Vingança
3 Mentiras?
Notas iniciais
E, afinal de contas, o que é uma mentira?
É apenas a verdade mascarada.
[Lord Byron]
Rukia agiu por inércia. Tomou um banho rápido e deu-se ao luxo de vestir uma roupa que as internas chamavam de “para as visitas”. Para a morena, isso era algo novo e estranho. Afinal quem a visitava era somente Unohana. Ficou nervosa e não sabia se realmente queria encontrar os ditos advogados. Mas algo dentro de si a impeliu a conhecer essas pessoas, que deveriam ter um bom coração, pois Rukia não tinha nenhum apoio financeiro para custear sua própria defesa. Era exatamente esse o motivo por estar presa sem sequer ter um julgamento digno. Observou os acenos das companheiras e caminhou o longo corredor.
A escuridão imperava, sendo que a pouca iluminação vinha de algumas luminárias empoeiradas em alguns pontos das paredes. As grossas portas de ferro eram empurradas uma a uma pelos carcereiros, numa visível dificuldade. Os olhares lascivos de alguns a deixou ainda mais nervosa; raramente saia de sua ala, e ver mais uma vez pessoas do sexo oposto, fazia seu corpo ficar alerta.
Parou subitamente chocando-se contra a corpulenta policial que a acompanhava, reprimindo um gemido de dor. O olhar frio e vazio daquela mulher era o mais comum de encontrar naquele presídio. Sentia-se morta ali dentro. Sempre adorou lugares amplos e abertos. Iluminados e altos, e ali era completamente o oposto. Sua ala era no subsolo, e mal enxergava a luz solar.
O espaço era muito apertado para todas as internas de sua cela, tendo que compartilhar tudo com mulheres vulgares e estranhas ao seu convívio social. Um contraste enorme se comparado ao luxo em que vivia. Lembrar-se disso fez seu coração parar uma batida. Trazia a memória que as pessoas que tanto amava estavam mortas, e ela presa injustamente, sem poder fazer nada para descobrir o assassino e vingar-se devidamente.
— Entre. Os senhores Kurosaki estão te esperando lá dentro. “Vê se não deda a gente, viu Tsuki?” Estamos de olho em você! – pronunciou baixo e rude a policial que Rukia sequer sabia o nome, já que nenhuma delas transmitia seus nomes verdadeiros por questão de segurança.
Tinham apelidos que as próprias internas colocavam. No caso daquela gigantesca mulher, era Thor.
— Sim senhora, Thor.
Sem dizer mais, encaminhou vagarosa para a pequena sala. Era aconchegante apesar da escuridão que vinha da pequena janela. O mobiliário tinha cor neutra, e alguns vasos de flores artificiais enfeitavam a mesinha. Sentir a brisa suave da noite lhe trouxe agradáveis lembranças, e por um curto momento sentiu-se viva novamente.
Observou os dois homens se levantarem para saudá-la. Fez um exame minucioso de cada um. Um de meia idade, muito bem vestido em seu terno e sorriso caloroso. Parecia ser bem comunicativo e prestativo. O outro era jovem, talvez trinta anos ou menos, vestido socialmente, mas com um ar rebelde.
O que mais lhe chamou atenção foi à cor do cabelo. Era de tom alaranjado, e isso era curioso já que ele deveria ser advogado também. Pensou em como deveria ser divertido ver os rostos dos jurados e juízes diante de semelhante estranheza. Mas a semelhança dele com “aquela pessoa” a fez sentir-se doída. Afinal ele nunca sequer a visitou ou escreveu. Teve os pensamentos interrompidos pela voz do mais velho.
— Kurosaki Ishin, a seu dispor! Não imaginava que a pequena protegida de minha amiga fosse tão bonita e jovem. Sou um conhecido de Unohana-san, e irei cuidar de seu caso daqui por diante!
Ishin aguardou a jovem retomar sua postura, já que ficou um pouco boquiaberta com a disposição de um estranho em ajudá-la.
— Mas o senhor nem me conhece... E eu... Eu não poderei pagar por seus honorários, senhor Kurosaki! Por favor, não me dê falsas esperanças...
E a voz forte de Rukia sumiu. Não queria acreditar novamente. Sofria tanto quando era abandonada por aqueles que lhe prometiam auxílio, que já não sabia mais se realmente sairia daquele verdadeiro inferno. Ishin sentiu a tristeza e falta de esperança na moça, mas Ichigo percebeu algo mais naqueles olhos violetas. Reconheceu o sentimento de ódio. E por alguma estranha razão gostou da jovem.
