Vinhas
1 Vinhas
Notas iniciais
A carta que escrevo neste exato momento talvez seja minha última, apesar de que se é muito provável que ninguém irá a ler. Sempre fui interessado na área de biologia, desde minha infância. Procurava pequenos insetos no jardim da casa de meus avós para estudá-los, desenhando-os e escrevendo informações sobre eles. Ao chegar a minha maioridade, decidi partir em uma grande viagem pelo mundo a fora, assim como a de Charles Darwin, uma grande inspiração minha, para descobrir as mais variadas espécies de animais. De todos eles, nenhum me chamava mais atenção do que os anfíbios, eram meus preferidos.
Em minha jornada longa, encontrei as mais diversas espécies, apesar de não encontrar nenhuma não catalogada. Finalmente cheguei às florestas amazônicas, lugar de grande variedade ecológica. Tendo em mente que poderia achar as mais variadas espécies, decidi adentrar a mata a procura de animais. O que achei não era algo comum, porém é claro, poderia abrigar criaturas nunca vistas pelos olhos da ciência. Uma torre cilíndrica de tamanho pequeno para uma torre, construída de rochas antigas que já haviam sido cobertas por vinhas. Apesar de baixa, aparentava se estender para o subterrâneo.
A entrada de duas portas era feita de madeira, que ficavam atrás de pequenos degraus. Adentrei a construção, com meu lampião iluminando o caminho. A primeira sala era escura, tendo apenas um raio de luz que entrava através de um pequeno buraco no muro antigo. Uma examinada nas paredes da sala revelava vários hieróglifos.
Em grande parte deles estava presente uma entidade, que supus que fosse uma espécie de deus: Era humanoide, metade homem e outra sua outra metade era salamandra. Estava sempre vestindo um grande manto negro. Algumas vezes estava com um grande machado na mão, decapitando o que aparentava serem seus servos, outras estava segurando uma grande espada brilhante, que emitia um grande feixe de luz em direção aos céus nublados. Seus servos estavam sorrindo em grande parte das vezes, mesmo sendo decapitados, mutilados ou torturados das formas mais cruéis que a mente humana pode imaginar.
Perguntei-me que tipo de civilização era aquela, com seus deuses malucos e insanos, cruéis e frios. Decidi subir para o próximo e último andar acima do solo. Encontrei-me em um lugar onde supostamente faziam os sacrifícios. Havia uma claraboia no teto, portanto a luz solar era abundante lá. O cheiro era horrível, quase como se as mortes fossem recentes. Havia pilhas e pilhas de ossos, dos mais diferentes tamanhos, o que indicava que nem mesmo as pobres crianças escapavam do ritual macabro. Os crânios estavam separados dos demais ossos. Também havia uma espécie de cama de pedra no meio da sala, que ainda estava manchada de sangue.
Havia alguns cavaletes de armas, que continham espadas, alabardas, lanças, azagaias e adagas. A maioria delas eram feitas de metais preciosos, como ouro, prata e às vezes incrustadas com pedras preciosas: Diamantes, rubis e esmeraldas. Era fascinante e ao mesmo tempo bizarra aquela cultura, portanto decidi pegar algumas amostras, afinal, ninguém irá dar falta mesmo. Agarrei um punhal dourado incrustado com rubis e opalas e o coloquei em minha mochila, junto com meu precioso caderno, que retirei ao colocar o artefato para fazer anotações sobre esse magnífico lugar.
Depois de alguns minutos, acabei de fazer as devidas anotações e continuei minha curiosa exploração pelo igualmente curioso local. Desci dois andares, para o subterrâneo. Liguei meu lampião e examinei a sala, a fim de achar algo interessante. Achei ratos, morcegos, insetos e muita poeira. Teias de aranha eram algo comum no teto e parede. A sala era um tipo de hall, continha quatro portas. Resolvi entrar na porta a minha direita, nem estava mais interessado em procurar novas espécies, tinha algo nessa construção que chamava fortemente minha atenção.
