Violetta - O Recomeço
35 Capítulo 18 - Entre a Espada e a Parede
Depois de algumas trocas de beijos e carícias, saem os dois do carro. Luzia continua sem saber como contar, e rezava para que Gérmen não fizesse nada de muito radical ou agisse de impulso. em ultima instância ele teria que pensar nas filhas: Vilu e Clara. Teria que pensar no sacrifício que Angie estava a fazer em manter-se longe para proteger os três. Ele não podia agir sem pensar...
— Luzia...- esta apenas olha para o marido, que a abraça...- Ele tem que saber, Rosário é mãe dele...
— E aquele homem é o pai.- Luzia afasta-se de Luís...- Sei que não é o melhor pai do mundo, aliás deve ser mesmo o pior pai do universo, mas ainda assim é o pai.
— Vamos, eu prometo que te ajudo...
— Luís, preciso que acalmes o Gérmen...eu tenho que evitar que a Vilu se enerve, o que vai ser quase impossível.
— Tudo bem, eu trato do Gérmen e tu da Vilu...- ambos concordam com o que fazer e entram. Quando entram encontram Dália que está com uma Clara ao colo com carinha de choro e Bia ao seu lado.
— Tia...- a pequena corre até Luzia...- Sabias que a mamã está a sair do quarto? Ela está lá na sala a falar com a Vilu. Elas gostam muito de falar...
— Princesa da Tia. Sério? Tu estás feliz?- Bia apenas acena que sim...-O que se passa com a esta boneca, Clarinha?
— Mamã...qué mamã...- e começa a choramingar...
— Vou ver se a distraio um pouco. Vamos fazer um bolo não é Clarinha...- ela apenas acena com a cabeça e logo se encosta de novo a Dália.
— Bia, podias chamar a mamã para fazer bolo com vocês?- Dália olha para Luzia tentando perceber o porquê desta querer que Pilar fosse com as meninas, porém não diz nada. Bia vai a correr buscar a mãe...- Dália, por favor distrai as três...
— O que é que aconteceu agora?- Luzia apenas olha para Luís...- Eu conheço-te há muitos anos Luzia, e sei que aconteceu alguma coisa...
— Rosário está no Hospital, em coma...- Dália olha de Luís para Luzia...- Aquele homem, o pai de Gérmen agrediu-a e...
— O quê? Não...não acredito, ele não pode...a minha avó não...- Luzia encaminha-se até Vilu e com apenas um olhar Luís segura-a, enquanto Luzia prepara algo para injectar em Vilu.- Não...não. Papá...papá...
— Calma Vilu. É só um clamante, não podes ficar nervosa...- finalmente adormece, Luís pega nela e leva-a para o quarto.- Pilar.
— A tua mãe?- Luzia acena que sim, abraçando a amiga...- Luz, se é o meu pai que está a tratar dela, eu sei que ela vai ficar bem.
— Estou tão feliz por te ver assim...bem. Estás mesmo bem? Não te tens sentido...
— Não, estou óptima. Lembrei-me de algumas coisas, perguntei à Dália. Ela aos poucos vai-me contando algumas coisas, e eu vou escrevendo. Hoje de manhã li o que estava escrito. Ainda há muita coisa que preciso de saber, por exemplo, quem é o pai da minha filha.
— Pilar...pensei que ainda não te tinham contado...
— A Beatriz não conseguiu estar sem me chamar de mãe. Mas tem calma, só de saber que tenho uma filha como ela que me ama apesar de tudo o que se passou comigo...
— Ela ama-te muito. És a mãe dela, mesmo que não te lembrasses disso, ela sabia e no fundo sempre teve essa esperança de te ver bem.
— Ela é linda, e eu tenho sorte em a ter, como te tenho a ti e ao meu pai. E ainda tenho a Dália e ao Igor...
— O Igor? Pilar...o que é que..
— Nada, ele tem sido apenas um bom amigo. Desde ontem à noite quando decidi descer para conhecer a tua família...e comecei a lembrar-me de algumas coisas...- Luzia ia falar mas Pilar a interrompe...- Eu sei que tudo o que está no passado não deve ser uma história bonita de se contar. Até porque estão todos a enrolar o assunto...
— Prometo que um dia, eu mesma te conto. Mas estou tão feliz por te ver assim, de ter a minha irmã de volta.- e abraçam-se como se não se vissem há anos e anos. Quando se afastam Pilar segue com Dália, Beatriz e Clara para a cozinha. Luís desce e junta-se a Luzia.- Vamos.
