Vingança.
4 Capitulo 3.
Notas iniciais
– O que acha que tem para lá? – Dave perguntou à Morgana, apontando para as arvores do outro lado da clareira, nunca tinha prestado atenção, aliás, nunca tinha pensado se sequer havia alguma coisa lá.
– Não sei, dizem que há um lago ou alguma coisa parecida, mas para descobrirmos isso teríamos que lutar com umas criaturas meio perigosas...
Dave não respondeu, apenas ficou observando a floresta ao redor, treinava ali com Morgana há anos, desde que descobriram que compartilhavam os mesmos desejos, começaram a usar as criaturas da floresta como forma de fortalecimento. Ele se lembrava de como sua primeira luta ali havia sido difícil, naquela época, nem ele, nem Morgana conheciam muitos feitiços ou sequer os elementos que dominariam. Mas, depois que descobriu do trauma que a garota tinha com o fogo ou coisas quentes, decidiu que ele dominaria o fogo, eletricidade e a terra. Enquanto ela dominaria a água, o gelo e o ar. Morgana aceitou isso, realmente não queria utilizar nenhum elemento que fosse cálido... A terra e o ar foram combinações feitas entre eles, mais precisamente, de Morgana, ela sempre tivera o sonho de voar, então pensava que, se controlasse o ar talvez pudesse realizar esse sonho. Ela realmente podia levitar por algum tempo, mas voar livremente como um pássaro, jamais.
Claro que ele nunca havia dito isso para ela, se dissesse alguma coisa errada e deixasse-a brava por arruinar seu sonho, ela provavelmente ficaria “um pouco” agressiva, e, infelizmente, ele tinha que admitir, tinha medo quando ela ficava brava e como isso acontecia com facilidade, ele e os amigos normalmente tomavam cuidado com o que diriam.
Ela era assim desde pequena, era de se esperar que agora estivesse melhor em relação à sua “raiva excessiva”... Mas, não. A verdade era totalmente o contrario, quando pequena, por mais que não soubesse controlar-se, mantinha-se calma o máximo que pudesse e saía correndo para floresta, e então descontava tudo nas Criaturas, mas, ultimamente ela não tinha se dado o trabalho de ir até a floresta e preferia bater em quem estivesse mais próximo mesmo.
Dave sentia falta da antiga Morgana, foi ele quem a recebeu na escola, afinal tinham presenciado a destruição de seu lar e quem melhor que ele para consolar a garota? Alguns professores, porque já tinham lidado com outras crianças que haviam perdido os pais, mas mesmo assim, eles não podiam consolar ela o dia inteiro, a semana inteira, o mês inteiro, ou até mesmo o ano inteiro – Ela demorou a se recuperar -. Eles haviam sido melhores amigos durante muito tempo, faziam tudo juntos, Dave até tinha lhe contado sobre o lobo que havia trazido para escola... Eles descobriram que ela era fêmea e lhes deram o nome de Saphira, ele havia a achado fora das muralhas em uma excursão do colégio, que, inclusive, foi a ultima excursão que fizeram porque um dos alunos havia desaparecido então a diretora decretou que não teriam mais excursões.
A diretora também não queria saber de lobos, tinha medo de que pudesse atacar algum aluno. Mas Morgana gostou tanto do animal que não deixou de maneira alguma levarem Saphira, defendeu-a o máximo que pode, até que a diretora cedeu e permitiu que Saphira ficasse, contanto que a deixassem somente na floresta, mas Morgana a levava para o seu quarto frequentemente...
Ela e Dave treinaram o animal para que pudesse defender-se das Criaturas e arranjar alimento ali mesmo. Mas, o treinamento foi de certa forma, em vão. Saphira já sabia sobreviver, tinha sobrevivido fora das muralhas sabe se lá quanto tempo e, por algum motivo, as Criaturas não reparavam em Saphira, nunca a tinham atacado, nem quando era novata na floresta.
– Você já foi lá? – Ele perguntou de repente. – Já viu que criaturas têm lá?
– Não... Gostaria de ir, mas... Não acho que estejamos em condições para lutar com eles.
– Ah... É claro... Tudo bem, eu não queria ir, as Criaturas já são suficientes, eu sei. – O desapontamento dele era tão evidente, que Morgana não conseguiu evitar um sorriso terno para ele.
– Eu sei que deveríamos lutar com os outros agora, as Criaturas já estão fáceis demais... Mas não hoje, estamos fracos... Faremos assim, quando estivermos recuperados vamos ver se os outros são tão assustadores quanto dizem ok? – Ela disse ainda sorrindo.
