Vingador Vol. II
10 9. Colar familiar, ataque familiar e a Czarina Uchiha.
Notas iniciais

Talvez ter um noivo como Sasuke, não fosse tão ruim assim. Também não era exatamente o paraíso. Mas Sakura decidiu, que eles estavam começando bem.
Apesar de rude, ele era cuidadoso com ela, apesar de arrogante, não a rebaixava, apesar de egocêntrico, ele perguntava ou a observava com genuína atenção. E apesar de um pouco diabólico, adorando vê-la constrangida e insinuando coisas pervertidas, ele nunca passou de qualquer limite, e ela se sentia agradecida.
Um de seus maiores temores quanto a esse noivado às cegas, era deparar-se com um homem que supusesse muita dominância sobre ela, antes mesmo de conhecê-la. Alguém que lhe exigisse um nível de intimidade alto demais, em troca do fato de estar levando seu anel.
Sasuke era... safado, mas não era abusivo.
Ele também era um chato, mas Sakura não conseguia odiar totalmente isso, afinal, também temia o fato de seu noivo ser um tanto estoico como o resto dos rapazes da família era.
Tinha carinho por todos, adorava Itachi quase como um irmão mais velho, mas não era só por isso que não se via casada com um cara como ele.
Precisava de mais calor. Sasuke tinha demais, mas era melhor que nada...
Ela finalmente parou de encara-lo, por de trás do livro que supostamente deveria estar estudando, ele era tão atento quanto uma ave de rapina também, e muito presunçoso, não precisava dele se gabando que o estava admirando tanto.
Não estava.
Não tanto assim.
Porque ele tinha que ser tão bonito? A barba o fazia tão másculo, mas lhe dava a curiosidade de imaginar seu rosto limpo, talvez na esperança de que ele pareceria mais angelical e inofensivo sem ela.
Homens barbados eram mais ameaçadores, em sua opinião.
Ajeitou a postura, e deitou o livro na mesa, ansiando ser capaz de mostrar tanta classe quanto ele ao usar o computador. Por um momento, desejou ter algo para iniciar uma conversa, mas era péssima para isso, e ele sequer tinha algo mais em comum com ela. Estudava literatura, poetas já mortos e ele, fundia empresas e gerava lucros com suas tabelas e números.
Claro, poderiam falar do casamento, ou do jantar que ainda não haviam marcado propriamente, mas ela ainda tinha muita vergonha de puxar esse tipo de assunto, e ele a mataria de vez, insinuando que estava com pressa para lua de mel.
— Sei que sou tão atraente que chega a ser perturbador, mas poderia evitar balançar tanto a mesa?
Sakura se empertigou, espantada e ofendida.
— E-eu... Eu estou quieta! E quem estava te encarando? Certamente não eu!
Ele revirou os olhos, e se recostou na cadeira, erguendo os braços e esticando-os demoradamente.
— Como isso é aborrecedor... e achei que você fosse ao menos fazer ficar menos entediante.
— Eh? E como eu faria isso?
— Eu imaginava algo como um beijo ou dois, mas a essa altura, ficaria conformado com um copo e whisky com gelo.
Ela avermelhou de indignação.
— Vo-você... O que pensa que eu sou, sua empregada?
— Eu imagino algo mais como uma doce esposa adoravelmente caseira e serviente.
Sakura se ergueu da cadeira, pegou as coisas e seguiu para fora do aposento, soltando fogo pelas ventas, e sentindo-se ainda mais zangada consigo mesma porque havia realmente pensando em ir buscar algo para ele, em consideração ao seu esforço no trabalho. Mas também traria para si.
Ela não era uma esposa doce e serviente.
Podia apreciar cuidar de coisas caseiras, mas não era como se se visse atrás de um fogão alimentando um homenzarrão aborrecedor e arrogante. Queria terminar sua faculdade, e queria se encontrar na carreira.
Também queria ser mãe, mas uma mãe moderna ou coisa assim.
