Era uma noite de primavera de 1990. No céu, pingos brilhantes coloriam a imensidão negra como se fossem velas reluzentes de fiéis dispostos numa lenta caminhada até o horizonte, onde se perdiam de vista.

A lua despejava uma luz serena na fachada do velho teatro de Von Frank Forsé e de todas as pessoas que saiam dele pelos portões de mármore.

Entre eles, Amélia Burgault.

Amélia desfilava ao lado do marido e das duas filhas. Era elegante, muito jovem, branca e tinha cabelos loiros caindo feito seda sobre seus ombros delicados. Trajava uma roupa clássica, tipicamente aristocrática, e usava jóias belíssimas, com pedras de diamante que decompunham a luz do luar em inúmeras luzes menores, fato que chamava a atenção de todos ao seu redor.

Seu marido Hugh Burgault, um grande jornalista do ramo da política e assumidamente de esquerda, era conhecido em todo o mundo por seus comentários ácidos dirigidos aos Poderosos, seus olhos esta noite estavam inexpressivos, suas feições carregavam uma frieza incomum. Andava impaciente, mudando seu olhar do relógio para a mulher, que apenas retribuía com um sorriso nada confortante, ela tentava transparecer calma, mas por dentro se encontrava tão preocupada quanto o marido, por um motivo que ambos sabiam muito bem.

– Está demorando mais que o normal, não é? — Disse Amélia, quebrando o silêncio.

– Temo que tenha acontecido o pior. — Disse ele.

– Vamos manter a calma, ele trará as fotos. Tudo ficará em paz.

– Em paz, Amélia? Você sabe o que será da minha carreira se isto der errado? Minha reputação, meus bens. Tudo está em jogo. — Hugh desabafou, como se aquilo o estivesse consumindo por dentro. — Se aquele desgraçado não aparecer, eu perderei absolutamente tudo.

A mulher desejou que o marido não houvesse dito aquilo. Bastou ouvir aquelas últimas palavras para que seu coração disparasse e toda a falsa calmaria que levara tempo para criar se transformasse numa súbita expressão de horror.

– Eu não agüento mais isso — Ela disse, sentindo as lágrimas chegarem aos olhos. — Me diga, por quanto tempo vai ter que ser assim?

As meninas conversavam sobre o espetáculo que haviam assistido: "Alice no país das maravilhas", e nem sequer prestavam atenção na conversa dos pais até ouvirem o pai responder a mulher aos berros.

– Você acha que eu não me pergunto isso todo santo dia, Amélia? Acha que é fácil pra mim?

Elas olharam confusas para os dois, jamais viram a mãe ou o pai no estado em que se encontravam, eles pareciam que estavam a ponto de explodir, e elas não conseguiam, por mais que tentassem esconder o medo daquela cena. Encolheram-se ao perceber que o grito do pai chamara a atenção de pessoas que caminhavam no sentido oposto.

Eram duas garotas, Vivian, a mais velha, era uma réplica exata da mãe em versão mais jovem, tinha 14 anos e já era praticamente uma moça, já Clarisse, a caçula, era bem menor que a irmã e tinha apenas 10, seu rosto era afilado e seus cachos dourados traziam à suas feições tons quase angelicais.

– Viv, tô com medo! — Disse ela, agarrando firmemente o braço da irmã mais velha.

– Calma bebê, não precisa ter medo, tudo vai ficar bem — As palavras saíram tremendo da boca de Vivian.

A família continuou caminhando após o acontecido em silêncio, e tudo pareceu voltar ao normal. O pai pegou o carro e esperou que a família entrasse, já não aparentava tanto nervosismo quanto antes e pediu desculpas para a mulher, que consentiu sem palavras

Amélia por sua vez continuava demonstrando nervosismo, mal conseguia olhar para o marido, fosse pela angústia que a consumia, ou pelo medo que a cegava naquele instante. Ela sabia da história, e reconhecia que a situação era bastante delicada. Palavras não teriam efeito naquele momento. A mulher olhou para as filhas, vendo que as meninas ainda estavam bastante assustadas, sorriu e se preparou para comentar sobre a peça, na intenção de fugir das perguntas.

No exato minuto em que resolveu falar, foi ouvido um barulho de estilhaço.

A família se assustou, e a partir disso, tudo aconteceu muito rápido.