— Vamos. Eu vou estar ao teu lado, mas Luzia lembra-te por favor, estás grávida e...- Luzia apenas o abraça.
Quando entram, Gérmen fica de imediato alerta. Alguma coisa tinha acontecido, algo grave, caso contrário Luzia nunca teria vindo de novo vê-los. Luzia não consegue fixar o olhar em Gérmen, ela não sabe como lhe dizer. Então, apenas se abraça ao irmão...
— Luzia. O que é que se passa?- Luzia já não conseguia aguentar mais as lágrimas...- Luís?
— Gérmen, aconteceu um acidente ontem...
— A mãe...ela tentou defender-te do teu pai...ela tentou...
— Tentou!? Como assim tentou? O que é que aconteceu com a minha mãe? O que é que aquele desgraçado fez?
— A mãe, ela...ele...- Luzia não consegue falar...
— A tua mãe tentou impedir o teu pai de continuar com esta loucura toda: a guarda das meninas e a tua prisão. Mas o teu pai...ele...bateu na tua mãe.- Gérmen está incrédulo, ele sabia que o pai podia ser cruel, mas bater em alguém, numa mulher...em Rosário...
— A mãe caiu, e bateu com a cabeça...Gérmen, ela está em coma.
— Como? Não, não pode ser...diz-me que ela vai ficar bem? Diz-me que...
— O Professor Castro está a tratar dela pessoalmente, mas Gérmen é grave. O traumatismo da Rosário foi cranioencefálico, ou seja, a lesão atingiu o tecido cerebral.
— O que é que isso significa? Ela vai estar em coma durante quanto tempo?
— Neste momento, o que se pode fazer é vigiar. Ela está ventilada, com oxigénio e a ser monitorizada 24 horas por dia. O mais provável nestas situações é que tenha que ser operada, para descomprimir a lesão no cérebro.- Gérmen olha para Luzia...para Leon...
— Onde está a Vilu? Ela não pode saber disto, ela...
— A Violetta já sabe.- diz Luzia...- Desculpa, eu estava a falar com a Dália, e ela apareceu com a Pilar e ouviu. Mas ela está bem, eu sabia que ela ficaria agitada, então trouxe um injectável...algo fraco, mas que a fez acalmar e dormir.
— Ela está no quarto...Leon...- mas Leon já nem ouviu mais nada, saiu da sala a correr e subiu rumo ao quarto do seu amor.
— Eu quero ir vê-la. Eu quero ir ver a minha mãe...
— Gérmen, o hospital está cheio de polícias. Se tu apareceres eles vão-te prender...eles levam-te...
— Não me interessa...é a minha mãe...ele...eu vou preso, mas ele também vai. Eu não vou deixar que ele saia impune depois...
— Gérmen, tens que pensar nas tuas filhas, na Angie...não és só tu...
Entretanto, Frederico sai sem ninguém se aperceber da sala ao perceber que tinha algumas chamadas de Ludmila não atendidas. Da primeira vez que ele liga, Ludmila não atende, mas logo ela volta a ligar. Enquanto está ao telefone, conseguem-se ouvir os gritos de Gérmen e Luzia...
— É A MINHA MÃE...E EU QUERO VÊ-LA. QUE SE LIXE SE VOU PRESO. QUE SE LIXE AQUELE MONSTRO.
— GÉRMEN. EU SEI QUE QUERES, MAS POR FAVOR PENSA NA CLARA, NA VIOLETA...
— É A MINHA MÃE...
— É A NOSSA MÃE. QUE FOI AGREDIDA PELO TEU PAI...
— PAREM.- diz Luís colocando-se na frente dos dois...- VOCÊS TÊM QUE PARAR OS DOIS.
— Desculpa Gérmen...eu...desculpa...- neste momento Luzia quase cai...
— Luzia...- Gérmen que está mais próximo, consegue agarrá-la antes que esta caia...
— Luzia.- Luís aproxima-se...- Estás bem? Eu avisei-te, bolas...eu disse-te...
— Eu estou bem...- Luzia olha para o marido, fazendo-lhe uma leve carícia...- Luís eu estou bem, foi apenas uma má disposição...
— Não. Não foi. E tu sabes que não foi...tu sabes que foi assim que...
