Notas iniciais
Boa noite, caros leitores! Como vocês vão? Espero que estejam todos muito bem. Depois de um longo tempo sem publicar nada, finalmente estou retornando ao +Fiction com novas histórias e fiquei muito feliz de poder ver um desafio especial como este, pois eu adoro um bom romance clichê água com açúcar, ASHUASHUASHUA. Me agradou em muito a ideia de participar do desafio "Entre Laços e Acasos" e só precisei de duas semanas pirando como um louco até chegar ao conceito da trama que queria abordar. Valeu muito a pena aproveitar meu carnaval para conceber essa história, ASHUASHUASHUA. Como dito no disclaimer, essa história terá alguns temas sensíveis, entre eles homossexualidade, bullying e preconceito. Claro, tudo ainda dentro de uma perspectiva juvenil que a faça se encaixar na classificação etária para um público de +14 anos. Ainda assim, reiteros os avisos para que quem se sinta sensível com esses temas reconsidere antes de continuar a leitura. Para quem tem curiosidade sobre entender um processo criativo por trás da história e for membro do grupo do facebook do Nyah!/+Fiction, vou deixar um link que escrevi uma vez sobre as influências que me levaram a escrever essa história. Link: https://www.facebook.com/groups/ 103030110037641/permalink/ 2959717874368836/ [Nota: Tive que quebrar o link, pois ele não aparecia inteiro] Agora, sem mais delongas, vamos à história. Uma boa leitura à todos!

Era uma manhã fria de uma segunda-feira do mês de janeiro. Mesmo em meio ao mar de estudantes que regressava ao Westbrooks High School, Thomas Anderson sentia-se encolhido dentro de seu casaco azul-escuro, as mãos recolhidas nos bolsos da calça jeans e a cabeça levemente protegida pelo capuz. O barulho de vozes desarmonizadas, misturadas ao ronco dos motores dos ônibus escolares e de outros veículos que chegavam ao campus, não o incomodava. Como primeiro dia de aula após o recesso escolar, muitos alunos ansiavam por compartilhar com os amigos como haviam sido suas férias de fim de ano. No entanto, apesar da vastidão de pessoas dos mais variados tipos, com roupas de todas as cores, Thomas passava despercebido pelos demais. Sua estatura média e porte esguio eram tão comuns quanto os de qualquer outro aluno, e nem mesmo seus grandes óculos retangulares de armação preta, que ocultavam seus olhos de um azul brilhante e vivo, o distinguiam em nada.

Não demorou para que Thomas chegasse ao prédio principal, uma das seis construções conectadas que constituíam o colégio Westbrooks. Como sempre, ao cruzar o amplo pátio frontal da escola, ele se deparou com vários alunos que se reuniam nos muitos bancos ao ar livre em torno do campus, seja para conversar entre si ou para trocar as respostas dos exercícios dos deveres de casa antes do início das aulas. Observá-los interagir à distância o fascinava — havia algo de confortável naquilo —, e ter uma discrição natural tornava esse hábito muito mais fácil, sem medo de represálias ou julgamentos alheios. Assim que entrou no prédio, ele caminhou pelos longos corredores pintados de branco e ladeados pelos armários cinza-azulados de acabamento metálico. Thomas seguiu em frente e, ao virar o segundo corredor à direita, finalmente chegou à seção onde se localizava seu armário pessoal.

Com a chave do cadeado em mãos, ele o destrancou e deixou a porta do armário aberta; a sensação do metal gélido sob seus dedos mal o incomodou. Ele removeu a mochila das costas, abriu-a e retirou um caderno e uma bolsinha de lápis e canetas antes de acomodá-la com os demais pertences guardados ali. Em seguida, esticou o braço e alcançou o livro de matemática avançada. Thomas estava prestes a fechar a porta do armário — a mão já segurava a borda dela —, quando, de repente, risadas acaloradas e espalhafatosas soaram alto pelo corredor. Ele se virou na direção das gargalhadas, mas não houve surpresa ao constatar os donos delas.

