Vingança
31 Um passo a frente!
Notas iniciais
"É prova de inteligência saber ocultar a nossa inteligência."
[François La Rochefoucauld]
...
Yuri permaneceu calada, enquanto aguardava o pensativo detetive, sentado a sua frente. Ele não parara de rascunhar em sua caderneta de anotações, e aquilo estava deixando-a furiosa. Afinal, quanto tempo a deixaria ali, amarrada naquela cadeira, naquele casebre no meio da praia deserta? Geon iria matá-la quando soubesse de sua prisão. Mordeu o lábio ante seu disparate. Nunca permitia agir pelos sentimentos, mas havia feito besteira novamente.
Urahara levantou os olhos da caderneta, observando a garota a frente perder seu controle, pouco a pouco. Pelo que avaliou dela, era uma mulher instável, mas muito inteligente. Por mais que usasse artimanhas para arrancar dela uma confissão, sabia que não conseguiria. Teria que ser direto com ela.
— Senhorita Amaterasu-chan, poderia responder-me uma única pergunta? – Kisuke perguntou sério, ganhando a atenção da jovem, que se empertigou no assento e sorriu.
— Acha mesmo que sou essa mulher? Meu nome é Yuri! Sou uma enfermeira de Mayuri-san! Vou dar parte de você na polícia, vai se arrepender! – tentou manter a própria mentira, sem denotar mudança na voz ou desconfiança, atuando como sempre fazia.
— Por que não poupamos essa atuação fantástica e sigamos para minha pergunta! Por quê fazer tudo isso a Rukia-chan? Teve a oportunidade de ser feliz, mas preferiu atormentar a própria irmã. Por quê, Ama-chan? – pronunciou solene, com um brilho assassino no olhar, segurando os joelhos tensos.
Yuri ficou levemente surpresa com a pergunta pessoal, afinal, esperava questionamentos técnicos do cientista. Sabia por Mayuri a sagacidade deste homem. E se estava ali presa, era por ter caído em sua cilada. Saberia responder aquilo? Sempre sonhou com uma vida cheia de luxo e riquezas, e pensou ter encontrado isso quando se casou com Byakuya. Até rever sua pequena irmãzinha, correndo saudável e feliz pelos corredores.
Seu casamento com Byakuya havia sido inesperado para toda a família Kuchiki, praticamente uma rebeldia do rapaz, que havia viajado para a China a trabalho, e a conheceu no aeroporto. Na época imaginou ser finalmente sua tão sonhada cartada. Já havia casado duas vezes com homens que poderiam serem seus avós, somente pela fortuna destes, mas não correra bem. Para continuar sua busca, havia viajado a Hong Kong, esperando não encontrar os conhecidos de seus ex maridos.
Bastaram algumas semanas para convencer o jovem rapaz ao casamento. Não fora difícil, pois o futuro líder Kuchiki lhe havia confidenciado uma certa noite, em que já estava levemente ébrio com as bebidas que lhe havia ministrado, que só se encantou por ela, pois ela lembrava alguém de quem ele amava demais, mas que jamais poderia se aproximar. Imaginou ser um roricon apaixonado por alguma adolescente, ou por alguma parente. Não se importou na época, até saber que a irmã era Tsukihime.
Todo seu autocontrole sumiu quando foram apresentadas, e Rukia sequer se lembrou de quem ela era. Sabia que estava bem diferente de quando era adolescente, mas era inegável que ambas se pareciam muito. Até a cor dos cabelos era idêntica, um arranjo que havia feito para se parecer mais oriental novamente e agradar os futuros sogros. Akemi e Hideki não aceitaram o casamento, mas por amor ao filho, preferiram aceitar as vontades do primogênito. Entretanto, o restante da família, não.
— Ginrei-sama não suportou mais uma infame pobretona manchar a família Kuchiki! – falou com voz trêmula e cansada, como Hisana Kuchiki.
Urahara percebeu a incrível mudança ocorrer bem a sua frente. Os gestos ferozes e sensuais de Yuri, foram substituídos pelos delicados e recatados de Hisana. A voz ficou mais suave e pacífica, quase um sussurro. Seu olhar parecia enternecido e os lábios sofriam um leve tremer, como se estivesse prestes a chorar. Aquilo o pegou de surpresa, pois já havia visto muitos criminosos atuarem em sua frente. Mas aquilo era uma atuação de cinema, completamente profissional e convincente. Levantou a aba do chapéu listrado para observá-la melhor.