— Kurosaki Ichigo, prazer em conhecer, senhorita Kuchiki Rukia, correto?
Aguardou a morena assentir e continuou.
— Se meu pai disse que iremos cuidar de seu caso, é porque iremos. Sabemos de sua condição financeira. Tivemos acesso à parte do processo, mas queremos colher primeiro o seu depoimento. Sei que já faz dois anos que o fato ocorreu, mas precisamos saber sua versão da história. Pode nos ajudar, Kuchiki-san?
Ishin ficou maravilhado com a iniciativa do filho. O rapaz era completamente diferente quando trabalhava em um caso. Ficava mais responsável e comunicativo. Como queria que o filho saísse daquele mundo instável da droga. Já não sabia mais como agir. Se continuava omitindo seu conhecimento do assunto, ou se dialogava com o rapaz para ver se conseguia fazê-lo sair daquilo. Mas o passado lhe dizia que não conseguiria nada, já que uma vez aos quinze anos, Ichigo ao ser encontrado fumando no colégio, e após ser repreendido, não gostando resolveu fugir de casa. Foram duas semanas de buscas para encontrá-lo. E o lugar onde o acharam não era nada promissor. Uma boate repleta de pessoas suspeitas e mulheres promiscua.
O mais velho da família Kurosaki voltou a si quando a pequena Kuchiki retomou a fala.
— Não acredita em mim, não é mesmo Kurosaki-san? E, por favor, me chame somente de Rukia. Esse sobrenome não me pertence mais – revelou um pouco envergonhada.
Não mentia quando disse aquilo. O líder da família Kuchiki deserdou a filha adotiva para evitar maiores escândalos aquela estirpe. Foi por conta disso que perdeu todo o direito em sua pensão, ou mesada por assim dizer, do irmão mais velho.
— Todos são inocentes até que prove o contrário, minha pequena. O que meu filho disse foi necessário, pois precisamos entender melhor o que aconteceu naquele dia fatídico. Não sinta como se desconfiássemos de você, são meras formalidades.
Ishin intervêm o dialogo ao perceber o equivoco da jovem. Ele melhor do que ninguém em sua longa carreira sabia que muitos se diziam inocentes, mas raramente o eram mesmo. Já tinha em mente uma maneira de trabalhar o caso para amenizar a punição da garota. Não queria mais ver sua grande e estimada amiga Retsu sofrer mais com essa historia.
Ichigo não se importou com o comentário da moça, e sentou no sofá acenando com a mão com desdém. A testa franzida mostrava que se concentraria para prestar atenção ao que a morena falaria. Sua mente ainda estava em outro lugar, e odiava quando isso acontecia. Passou a contemplar o pequeno ser a sua frente.
A morena apertava com força a mão esquerda, e pôde notar alguns arranhões naquela pequena e delicada mão. Agora que perscrutava a jovem, notou vários arranhões no pescoço, braços e pernas. O conjunto cinza que a garota usava era social, saia e blazer. O tamanho não devia ser o dela, já que a manga era curta, deixando ver seus pulsos. A saia chegava até altura dos joelhos, e mais marcas de arranhões e machucados por cicatrizar apareciam. Sentiu raiva por esse detalhe.
Gostou muito da cor nívea da pele dela. Os cabelos maus tratados, ainda deixavam aparecer à beleza negra que já foi um dia. Mas o que mais lhe chamou atenção foi à cor dos olhos. O timbre forte da voz era um contraste aquele corpo pequeno e delicado. Muito agradável ao ruivo, por assim dizer.
— A única coisa que me lembro daquele dia, foi acordar em minha cama e olhar ao redor procurando meu noivo. O estranho era que estávamos no restaurante almoçando. Então o que eu fazia ali? Estava atordoada e com muita dor de cabeça. Então os vi... Minha mãe estava do lado esquerdo ao lado de meu criado mudo, e meu pai próximo à porta balcão de minha sacada. Senti meu mundo acabar. A quantidade de sangue era imensa. Quando tentei me levantar minha cabeça doeu tanto que gritei. Algo frio tocou minha pele, e me afastei um pouco para o canto quando percebi que tinha uma faca de cozinha na minha cama. Peguei e vi sangue nela. Não foi difícil pra perceber que era a arma do crime. E depois disso um inferno me envolveu. Os empregados ouviram meu grito e entraram desesperados. Viram a cena e minha mão segurando a faca. E aqui estou. Sei que não acreditam, assim como os policiais da época não acreditaram. Não sei quem matou meus pais. Mas um dia sairei daqui, custe o tempo que custar vou me vingar desse monstro assassino...
