Vingadores

1 Capítulo 1 ~ O preparo.


“Beretta 92FS” foi o que o rapaz leu no cano da pistola que pegou. “Droga!” pensou ele consigo mesmo, devolvendo a arma para o amontoado a sua frente. “Cadê a droga da Colt.45?!”

As várias prateleiras estreitas e apinhadas de armas de fogo irritavam profundamente o rapaz, e a pouca iluminação do local também não colaborava na busca. “Eu falei pro Takanori arrumar essa merda, agora que nós precisamos ser rápidos, eu fico aqui perdendo meu tempo procurando uma maldita pistola!”

- AKIRA! – O loiro de olhos ágeis deixou seus pensamentos e olhou para o fim do corredor. – Eu falei pra você ser rápido, seu imbecil! Ande logo com isso, cadê a Colt?!

- A culpa é do Takanori que não arrumou esse corredor! As pistolas estão todas fora de ordem, e as prateleiras todas sem etiqueta! – Akira começou a afastar as armas com as mãos, derrubando várias no chão.

- Você é imbecil ou o quê? Pare de derrubá-las no chão, a pólvora será toda perdida! Vamos logo com isso, eu te ajudo a procurar essa porra. – O dono da voz se aproximou rapidamente se abaixou para recolher as armas. Quando levantou, a luz iluminou seus cabelos negros e curtos e sua expressão de cenho franzido.

- Coloque-as no lugar, eu vou olhar na prateleira de cima. – O rapaz jogou as armas de qualquer jeito para o outro e logo puxou um banco para examinar as armas mais acima.

- ô Yutaka, me explica por que infernos tem que ser uma Colt? Porra, se nós pudéssemos levar uma Beretta, já teríamos saído há séculos daqui. – Akira resmungou enquanto guardava as armas de qualquer jeito na prateleira de baixo.

- Para essa missão a Colt é perfeita. Rápida e eficiente. A .45 é semi-automática, e nós temos muitas balas para ela. – Yutaka respondeu simplesmente, enquanto lia os canos das armas que pegava. – ACHEI! – ele exclamou ao pegar uma pistola prateada e surrada nas mãos, com cabo de madeira. – Melhor nos apressarmos, os outros já estão nos esperando há séculos.

Depois de pegar cinco exemplares da Colt e dividir com Akira, Yutaka desceu do banco e os dois saíram correndo pelos corredores úmidos do estabelecimento. Sempre muito mal iluminado, o local parecia ser extremamente extenso, repleto de todos os tipos de arma que poderiam ser imaginadas. Quartos, salas, cubículos, escadas. Era um galpão e tanto.

Quando os dois chegaram a uma pesada porta de madeira, toda entalhada, Yutaka a chutou sem cerimônia, escancarando-a.

- Sabe, eu acho que você podia ser mais delicado, seu vagal. Me assustou o diabo esse cassete de porta.

A voz veio de um pequeno homem de expressão naturalmente emburrada, como se já fosse de sua natureza. Akira apenas entrou logo atrás de Yutaka e concordou com o outro, abandando a cabeça com as mãos na testa e desabando na cadeira mais próxima.

- Vagal é você que arrumou aquele corredor do galpão principal que nem seu nariz, Takanori! – Brandiu Yutaka, arremessando uma Colt no colo do homem sentado que, ao se proteger da massa de ferro voando em sua direção, deixou o cigarro cair. O moreno alto repetiu a ação, arremessando as outras duas armas para outros dois jovens que permaneciam quietos em seus lugares, sendo um desses o mesmo sofá que Takanori e o outro em uma cadeira, mais afastado do resto do grupo e mais próximo a uma lamparina. O rapaz que residia na cadeira parecia extremamente concentrado em um pequeno pedaço de papel que tinha em mãos, enquanto o outro polia seu coturno no sofá. – Temos que andar logo, seus bunda-moles. Não temos muito tempo, se eles invad... – Yutaka parou de falar quando reparou que o homem do papel pareceu nem ter notado sua presença. Tanto que a arma estava caída no chão, imóvel.

O moreno alto respirou fundo e perguntou, delicadamente, em um tom cínico:

- Yuu, meu querido, o que tens em mãos?

- Um poema. – Respondeu o outro, ainda com os negros olhos presos no papel.

- Olha, que reconfortante. Não quer lê-lo para nós? – O tom cínico fez Akira segurar o riso.

O outro hesitou um pouco, mas com um ar inocente, pigarreou e começou a recitar, confiante:

- “Por uma noite, como um carrasco

Um potro seguia aos trotes, pelo pasto...”

Antes mesmo de inspirar o fôlego da próxima rima, Takanori levantou-se, gritando.

- MAS QUE MERDA DE RIMA É ESSA!? ONDE JÁ SE VIU RIMAR “PASTO” COM “CARRASCO”?!

Akira não suportou e soltou uma risada alta e cheia de malícia, apontando pro poeta. Yutaka permaneceu no lugar, com a mão na frente dos olhos, evitando apresentar uma reação parecida com a de Takanori. Pelo menos ele era –um pouco mais- controlado.

- Oras, é só um verso manco, e eu estou só começando. – Yuu olhou para o outro com desdém.

- Manco? MANCO?! Eu sei reconhecer um verso manco, mas isso mais me parece alguém perneta caindo de uma escada!!

- Não adianta, vocês sabem como funciona o mundo das borboletas coloridas do Yuu. Olhem pelo lado bom, pelo menos dessa vez o tema é mais sombrio, não teve nada de “saltitante” ou “chocolate”. – Por fim, o único que não tinha se manifestado o fez, sem tirar os olhos das botas lustrosas que acabara de polir. Depois desviou o olhar para os outros. Os olhos de Kouyou eram espertos e se moviam com rapidez. Seu cabelo mel que lhe caia um pouco dos ombros lhe dava um ar feminino, mas as olheiras de cansaço em seu rosto apenas mostravam um homem exausto que tentava preservar seu orgulho.

