Notas iniciais
Espero que gostem '/////'

Eu estava encolhida que nem um feijão na parte de trás do carro. Era um Ford velho, daqueles com formado quadrado, sem ar condicionado nem aquecedor: nada agradável quando seus pais decidem te levar para o extremo norte da Europa.

Minha mente tinha sido arrebentada e quebrada ao meio por milhões de pensamentos turbulentos, como pinceladas de azul-escuro em um fundo preto. Marcas de dor, lembranças egoístas. Culpa, arrependimento e medo tinham o gosto das lágrimas secas que perfuravam minha pele, como pequenas agulhas. Meu olhos estavam inchados e vermelhos de tanto chorar, e eu não tinha coragem de abrí-los, primeiro porque o frio machucaria as pálpebras, segundo que a sensação de mexer olhos inchados é esquisita e terceiro que eu não queria encarar meus pais depois da discussão feroz que tivemos em alta velocidade.

Eu não queria me mudar.

Estava fazendo, no mínimo, cinco graus lá fora. E eu só estava com uma camiseta e uma blusa xadrez vermelha cobrindo minha parte de cima.

Pensei nos meus amigos. Em Bruxelas. Nas caminhadas até o Grand-Place depois da escola, ao redor do tapete gigantesco e incrível feito de flores das mais variadas cores. Lá era tão quente e feliz, e agora estávamos indo morar em uma pedra de gelo longe de qualquer civilização.

Talvez isso conte como um fator para deixar meu pai minimamente culpado, e, portanto, com uma pontada de pena. Assim eu talvez consiga conversar normalmente com eles depois da briga. Meu irmão está bem protegido, de cachecol e sua jaquetinha do Bayer de Munique. Ele é um filho obediente. Ele não fez birra pra vestir suas roupas. Talvez ele seja a razão por eu ainda não ter enlouquecido e destruído minha família.

Pelo menos não ainda.

Está chovendo canivetes lá fora e o carro não para de sacudir. Meu pai certamente vai fazer uma cara de preocupação, mas sem ânimo o suficiente pra protestar. Abro os olhos um pouquinho e olho para a janela: estamos cercados de mata verde, em uma estrada de uma terra fina como areia e algumas pedras. É até bonito, e eu penso que seria legal andar pelos arbustos. Mas está frio de uma maneira ridiculamente absurda, e eu não entendo como as plantas não estão dentro de uma pedra de gelo. Estou me misturando à natureza, sentindo aquele clima em seu ápice.

O fone está incomodando minha orelha direita, pressionada contra o banco do passageiro. Vou ter que levantar de qualquer jeito.

−Acordou, hein, Pombinha?− diz minha mãe.

Eu amo minha mãe. E queria muito, muito mesmo parar de ser uma filha tão imbecil. Queria parar de quebrar os vasos de casa quando começo a surtar, queria não ter síndrome de ansiedade, que é mais ou menos a sensação de pisar em falso na escada ou cair da cadeira de balanço, só que todo dia, toda hora.

Ela não é muito alta; tem olhos esverdeados e cabelo escuro e sorriso doce. Ela parece bem, mesmo depois de tudo.

−Já estamos chegando?− perguntei timidamente.

−Faltam só 3 km – disse meu irmão, com um sorriso orgulhoso – vi a placa faz uns 20 minutos, e pelos meus cálculos é mais ou menos isso.

−Cara, todos os meninos que conheço jogam Angry Bird no tablet o dia todo – disse, franzindo a testa – você não podia ser mais normal não?

−Aparelhos eletrônicos o dia todo podem queimar neurônios. Li isso em uma revista.

−Pai, o Jean apanha muito na escola?

−Na verdade ele ganhou uma menção honrosa esses dias. Melhor comportamento da turma – riu meu pai, com os olhos presos no retrovisor.

Dei a língua pra Jean. Ele respondeu rindo. Ele vai crescer, e se tornar um rapaz incrível, e eu quero muito estar lá pra ver isso.

Fizemos uma curva de leve, e nesse ponto a estrada se transformou em mar. A neblina estava absurda, e eu comecei a bater os dentes com força; porém, disfarcei o frio. Me inclinei para ver melhor uma ponte vermelha que se estendia ao leste sobre as águas cor de lítio. Tinham só três carros atrás de nós.

Agora, esperamos a barca, disse meu pai.

Pedra e pinheiros e ponte e lítio e meu dedos começaram a tremer com meus dentes e logo eu estava com um calafrio e minha mãe deu um grito enquanto Jean pegava uma coberta jogada atrás do banco e ajudava a me enrolar. O fone de ouvido ainda estava em minha orelha direita, os cinco graus Celsius se enrolavam em mim como uma serpente, sussurrando em minha pele. Eu sentia cada veia de minhas bochechas pulsar. Eu tremia como uma ripa de madeira fincada no chão, prestes a quebrar a qualquer momento.

A barca veio nos pegar, e assim começou minha jornada rumo à Älvkarleby.

Não se preocupe, não precisa decorar o nome agora. Eu devo ter demorado uns dez meses. Antes disso eu usava alguns palavrões para me referir a cidade que eu viria a amar com cada célula de meu corpo.