E mais uma vez Rukia parou. Não queria aceitar, mas só podia ser ele o assassino, ou mesmo coautor do crime. Ele deve ter posto algo em sua bebida e a levou até aquele quarto. O próprio quarto que jamais conseguiria entrar novamente. Ishin trocou olhares com o filho mais velho, enquanto a pequena deixava mais uma vez as lágrimas rolarem por seu rosto alvo. Agora tinha as mãos tremendo, mas ainda se mantinha de pé.
— Você suspeita de alguém, correto Rukia-san? –
Ishin quebrou o silêncio criado.
Ichigo observou os movimentos corporais da jovem para fazer uma leitura de seu psicológico. Sempre foi muito bom nisso, e era exatamente por isso que seu pai sempre o chamava em casos mais complicados.
Apesar das lágrimas, não o convenceu. Não fazia sentido. Pelo que entendeu do relatório dos legistas, o casal estava morto apenas a alguns minutos da jovem acordar.
Ela disse aos policiais que estava almoçando com o noivo às treze horas, sendo que o crime ocorreu às cinco da tarde. Um buraco de quatro horas ali.
O depoimento do noivo dizia que deixou a garota na mansão as treze e quarenta, e todos os empregados os viram chegar. O casal subiu ao quarto da jovem, e o rapaz desceu trinta minutos depois informando que a garota queria descansar um pouco. E assim ninguém mais a viu sair ou qualquer outra pessoa entrar.
As filmagens mostravam exatamente o que o rapaz falou. Então por quê ela continuava com esse depoimento absurdo?
— Sim. De meu noivo. Shiba Kaien. – pronunciou um pouco nervosa.
Não citava mais aquele nome há meses, assim que decidiu que ele estava morto para ela.
Não lembrava bem o que aconteceu no almoço, mas jamais poderia concordar com os depoimentos do noivo, de que eles chegaram juntos a mansão, e ela resolveu ir deitar-se.
Como seus pais apareceram em seu quarto? Ela não ouviu ninguém, sequer percebeu estar em sua cama. Um sonho horrível a atormentava, e quando acordou viu que o pesadelo era o menor de seus problemas.
Puxou mais uma vez na memória aquele dia. Saiu cedo de casa. Beijou a mãe e o pai. Ganhou esse costume com o passar do tempo. Era grata por todo o carinho que lhe professavam. Jamais faria tal barbaridade aqueles que um dia foi seu mundo.
Lembrou-se de Kaien a convidando para o almoço no restaurante francês que ele gostava de ir. A comida estava gostosa, mas a bebida parecia estranha. As brincadeiras de Shiba a fez desistir de reclamar ao garçom, e quando sentiu uma terrível tontura, viu Kaien ajudá-la a ir ao toalete feminino para lavar o rosto.
E mais nada, até o momento em que acorda e se depara com seu pior pesadelo.
— Isso não condiz com o relatório da perícia e com os depoimentos das testemunhas. Por favor, Rukia, se quer que a ajudemos nos conte toda a verdade! – sentenciou frio, o jovem Kurosaki.
Mesmo Ishin não gostou da atitude do rapaz. Não era o momento acusar a jovem. Tinham que ganhar sua confiança, e depois sondar o que tinha para dizer. Não são todos que contam de primeira o verdadeiro cenário do crime, mas após algumas visitas e conversas. Principalmente após eles mostrarem os benefícios em revelar a verdade.
Rukia teve mais uma vez sua tênue esperança esvaída com esse comentário. Ninguém jamais acreditaria nela. Somente Unohana confiava no que ela dizia. Mas mesmo assim, sentia que era porque ela a amava muito e não a abandonaria mesmo sendo culpada.
Teria que provar de alguma maneira que Kaien tinha participação naquilo tudo. Não somente ele, como também alguns empregados. Parecia que tudo estava contra ela.
Mais uma vez era abandonada a própria sorte, como quando tinha quatro anos e foi abandonada por seus pais, indo morar nas ruas.
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