Vinter över dig

4 Frustração


Notas iniciais
MEU DEUUUUSSS!!! Eu estou TÃÃÃO irritada comigo mesma!!!! Eu sempre entrego o capítulo aos 45 do segundo tempo -- mas eu estou me esforçando, eu juro! Infelizmente, vai ter que ser assim por mais uma semana :/ provas e tal. Espero mais que tudo que vocês gostem da fic, divulguem, deem sua opinião, ou sei lá o que, e confiem na tia Misa pra postar mais capítulos :) como desculpas, fiz um capítulo beem gordinho

Äslog era o cara mais imenso que já conheci.

Não, falando sério.

Ele era um ano mais velho e tinha 1,93 m de altura. Era gigante como um lenhador, os cabelos mais brancos que limão. Eu me encolhi desesperada na minha cadeira, tentando não olhar para suas mãos grossas batendo na mesa de carvalho, e como elas pareciam poder quebrar ela ao meio quando ele segurava com força.

O resto das pessoas da casa conversava e ria animadamente com uma intimidade frustrante. Meu pai e minha mãe estavam jogados no sofá, abrindo com Bert uma garrafa de vinho perto da lareira. Dezenas de parentes, amigos e companheiros de pesca rodeavam a mesa, passando de um lado para o outro a caçarola, espetando a panela cheia de fondue de queijo, incluindo a avó de Äslog. Este estava na cabeceira da mesa, exatamente oposto a mim e a Jean (como sempre, distraído com alguma coisa inútil). Ele nos fitava acanhado, como uma criança, alguém quem quer se enturmar mas não consegue.

Eu oscilava entre olhadas fugazes no meu celular, a frustração raivosa por não conseguir WiFi perto da baía e o inevitável encontro de olhares com aquele ursão desajeitado.

Na tela bloqueada do meu celular, eu via meu rosto. Mechas castanhas num mar de cabelos cor de limão. Olhos verdes em um mar de pares de cristais gelados. Um pouco de cor do verão Belga. Eu era uma sobrevivente.

Ele sorriu de maneira boba para nós dois.

Logo em seguida, ele sentou do nosso lado. Deu um “oi” para meu irmão, que estava brincando com uma espécie de Raio-X que ele tinha baixado no Tablet (até ele trouxe o Tablet). Depois, virou-se pra mim.

−Você... gostar... queijo? – murmurou ele, pegando um pãozinho com queijo com aquelas mãos gigantes.

Suecos falam bastante inglês. Em Estocolmo.

Grande notícia: Não estávamos em Estocolmo.

Äslog assumiu uma expressão confusa, e pensei ter feito alguma coisa errada. Acho que não reparei que tinha ficado encarando ele por uns 10 segundos de boca aberta.

−...Sim! Sim, eu gosto.

−Ah! – ele exclamou, surpreso. E depois começou a rir. Ele riu muito, e eu comecei a rir junto com ele, meio não entendendo porque estávamos rindo. Dei uma olhada rápida em Jean, buscando algum apoio. Mas o homem da casa estava brincando de ver os ossos da própria mão.

−Madeline! – gritou meu pai, do sofá – a caçarola está ótima! – ele estava com a cara vermelha, claramente pelos efeitos do vinho. Não que eu tivesse problema com isso: Belgas geralmente bebem bastante, mas eu me sentia sufocada naquele lugar. Minha mãe também não parava de rir jogada no sofá, e foi quando Bert deu um berro em sueco.

−Está na hora da música, pessoal! – traduziu ele, e todos ergueram seus copos.

Um dos parentes dele trouxe um violão. Todos começaram a se animar, formando uma roda em torno dele, dedilhando em acordes tradicionais que eu nunca havia ouvindo antes. Por um lapso de segundo eu apreciei aquilo. Até alguém derrubar caldo de caçarola em mim.

A pessoa que havia feito estava tão distraída que nem sequer se desculpou, só reclamou em sueco que sua comida havia caído. Eu estava ficando vermelha feito um pimentão. E, quando as coisas chegam nesse ponto, nada me segura.