Não era difícil reconhecer os membros do time de futebol da escola. Eles adoravam andar pelo campus e exibir os casacos vermelho, amarelo e branco que lhes eram oferecidos como membros das equipes de esportes. Além do emblema e do brasão do Westbrooks, os casacos continham a imagem da mascote do time que também dava nome à equipe, Hawks, o Gavião. Eles caminhavam pelo corredor sem preocupação, seguros de si, rindo de alguma piada interna enquanto arremessavam uma das bolas do treino de um lado para outro. Mas, dentre todos aqueles alunos de estatura acima da média e corpos avantajados pela prática constante de esportes, havia um que os olhos de Thomas não demoraram a encontrar.

Ali, no meio daquele círculo de garotos fortes, Nicholas Kepplerman se destacava. Seu cabelo loiro cor de mel, comprido até o pescoço e levemente ondulado nas pontas, refletia as luzes do teto. Os olhos esverdeados tinham um brilho vibrante e caloroso, mas era o seu sorriso aberto — os dentes brancos à mostra e os lábios rubros puxados até o canto — que lhe conferia um charme difícil de ignorar. Sua postura extrovertida e o carisma quase solar faziam com que ele parecesse irradiar energia própria. Como capitão do time e astro quarterback, ele era naturalmente rodeado pelos companheiros como um rei acompanhado de seus súditos. Se não fosse o jovem mais popular do colégio, ainda assim, ele certamente estaria entre os primeiros.

Assim que seus olhos se depararam com a imagem de Nicholas caminhando pelo corredor, Thomas se escondeu atrás da porta aberta do armário, embora ela não o cobrisse por completo. Ele fingiu interagir com objetos ali dentro, mas seus olhos discretamente se ocuparam com a tarefa de observar o jovem loiro pelo corredor. Quando Nicholas virou o rosto e olhou na direção de Thomas por mero acaso — sem tomar consciência da presença do garoto em seu campo de visão —, ele sorriu daquele jeito radiante de sempre. Isso foi o suficiente para que Thomas se desmanchasse em seu lugar, como algodão doce derretendo na boca. Se o corredor da escola era uma ópera de vozes ecoando sem uniformidade, agora o interior dele era uma fanfarra sinfônica descontrolada aos berros. Bastou ver aquele sorriso e o coração de Thomas palpitou como um tambor batucando sem parar. O sangue percorria suas veias com ferocidade e o calor em suas bochechas era o sinal claro do rubor que se esparramava em seu rosto.

Por fim, o time de futebol se aquietou em torno de um bebedouro, onde começaram a se revezar enquanto continuavam a conversar. Ao lado de Nicholas, como sempre, estava Harry Trevor, o segundo no comando da equipe. Ele era semelhante a Nicholas em muitos aspectos, exceto pela pele mais clara — a de Nicholas era bronzeada —, pelo cabelo de um loiro dourado, curto no estilo militar, e pelos olhos de um azul cinzento com um brilho malicioso que contrastavam com seu rosto. Por baixo do casaco do time, ele usava uma camiseta verde que o diferenciava das cores branco e preto usadas pelos demais. Enquanto os meninos do time permaneciam ali, parados ao redor do bebedouro, Thomas os observava, discreto, admirando de longe o jovem que o instigava. Contudo, cortejar com os olhos em segredo tinha uma consequência: se distrair dos arredores. Foi isso que permitiu que um braço feminino de pele negra surgisse à frente do rosto de Thomas, que estava alheio a isso. Finalmente, os dedos da mão daquele braço se juntaram e, em dois rápidos estalos que soaram como um trovão para ele, criaram um som seco que o arrancou de seu devaneio.