— Patife! – Exclamou, batendo a porta.
— Também adoro você. Vamos ter um ótimo jantar.
Sasuke poderia contar o tempo nos dedos.
A porta se entreabriu e ela pôs os a cabeça para dentro.
— Q-que jantar?
— Ora, o nosso, restaurante espanhol, muitas Sangrias. – Comentou, voltando a digitar. Ela entrou novamente, se aproximou contornando sua cadeira e o encarou, agoniada.
— Mas-mas eu não concordei ainda! Não concordei que era hoje.
— Mais um motivo para me adorar, cuidei de tudo.
— Como assim, cuidou de tudo? Não era suposto que fizéssemos isso juntos? Poderia ao menos ter me consultado, e se eu tivesse outro compromisso?! – Ele cruzou os braços e a fitou, com um sorriso torto e arrogante.
— Que compromisso ser mais importante que com um encontro com a beldade aqui? – Sakura bufou, inconformada e deu as costas, ele suspirou, capturando sua mão. — Calma lá, tampinha, não precisa ter um ataque de fofura.
— Uugh.
— Marquei para hoje porque vou fazer uma viajem amanhã, sim?
Ela o fitou, com os lábios em bico, não muito afim de dar o braço a torcer.
— É...?
— É.
— E vai... vai demorar?
— Não muito.
— Hum... E esse “não muito” quer dizer o quanto na linguagem das pessoas normais? Afinal você faz viagens que duram anos...
Sasuke riu um pouco, apertando suavemente a mão dela, massageando os dedos.
— No máximo uma semana, okay? Vou dar uma volta com o coroa e o urubu do Itachi.
— Uma viagem de pai e filhos? Me parece fofo!
— Uma explosão de fofura, então, tudo certo? Ou quer que eu implore?
Ela não diria nada mas seus olhos brilharam pensando na alternativa.
Quanta petulância.
— Fique à vontade, se quiser. – Ela deu de ombros.
Oh, ao que parece ele se enganou, ela disse algo mesmo.
Quanta petulância.
Sasuke puxou sua palma até a boca, beijando o centro, Sakura estremeceu ao sentir o contato com seus lábios e com a barba, mas arrepiou-se e gemeu assustada, novamente estranhamente instigada quando ele tocou-lhe a pele com a língua.
Ele ergueu os olhos em sua direção, quentes e escuros, e afastou sua mão um pouco, apenas.
— Posso considerar esse sonzinho excitante como um sim?
Sakura puxou a mão de volta e correu para fora do aposento.
— E-estarei pronta ás sete e trinta.
Ele se voltou para o computador, ouvindo a porta bater.
— Parece que sim.
֍
— Eu não sei o que fazer! – Ela admitiu, afundando a testa contra a mesa, logo em seguida ergueu e tocou, temendo que a pancada a deixasse inchada ou marcada. Já não era uma testa muito discreta, afinal.
— Calmaaa! Nós vamos te ajudar, sabe disso. – Louise a tranquilizou, afagando seu braço.
— Yeah, vamos arranjar um vestido bem quente pra você usar.
— Oh, Robin, você não tem jeito. – Sakura sorriu, conformada.
— Aliás, ele não disse nada da sua roupa na festa? – Louise indagou e Sakura bufou, não conseguindo deixar de admitir que ficara um pouco ofendida com o silêncio dele.
Não era como se fosse viciada em elogios, e nem como se quisesse impressioná-lo (queria sim) mas embora geralmente estoicos, todos da família sempre eram atenciosos o bastante para dar um elogio aqui e ali ante seu esforço em se manter à altura da família, e como seu noivo parecia dado a ser mais falante, sinceramente achou que receberia algo mais.
Mas Sasuke parecia ser formado em dar frustrações, e agora entendia como devia ter sido difícil para Veena-sama lidar com ele. Já tinha certeza que Sasuke era o tipo que sumia em dois tempos e não se importava muito com os estragos que deixava.
E isso a assustava um pouco.