−Madeline, o que foi? – perguntou minha mãe. Eu estava com uma cara tão horrível, implorando para irmos embora. Ela se enfureceu. Chegou perto de mim.

−Se você fizer palhaçada aqui, você já era – ameaçou.

Tudo foi virando uma cacofonia em minha mente. Aquele cara patético segurando o violão de forma patética, aqueles parentes estúpidos e mal educados falando sueco; nada parecia mero capricho, era como se todos estivessem fazendo tudo de propósito, sendo arrogantes e babacas porque éramos estranhos, porque eu era estranha, claramente não encontrando prazer algum em ficar sentada em uma mesa cheia de gente branca, loira e esquisita. As luzes pareciam ir ficando mais brilhantes, sufocavam-me. Eu odiava aquilo! Odiava! Meu rosto estava ficando mais vermelho, a garganta ia se fechando, minha mãe me fitava com puro ódio esperando um deslize, e aí já era.

−Tenho que ir ao banheiro!− gritei para Äslog , que, assustado, cedeu passagem. Eu não ligava. Ele provavelmente não entendeu nada. Era quase uma piada.

Corri até o fim do hall sentindo aquele vento gelado, aqueles pinheiros tristes na noite azul, querendo fugir, fugir daquela palhaçada de morar em uma cidade tosca como se isso fosse fazer mais feliz meu pai. Será que ele não se tocava?? Não tinha internet ali, não tinha nada, NADA! Íamos ser infelizes ouvindo noticiários em uma língua incompreensível, dormindo no frio e desenvolvendo uma anemia pela falta de sol. E eu era a egoísta da família? Não tenho certeza disso.

Bati com força na porta do banheiro; talvez alguém tenha ouvido da sala, mas eu não parei pra pensar nisso por mais de dois segundos. Eu me olhei no espelho, e deixei ir: as lágrimas. Elas escaparam, danadas, mesmo que eu me esforçasse para não tê-las, era impossível segurar naquele momento. Sempre me empenho em não ser imbecil e só pensar em mim mesma, mas estava doendo. Meu rosto desfalecia entre cada lágrima, deixando uma trilha vermelha nas minhas bochechas. Meu olhos eram carvalho e sangue, verde e vermelho, meu queixo enrugado com tanta mágoa, os cabelos caíndo no rosto. Fechei os olhos. Suspirei.

Pierre, Natalie, Kurt, meus amigos. Meu colégio. O Grand-Place. A loja de sorvete. Os shoppings, o cinema, pelo amor de Deus! Alguém parou pra pensar que não tinha nem um cinema naquela porcaria de lugar? O que eu ia fazer o dia todo? Em que colégio ridículo eu iria estudar? Onde eu iria fazer faculdade depois disso? E quando meu pai ficasse velho, ou doente outra vez, quem iria ajudar ele a subir aquelas escadas? Quem iria levá-lo pro hospital? Eu? Jean? Ele tinha sido bem claro em sua declaração, “Vamos viver lá, a partir de agora. Para sempre” vamos viver lá, vamos apodrecer lá, que seja, então. O que iríamos fazer? Virar suecos idiotas que derrubam caçarola nos outros? Falar de salmão? Tomar café 24 horas por dia? Eu não seria uma sueca, de jeito nenhum.

Me encarei com determinação no espelho.

Eu não seria uma sueca, jamais. Nunca iria aceitar aquele lugar patético. Vou ser como os franceses. Começar a falar a língua de casa sempre que alguém me enchesse o saco. Uma alternativa viva para aquele mundo.

Minha mãe entrou no banheiro, nervosa como alguém que queria quebrar a minha cara.

“Estamos indo pra casa daqui a pouco. Lava esse rosto. Fale direito com as pessoas da sala. E quando chegarmos em casa você vai ver só”.

***

Quem já levou bronca em público sabe do que eu estou falando.

Aquele “olá” desajeitado para os presentes, que te encaram fingindo que está tudo bem. Quando se está entre estrangeiros, isso vem com o combo: Senhoras cochichando o quanto você é mal educada e bruta pela demonstração de raiva. Aparentemente, eu tinha derrubado minha cadeira enquanto corria para o banheiro. Äslog não tinha expressão. Meus pais dobraram a dose de gentileza, e deixaram toda a raiva e vergonha para mim.