Ele olhou para ela e assentiu, sentindo-se um pouco infantil por ter ficado tão cabisbaixo apenas porque ela não quis lutar com as outras criaturas. Dave se aproximou de Morgana e pode perceber que ela já não estava sorrindo, seu rosto estava corando e sua respiração ficando ofegante, e ele não pode evitar um sorriso ao ver, pela primeira vez a garota um pouco ansiosa e envergonhada, não tinha sido intencional, mas ficou feliz por ver que podia deixa-la daquele jeito.
Dave aproximou seu rosto do de Morgana e estendeu a mão, pegou o cajado de sua mão e deu um beijo na bochecha dela, para depois afastar-se, sorrindo.
– Ok. E... O que você acha de começar a controlar o fogo também? Poderia ter ganhado da Tsurara se o dominasse.
Morgana instantaneamente sentiu um alivio, como se um peso saísse de seus ombros, e soltou um suspiro. Mas tinha de admitir que estava brava, ela realmente achou que ele iria beija-la, e havia congelado, não sabia o que fazer. Mas, não podia descontar sua raiva nele, iria querer saber o motivo e ela não queria dizer que era porque ele havia deixado-a envergonhada.
– Eu ganhei dela. – A garota arrancou seu cajado das mãos dele com certa brutalidade. – E você sabe que eu não gosto de fogo. Fora que teria que fazer mudanças em meu cajado, e não estou com disposição para isso.
Dave levantou as mãos em sinal de rendição quando o cajado foi tirado dele.
– Posso saber o porquê de tanta agressividade? – Ele sorriu zombeteiro.
Porque você está agindo feito um idiota, parece o John. Ela pensou, mas se manteve quieta e saiu marchando em direção à clareira novamente, eles haviam ficado mais tempo do que o normal treinando, acabaram com, no mínimo, vinte Criaturas. Mata-las tinha se tornado uma tarefa fácil agora, sabiam todos os seus pontos fracos... Talvez Dave tivesse razão, deveriam procurar por criaturas mais difíceis de matar.
Antes mesmo de chegar até a clareira Morgana avistou luzes estranhas vindas de lá, instantaneamente saiu correndo e Dave foi logo atrás. Se os amigos estivessem em perigo... Ela não queria nem imaginar, John não sabia defender-se e Lucy não tinha poder mágico suficiente para defender os dois. Ela começou a correr mais rápido, Dave agora já estava para trás, ele estava cansado demais para ficar correndo, e Morgana também, mas ao pensar que seus amigos estivessem em perigo, forçou a si mesma a arranjar forças e correr.
Adentrou na clareira com o cajado já emanando energia, mas a aura azul turquesa ao redor dele desapareceu quando ela percebeu que não tinha nada de errado ali, eram apenas Lucy e John treinando. As luzes vinham da magia de Lucy e do fogo de John, estavam lutando e pelo visto não haviam percebido a presença de Morgana, ela se apressou em sair dali e ir para trás de uma arvore, não queria atrapalhar o treinamento.
Tinha que admitir que estava impressionada com a luta, não estavam tão fortes, Morgana sabia disso, eles nunca treinavam, era óbvio que agora não estariam fortes, eles ainda tinham muito o que aprender, mas mesmo assim davam tudo de si na luta, ela até pensou em interferir para evitar que se machucassem mas também sabia que eles jamais machucariam um ao outro, eram melhores amigos, já eram amigos antes mesmo de encontrar a escola, só se afastaram um pouco porque Lucy acabou ficando amiga de Morgana e John de Dave, mas logo depois já voltaram a se falar e agora viviam juntos.
Quando Dave chegou, Morgana esticou o braço e puxou ele para trás da arvore, mandou-o ficar em silencio e sorriu apontando para Lucy e John, John fazia manobras incríveis com o fogo, seu corpo estava coberto de escamas e duas asas cresciam de suas costas, eles lutavam hora no ar hora no chão, Lucy estava imperceptível, tinha ficado no tamanho original de uma fada, a única coisa que a revelava eram as barreiras que ela criava ao seu redor, elas rechicoteavam o fogo de John em um contra ataque, mas as escamas o protegiam. Lucy sabia que o fogo não machucaria John, mas ela sabia que o impacto do fogo contra sua pele o fariam recuar e o atrapalhariam, então para atrapalhar mais ainda ela lançou um flash de luz em direção ao garoto, e ainda em forma de fada voou rapidamente logo atrás do flash, mas quando estava a poucos centímetros dele voltou ao normal e girou por cima dele lançando varias flechas seguidas durante o giro, mas elas apenas rechicoteavam, as escamas eram muito resistentes.