Com os dois estalos, Thomas se assustou em sua posição e estremeceu por completo. Por reflexo, deu um passo para trás e se chocou com a porta do armário, gerando um ruído metálico. Ele virou o rosto na direção da pessoa que o surpreendeu, que já havia recolhido o braço junto ao corpo e agora ria da reação dele. Era uma jovem de pele brilhante que se destacava pelos tons laranja e rosa de suas roupas. Seu cabelo crespo e volumoso reluzia sob as luzes do teto, realçando o tom acaju dos fios e o púrpura nas pontas. Seus olhos castanhos-escuros carregavam uma doçura tocante e, ao mesmo tempo, emanavam uma força incomum, mas a forma como encaravam Thomas evidenciava certa repreensão de sua parte. Ele, por sua vez, relaxou e respirou fundo, já mais calmo por reconhecer sua amiga, Sarah Thompson, que ainda mantinha um sorriso acolhedor nos lábios.

— Terra para Thomas! Tava sonhando acordado de novo? — Ela acenou uma mão na altura do rosto dele, chamando sua atenção.

— Me desculpa! — respondeu ele, totalmente constrangido.

Mais algumas risadas soaram novamente, altas o suficiente para que os dois ouvissem. Thomas e Sarah se viraram na direção delas e logo ela notou todo o time de futebol reunido em torno do bebedouro.

— Ah, os babacas do time de futebol. Ei, espera um momento! — Ela se virou para ele, com um olhar que misturava dúvida e repreensão. — Você tava babando de novo pelo idiota do Nicholas?

— Não, eu não — respondeu ele, embaraçado.

Mas sua resposta não a convenceu e Sarah cruzou os braços, apoiando o peso em uma perna só enquanto ajeitava o quadril para o lado e o encarava com uma expressão de escárnio.

— Tá, tá legal! Eu tava sim. Mas é que é incontrolável!

— Como você pode gostar de alguém como... Ele?!

— Eu sei, eu sei! E eu não sou idiota. Eu sei que ele é... E que... Bom, ele não vai olhar para mim. E eu sei que não é seguro para... bem, alguém como eu ficar perto deles.

— Acho bom mesmo. — Embora parecesse furiosa ao falar, algo em sua voz denunciava uma preocupação genuína.

— Só que, mesmo assim, ele ainda é um gato e eu não consigo resistir a olhar para ele. Minha cabeça sabe que é perigoso, mas meu corpo ainda se sente atraído.

— E o seu coração? O que ele diz? — Havia curiosidade e preocupação no semblante dela.

— Meu coração?

— É, o seu coração.

— Eu não sei. — Ele parecia realmente confuso ao responder.

— Thomas, deixa eu te perguntar uma coisa muito importante. Você gosta do Nicholas Kepplerman, nem que seja só um pouco?

Thomas a encarou em choque, a boca entreaberta pelo espanto. Ele ficou tão abalado que seus lábios mal conseguiam se mexer e pronunciar palavras legíveis, apenas murmúrios e gaguejos. Porém, antes que conseguisse responder, a voz conhecida de um rapaz chamou a atenção dele e a de Sarah.

— Ah, vocês estão aí!

Thomas e Sarah não se surpreenderam com a voz que os havia chamado, reconhecendo de imediato o dono dela. Ambos viraram os rostos na direção do rapaz e viram duas figuras caminhando até eles. Uma delas era o próprio rapaz que os chamou, um jovem negro alto e esguio com uma barba crescendo ao redor do rosto e um bigode em formação, vestindo roupas estampadas com pôsteres de filmes. Esse era George Brooks. Já o outro, mais baixo e com sobrepeso, de pele pálida, cabelo ruivo em estilo cuia e o rosto carregado de sardas, era Stuart Prescott. Assim que George e Stuart se aproximaram, eles se juntaram a Thomas e Sarah e formaram um círculo entre eles, trocando cumprimentos e sorrisos amigáveis.

— E aí, pessoal! — Sarah foi a primeira a se pronunciar.