— Não. – Respondeu, magoada. — Nadica.
— Hum, ele é duro na queda. – Robin disse. — Gosta de fazer o tipo “Dono da porra toda, as garotas se curvam para ele”.
— Exatamente!
— Ah, é fácil, querida, apenas o faça perder o controle.
— E como faço isso?
— Dá chave um chá de bo...
— Robin. – Louise cortou-a, aborrecida. Robin fez uma careta e Sakura as olhou, perdida e ansiosa e morena desistiu, usar esses termos com Sakura, não ajudariam.
— Enfim, você tem que instiga-lo, mas do que ele te instiga, ele faz o tipo misterioso, seja mais misteriosa.
— Eu não sei ser assim, eu sou um livro aberto.
Até ela sabia disso.
Robin revirou os olhos e sorriu quase maleficamente.
— Não precisa ser um completo mistério, você precisa jogar, dar a ele um pouco, o deixar querendo mais, ele saber como é o jogo não significa que possa pular as fases.
— Mas pode trapacear.
E ele era um patife trapaceiro!
— Só se você deixar. – Robin se levantou, deixando algum dinheiro sobre a mesa da lanchonete e pegou a bolsa. — Vamos numa loja agora, vai comprar uma roupa fabulosa para esse encontro, sim?
— Eu não sei...- Sakura a adorava, e aceitava seus conselhos de coração (embora não soubesse como seguir a maior parte deles, não tinha toda essa... desenvoltura) mas não confiava em seu gosto para roupas (e homens, os dois misturados então...).
— Acalme-se, dessa vez eu deixo Louise me regular pra não comprarmos nada muito extravagante.
— Tipo...?
— Couro e spikes!
— Oh, meu deus.
— Mas primeiro, vamos ao primeiro passo para deixar seu noivinho instigado.
— Okay. – Louise concordou e Sakura assentiu, por fim.
— Ligue para ele. – Robin ordenou, professoralmente. — E pergunte o que ele sugere que vista hoje.
Sakura sentou novamente na cadeira.
— Desisto!
֍
Sasuke girou na cadeira, mastigando uma bala e um olhar duvidoso, com um impulso na mesa as rodinhas da cadeira deslizaram até a parede de vidro do escritório do Banco del Santino Gaspari, e encarou o movimento moderado no andar de baixo, as paredes de tom terroso e revestimento primoroso no gesso, com detalhes quase imperceptíveis dos traços sinuosos que formavam uma folha.
Folha a qual esteve sob a sombra por muito tempo, a qual fugira por muito tempo. A qual destroçaria pelo o que lhe fosse mais importante.
— O que eu sugiro? – Indagou, desconfiado. — Você quer dizer... sobre sua roupa?
— É-é...- Sakura ciciou, num engasgo. — Eu nunca fui a um restaurante espanhol, eu não sei qual traje pode ser mais adequado, algo mais formal? Mais descontraído? Como é o ambiente?
Ele coçou a barba, tinha muita coisa errada aí, mas se era assim que ela queria, ele iria na onda.
E a pescaria.
— Algo refinado, eu diria, é um cinco estrelas, bem romântico, escuro, coisa pra casais.
— Entendo.
— Sobre o que vestir? Eu poderia sugerir milhões de coisas, gosto de meias, calcinhas pequenas, e não faço questão se terá bojo ou não, e não acho que faça diferença pra você.
— Do que está falando?! Eu me refiro ao vestido!
— E eu ao que vai por baixo.
— Você...— Ele suspirou, vendo Itachi adentrar o banco a passo rápido seguido dos seguranças. Pela pressa, talvez fosse ter um programa a mais neste dia.
— Sr. Uchiha. – O Gerente se aproximou, junto de dois assistentes que traziam uma grande caixa retangular com tampa de vidro e fundo em um estofado branco. Sasuke empurrou a parede, dando impulso na cadeira até voltar para a mesa, e olhar as peças exibidas diante de si, estudou-as rapidamente. Até parar em uma que não via há bastante tempo, talvez só quando era criança.