O pai empurrou as filhas para baixo dos bancos dianteiros, vários tiros disparados, o som nauseante das balas perfurando carne e destruindo o metal e o restante dos vidros do carro, o grito agudo de dor da mãe por socorro.

Naquele instante as meninas só conseguiam chorar, estavam escondidas sob os bancos com o maior medo que já sentiram nos poucos anos de idade que tinham. Vivian não podia pensar em nada, tanto que o que fez foi involuntário, se aproximou da irmã e a abraçou, protegendo-a com seu corpo. As duas permaneceram ali encolhidas, até que ouviram os pneus do carro rasgarem no chão, seguido do cheiro de queimado e um arranque brusco, que fez com que elas fossem jogadas para trás.

Vivian olhou por cima do banco, e empalideceu quando observou aquilo: O pai completamente ensangüentado, com uma expressão de dor na face, usando o restante das forças que tinha para pisar no acelerador. O máximo que ela pôde fazer foi abraçar fortemente a caçula, esperando que tudo aquilo acabasse, que daqui a pouco iria acordar e perceber que tudo não passava de um pesadelo terrível. Que sua mãe viria para lhe acalentar, e que seu pai apareceria na porta, limpo, recitando-lhes poesias para que voltasse a dormir.

Certamente, não foi o que aconteceu.

O pai só conseguiu se manter firme dirigindo por quatro quarteirões, parando o carro numa ruela escura e minúscula do centro da cidade. Olhou para sua mulher, que jazia ao seu lado, e respirou profundamente. Não sentia praticamente mais nada, exceto uma dor aguda. Seu coração pulsava lentamente, já havia perdido muito sangue, sua pressão caira pela metade e sentia o gosto de ferro na boca. O pai olhou para as meninas pela última vez, procurando palavras para dizer, mas sua cabeça estava demasiado pesada para formular alguma ideia. Começou a balbuciar palavras que para Vivian não possuíam significado nenhum.

– John Eveey...As fotos...Traição! — Disse ele, antes de dar seu último suspiro.

Vivian, que ouvia atentamente as últimas palavras do pai, procurava manter a irmã calma e de olhos bem fechados, evitando que a caçula pudesse ver aquilo.

Por trás das lágrimas, relutou em deixar os pais naquele estado, pensou em gritar por ajuda, mas no mesmo instante imaginou que quem quer que fosse o responsável por tudo aquilo, poderia tê-los seguido até ali, e decidiu permanecer calada durante alguns minutos.

Pouco tempo depois, usando uma força que não sabia possuir, abriu a porta do carro, pôs a irmã nas costas e atou-se a correr.

Não imaginava pra onde iria, mas sabia que queria sair dali o mais rápido possível. Vivian só percebeu que havia levado um tiro de raspão na orelha mais tarde. Qualquer dor física que estivesse sentindo naquele momento, jamais se compararia a dor de ter perdido seus pais de forma tão cruel e fria. Ela agora sentia uma coisa nova além da dor. Algo que nunca sentira antes, um sentimento que queimava dentro do seu peito, ardia e percorria seu corpo como um fogo se espalhando por uma plantação, consumindo-a até devastá-la por completo. Ela começava a compreender, mesmo com a sua pouca experiência de vida, que aquela era uma marca dolorosa que levaria até a sua morte.

As meninas haviam se escondido em outra rua pequena, porém mais escura, longe dali. Estava deserta, exceto pelos gatos e roedores que dividiam espaço com latas de lixo e velhos caixotes de madeira.

Choraram a noite inteira, abraçadas, desiludidas. Seus pais haviam morrido, suas vidas foram interrompidas, e agora mudariam para sempre, fossem qual fossem seus destinos. Deitadas sobre jornais velhos, as meninas se acomodaram, tentaram afastar os maus pensamentos, mas eles as atormentaram até um momento em que foram vencidos pelo cansaço. Clarisse dormiu feito um pequeno anjo caído com a cabeça repousando sobre o colo da irmã. Esta, por sua vez, não pregou o olho. Olhou para a caçula com os olhos inchados e temerosos com o futuro. Perdeu-se em pensamentos durante alguns segundos. Decidida, enxugou uma lágrima que percorria o rosto e falou em alto e bom tom, afagando os cachos dourados da irmã:

– Não tenha medo Clarisse. Eu os vingarei por nós duas. Quem tiver sido o responsável por isso...- disse ela, com os olhos em chama. — ...pagará por tudo.

Notas finais
CONTINUA
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.