- Eu odeio todos vocês. — Yuu disse calmamente, depois de um momento de silêncio. – Só porque eu tento me distrair escrevendo alguma coisa e vocês ficam aí, morrendo de inveja. – O moreno de cabelos negros como ônix e ondulados até os ombros se levantou, pegou a arma, e saiu da sala, jogando o papel amassado para trás.

Todos permaneceram em seus lugares durante um curto período de tempo, ignorando a retirada do outro.

- Então tá, melhor irmos logo. Depois dessa discussão me deu uma preguiça de sair daqui, mas ainda assim estamos fora do tempo. – Disse Takanori abanando as mãos, fazendo a fumaça do seu nonagésimo sétimo cigarro do dia dar rodopios no ar.

- Eu acho que ele é o mais correto. – Disse Akira, se levantando.

- Lógico, você tinha alguma dúvida sobre isso? Eu sempre estou certo. – Takanori confirmou, se levantando do sofá e acomodando a arma no cinto.

- Não você, anão. O Yuu. – Akira disse, desdobrando o pedaço de papel que estava no chão segundos atrás. – Ele não parece, mas é o mais esperto entre nós. Ele tem uma válvula de escape, escreve, desenha, canta... Diferentemente de nós, ele nunca está pensando naquilo que vivemos todos os dias. Por isso ele é o único de nós que... Não grita enquanto dorme.

Um silêncio se fez na sala. Takanori fumava olhando para o lustre, Yutaka continuava quieto olhando para o chão, e Kouyou acabava de polir suas botas.

- Vou atrás dele. – O cabelos-de-mel vestiu o coturno e saiu rapidamente atrás do outro. – Se apressem, é óbvio que ele se perdeu no Galpão, nos esperem no andar de cima.

- NÃO DEMORA MUITO, CASSETE! – Gritou o moreno alto para Kouyou, que já estava distante. — Vamos subindo então, Akira, Takaroni. — Yutaka voltou com o mal humor descomunal que havia abandonado durante seu momento de silêncio. “Sinto falta do sorriso paternal daquele idiota”, pensavam, coincidentemente, os dois que recebiam a ordem. Mas havia um bom motivo para tal, por isso os outros nem o questionaram.

***

“Onde aquele infeliz do Yuu se meteu dessa vez...?” Takashima andava através dos corredores com as veias da têmpora saltando. “Eu vou encher bala naquele maldito. E o pior é que eu posso até escolher a bala que posso usar.” Ele refletia sobre a morte lenta que daria ao outro quando, após passar pela terceira vez pelo mesmo corredor, resolveu entrar no quarto do outro, só para ter certeza. “Ele não teria entrado aqui com a pressa que estamos. Nunca vemos Yutaka assim e...”

Ele estava no quarto.

- EU VOU TE MATAR SEU DESGRAÇADO! – Takashima apontou a Colt para o moreno e, a meio centésimo de apertar o gatilho, percebeu que o outro olhava para algo em cima de sua cama e não dava atenção à sua ameaça. O loiro abaixou a arma e andou vagarosamente até perto do outro, olhando por cima de seus ombros.

- Você sabe, Kouyou. Eu não nasci para fazer o que fazemos. Eu só precisava de um tempo para... Me preparar. – A voz rouca saiu tão baixa que foi quase impossível ouvir.

Kouyou olhava para as mãos de Yuu, aonde residia uma fotografia de aspecto antigo. O amigo sabia que aquela fotografia era, de seus únicos pertences restantes, a coisa mais importante para ele. Manteve-se imóvel, com as mãos nos ombros do moreno sentado, encarando a figura de duas belas mulheres na foto, junto do homem ao qual fazia companhia naquele exato momento. Sentiu um impulso de reconfortar o amigo, mas sabia que, se fizesse isso, nenhum dos dois conseguiria sair do Galpão para enfrentar aquela noite. Portanto, permaneceu quieto, apertando o ombro do companheiro.

- Eu não posso perdoá-los jamais por tirar minha única alegria. – continuou Yuu — Mas as armas nunca ficam confortáveis em minhas mãos, elas sempre são grandes demais, ou pequenas demais. Eu acho que preferiria ficar aqui, algumas vezes.

- Cale a boca, seu preguiçoso. Vamos logo, antes que o Yutaka nos mate apenas com as mãos.

Yuu guardou a foto e se levantou, passando a mão sobre o rosto recém umedecido e arrumando a própria Colt no cinto. Passou as mãos novamente no rosto, tentando, sem sucesso, esconder sua reação. Mas Kouyou, a essa altura, já o esperava fora do quarto. Ele permaneceu encostado na parede, apertando o cano da arma até ferir as mãos.

- Vamos. – O moreno de olhos profundos saiu do quarto. – Preparado?

- Que pergunta óbvia. É lógico. Para mim, isso é um jogo. – Respondeu o loiro, se virando rapidamente e andando sempre na frente. – Você e suas viadagens, sempre nos atrasando.

- Me desculpe.

- Não tem problema. – Kouyou respondeu abaixando a cabeça e andando ainda mais rápido. “Mas que merda, ele é sempre tão gentil. A verdade é que, se eu falasse qualquer outra coisa, quem cederia às lágrimas seria eu, e isso o impediria de chorar. E isso eu nunca faria. Nunca.”

As lágrimas silenciosas e vergonhosas de ambos ficaram para trás, enquanto dois guerreiros surgiam em direção à batalha.

Notas finais
Em andamento! Breve o segundo capítulo =)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.