um fascínio semelhante ao que eu tive quando o peguei pela primeira vez. Ele inspecionou cada centímetro daquela bijuteria, de cima a baixo. Eu podia jurar que ele até cheirou a coisa, nem que por um segundo. Depois de um tempo ele me devolveu.
– É bem bacana! Parece aquelas coisas que os hippies usavam. – disse, de volta com seu olhar bobo, como se toda a tensão que senti tivesse sido fruto da minha imaginação. E eu acho que era mesmo. O que ele poderia querer com essa coisa velha? Acho que estou trabalhando de mais, vendo coisas. Vou pedir pro Dr. Sean pra trabalhar menos horas semana que vem.
Guardei o bendito colar no meio da bagunça que era o meu guarda-roupas, e quando me virei Kazuto estava atrás de mim. Sua mão envolveu minha cintura, e eu podia sua respiração fria no meu pescoço.
– Fessor, o que você acha de a gente largar esses livros e estudar biologia com nossos corpos? – Sua voz agora grave, quase um sussurro em meus ouvidos. Meu corpo todo se arrepiou e a tensão que eu sentia se dissipou instantaneamente.
O tomei em meus braços e colei meus lábios nos seus, fazendo o que queria ter feito desde o momento em que o conheci.
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