Tocou o vidro, acima dela, indicando-a, e o gerente assentiu, logo a caixa foi aberta e ele se levantou.
— Continuando...
— Você está ocupado?
— Apenas preparando uma coisa, enfim, quero que use preto.
— Preto?
— Aham. Sem golas e se possível um daqueles decotes que chegam ao umbigo.
— Você sonha alto, Sr. Uchiha.— Ela riu.
Era engraçado mesmo, porque ele sonhava era com o que estava embaixo.
— Eu tenho que ir, até mais.
— Até, não esqueça do meu decote. – A risada enervada dela foi a última coisa que ouviu, antes de Itachi entrar. Sasuke guardou o celular e seguiu até a mesa.
— Me seguindo? As coisas devem estar bem entediantes. Mas pode ficar calmo, não estou tentando pegar a herança da família.
— Nem se quisesse, isto aqui faz parte da Folha, como pode simplesmente pisar aqui se, como você mesmo disse, está com a cabeça a prêmio?
Ele deu de ombros.
— Não é como se eu fugisse de uma boa briga. Além do mais, tinha que pegar uma coisa. – Indicou a mesa, onde agora havia uma caixa de veludo púrpura pousada.
Itachi estreitou o olhar e se aproximou, abriu-a e suspirou.
— Tinha que ser logo esse?
— Algo contra?
Ele apenas fechou-a e empurrou para Sasuke, dando as costas em seguida.
— Venha comigo, as coisas estão saindo de controle, Vaisravana está insana.
— Pra mim sempre esteve, mas ninguém ouvia. – Sasuke o seguiu, guardando a caixa dentro do terno. Seguiu com ele de volta a casa. A frente da mansão já estava praticamente impecável outra vez, e seu Mustang foi parar no concerto.
Quando adentrou o escritório de Fugaku fez uma careta ao notar todo mundo lá, seguiu até a cadeira próxima da mesa e se sentou.
— Onde estava? – Veena indagou, os olhos azuis ferozes e irados.
— Dando uma volta, o que aconteceu, quem pisou na bola?
— Você? – Izumi jogou. E ele entendeu menos ainda.
— Eu não sempre faço isso? Qual a novidade? – Desdenhou em seguida fechou a cara, numa expressão ameaçadora, por fim cuspindo toda e qualquer máscara da face.
— Tem algo pra mim ou não?
— Descobrimos quem ordenou o ataque do posto. – Fugaku disse.
— E?
— A assassina foi contratada por alguém de KuranUchiha. – Shisui disse, Sasuke o fitou, e seu olhar se tornou sombrio, varrendo cada um deles, ele se inclinou para frente, um sorriso maldoso e obscuro tomou sua face.
— Ora, quem diria? Temos mais alguém brincando de Vingador na família? – Dardejou, sinistramente.
— Não foi nenhum de nós. – Veena disse, friamente. — Pelo menos não alguém desta sala.
— Nem mesmo o garoto que pensa que matei o pai dele? – Sasuke indagou, recostando-se, e dobrando uma perna sobre a outra, batucando os dedos.
Izuna o encarou mortalmente.
— E se fosse? Uma vida por outra, não?
Sasuke riu com gosto.
— Acha mesmo que a vida dela vale a do verme do Izanagi? Que a vida de qualquer um de vocês vale? Ser arrogante é uma coisa, ser ignorante é outra.
— Nós todos sabemos o valor da vida de Sakura. – Itachi disse. — Não se trata apenas do quão ela importa para você, tivemos tempo o bastante para perceber isso. A presença dela desintoxica esta casa, e as nossas vidas, no entanto, ela não é um antídoto, ela não é capaz de sufragar todo o veneno que corrói esta família, que faz esta família. Muito menos, o daqueles que nem se deram a oportunidade de conhecê-la, e ainda menos, o veneno da Folha.