— Luís. Não vai acontecer nada...por favor, confia em mim.
— Podem explicar-me o que é que se passa? Luzia estás doente?
— Não...não estou. Estou apenas grávida...
— Uma gravidez de risco, uma gravidez que não devia...não podia ter acontecido...- Luzia olha para Luís furiosa...- Não olhes para mim assim, eu ia-te perdendo na gravidez do Tomás, tu sabes que...
— EU SEI...- Luzia grita, para logo depois suspirar duas ou três vezes para se acalmar...- Eu sei que não devia, eu sei tudo o que passámos. Mas aconteceu, e eu não vou tirar este bebé, já falámos sobre isso...
— Tirar o bebé? Luís tu queres que a minha irmã aborte o vosso filho? Como é que podes...tu és médico...tu...
— A Luzia ia morrendo no parto do Tomás...ela sabia que não podia, que podia...que pode acontecer tudo de novo...
— Luzia!? O que é que pode acontecer de novo?
— Eu tive alguns problemas na gravidez do Tomás...
— Alguns Luzia? Ela teve diabetes gestacional, hipertensão que provocou uma pré-eclampsia, teve uma hemorrogia no pós parto...
— Luzia!? Isto é verdade?- pergunta Germen, aproximando-se da irmã que agora chora...
— Sim.- responde bem baixo...- Mas eu não vou tirar este bebé...não vou Luís...é nosso filho...eu não posso, eu não consigo. Eu sei que vai ser difícil, sei que vai ser duro, sei de todos os riscos...mas é nosso filho.
— Luzia, eu percebo-te. E percebo o Luís...- ele olha para o Luís...- Sei que estás com medo, eu senti-me assim na gravidez de Angie, não porque era de risco, mas porque me lembrava que a podia perder como perdi a Maria. Mas no final tudo correu bem, e hoje temos a Clara que é...
— Desculpa-me amor...- diz Luís abraçando-se a Luzia...- perdoa-me, eu estou...
— Eu sei...- e abraçam-se os dois...- Gérmen, eu sei que é difícil. Sei que estás a sofrer, que te doí não poderes ir ver a mãe. Mas por favor pensa nas tuas filhas. Se tu fores, vais preso...e depois? Como ficam a Vilu e a Clara? A Angie está longe, tu preso...
— Eu sei...eu sei...mas não me podem impedir de a ir ver. Se ela...se ela...
— Desculpem...- Frederico interrompe a conversa...- eu não queria estar a trazer mais problemas, mas...
—O que foi agora? Fred, eu não aguento mais nada...- e nesse momento Clara entra na sala, com Dália, Pilar e Bia...
— Papá...mamã...eu vi mamã...aí...ó...- Clara aponta para o telemóvel...e sorri...um sorriso que Gérmen não via há tanto tempo, um sorriso igual ao de Angie...
— Viste uma fotografia da mamã princesa...- Clara nega com a cabeça...
— Mamã...- e de novo aponta para o telemóvel...Gérmen olha para Dália e Pilar sem perceber...
— Ela esteve a falar com a Angie. A Ludmila falou-me, elas...ela está...- Gérmen já nem sabe mais o que pensar, e continua a olha para Frederico...- A Angie está no hospital...
— Os bebés? — Gérmen, deixa-se cais no sofá, que por sorte está mesmo atrás dele...
—Calma, está tudo bem. Pelo menos foi o que me disseram...
— Disseram? Com quem é que tu estiveste a falar? E a Lu...onde ela está?
— A Lu está com a Angie...eu falei com um tal de Roberto...
— O Tio Roberto? Eu preciso falar com ele...preciso saber de Angie...
— Ele disse que voltaria a falar...só temos que esperar...- Frederico vira-se para Luzia...- Ele pediu que estivesse presente também...
— Eu!? Mas nem sou da família...
— O Tio Roberto é casado com a irmã do teu pai, do Miguel. Ele é teu tio Luzia...assim como meu por ser irmão do meu pai.
— Esta família é uma verdadeira confusão de parentescos...- diz Luís fazendo todos, ao fim de minutos de gritos e choros, gargalhar com a sua frase.
