Vingança Irracional
1 A Cidade
Notas iniciais
Ele não sabe [...], a maioria está diferente. Todos, todos. O que aconteceu exatamente, senhor? Como está se sentindo? O que pensar-ar? Estou drogado? Cansado? Arruinado? Perguntas. Perguntas. A criança grita enquanto seus pais tentam acalmá-la, ah, animais brigam também. Parecem humanos. Agem como humanos. Pequenas lagartixas brancas debruçadas, pássaros azuis amarelados. Realmente. Está de acordo com a pesquisa. Um sucesso, doutor. Não consigo pensar. Não consigo me lembrar. O que eu fiz no dia passado? O que aconteceu há uma hora? Ah, ah, ah.
Estava em seu quarto. Os sons irritantes tinham passado, as vozes se cessaram. A parede do cômodo estava como sempre — amarelada e cheia de posters rasgados, algumas partes precisavam ser consertadas —, as mãos do homem rapidamente alisaram o lençol verde. Era o de sempre.
— Vamos levantar, Cillian. — Disse a si mesmo, tentando receber alguma motivação a realizar tal ato. Nenhuma veio. Com a cabeça levantada, os olhos foram ágeis em tentar perceber alguma mudança no ambiente, porém sem sucesso. — Está tudo igual. Hum. Um sonho maluco... sim, com certeza. — Concordou por fim.
— Ei, Ci! Estou indo para a casa da minha avó, ok? — Uma voz doce surgiu. Ah, sim. Ele acabara de perceber que seu marido não estava deitada ao seu lado. — Eu posso demorar. Você sabe como ela gosta de conversar!
— Ah, claro, Arthur! Te vejo mais tarde. — Disse com um tom alto enquanto se levantava. Cillian puxou as cortinas novas da cor marrom que tampavam a visão externa do terreno, revelando um sol forte com pássaros sobrevoando para as árvores frutíferas plantadas há — pelo menos — 3 anos. Era uma visão completamente bela para a cidade, já que esta havia a maior taxa de poluição, homicídio e mortalidade infantil encontrada no país.
Cillian caminhava em direção à porta — como a rotina o obrigara. Ótimo! O carteiro já entregou o jornal. Rapidamente se encontrara nos lados exteriores: pessoas passeavam com seus cães, lavavam os carros e, como ele, buscavam o jornal do dia. Títulos impressionantes estampavam a capa: CORRUPTOS DO PODER MORTOS NA MESMA NOITE!; ASSASSINOS SÃO MORTOS POR CRIATURA MISTERIOSA! E, logo na parte inferior da página: SUCESSO: NOSSA CIDADE ESTÁ CRESCENDO RAPIDAMENTE!
— E esses títulos sensacionalistas, hein? — Página 05: Título. Era verdade. Todos os corruptos do país denunciados publicamente estavam mortos, morreram da mesma maneira, quer dizer, suspeita de suicídio. O deputado foi encontrado enforcado em seu quarto, uma carta com sua letra foi deixada em cima da cama: “É necessário”, dizia. Outro deputado do país, com uma faca de açougue na garganta, o bilhete? “Rápido e ágil”. Prefeitos, senadores... todos suicidas. Apenas metade dos políticos ainda vive.
A mídia televisiva estava informando a mesma notícia.
— [...] “Não há nenhum suspeito até agora, todos os estados estão investigando o caso, não há testemunhas e nem nenhuma fonte. A população está dizendo que foi uma mensagem de Deus; assassinos, corruptos, estupradores estão sendo mortos — Ou se suicidando? — de forma banal, muito incomum nos últimos anos. [...] Com isso, a taxa de violência da cidades Westford, Munvidor e Coscity decaíram quase 30%, quase perdendo o pódio de 1º lugar de cidade mais violenta.
A vingança estava acontecendo. Isso não era bom.
— [...] Então, senhora, o que você achou sobre estes assassinatos? Minha jovem, isso é muito bom, sabe? Ter alguém que tá fazendo o certo, mesmo sendo o errado legalmente. Esse país fede muito, leis falhas, políticos falhos. Agora tá na hora de mudar tudo isso. Tem que varrer todo esse povo que não presta pra fora do mundo! Ah, ah! Obrigada. Voltaremos mais tarde com novas notícias e opiniões da população! Fique ligado na CWA News!
Cillian sentou-se no sofá, fazendo o pó sobrevoar o local, manchas brancas e pequenas interrompiam a sua visão. Não estava certo, não, não, não. A população não deveria fazer justiça com as próprias mãos: aquilo nunca deu certo. Inocentes acabavam morrendo por causa disso. A mídia local demonstrava muito bem isso: homens e mulheres inocentes sendo amarrados e torturados em lugares públicos como se fossem animais. Não. Nem animais mereceriam isto. O povo deveria lutar por um lugar justo, não vingativo. Um ladrão de galinhas pode morrer no lugar de um ladrão de vidas.