Sasuke o encarou, os olhos estreitos, e por fim, suspirou e se recostou na cadeira.
— Querem a verdade? – Ele disse, tomando novamente a atenção de todos. — A verdade é que não matei Izanagi.
Izuna fez menção de se erguer, completamente vermelho de fúria, mas Shisui segurou seu cotovelo, o contendo.
— Eu não matei o bastardo, mas gostaria, pois sei que ele estava lá para me matar. Em área neutra. Mas alguém o pegou primeiro, e deu fim em muito mais do que informações sobre mim, eu vi, queimaram mais folhas do que havia na pasta com ele.
— Pode provar? – Fugaku disse.
— Porque eu mentiria? Eu mataria Izanagi com gosto, e ele me mataria também. Nenhum de nós tem porque mentir sobre isso e ninguém poderia dizer nada, nem a casa Uchiha, nem a FOLHA, pois desentendimentos entre assassinos, só convém entre eles, certo? São as regras.
— Você não segue as regras.
— Bom, parece que Izanagi também não pretendia, mas a questão é. Se eu realmente quisesse a Folha no meu rabo, teria fodido com áreas neutras a tempos. Mas vocês sabem que não é isso que eu quero. O que eu quero, é Sakura. E eu não sou burro de desafiar os cuzões maiores sem nem ter ela em minhas mãos, acham que eu o faria por uma mera pista falsa? Vocês me subestimam pra caralho.
— Eu estou orgulhosa e irritada. – Mikoto admitiu.
— Obrigada, mamãe.
— Então se não foi você, quem mataria Izanagi em área neutra? – Itachi prosseguiu.
— Como posso saber? Se tenho inimigos desde antes de sair do trabalho, e ele que estava até então? Eu sei que sou famoso nos jantares particulares, não aposta seu rabo como muita gente das outras casas ou mesmo da alta cúpula queria o otário morto, e não veria porque aproveitar o renegado aqui pra deixar a merda escorrer em cima? Eu sou o culpado perfeito, pensem. Izanagi me odeia, soube que eu estava em Bruxelas, ele foi atrás me apagar e se gabar, alguém que queria ele mais morto do que queria a mim, o pegou, simples assim, eu estava lá, era mais que óbvio que seria eu.
— Quando o encontrou, ele já era?
— Sim, não sei quem foi, mas era bom. Ou talvez Izanagi só estivesse velho mesmo, de qualquer jeito, só haviam as informações sobre mim, quando tinham outras que foram queimadas na lareira, peguei algumas para tentar salvar, mas não rolou, então apenas cai fora e segui o roteiro que seja lá quem for queria. Mas uma coisa é certa, não acabou, não sei se tem haver apenas comigo, ou se vão apenas estender a queima de arquivo para mim. Mas vão voltar sim, vou ficar esperando.
— Você não pode ficar esperando, não mais. Se quer tanto Sakura segura, é melhor mexer o traseiro, pois as coisas vão ficar muito difíceis a partir de agora. – Fugaku declarou, Sasuke o encarou sobriamente.
— Quem é?
— É Antanasia. – Seu pai disse, e ele o fitou, quase deixando a surpresa fluir em sua face antes de gelo. — Quem ordenou o atentado, foi sua avó.
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Sakura se olhou no espelho uma última vez antes de se fechar dentro do sutil mas fofo casaco de pele, ele era branco, com um manto de neve, e a fazia se sentir como uma modelo ou atriz fabulosa. Os saltos davam bastante segurança, o vestido, ainda não sabia o que dizer da escolha, só que não poderia culpar Robin ou Louise por isso.
Ela o quis.
Pegou a carteira, e ajeitou um pequeno relógio no pulso antes de respirar fundo, e sair do quarto.
Seguiu pelos corredores e quase esqueceu que a sala principal da casa ainda estava interditada para reforma. Veena-sama havia dito algo sobre infiltrações.
