Vingar

3 Capítulo 2


Ao acordar naquela tarde Mariana estava mais confusa que tudo. Todo o seu corpo doía. Muito. Mas a pior dor talvez fosse a da cabeça. Depois de perceber que estava doída foi que se deu conta de que estava também em um local desconhecido. Ela não lembrava como tinha ido parar naquele lugar. Lembrava apenas do próprio nome. E no meio de sua confusão mental ouviu o barulho de vozes no cômodo ao lado.

Com muita dificuldade ela se levantou e seguiu o som das vozes. Viu um homem e uma mulher. Ele estava encostado na mesa da cozinha esperando que ela terminasse de lavar alguns copos sujos. Eles não perceberam sua presença então ela se anunciou com uma voz ainda fraca.

Diana correu a seu encontro dizendo que ela deveria continuar em repouso. Mariana entretanto, estava mais interessada em entender o que a tinha levado até ali. Diana certificou-se de que sua hóspede não convidada estivesse o mais confortavelmente acomodada em seu sofá antes de apresentar-se e lhe contar o que havia acontecido.

Mariana não podia explicar quais motivos a levaram àquele lugar ou a dizer para não ir a um hospital. Pelas diversas dores fortes que sentia era bastante óbvio que precisava de um. Mas sequer conseguia lembrar-se do que causou aquelas dores. Ela imaginou que não fosse algo fácil de esquecer. Mas talvez fosse algo que ela quisesse muito apagar de sua memória.

Eduardo então falou com ela pela primeira vez. Até então estava apenas observando. A dureza na voz dele fez com que Mariana estremecesse. Sentia-se desconfortável ao perceber que estava sendo analisada. E ficou ainda mais desconfortável ao saber que estava sendo investigada. Eduardo contou-lhe sobre a pesquisa que fizera a seu respeito utilizando suas fontes privilegiadas de investigador. Ao perceber que Mariana se retraiu ao tomar conhecimento desse fato fez questão de explicar-lhe que foi uma investigação particular. Ninguém sabia disso. Ela não sabia o motivo, mas tranquilizou-se ao saber disso. Talvez fosse apenas sua mente lhe pregando um truque. Mas saber que não quis ajuda profissional, apesar de tê-la recebido, a fez ficar com um pé atrás.

Eduardo disse que já sabia que seu nome era Mariana Elina Cobucci. Cobucci era seu nome de casada. Jorge Cobucci era seu esposo. O nome Jorge Cobucci lhe despertou. Sim! Era um nome conhecido. Ela conseguia lembrar-se de seu casamento. E lembrava-se também do nascimento de uma pequena menina. Ainda não lembrava seu nome. Não o escolhera. Jorge escolheu o nome da menina. Ela escolheria caso fosse um menino. Antes que Eduardo pudesse continuar ela perguntou pela filha. “Laila?” ele perguntou. Laila. Esse era o nome de sua filha. Definitivamente.

O investigador ainda não tinha todas as respostas. Sabia que Laila tinha dois, quase três anos de idade. Tinha os cabelos negros que poderiam ser herança tanto do pai quanto da mãe. Por falar em herança, ela certamente teria uma boa herança financeira também se todo o dinheiro da família fosse para ela. Certamente aprenderia sobre administração de empresas quando tivesse idade para tanto.

Mariana não conseguia entender o que poderia tê-la levado até ali. Pensou na possibilidade de algum concorrente de seu marido a ter atacado, mas isso não a faria recusar ajuda médica. Afinal, o hospital seria um local seguro e um homem tão poderoso quanto seu marido certamente poderia oferecê-la proteção. Não. Não era isso. Será que ela fugiu de casa e acabou se machucando? Aparentemente sua vida era perfeita. O que se lembrava dela era muito bom. O que poderia levá-la a fugir?

Interrompendo a cama de gato que se formava na cabeça de Mariana com suas próprias teorias, Eduardo mencionou que seu desaparecimento havia sido reportado. A polícia a estava procurando.

Não saber o que estava acontecendo só deixou Mariana mais nervosa ainda. Diana, vendo aquele olhar apressou-se para buscar um copo com água. Quando terminou de tomar Mariana levantou-se e disse: “Preciso falar com meu marido. Ele deve estar morto de preocupação.”

Diana olhou para seu irmão e os dois compartilharam ideias quase que telepaticamente, fruto da relação tão próxima que sempre tiveram. Então ela falou com a voz suave que sempre usava ao explicar para alguém quando algum procedimento perigoso precisava ser adotado. Ela perguntou se ela tinha certeza de que essa era uma boa ideia. Afinal, ela achou que era uma boa ideia esconder-se quando provavelmente ainda sabia o que estava fazendo. Talvez fosse melhor esperar que sua memória fosse inteiramente restaurada. Ela sabia que aquilo não demoraria muito. Talvez um pequeno estímulo a ajudasse.

Antes que Mariana pudesse reclamar, o que Eduardo percebeu que ela estava disposta a fazer, ele usou seu tom persuasivo aprendido na faculdade de Direito para dizer que não tinham nada a perder com a sugestão de sua irmã. Mesmo que a contragosto, Mariana cedeu. Ela não voltou atrás após o banho que tomou para reorganizar as ideias. E após vestir uma roupa emprestada de Diana, os três sentaram-se na frente de um computador para que Mariana pudesse pesquisar sobre ela mesma.