A sala a seguir era estranha. Não havia nexo construir algo assim, além de gastar espaço e tempo, ou talvez fosse apenas mais um de seus rituais. Havia espelhos por todo o lugar, alguns me davam certa insegurança e desconforto ao olhar. No centro da sala retangular havia uma mesa metálica, que continha uma caixa negra, fixa na mesa. Minha curiosidade me levou a tentar abri-la, mas não sucedi: Estava trancada. Algo me dizia que eu teria de abrir essa caixa, não sei o que, talvez seja a mesma coisa que me dizia que eu teria de prosseguir minha exploração nessa ruína.
Frustrado com isso, voltei ao hall, dessa vez fui para a sala a minha esquerda, encontrando-me em um corredor. Era longo, e, ao andar por ele, senti algo me observando, depois comecei a ouvir um pequeno ruído. Apressei o passo e então corri desesperadamente para a porta. Fechei-a rapidamente e puxei a adaga dourada de minha mochila. Estava assustado, mas talvez aquilo tenha sido apenas minha cabeça. Só para garantir, andei com o lampião em minha mão e a adaga na outra, apontando sua lâmina em direção à escuridão misteriosa daquele lugar. Depois que me assegurei que o local estava seguro, coloquei a adaga em meu bolso e me situei: Uma sala de forma hexagonal, de tamanho médio. Era uma espécie de biblioteca, com os mais diversos livros, todos empoeirados e prontos para revelarem a cultura oculta e sombria desse povo.
Agarrei o primeiro livro que vi. A sua escrita não consegui decifrar, mas sua ilustração na capa dava uma dica do que o livro se tratava: Havia o tal deus-salamanda segurando uma grande espada brilhante em direção aos céus, pronta para decapitar uma moça que estava deitada em uma tábua de pedra. A espada emitia um forte feixe de luz em direção ao céu negro. O Deus-Salamanda estava cercado de seus servos, alguns estavam com velas nas mãos, outros estavam com o rosto coberto em lágrimas, provavelmente os familiares da moça. Havia diversas ilustrações no livro, que facilitou bastante descobrir sobre o que se tratava. Era sobre sacrifícios e tortura. Havia mais de noventa páginas, grande parte com ilustrações sobre os doentios métodos macabros que usavam para torturar e matar. Coloquei-o em minha mochila, a fim de analisá-lo de forma mais profunda mais tarde. Havia vários livros lá, muitos falavam sobre tortura, porém não todos. Havia outros que aparentemente eram sobre matemática, arquitetura e até astronomia.
Coloquei meu lampião em uma mesa de madeira que havia lá, depois pus um livro sobre ela e comecei a ler, enquanto tomava um gole de água em meu odre. Apesar de não entender a escrita, as ilustrações eram bem objetivas, o que facilitava o meu entendimento. Era um livro sobre alquimia, ensinava a fazer poções curativas entre outras variedades. Os livros eram interessantes e mostravam que a civilização havia conhecimento de diversas ciências. Resolvi por mais alguns em minha mochila.
Sai daquela hipnose literária e procurei mais a sala. Achei um baú de madeira pela sala. Por minha sorte, estava aberto. Continha joias, objetos pessoais e uma pequena chave, que peguei supondo que fosse abrir a caixa da sala anterior. Voltei correndo para o hall, atravessando rapidamente o sombrio corredor. Reentrei na sala dos espelhos e abri a pequena caixa com a chave. Estava ansioso para ver o que tinha dentro, e em um lento movimento levantei a tampa. Havia um anel dourado, decorado por uma gema azul-clara.
Meus olhos reluziam ao ver aquela magnífica relíquia que, por algum motivo, me chamava à atenção de forma peculiar. O anel era tão reluzente! Em um impulso que não consigo explicar, tirei-o de seu conforto da caixa e coloquei-o em meu dedo de minha mão direita. Ao mesmo momento senti uma forte energia correndo pelo meu corpo, como se eu estivesse sendo eletrocutado. O lampião havia sido apagado misteriosamente e eu conseguia ouvir sussurros altos através da escuridão. Era como se houvesse uma multidão curiosa ao meu redor. Até que ouvi uma risada maníaca, seguida de meu desmaio repentino cuja razão culpo ao anel.