Jean começou a mostrar alguma coisa para o filho de Bert no Tablet, e, por um segundo, a energia da sala melhorou um pouco. Mas ainda estávamos de saída.

Minha mãe começou a gritar desde o carro até em casa, e eu apenas me defendia dos insultos, sabendo que tinha sido estúpida. Eu já não procurava uma justificativa para ser desse jeito, apenas era assim. Ela provavelmente teria me dado uma surra se meu pai não tivesse falado para ela se acalmar, depois gritar um pouco ele mesmo, reclamar que o coração estava fraco e que eu o levava a fazer essas coisas. Fui para o quarto mais cedo, me joguei no colchão sem lençol, sem nada. Olhei para o mar na varanda, e chorei ainda mais.

Não conseguia parar. Não queria parar.

Alguma coisa não estava certa, alguma coisa estava me sufocando, e eu não queria pensar no que era.

***

Os dias que se passaram foram silenciosos, junto à varanda. Volta e meia eu ajudava em casa, mas havia pouco o que fazer. Eventualmente, chegou a segunda-feira. Minha escola ficava à 10 min da baía, em Skutskär. E foi lá que eu me preparei para ver adolescentes como eu de novo.

Como havia prometido pra mim mesma, eu seria uma pessoa diferente de todos aqueles suecos em Älvkarleby. Mas isso torna a socialização um pouco difícil em termos gerais, então eu procurei a pessoa menos caipira possível para me aproximar no primeiro dia.

E ela estava lá. Cabelos pretos, diferente de metade do país, provavelmente. Roupas com atitude, não coturnos e pulôveres babacas. Ela estava mexendo no armário, que estava cheio de fotos de bandas de rock. Não tive medo nenhum de falar com ela.

−Ah, oi! – exclamou ela, com um sorriso gentil − Você é a aluna nova, não é? Meu inglês não está tão enferrujado assim.

− Eu vim da Bélgica – respondi, animada – me chamo Madeline.

− Eu sou Becca – já gostei. Nada de Jorunns ou Stromstrands, só Becca – nunca estive na Bélgica. Lá é legal?

−Muito. Sinto falta de lá, pra falar a verdade – suspirei, e deixei escapar um pouco da insatisfação por estar onde eu estava.

Becca ergueu o rosto, arqueando as sobrancelhas.

−Entendo. Tudo aqui parece meio parado às vezes, não é?

−Exatamente! Tudo é tão calmo, tão...

−Chato? – interrompeu – é, às vezes. De vez em quando em penso em como seria ir pra um lugar mais animado, sabe...

Ela resumiu meus pensamentos em um segundo. Não era nos países nórdicos que a taxa de suicídio era mais alta? Parecia extremamente hipócrita o quanto nós reclamamos tanto da vida, e um dia tudo é tão bom que cansa. Mas sei lá.

−Você já esteve nos Estados Unidos? Ou Canadá? – perguntou Becca, com os olhos brilhantes – Meu Deus, eu sempre quis ir pra lá. Só ver um show da minha banda já seria o suficiente. Mas eles nunca vêm pra Älvkarleby.

Outra grande notícia. E uma decepção. Becca não parecia ligar muito pra nada além das suas próprias coisas. Quando eu respondi que não, ela ficou bem mais desanimada, mas prometeu me mostrar o colégio e os arredores. Assim foi meu primeiro dia.

Eu teria que fazer um curso de sueco no centro por alguns meses, e nas primeiras semanas o colégio se predispôs a dar aulas particulares em inglês no período letivo. Resultado: Não fiz amigos logo de cara. Vi meus colegas apenas no refeitório, onde eu comeria meu almoço sentindo seus olhares curiosos. Confesso que fiquei ansiosa por fazer amigos.

Contanto que não sejam como a galera do salmão, acho que vou ficar bem.

Notas finais
Até semana que vem
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.