— Se ela não estivesse ali, eu e meu filho poderíamos estar em nosso lugar de direito! Com o senhor meu marido, Kuchiki-sama! – terminou abaixando a cabeça, rente ao ventre, com as mãos apertando o assento, forçando as amarras, tentando conter o choro.
Hisana chorou baixinho, como se estivesse com uma dor lancinante. Seu pequeno corpo tremia, e por um instante, Urahara enxergou Rukia naquela expressão vazia e sofrida. Não sabia que a irmã mais velha de Rukia esteve grávida. Afinal, o que aconteceu naquela mansão, no reduto dos Kuchiki? Poderia ser mera atuação da jovem? Entesou o corpo, preocupado e duvidoso.
— Eu tentei me aproximar dela, tentei pedir-lhe perdão, mas... Mas Ginrei-sama me odiava, e nunca permitia que eu ficasse no mesmo lugar que a Kia! Quando descobrimos a gravidez, tudo piorou! Implorei a Byakuya-sama para que nos mudássemos, para o bem do bebê... Mas ele não queria sair de perto da família, de minha irmã! – pausou, levantando o rosto, encharcado de lágrimas e os olhos vazios — Nem percebeu quando eles me envenenaram! Se sobrevivi foi graças as únicas pessoas que se importaram comigo! – terminou, retornando ao choro, agora mais intenso e descontrolado.
Urahara ficou perturbado com as novas informações. A família Kuchiki escondeu isso de toda a mídia. Só havia lido por alto sobre a morte da jovem, e ligou ele mesmo, as duas, Amaterasu e Hisana como sendo a mesma pessoa.
Tentou ser educado, e pegou um lenço para limpar-lhe o rosto. Estava um pouco consternado com aquela cena. Poderia Amaterasu ser tão cínica a ponto de inventar tudo aquilo? Foi quando começou a escutar as risadas da jovem, que passou a gargalhar. Ficou tão surpreso, que parou a mão no ar, com o lenço próximo do rosto dela, enquanto via a mudança de semblante a cada nova gargalhada.
— Se está procurando algum culpado, esse alguém sou eu, detetive! Somente eu tenho o direito de me vingar daquela doença, daquela chaga monstruosa que passou pelo meu caminho! E vingar a morte de MEU FILHO! – gritou, cuspindo no chão, com asco e muita ira.
Urahara guardou novamente o lenço no bolso. Estava cansado. Não conseguiria muito mais com aquela mulher transtornada. Temia por Rukia, já que aquela nova informação batia com a tentativa de envenenamento por Hinamori. Então só poderia ser Ginrei, e não Geon, como assumiu anteriormente. Mesmo ele custava aceitar isso, já que o cientista havia feito de tudo para estar com a jovem, em sua insana loucura sexual. A lista de inimigos só aumentava, e piorava em relação ao poder.
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As horas passaram lentamente e a tarde já ameaçava cair. Tudo fora tão eminente e sem precedentes, que Geon e Mayuri não conseguiam se levantar do sofá no laboratório, onde permaneciam escondidos desde o incidente na mansão, naquela manhã.
Não conseguiram em momento algum, contato com Yuri, e isso os mantinham muito preocupados. Preocupação essa que foi incrementada pelo aviso de Nemu, sobre estar sendo vigiada por uma das aliadas de Urahara.
— Ele deve ter conseguido pegar Yuri... Ela com certeza vai revelar tudo... Eu sabia, sabia que não deveríamos deixá-la a vontade... Se você ao menos a tivesse impedido e...
— Ora, cale-se Geon! Está histérico e isso não é de você, então acalme-se! – Mayuri redarguiu o companheiro.
Dificilmente o via perder o controle, mas naquele momento, Geon parecia ter perdido completamente a razão.
— Perdoe-me! Tem razão. Precisamos planejar algo, e rápido! – sussurrou o loiro, mais calmo.
— Acredito que ela consiga se manter calada por enquanto! Mas com certeza Urahara já deve ter muitas provas em mãos, para conseguir esse feito! Parece que o imbecil do Aizen, não foi inteligente e cuidadoso o bastante para destruir todas as provas... Mas já diz o dito popular: "Se quiser algo bem feito, faça você mesmo"! – Mayuri comentou em tom monótono.
— Não! Eu mesmo me certifiquei do trabalho de Tousen, aquele empregado que Aizen designou para o trabalho, e não havia nenhuma prova sem ter alteração ou serem destruídas, caso fossem sumamente importantes, como o vestido!
Pausou e se sentou novamente, já que havia ficado andando de um lado a outro, enquanto explicava seu próprio trabalho para acobertar o crime na mansão dos Kuchiki.