Acordei algum tempo depois, na sala dos sacrifícios. No céu noturno estava a lua, que por algum motivo desconhecido estava vermelha. Olho ao meu redor e percebi que estava acorrentado! Estava naquela cama de pedra, onde o deus-salamandra era retratado sacrificando seus servos. Lutei para escapar, mas era inútil. Podia ver minha mochila do outro lado da sala, no chão. Antes que pudesse notar mais algo, fui interrompido por uma visão perturbadora.
Meus olhos não podiam acreditar no que viam no momento em que olhei para cima: Existia uma enorme nuvem carmesim, cobrindo a lua. Não era exatamente uma nuvem, eu não sei explicar direito o que era... Era uma nuvem formada de carne e músculos. Expelia constantemente um gás que não tenho conhecimento a serventia. A imagem era aterrorizante! Ela flutuava sobre o luar, formando miríades de olhos e bocas temporárias famintas em sua carne.
Em seguida ouvi aquela risada, aquela maldita risada! Olhei para minha esquerda e vi, eu o vi! Era o deus-salamandra, empunhando uma grande espada que brilhava em vermelho-claro. Atrás dele havia pessoas, mas elas não estavam vivas! Alguns estavam com a cabeça pendurada por uma pequena quantidade de pele, que incrivelmente conseguia sustenta-la, outros nem tinham cabeças. Alguns não tinham braços, pernas ou até mesmo o corpo inferior! Eram como se fossem zumbis, que mesmo mortos pelo deus-salamandra insistiam em servi-lo. Conforme a nuvem carnosa se aproximava, o deus-salamandra lia um tomo empoeirado em uma língua desconhecida. Foi então que me dei conta: Eu era só mais uma fatalidade naquele rito maligno!
Ergueu a espada e um grande feixe de luz se direcionou dela para a nuvem-carmesim. Em seguida ele me golpeou com a lâmina da espada, em meu pescoço. Senti uma dor indescritível, mas eu não havia morrido. Uma luz brilhante esférica saia de mim e havia se direcionado para a nuvem, enquanto eu estava em severa agonia, gritando e lutando para sair de lá, enquanto o deus-salamandra ria junto com seus servos e a nuvem chegava mais perto. Em certo ponto ela chegou ao seu limite, pois se chegasse mais perto destruiria a construção. Um tentáculo translúcido saia de si, vindo em minha direção. Havia entrado em meu abdômen, senti uma dor mais intensa! Em seguida, a criatura começou a sugar algo de mim. Eu não sabia o que era, mas era brilhante e viscoso. Depois de acabar de sugar esse estranho líquido que eu não sabia que corria por meu organismo, a entidade foi embora, flutuando pelos céus da meia-noite e desaparecendo.
O deus-salamandra e seus servos também haviam desaparecido, havia apenas eu naquela sala escura, iluminada apenas pela lua, que havia voltado a sua cor original. Eu sentia uma dor intensa, algo que nunca senti em toda minha vida, mesmo depois das diversas picadas de cobra que levei durante minha carreira como biólogo. Finalmente, depois daquela agonizante dor, desmaiei. Acordei do lado de fora da construção, com a porta ainda aberta. Percebi que ainda estava com o anel, portanto tratei de tira-lo de minha mão o mais rápido o possível, jogando-o em um riacho que havia por perto. Corri em direção à cidade, partindo depois para minha casa.
Hoje estou aqui, ouvindo vozes antes de dormir, tendo pesadelos horrorizantes e surreais com grande frequência. A imagem monstruosa daquele ser não saia de minha mente, eu não comia, bebia e raramente dormia, e quando dormia, eu tinha os tais pesadelos. Agora eu entendo, entendo tudo.Caudajum, você sabe. Você não pode escapar dele, muito menos de Bhyr-Lorn. Eles... eles são apenas o começo, o começo de uma nova era, sem humanos, sem tecnologia ou besteira, apenas o vazio dos espíritos andantes pelo espaço-tempo de um planeta em ruínas, estéril e escuro. O horror apenas está começando, primeiro sou eu, depois você. Somos todos os um, um que irá alimenta-lo.
Carta escrita por Richard.W. Labourlock, encontrado morto no dia 13 de julho de 1955, com a garganta cortada em seu quarto. Seus olhos expressavam pavor, o indizível. Foram encontrados também quatro livros de origem desconhecida e uma adaga dourada. Seu caso foi arquivado e esquecido.
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