Vingança.
1 Prólogo
Notas iniciais
Prólogo
– Papai! Papai! – A garotinha de apenas nove anos corria em meio ao caos, seu braço direito enfaixado improvisadamente, apenas para estancar o sangramento, que formigava e doía ao mesmo tempo, trajava uma calça bege esfarrapada, uma blusa da mesma cor, rasgada para fazer o curativo improvisado do braço deixando uma parte da barriga à mostra, as pessoas gritavam enquanto morriam das mais diversas maneiras, mas ela ignorava isso, olhando para todos os lados, procurando desesperadamente por seu pai, ele tinha saído cedo de casa, sem sequer dar explicações ou avisar para onde iria. Os ataques começaram do nada, em uma hora o silêncio e a calma dominava a pequena região, em outra, Zarkov’s – Bichos que tinham de sete à dez metros de altura semelhantes a mortos vivos, mas com olhos vermelhos e com a temperatura do corpo tão alta quanto o fogo. – espalhavam o caos e o terror no lugar. Se fosse qualquer outra garota, provavelmente estaria chorando em um canto apenas esperando para ser morta por um deles, mas ela não ligava para o que acontecia ao redor, queria apenas encontrar seu pai, já que ele era a única pessoa de sua família que sobrara desde o ultimo ataque.
Com toda aquela confusão, não prestava muita atenção no que estava a sua frente, olhando para todos os lados, acabou batendo com o rosto em alguma coisa, alguma coisa que deixou seu rosto ardendo por conta da alta temperatura... Deu alguns passos cambaleantes para trás e balançou a cabeça para afastar a tontura, então, sentiu aquele bafo quente arder em sua face, com os olhos fechados por causa da tontura, tentou pensar em inúmeras explicações para aquele bafo vindo diretamente em seu rosto, mas encontrou apenas uma resposta, a única coisa que a deixava com medo bem na sua frente, seria o seu fim e ela nem conseguiria salvar o próprio pai... Abriu os olhos lentamente e, como já era esperado, olhos vermelhos a encaravam prontos para o ataque, ela queria fugir, mas não conseguia nem mesmo desviar o olhar daquela coisa, nunca tinha sentido tanto medo em sua vida, agora, ela sabia como era ficar com medo, as lagrimas rolavam por seu rosto como nunca antes, mas seus olhos ainda estavam fixos nos dele. Fez um esforço enorme para fechar os olhos novamente e controlar sua respiração, a garotinha podia sentir seu corpo inteiro tremendo, mas ela tentava manter-se calma, para que pelo menos pudesse se concentrar no seu ultimo desejo.
– Que meu pai não tenha uma morte tão dolorosa quanto será a minha, por favor, o protejam... – Sussurrou na esperança de que os deuses realmente a escutassem.
Ela sentiu sua cintura queimando e não conseguiu conter um grito agonizante, abriu os olhos desesperada e percebeu que já não estava mais no chão, a criatura a segurava em uma das mãos e a observava como se estivesse decidindo o sabor da garotinha. As mãos do Zarkov queimavam sua cintura, ela tinha apenas nove anos, não aguentaria muito tempo àquele tipo de tortura. Estava implorando para morrer, mas o tempo parecia passar mais devagar, e a dor estava consumindo-a por inteiro.
Finalmente, sua visão estava ficando embaçada e ela estava começando a perder a consciência, inevitavelmente, suspirou aliviada – A intenção era parecer um suspiro, mas pareceu mais um gemido de dor –. Seus olhos simplesmente se fecharam e ela caiu na inconsciência.
A criatura ainda a encarava com um ar de curiosidade, principalmente depois que a garota parou de gritar e caiu desmaiada em sua mão, ele a chacoalhava como se fosse uma boneca de pano e uivava como louco, provavelmente reclamando que não poderia comer sua refeição fresquinha como gostaria. Mas isso não importava, ele apenas precisava se alimentar, estava prestes a devorar a garota, quando sentiu alguma coisa penetrar em seu braço, era um pedaço de madeira fino que os humanos chamavam de flecha. Arrancou a flecha do braço como fosse apenas um daqueles espinhos pequenos – rosetas – e a jogou longe, então voltou sua atenção para garota novamente, já estava demorando demais para comê-la.
Infelizmente, ele nem teve tempo de abrir a boca, mais uma daquelas coisinhas irritantes perfuraram seu braço. Ele desistiu da garota e simplesmente a jogou no chão com força, então começou a procurar de onde as flechas teriam vindo. Não seria muito difícil encontrar o humano imbecil que teve a coragem de atirar flechas contra ele, só precisava achar o outro instrumento, um arco.
Seus olhos encontraram o de um pequeno garotinho, e ele estava com um arco na mão, o Zarkov rosnou para o menino e o pegou no colo da mesma maneira que tinha feito com a garota, mas dessa vez não hesitou um segundo sequer, não quis nem aproveitar o doce som dos gritos ou o olhar aterrorizado, ele simplesmente o devorou com arco e tudo e continuou sua refeição pegando outros humanos que gritavam desesperados.
A garota, que infelizmente não tinha morrido, gemia de dor, a força que a criatura a tinha jogado no chão fez com que ela acordasse novamente com a dor redobrada. Ficou observando o céu escuro e ouvindo a gritaria na pequena região, quando uma ultima lagrima caiu de seus olhos ao pensar que provavelmente a maioria das pessoas gritando eram seus amigos, professores, vizinhos... Ou até mesmo seu pai. Pai, por favor, não volte para casa ainda, espero que você esteja o mais longe possível daqui...