Entretanto sua segurança estava abalada. Urahara havia conseguido algo muito importante, não cabia dúvidas. O loiro rival estava com sua melhor prova nas mãos: Amaterasu.
— Droga! O que faremos? Yuri-chan é muito instável e seu psicológico está transtornado pela fuga de minha Rukia... Ele já deve estar interrogando-a... Droga!
Mais uma vez, Geon perdera o próprio controle. Esfregava os cabelos dourados com força, e alguns fios se prendiam nos dedos finos. Seu rosto parecia consternado. Não queria ser preso. Sabia que não conseguiria se livrar da pena, independente de sua riqueza ou poder. A família Kuchiki não descansaria enquanto não o colocasse no corredor da morte.
Mayuri ainda estava sentado, pensativo e calmo. Ele também sabia, que caso Yuri revelasse tudo, ele também seria engolido em tudo isso, e não esperava menos que uma prisão perpétua. Isso não o assustava em si, sabia que merecia pelo assassinato da esposa, mas o fato alarmante era que deixaria seus trabalhos incompletos. E isso era assustador para alguém tão dedicado como ele.
Seus olhos observaram, com frieza, o rapaz perambular de um lado a outro, perdendo seu prezado controle novamente. Detestava aquela fraqueza no rapaz, e era exatamente por isso, que estavam naquela situação. Mas devia isso a ele. Afinal, foi graças a ele, que hoje podia continuar seus projetos, sem estar trancafiado em alguma prisão suja. Ele havia forjado o laudo pericial da senhora Kurotsu, e ainda financiado seu maior projeto. Jamais conseguiria arcar com todo aquele investimento sozinho. No fim das contas, Geon era seu maior bem feitor.
Suspirou. Se ao menos ele fosse mais controlado, não teriam que lidar com alguém como Urahara Kisuke.
— Já terminou os acessos? – questionou, irônico – Eles têm uma testemunha chave nas mãos, e caso Yuri fale algo, você com certeza terá Ginrei e Byakuya no seu encalce até os confins do mundo. Portanto precisamos barganhar, de alguma forma, com Urahara! Tenho um pressentimento de que ele sabe que estamos envolvidos... Então ele fará qualquer coisa para nos colocar em problemas. Mas ficar perturbado não irá resolver nosso impasse! Precisamos dar um passo a frente dele, e o obrigar a nos devolver Yuri! – finalizou, observando o espanto no rosto de Geon.
Aoki abriu a boca várias vezes para tentar interpelar algo, mas desistiu ao notar aquele brilho característico do amigo, que sempre precedia uma ideia mirabolante, e Mayuri era o rei dessas coisas.
— Se ao menos eu soubesse onde a garota está neste momento... Já que tenho certeza, que eles já devem tê-la tirado daquela casa de campo! – Kurotsu continuou falando, sem querer ser respondido — Talvez se pudéssemos pegar algo importante para Urahara... Quem sabe!
Terminou sua conversa unilateral, aguardando a reação do loiro aos seus comentários.
— Alguém importante? Urahara não tem ninguém... A não ser seu pessoal de trabalho!
Pausou pensativo. Conhecia um pouco do dia-a-dia de Urahara, já que ele e Mayuri estavam responsáveis pelo caso dos Kuchiki. Sabia que Urahara provinha de uma família humilde e sem fama alguma. O rapaz havia se tornado um astro para alguns pesquisadores de renome, quando publicou seu primeiro trabalho, garantindo uma bolsa considerável, e depois foi crescendo dia após dia no mundo científico, ao ponto de formular sua própria teoria. Mas em relação a seus relacionamentos não havia nada. Ninguém envolvido, nenhum parente importante vivo, ou qualquer filho ou suposto afiliado. Nada.
Mayuri percebeu a expressão pensativa do colega, e suspirou ao alcançar as mesmas conjecturas. Ele não tinha ninguém importante, que pudesse usar como troca por Yuri.
Geon teve o rosto ensombrecido pela ideia que formulou. Sorriu, captando a atenção e surpresa de Mayuri.
— Você teve uma ideia? – questionou animado.
Sua emoção era a mesma de encontrar alguma nova característica na lâmina de DNA, que estava analisando, um de seus projetos mais importantes e significativos.
— Só precisamos mudar o foco... Como Urahara fez conosco! Ele conseguiu pegar Yuri, enquanto estávamos preocupados com Kia-chan. Agora vamos lhe dar do mesmo remédio. – comentou divertido.
Os fantasmas de preocupação já não encobriam o rosto pálido do cientista. Estava iluminado pela própria audácia.
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