Seguiu então até o escritório de Fugaku-sama, e bateu suavemente antes de entrar e só então perceber que não estavam todos reunidos ali como imaginara. Fugaku estava diante da mesa, sentando lendo algum livro, e a meia luz do ambiente quase escondia sua figura.
— Oh, perdão. – Avisou, esperando sair logo, a presença dele, mais uma vez era sempre intimidante e grandiosa.
— A maioria foi resolver algum problema — Ele disse, pegando a xícara que estava por perto e então a fitando por cima das lentes dos óculos com atenção. — Sasuke parece não ter desistido do seu compromisso, parece que finalmente aprendeu a ser menos sangue quente.
Ela se aproximou, apressada.
— Outro compromisso? Ele não disse, é importante? – Indagou, um pouco aflita. Fugaku meneou a cabeça.
— É, mas ele já firmou compromisso com você, não o deixe fazer como quer sempre, tenha rédea sobre ele. – Fitou-a de lado, uma sobrancelha arqueada. — Vai descobrir que é mais fácil do que parece.
Ela corou, e por fim sorriu, sentindo-se muito mais segura agora, alguns medos ainda permaneciam, alguns sonhos ruins ainda permeavam sua mente, e angústias profundas assombravam seu despertar. Mas era bom receber a confiança de que poderia avançar um próximo passo, e de que poderia crescer com ele.
Se aproximou e sentou na cadeira perto da mesa.
— Obrigada, ele é sempre tão difícil?
— Difícil desde o parto, deu trabalho mesmo sendo o segundo.
— Hahaha, acho que ouvi algo assim.
— Sasuke nasceu entre nós. – Fugaku suspirou, encarando o livro. — Mas embora lapidado, ele não foi formado como um de nós.
Sakura assentiu, lentamente.
— Entendo.
— Ele ainda está procurando um lugar. – Ele a fitou, e trouxe a mão até seu queixo, Sakura normalmente recuaria, mas embora Fugaku fosse grandioso, ele não era ruim, não lhe passava algo ruim.
Ele era como um pai.
— Na verdade. – Ele disse, um toque sutil em seu queixo. — Ele já achou.
E mais uma vez, tardando ou não, iria para longe.
Ela enrubesceu e abaixou os olhos, sorrindo contidamente, segurou sua mão, e beijou a pedra em seu dedo.
— Obrigada, pai.
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— Ah, aí está você. – Sasuke disse, e ela deu de ombros, ele arqueou o cenho, encarando o casaco, ela parecia um ratinho usando a pele de um rato maior. Seu cabelo estava solto com pequenas tranças de lado, deixando um lado puxado para trás, e o outro com longas mechas cobrindo a cicatriz do acidente.
Se o corte houvesse se aprofundado em sua têmpora, ela teria morrido na hora.
— Pensei ter recomendado preto. – Disse, enquanto abria a porta do carro. Sakura deu de ombros, e fazendo questão de manter o casaco bem fechado em torno de si, sentou no banco e recolheu as pernas para dentro.
— Eu não estou vestindo só o casaco. – Ele fez um sorriso falso, que a fez rir, e fechou a porta do carro com demasiada força, contornou ajeitando as abotoaduras do terno.
— Mas bem que podia. – Comentou, antes de entrar.
A viajem foi relativamente curta, e embora estivesse um pouco mais segura para conversar, Sasuke parecia um tanto impaciente e sempre olhava através do retrovisor, ela tentou ligar o rádio, mas ele o abaixou quase ao mudo, dizendo algo sobre isso desconcentrar o motorista.
Ele parecia mais interessado em ouvir os outros carros, até mesmo o vento, e ela não conseguiu evitar se sentir aborrecida com isso.
O restaurante era primoroso, só de vista, tinha dois andares, e uma enorme varanda, e parecia movimentado naquela noite. Sasuke entrou, conduzindo-a, e ao passar pelo recepcionista, tirou do bolso uma espécie de moeda, mas parecia muito grande e bem brilhante, o homem a encarou por um longo segundo, antes de a guardar no bolso e sorrir com muita gentileza e indicar um caminho alternativo.