Então, ela fechou os olhos e esperou até que o caos passasse.
– Morg! Morgana! — Alguma coisa chamou sua atenção, talvez fosse sua imaginação pregando peças, ela estava ouvindo a voz de seu pai chamando-a. Não... Não era imaginação, não poderia ser. Seu pai tinha voltado e agora que ela sabia que ele estava vivo não poderia deixa-lo morrer, não assim. Já tinha sentido a dor que aquelas coisas poderiam causar, não poderia deixar seu pai senti-la também.
Forçou a si mesma a levantar, praguejando e xingando a tudo e a todos, nem ela sabia que conhecia tantos palavreados... Sua barriga latejava e ardia ao mesmo tempo, seu braço ainda não estava nem um pouco recuperado e como se isso não fosse o suficiente, ela ainda estava com varias queimaduras menores espalhadas pelo corpo. As lagrimas corriam novamente pelo seu rosto, ela já estava irritada consigo mesma por chorar tanto, mas não podia se preocupar com isso, não depois de saber que seu pai estava vivo... Embora chorasse, a determinação estava clara em seu rosto, ignorando a dor, ela forçava a si própria a correr em busca do pai.
Mesmo que eles não tivessem uma visão muito boa, ela se esgueirava por entre os destroços, não poderia arriscar ser pega por um deles, tinha que prestar atenção a qualquer homem tivesse cabelo grisalho, fosse magricelo e não aparentasse ter mais do que 1,60m... O que na verdade, não foi muito difícil, há apenas alguns metros à frente Jake Radke gritava por Morgana, ela agradeceu aos deuses por ter seu pai a salvo e, com certa dificuldade, levantou e foi cambaleante em direção ao seu pai, tentando gritar desesperadamente para ele, mas o som que saia da sua boca não era mais que um mero sussurro.
Por sorte seu pai a avistou. Ele saiu correndo em sua direção e abraçou a garota, que não conseguiu conter um grito de dor. Ela realmente estava feliz em ver o pai, mas suas feridas ainda doíam muito e o abraço do pai fez com que a dor se intensificasse mais ainda.
Ele afastou-se rapidamente com o grito e percebeu seus machucados, pediu-lhe desculpas e ajudou-a a irem para um lugar mais seguro. Normalmente, Morgana recusaria qualquer tipo de ajuda e provavelmente mesmo naquele estado, se um estranho lhe oferecesse ajuda, ela recusaria novamente. Mas já tinha passado dos limites à procura do pai, ela não era capaz de suportar tanta dor, querendo ou não, era apenas uma garotinha, e agora, com os machucados lhe torturando e o pai ai seu lado... Bom, isso foi o suficiente para fazê-la lembrar de sua idade, fazê-la lembrar de que não era tão forte.
Seu pai a encostou em uma parede de uma das casas destruídas e examinou seus ferimentos. Ela esperava que não fosse nada muito sério, mas a julgar pela careta que seu pai fez, percebeu instantaneamente que não estava nada bem. Ele a olhou tentando demonstrar confiança, mas seu pai não sabia mentir e Morgana notou que o que ele realmente estava sentindo era pena pela garota e talvez um pouco de medo também, mas Morgana não saberia dizer se era porque provavelmente perderia a filha ou se era por causa das criaturas atacando o vilarejo...
– Pai... Nós... Nós não podemos ficar aqui... – Morgana falou com certa dificuldade. Começava a sentir sua respiração ficando pesada.
Jake hesitou por um momento, mas logo assentiu. Ele não concordava em ter que passar por todo o caos novamente, mas não queria discutir com a filha machucada, então, apoiou a mão da garota em seu ombro e juntos foram caminhando discretamente entre as pessoas e criaturas.
Enquanto observava seu lar ser destruído, Morgana lutava contra as lagrimas e pensava no pavor que tinha sentido quando fora pega pelo Zarkov, ela não conseguia arranjar explicações para saber o porquê de não ter sido devorada, por que sua vida teria sido poupada. Zarkov’s não tinham sentimentos, pelo menos não até onde ela sabia. Talvez ele tivesse ficado com pena da garota, mas isso não faria sentido...
Um grito repentino a trouxe de volta à realidade, ela tentou procurar o dono do grito, confusa, sem entender o que estava acontecendo. Apenas quando caiu no chão é que notou que seu pai não estava mais ao seu lado. Olhou para os lados em busca de Jake, mas ele não estava lá, olhou para cima novamente e viu que uma das criaturas a encarava com curiosidade, e foi então que percebeu que seu pai provavelmente havia sido devorado e ela nem sequer havia tentado salvá-lo. Sentiu uma lagrima caindo de seu olho e assim, fechou os olhos, sua cabeça latejava por causa da queda, sua barriga ardia e ela nem sequer sentia mais o braço agora. Tudo o que ela queria era morrer, implorava silenciosamente pela morte, se os deuses não haviam lhe atendido em relação ao pai, desejava que pelo menos lhe atendessem agora.
A última coisa que ouviu foi o Zarkov bufando e se afastando com passos pesados antes de cair na inconsciência.
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