Sim. Não eram a família mais convencional de todas...mas eram uma família, com tudo o que existe numa: amor e ódios, alegrias e tristezas, luz e escuridão, segredos...muitos segredos. Afinal nenhuma família é perfeita. Nós discutimos, brigamos,. Nós até paramos de falar uns com os outros, mas no final, família é família. O amor sempre estará lá. Se pensarmos bem, uma vida sem família é uma vida muito mais cinza! Não precisa de sangue, mas sempre será importante ter pessoas com quem você pode contar e que podem contar com você!
Sabem aquela história de "eu sou igualzinha à minha mãe / ao meu pai"? Não é por acaso. Por mais que não percebamos, aprendemos e interiorizamos vários dos costumes da nossa família, isso é o que faz as gerações durarem e as famílias permanecerem! A família não nasce pronta; constrói-se aos poucos e é o melhor laboratório do amor. Em casa, entre pais e filhos, pode-se aprender a amar, ter respeito, fé solidariedade, companheirismo e outros sentimentos.
Alguns dizem que não se pode escolher família, mas sabemos que na prática isso não e verdade. Muitas pessoas conseguem amar para além dos laços de sangue e fazer das amizades uma fraternidade. Se faz sentido para o seu coração, então já é família! E ela pode ser formada de pessoas, identidades, quantidades e valores diversos. Todas as famílias vivem as suas dificuldades, mas a união faz a força e tudo fica mais fácil se todo mundo remar para o mesmo lado.
E assim foi, ficaram todos à espera do telefonema, que poderia mudar ou não alguma coisa...
Em Rosário, no consultório de Roberto, todos estavam ansiosos. Porém este queria apenas falar do seu plano quando Cristina, Paula e Martina chegassem. Ludmila olhava para todos os que estavam ali: Henrique, Sebastian, Milagros e Roberto. O homem que ela aprendera a confiar. Ele podia ser irmão daquele monstro, contudo, havia algo ali que não estava bem explicado. Algo do passado, um segredo. Assim que Martina, Paula e Cristina chegaram, Roberto pediu-lhes que se sentassem.
— A Angie ficou com o avô Nico. Ela está a dormir, e eu pedi à Celeste que ficasse lá também...
— Obrigada Martina. Bem, para quem não estava presente eu vou resumir o que sabemos: o José está em Sevilha à procura do Gérmen e das meninas.
— Diz-me que o vais ajudar? Roberto, a Angie não vai aguentar ficar sem as meninas...eu conheci a Clara, ela é a fotocópia da Angie em pequena.
— Cristina...- ele chega perto da esposa...- Eu vou ajudar, mas as coisas tornaram-se mais complicadas neste momento.
— Como assim pai?- pergunta Martina.
— O teu tio...ele agrediu a Rosário.- Cristina e Martina olham para o pai sem conseguir acreditar...- Ela entrou em coma...eu ainda não sei pormenores, queria-vos ter todos aqui para falar com o Gérmen. O que eu sei é que agora com a mãe no hospital ele vai querer ficar em Sevilha, talvez até arriscar-se e....
— E ir ao hospital ver a Rosário.- diz Ludmila...- Mas ele não pode, "aquele monstro" vai lá estar, e o Gérmen vai preso. Não podes deixá-lo fazer isso...não podes.
— Eu sei. Por isso lembrei-me, em vez de trazer apenas o Gérmen e as meninas para cá, vou trazer a Rosário também. Mas para isso preciso saber o estado dela.
— Pai. Não querendo ser a pessimista aqui, mas tu sabes que o mais provável é a Tia Rosário não poder viajar...
— Eu sei Martina, e sei que se eu não o conseguir fazer, o Gérmen vai-me pedir para proteger as meninas e ele...
— NÃO...por favor não. O Gérmen não pode fazer isso...a Angie...ela...
— Ludmila,vamos primeiro ver se o que estou a planear vai ser possível.- Ludmila olha para Roberto...- Eu não vou deixar o meu irmão ganhar desta vez...não vou.
— Roberto. — Cristina olha para o marido a chorar...- Nós não podemos...nós jurámos...
— Desta vez eu não o vou deixar fazer o que quer, não vou. Chega.- Ele abraça-se a Cristina...- Os meus pais que me perdoem, mas não o vou deixar fazer à Angie o que ele nos fez a nós...não vou.
— Pai?! Do que é que vocês estão a falar? O que é que o Tio vos fez?
— Nada Tina, nada meu amor...
— Não. Vocês não podem dizer algo assim e depois dizer que nada se passou...