Toc, toc, toc. 3 horas e 22 minutos da tarde.
— Ah, Art. Pensei que havia levado a chave reserva. — Revelou Cillian enquanto abria a porta, dando-lhe um beijo nos lábios secos dele.
— Eu também! — Por alguns segundos, permaneceram abraçados diante a porta. — Minha avó está muito ruim. Ela estava tão forte ontem! — Pequenas lágrimas surgiram na manga da camisa de Cillian. A tristeza estava presente, os sentimentos estavam florescendo.
A porta foi fechada. Tomaram a iniciativa de sentarem no sofá, com a esperança de um consolo vir à tona. Arthur era um belo homem: um pouco mais baixo que Cillian, porém com uma altura maior que a média, cabelos castanhos e homogêneos, olhos azuis como o céu durante a noite. Sua personalidade combatia de Cillian, demonstrando um homem sensível e atencioso, lerdo e romântico, levando toda a antítese de seu amor.
— Algo estranho está acontecendo hoje. Tudo está mudando! O jornal trouxe notícias tão sérias pela manhã. Até ontem, a mais repercutida foi a pata quebrada do Cavalo! — Comentou Cillian, observando a reação de Arthur. Nenhuma.
— Cidades são assim mesmo. Lembra-se da antiga? Onde nós se conhecemos? Então!
— Mas era interior. Aqui é cidade grande.
— Continua a mesma coisa! Cidade grande só porque é capital, hein? — Desatou a abrir um sorriso, sua mão alcançou a coxa de Cillian. — Relaxe! Não é o fim do mundo! Mudanças acontecem.
— Mas e o caso dos políticos, estupradores e assassinos mortos rapidamen...
— Shiu! Você está me chateando. Não é nada demais. A mídia deu ênfase só agora pra isso. Não aconteceu do nada.
Arthur se jogou em Cillian, fazendo-o ficar deitado no sofá de 2 lugares, sua mão encostou na nuca deste, dando-lhe vários beijos. — Bem melhor. — Comentou Arthur durante a pausa. Sua mão direita encontrava-se na barriga de seu marido, analisando com os dedos a definição perfeita dos ossos.
— Oh, deus! São 4h30! O caso começa às 3h50! Esqueci! — Gritou Cillian, observando o relógio que se encontrara na parede da sala de estar. — Que tipo de advogado eu sou?! — Levantou-se rapidamente, tirando Arthur de cima. — Você precisa me levar.
— O que aconteceu com seu carro? — Perguntou Arthur enquanto via a correria de Cillian.
— Eu não te disse? — Gritou do quarto. — Eu bati ontem à noite. E nem sei como!
— Mas você não saiu ontem!
— Saí sim. Eu lembro... — Disse enquanto vestia o paletó. — Abotoe aqui pra mim. Isso. Cadê... cadê a minha pasta? Ah, sim. Aqui. Vamos, vamos. Esquente o carro. Ah, 50 minutos atrasado já. E o trânsito? Minha cliente... coitada, coitada.
— Bom, se você for bom advogado da mesma maneira que sua pontualidade... bem, ela vai estar melhor sozinha, não é? — Riu sarcasticamente Cillian, dando um soco forte no ombro dele. — Vamos lá.
— A corte, então, irá decidir a punição para a condenada por supostos abortos provocados, sendo denunciada por médicos que a atenderam às 4h13 do dia 21 de abril de 2014. Como também às 2h57 do dia 09 de agosto de 2013, às 1h32 do dia 02 de setembro de 2012 e 27 de novembro de 2010.
Cillian entrou apressadamente pela porta, pois perdera tempo tentando subornar o policial que estava dando segurança ao local.
— Desculpem pelo atraso, vossas senhori...
— O que você está fazendo aqui?! — Disse nervosamente o júri. — Certamente é Cillian Vosak-Trusk, o advogado público oferecido pelo governo para a condenada Juliet White. Está atrasado há 2 horas. — Disse consultando o relógio do pulso.
— Perdoe-me, vossa senhoria. Eu estive muito ocupado enquanto formulava argumentos para a liberação da senhoria White. Deixe-me mostra-lo... — Ao abrir a maleta de couro que carregava, a falta de descuido permitiu os papéis a voarem pelo ambiente, provocando uma bagunça. — Ah! — Apavorado, caiu de joelhos no chão, tentando consertar o erro o mais rápido possível. As folhas brancas soltas e grampeadas tornaram o chão mais branco, as pessoas do local começaram a comentar sobre a discrepância entre a organização e o fato que havia ocorrido.
— Seguranças, por favor, tirem-no daqui.
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