— Vocês não vão acreditar! — Stuart estava mesmo empolgado ao falar.

— O quê? — Thomas perguntou educadamente.

— O nosso cinema preferido vai finalmente colocar em cartaz o novo filme do Thomas Roithman — continuou o ruivo.

— Ah, ótimo! — a jovem respondeu com ironia. — Mais um filme sobre um homem com crise de meia-idade.

— Ei, não zombe do nosso diretor preferido! — protestou George. — Ele é um diretor muito conceituado e trata como ninguém o tema da crise existencial.

— É! Mas todo filme dele é sempre a mesma coisa — replicou ela. — É sempre sobre um homem na faixa dos cinquenta anos que percebe que jogou sua vida no lixo e agora tenta correr atrás do tempo perdido.

— É, mas ele ganhou e foi indicado ao Oscar várias vezes. — Stuart se pronunciou em defesa.

— E daí? Isso não muda nada. — Sarah manteve seu argumento.

— E você, Thomas, o que acha? — George perguntou diretamente a ele.

— Eu... Eu... Bem, eu acho ele um ótimo diretor? — O nervosismo dele era perceptível em sua voz e todos o encararam sem expressão aparente. — Mas também acho ele meio repetitivo?

— Cara, você tem que escolher um lado! — disse George, quase como um ultimato.

— Ah, vocês sabem que eu não gosto muito de falar o que eu penso das coisas que vocês gostam.

— Se o seu medo é magoá-los por confirmar que eles têm um péssimo gosto, então, não se preocupe — interrompeu Sarah. — Eles já estão acostumados com isso.

Ela riu de forma debochada, arrancando um sorriso de desdém de George.

— Diz a garota que curte a saga Resident Evil do Paul W. S. Anderson. — Ele a encarava como se tivesse mirado em seu ponto fraco, mas isso não a abalou nem um pouco.

— Nem vem, filmes trash também têm seu valor! — E todos riram juntos do comentário sarcástico dela.

— Mas, então — interrompeu Stuart —, o que me dizem? Vamos todos assistir juntos no sábado à noite?

— Eu topo — disse George primeiro.

— Eu também — respondeu Sarah.

— Eu não sei. — Thomas parecia receoso.

— Por quê? — perguntou ela.

— Eu estou procurando empregos de meio período nos finais de semana para aumentar minha poupança para a faculdade.

— A gente sabe, Thomas — respondeu George. — Mas qual é? Temos que aproveitar nossos últimos momentos juntos como amigos do colegial antes de cada um ir para uma faculdade diferente no próximo semestre.

— Ele tem razão, Thomas — continuou Sarah. — A gente tem que aproveitar. E você não está trabalhando naquele outro cinema nas bilheterias nos finais de semana?

— Sim, mas eles pagam muito pouco e eu preciso de mais.

— Tá bom, a gente promete te ajudar a encontrar um emprego melhor, mas vamos ao cinema todos juntos — insistiu ela.

— Tá bom. Pode ser! — Thomas se deu por vencido.

— Isso! — Stuart comemorou empolgado.

— Olha só, é o clube dos nerds reunidos outra vez! — Uma voz diferente interrompeu, ecoando pelo corredor. Era alguém que não estava naquele círculo, mas familiar o suficiente para desfazer as expressões alegres dos quatro amigos.

Todos se viraram na direção do rapaz que os havia provocado.

Notas finais
Ei, e aí? Nossa, estou muito feliz por ver que chegou até aqui. Mas então, o que achou da história? Que tal deixar seu comentário e dizer sua opinião a respeito dela? Saiba que aprecio muito as palavras de vocês. Muito obrigado a todos que chegaram até aqui. Fico grato pela oportunidade dada. Espero conseguir concluir essa história o mais breve possível, mesmo que o prazo do desafio tenha acabado. Agradeço a todos de coração pela chance e espero vê-los no próximo capítulo. Até a próxima! Beijos, João!