— Martina, filha...- Milagros fala pela primeira vez...- Sei que deves estar a fazer mil e uma perguntas nessa tua cabeça, mas vamos nos concentrar num problema de cada vez.- Olhando para o casal que continua abraçado...- Vamos falar para o Gérmen neste momento e tentar arranjar uma solução, depois tenho a certeza que os teus pais iram falar contigo e com os teus irmãos.- Cristina olha para Milagros...- Chega de segredos...chega de sofrimento...
Martina olha para os pais e assente, abraça a mãe e Roberto decide então fazer a chamada que todos esperam que possa ser bem sucedida. Pega no telefone e disca o numero de Frederico, colocando em alta voz. Pede que todos se mantenham em silêncio pois se estiver muita gente a falar ninguém se vai entender. Caso tenham algo a dizer apenas lhe acenem. Diz ainda a Ludmila que ela poderá falar sempre que quiser...o bip bip ouve-se várias vezes até que...
Entretanto no quarto de Angie, Nico observa a neta. Ele sempre amou as netas, mas Angeles era a sua princesa, o seu Anjo. Todos pensavam que ele não sabia de toda a história entre Angélica, Miguel e José...das brigas entre os dois amigos por causa do amor que ambos sentiam pela filha. Mas ele sempre soube de tudo, Angélica sempre confiou nele, ela sempre lhe contou tudo. Ele sabia que Miguel era um bom homem, apenas se perdeu no meio do caminho. E quem sofreu com isso foi Angélica e mais tarde Angeles.
"Angélica veio de novo ter comigo a chorar. Neste momento está com a cabeça nos meus joelhos a dormir...Maria está lá dentro com a nossa neta. Não sei o que Miguel fez desta vez, mas nunca vi Angélica desta forma. Ela chorou até que finalmente adormeceu de cansaço.
— Papá...onde está a Maria?
— Ei! Calma minha princesa, ela está lá dentro com a tua mãe...ela está bem no mimo da avó.
— Desculpa...eu...eu preciso de ir. Se o Miguel chega e não me vê em casa...- ela diz meio assustada.
— Tu não vais sair daqui enquanto não me disseres o que o Miguel te fez.- olho para Angélica, tem os olhos molhados...- Princesa, sei que o Miguel é um bom homem, sei que ele está perdido neste momento, que está a sofrer...
— A culpa é minha pai. Eu...é que lhe fiz mal.
— Como assim Angélica?- não consigo perceber o que se passa...
— Pai. O Miguel apaixonou-se por outra mulher.- fixo o meu olhar e ela continua...- Ele apaixonou-se por Rosário, a mulher do José. Mas eu não suportei perdê-lo...eu ameacei-o...eu disse-lhe que se ele se separasse de mim ele nunca mais veria a Maria.
— Angélica. Tu não fizeste isso!? Não, tu...
— Eu não o podia perder. Eu amo-o. Apesar de...- olho para a minha filha, incentivando-a a continuar...- Apesar do que ele me fez, eu não o odeio, eu amo-o.
— O que é que ele te fez?- Angélica levanta-se e caminha até à janela da varanda...
— Ele...forçou-me a...tu sabes...
— Eu vou matar aquele...aquele...
— NÃO. Pai eu amo-o. Eu não consigo...por favor não faças nada...por favor.
— Eu não consigo deixar isto passar sem...Angélica o que ele te fez...
— Eu estou grávida pai.- angélica diz por fim...- Eu contei-lhe hoje, e ele ficou furioso, diz que não quer este filho, que nunca lhe vai dar o seu nome.
— O quê? Ai vai...vai mesmo. Porque caso ele não o faça eu vou à polícia fazer queixa do que ele te fez.
— Papá, não. Por favor...não faças nada. Eu resolvo com ele, por favor.- Angélica abraça-se a mim...- Posso deixar Maria aqui hoje? Eu quero falar com ele, mas não a quero lá em casa.
— Tens a certeza disso, não preferes que eu vá contigo?- Angélica acena a cabeça dizendo que não...- Tudo bem, e claro que a Maria pode ficar a dormir cá hoje.
— Obrigado. Vou despedir-me dela e da mamã. Depois vou para casa...- ela caminha para a porta...
— Angélica. tu sabes que podes contar comigo e com a tua mãe. Se ele...
— Eu sei. Até amanhã."