John estava cego temporariamente por conta do flash de luz em seus olhos, mas ele continuava lutando, mesmo com certa dificuldade. Criou uma barreira de fogo ao seu redor que ia expandindo-se e fazendo tudo ficar em chamas, ia destruir toda a floresta se o fogo continuasse a se alastrar, Morgana fez uma barreira de água ao seu redor e Dave apenas fez com que as chamas se afastassem dele, Lucy parecia estar encurralada.
John estava cego, não tinha noção da distancia que o fogo tinha percorrido. Morgana começou a ouvir uma melodia vinda de Lucy, ela cantava calmamente no ouvido de John, tinha passado pelo fogo muito rápido – na velocidade da luz – assim acabou não se queimando, apenas uma queimadura em sua perna. Ela estava pequena novamente, estava sentada no ombro de John cantando, o fogo parou de se alastrar e John sentou-se na grama queimada, ele movia o corpo para os lados acompanhando a melodia em transe, Lucy sorriu e subitamente parou de cantar, John fechou os olhos e ficou ali parado enquanto Lucy saiu de seu ombro e voltou ao tamanho original.
Morgana apagou o que restou das chamas e foi até Lucy e John.
– O que houve aqui? – Ela perguntou sorrindo ironicamente, Lucy sabia que ela tinha visto a luta.
– Treinamento básico antes da aula. – Lucy sorriu e olhou para John. – Se bem que eu acho que ele não poderá assistir à aula...
– Pode sim, é só você tirá-lo do transe e da cegueira. – Disse Morgana – E é melhor tirar logo, ele pode estar machucado.
– Você me conhece, acha que eu machucaria um amigo? Bem diferente dele que ia me queimar com aquelas chamas sem hesitar, eu tomei cuidado para não machuca-lo – A garota cruzou os braços e olhou para John, carrancuda – E... bom, eu não sei retirar os feitiços, apenas os faço.
– Morg, você sabe, o faz voltar ao normal logo ou a gente vai se atrasar... As lutas já acabaram e daqui a pouco temos aula. – Disse Dave se aproximando.
– Humpf, eu não posso ficar desfazendo feitiço assim, isso gasta energia sabia?
– Sim, mas você é a única que sabe fazer isso, se quisesse ao menos ensinar-me...
– Eu não sei como faço isso, só digo as palavras que minha mãe me ensinou e pronto.
– Eu sei, é brincadeira, mas fá-lo voltar ao normal, ele não pode faltar essa aula, é Técnicas de Batalha, ele precisa aprender isso.
– Sim, vai Morg, só dessa vez, afinal, é o John – Lucy sorriu maliciosa.
– Eu sei que é o John. – Morgana fitou-a seriamente, mas logo suspirou e se concentrou no feitiço. — Revocatas Carmines.
John abriu os olhos subitamente e tentou levantar, mas acabou tendo dificuldade, aquilo desfazia o feitiço, mas esgotava tanto o feiticeiro quanto o enfeitiçado, Dave o segurou antes que caísse e o apoiou nos ombros, ajudando-o a ficar em pé. Morgana apoiou-se em seu cajado e olhou para eles cansada.
– Vamos logo... – Ela murmurou e saiu cambaleando pela floresta com os amigos logo atrás.
Ao saírem da escuridão e do ar gelado da floresta, sentiram um pequeno incômodo ao sentirem o calor do Sol do meio dia, Morgana e Dave suavam, as roupas de um feiticeiro eram grossas e muito quentes. Ela virou-se para os amigos.
– Vou passar nos dormitórios e tomar um banho antes da aula, podem indo para o castelo se quiserem.
– Mas e a aula Morg? Nós chegaremos atrasados desse jeito. – Disse Lucy.
– Não chegaremos não. – Ela olhou para o céu por alguns momentos e depois voltou a olhar para os amigos. – Deve ser meio dia, uma hora... A aula começa as duas. Temos uma hora para nos limparmos, comermos alguma coisa e ir para aula. Dá tempo.
– Verdade, eu vou para arena encontrar o Christian, a Tracy e mais umas pessoas, depois encontro com vocês. – Dave sorriu e afastou-se acenando.
Morgana suspirou e saiu caminhando em direção aos dormitórios, enquanto Lucy foi para o castelo. John não sabia para onde ir e decidiu seguir Morgana.
– O que quer? – Ela disse ao perceber o garoto.
– Ahn... Nada, eu só não tenho nenhum lugar melhor para ir.