Sim, Angeles foi fruto de um momento de raiva de Miguel. Não sei o que se passou entre os dois naquela conversa, sei apenas que eles se resolveram e Angeles nasceu, linda. Cabelo loiro e os olhos do pai. O nome que lhe deram era a cara dela, pois de facto ela parecia-se com um anjo, o nosso anjo.
Passado quatro anos do seu nascimento, Miguel quis mudar-se para Buenos Aires. Ele queria proporcionar a Maria os melhores estudo possíveis no campo da música, e em Rosário já não era possível. Claro que quer eu quer Maria ficámos desolados, mas não os podíamos prender, era para o bem de Maria. E assim se foram, e nunca mais os vimos. Até que Maria apareceu com o marido: Gérmen Castillo.
Nada menos que filho de José Castillo. O destino às vezes é engraçado. O acaso, o destino ou quem sabe o sincronismo da vida se encarregam de nos colocar no lugar certo, na hora certa, no momento certo, diante da situação ou da pessoa certa.
Contudo eu, Nicolau Saramego não acredito em acasos. Eu acredito que quando alguém tem que se encontrar com a sua outra metade, não é o acaso que o faz, é a própria pessoa. O seu desejo, a sua necessidade é que o conduzem a isso.
Há quem chame de coincidência ao destino; há quem diga que certas coisas estão escritas, que o que tem que acontecer, querendo ou não, acontece. No fundo não importa se foi um motivo de força maior, superior, divina, se foi uma mãozinha de Deus, Buda, Alá ou um empurrão das estrelas, cometas, alienígenas, gnomos, fadas, anjos; o que importa é que o encontro aconteceu.
Ali à minha frente estavam os filhos de duas pessoas que se odiavam, mas ao contrário dos pais se amavam incondicionalmente. Em mim surgiu o medo. Porque no amor é necessário fazer sacrifícios, renúncias. É muitas vezes necessário dizer adeus à vida antiga, deixar o que nos fazia felizes à nossa pessoa individual e começar a pensar na felicidade de duas pessoas.
A nossa individualidade de ver o mundo à nossa maneira, agora tem que ser altruísta, e deixar entrar um outro "ser" com todas as suas particularidades e formas de verbo mundo. E não é fácil fazer isso.
Mas eu vi em Maria e Gérmen algo tão puro, algo tão bonito. Era como se existisse uma aura à sua volta que os abrangia aos dois ao mesmo tempo. Eu soube ali naquele brilho que saía dos seus olhares que o amor que eles sentiam era puro e verdadeiro.
Perguntei por Angélica, por Angeles e o porquê de não terem vindo com ela. E embora a resposta tenha servido para Maria, eu sabia que o mais provável é que Miguel não as tenha deixado vir. Mas sabendo que elas estavam bem, já me animava.
Quando Maria morreu, o nosso mundo caiu com ela. Angélica e Miguel estavam destroçados, eles acusavam-se mutuamente pela morte de Maria. Gérmen, piorou a situação fugindo com Violetta, a minha bisneta, que vi apenas umas duas vezes na vida. A Angie, apenas ficava no seu canto quieta, não chorava, não gritava...apenas se mantinha quietinha, invisível.
Tentámos fazer com que Angélica viesse connosco para Rosário com Angie, mas Miguel não permitiu. Ele disse que elas iam ficar com ele, que era a obrigação delas ficar com ele. Angélica apenas me disse que tudo iria ficar bem. E assim voltámos para casa, sem nunca mais ver a minha filha e a minha neta...até que ela me aparece. Casada, com alguém que não conheço; com uma filha, que não está com ela; e grávida de mais dois. Com ela vem uma moça que percebo tem a idade de Violetta, e que ainda nem percebi o que é no meio desta família estranha da minha neta.
— Avô...avô...-ouço Angie gritar por mim...
— Filha, estás bem? Queres alguma coisa? Eu vou chamar um médico...
— Eu estou bem, calma. Mas estava a chamar-te há séculos, mas tu não me ouvias...
— Desculpa o teu avô. Estava aqui a recordar. Sabes quando somos velhos, como o teu avô, memórias são algo que não faltam.
— Tu não és velho avô.- eu sorrio com o que ela acaba de me dizer...- E o que estava a relembrar?
— Tanta coisa filha. Mas, já que estamos aqui sozinhos...- olho para a enfermeira que está sentado um pouco mais afastada de nós...- ou quase sozinhos, podias responder-me algumas dúvidas que tenho.
— Claro avô. O que queres saber?
— Filha, tu chegaste grávida, com uma moça que podia ser tua sobrinha, casada e com uma filha que nem veio contigo. Onde está o teu marido? E porque...
— Avô. Eu vou contar-te tudo...só espero que não me condenes, nem me julgues. Porque eu já o fiz muito no início de toda esta história. Tentei lutar contra o que sentia, mas não consegui...e quando finalmente deixei de lutar percebi que estava apenas a lutar contra algo que já estava escrito.
— Não te estou a perceber, porque é que eu te havia condenar ou julgar?- paro um pouco para pensar...- Angie tu és...
— Não. Avô, eu casei-me com o Gérmen. Ele é o pai da Clara e destes dois que estão aqui.
— Espera...o Gérmen da tua irmã!? O Gérmen Castillo?
— Sim. Eu...Nós tentámos lutar contra o que sentíamos, mas não conseguimos. Perdoa-me avô, eu sei que...
— Anjo...eu nunca te poderia condenar, mas, ele fez-vos tanto mal. Angeles, ele fugiu com a Violetta, ele culpou-nos a todos por algo que foi um acidente.
— Ele errou. Eu sei, mas avô ele apenas quis proteger a Vilu. De forma errada, mas para ele fez sentido.
— Estás a defendê-lo. Tu amas mesmo esse homem, tal como a tua irmã o amou.- olho para os olhos de Angie, e brilham como os de Maria quando me apresentou o marido.
— Eu sei o que deves estar a pensar, que eu traí Maria...
— Não. Eu vejo que o amas, os teus olhos sempre falaram a verdade. Não te vou dizer que não me incomoda esse amor, não por ele ser teu ex-cunhado, e sim por ele vos ter feito sofrer.
— Vô...foi o José Castillo que lhe fez a cabeça. Ele acusou o meu pai da morte de Maria, o Gérmen estava a sofrer, a Vilu só chorava porque queria a mãe...ele fez o que fez porque acreditou que era o melhor para a filha.
— E porque é que ele não está aqui contigo? Tu estás grávida, e ele está não sei onde com a tua filha...o que é que aconteceu?
— O José, ele soube que nós nos casámos...e...ameaçou-nos. Ele...queria que nós nos separássemos, que a Clara ficasse com o Gérmen, e que eles fossem para Espanha para perto dele.
Ela então conta-me toda a história, o que ele sofreu, o que eles passaram. A fuga para Sevilha, o acidente de Violetta, a vinda dela para a Argentina para vir buscar Angélica. Mas o que mais me doeu, foi o facto de Angélica se ter juntado a José.
— Por isso tu vieste para cá?- Angie acena...- E agora filha o que é que tu vais fazer? Vocês não podem viver assim...
— Não temos alternativa. Pelo menos enquanto a guarda estiver com ele. O Tio Roberto prometeu-me que nos ia ajudar. Eu sei que ele vai conseguir, eu tenho que acreditar nisso.
— E a tua mãe? Eu não consigo acreditar que a minha menina se tenha transformado em alguém...
— Não condenes a minha mãe. Ela ficou sem a Vilu durante anos, quando nós fugimos, ela acreditou que o Gérmen tivesse fugido de novo... só que o que ela não sabia é que eu estava com eles.
— Angie, meu pequeno Anjo, não podes defender todos nesta história.
— E não estou, o que ela fez doeu...dói ainda. Mas não a consigo odiar, ela é minha mãe. E assim como perdoei o meu pai, consegui perdoa-la.
— Como assim perdoar o teu pai? O que é que aquele ser te fez?
— Essa é outra história vô...que te conto num outro dia...eu prometo.
Sorrimos e abracei-a, como há tantos anos não o fazia. Sei que me esconderam isto para me pouparem, e sei que existem mais segredos nesta história, mas Angie confiou em mim, assim como Angélica o fez há anos atrás. E se ela diz que me conta, sei que o cumprirá.
Ao seu ouvido apenas lhe disse que iria ser o nosso segredo. Eu faria de conta que não sabia de nada, mas em troca se um daqueles bebés fosse rapaz tinha que ter o seu nome.
Angie apenas sorriu, e prometeu-lhe que o seu filho teria o nome do homem que mais amou na sua vida: Nicolau. E pronto assim se faz um velho chorar...mas de pura alegria.
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