A garota entrou no pequeno prédio e, invés de subir as escadas foi até a estante de livros no lado esquerdo do aposento, John caminhou até o lado contrario do local e sentou-se em um dos três sofás que ficavam depositados em forma de “C”, apoiou os pés na mesinha de centro e ficou observando Morgana olhar os livros enquanto murmurava: Esse eu já li. Esse também... Esse, acho que não, ah, já li sim...
John sabia que aquilo ia demorar até ela encontrar um livro que não tivesse lido. Ela já havia lido a maioria, nunca havia conhecido alguém que gostasse tanto de ler...
Depois de uns trinta minutos esperando, ela finalmente veio com um livro na mão, o livro era velho e estava empoeirado, provavelmente fazia tempo que não saía da estante. Ela esticou o braço sorrindo mostrando o livro. “Terras Desconhecidas”. Não parecia ser muito interessante, mas ela lia qualquer coisa, então provavelmente não importava se gostaria ou não.
– Vou subir para já começar a ler, até depois.
Ele ficou a observando até que sumisse das escadarias e então se levantou e saiu porta afora, foi caminhando até o castelo, entrou no corredor principal, foi até as escadas no fim do mesmo e subiu-as. No saguão lá em cima os alunos transitavam, algumas garotinhas davam risadinhas enquanto observavam algum garoto passar, John avistou Tracy sentada em um dos quatro bancos que ficavam ao redor da estatua da primeira diretora, caminhou até ela e sentou-se ao seu lado. A garota tinha cabelos cor de mel, ondulados quase lisos, que iam até um pouco antes dos ombros, orelhas levemente pontudas que lembravam vagamente a de elfos, afinal, era o que ela era. Não uma elfa em si, era uma quimera, como John, mas escolheu ter os poderes de um elfo. As quimeras eram maioria na escola, afinal, se você fosse uma quimera poderia escolher ter as habilidades que quisesse, era só usar a criatividade.
Os olhos da mesma cor do cabelo encaravam John por trás dos óculos de grau com certa curiosidade, a garota tinha os ombros levemente curvados para frente e estava sempre com um livro na mão, era uma típica “nerd”. Ela não era linda, nem fazia questão de ser, mas seu jeitinho tímido e as sardas em seu rosto a deixavam, de certa forma, muito atraente.
– Oi... – Ela murmurou olhando para o chão depois de um tempo de silencio.
– Oi – John sorriu. – Você não ia encontrar o Dave?
– Ah, é, ia... Mas, ahn... – Suas bochechas coraram e ela se encolheu um pouco no banco. – Eu o encontrei, mas ai a Jenny chegou e... Sabe... Ela é bonita...
– Você também é bonita Tracy. – John levantou o rosto da garota, que desviou o olhar com as bochechas mais vermelhas ainda – Só porque não é loira de olhos azuis não significa que não seja bonita. Você deveria se valorizar mais e... Bom, talvez usar umas roupas não tão grandes, ficar de manga comprida no calor não faz muito sentido sabia?
– O-obrigada... E, eu não gosto de roupas curtas.
– Nem eu. Imagina como eu ficaria com aquelas minissaias iguais as da Jenny? Muito sexy, eu sei – Ele fez uma careta e logo depois abriu aquele sorriso brincalhão de sempre – Não precisa imaginar não, deve ser um pesadelo. Mas, eu não quis dizer roupas minúsculas, apenas não tão grandes. Usar um short às vezes não faz mal pra ninguém.
Tracy deu um sorriso tímido e tornou a olhar para o garoto.
– Eu sei, é que... Eu não sei me vestir assim, por isso é mais fácil usar as minhas roupas comuns.
– Ah, mas que besteira! Depois da aula eu vou te levar a uma pessoa que vai adorar te ajudar.
– Tudo bem... Ahn... Eu tenho que ir, tchau.
Ela levantou e saiu desajeitadamente apertando o livro contra o peito e com a cabeça baixa, John ficou sentado olhando para o teto por um tempo, quando Lucy surgiu a sua frente e sentou ao seu lado, onde antes estava Tracy.
– Por que não me chamou?
– Ahn...? – Ele olhou para garota de uma maneira meio remansosa.
– É eu disse que estaria no castelo. Se você estava também, por que não me chamou?
– Não sei... – John disse da mesma maneira que antes. – Não sabia onde você estava.
– Era só procurar. – Ela o fitou seriamente, mas logo voltou ao normal. – Cadê a Morg? Faltam vinte minutos para aula. Você comeu alguma coisa?
– Não sei, e não.
– Vai ficar com fome...
Ele não respondeu, apenas ficou observando alguns de seus colegas que já entravam na sala antes do horário.
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