Ela seguiu com Sasuke, praticamente sozinhos até um elevador mais distante mas não menos luxuoso.
— O que era aquela moeda? – Ela indagou, ele a fitou de lado, e sorriu suavemente, mexendo no bolso novamente, tirou outra, e lhe mostrou-a, girando entre o indicador e o polegar. Era muito fina e cheias de gravações milimétricas, desenhos intrincados que no centro formavam uma espécie de folha, ela estreitou um pouco os olhos, certa de que já vira este detalhe. Tocou com o polegar.
— Esse símbolo...?
— É como um cartão de crédito exclusivo. – Ele disse. — Uma moeda restrita, para determinados serviços. – Sakura fitou seus olhos.
— Que tipo de serviços?
Ele aproximou o rosto, e com a mão, envolveu a dela, fazendo-a sentir a peça de ouro gelada entre as palmas.
— O serviço que quiser, basta que o lugar tenha esta mesma folha. – Ciciou, como um segredo sensual. E então o elevador abriu e ele seguiu em frente, deixando a moeda em sua mão. Sakura o alcançou, ainda examinado a moeda, andaram por um corredor não muito curto, até darem com outro empregado, que lhes conduziu através de uma porta dupla, um espaço grande, em tons escuros e iluminação intimista os recebeu, poucas pessoas havia, mas muito bem vestidas, silenciosas, apenas parecendo apreciar o lugar.
Foram levados até uma mesa mais distante, perto de uma vidraça que dava visão dos telhados dos outros prédios e também do céu raramente limpo e escuro.
— Algo para a entrada, senhor? – O homem indagou, polidamente. Sasuke tirou o casaco que usava por cima e entregou a ele.
— Ah, Sangria, eu a trouxe justamente para provar, não é, amor?
— É sim. — Ela riu, um pouco desconcertada com toda gentileza do empregado, ele puxou sua cadeira, e ajudou-a a se livrar do casaco pesado. Ele o colocou sobre um antebraço e fez uma leve reverência.
— Tenho certeza que a senhorita vai apreciar, temos os melhores chefes espanhóis à nossa inteira disposição, e quanto as bebidas, a primazia é a mesma.
— Obrigada.
— Com sua licença. – Ele enfim se afastou, Sakura riu baixinho prometendo a si mesma que não reclamaria nunca mais de como sua família era exageradamente educada.
Sasuke revirou os olhos, mas parou, pousando-os nela, dos pés a cabeça, principalmente nas pernas leitosas absolutamente visíveis. Ela usava um vestido preto, de seda, algo simples, curto, elegante. Alças finas, decote simples, sandálias de salto alto, as unhas dos dedos pintadas de um tom nude, bem como as das mãos, e perolas pretas nas orelhas.
Sakura o fitou, ainda segurando a moeda entre os dedos, e balançou os ombros.
— Bom?
Ele ergueu os olhos escuros em sua direção, ardentes, como uma fera espreitando esfomeada, mas ainda com controle o bastante para estudar bem como atacaria.
— Impecável, eu não poderia pedir nada melhor.
Ela se sentou, e ele também, então, apoiou um cotovelo na mesa, e esfregou a barba na região do queixo, apenas encarando-a e encarando-a com um sorriso de quem admirava algo.
Sakura baixou a cabeça, pondo a moeda de lado e o encarou, corando suavemente.
— Vai só ficar me encarando? – Desafiou, com uma pontada de decepção no tom, para ver como ele faria. Ele era sempre tão cheio de si, que ela já havia aceitado que mesmo que ele lhe elogiasse, não se demoraria muito e iniciariam algum assunto longo e talvez complicado.
Sasuke meneou a cabeça, como se pensasse, mas que por fim, já houvesse decidido.
— Não é como se houvesse coisa melhor, é?
Ela desviou os olhos de novo, sentindo as orelhas arderem. Como foi sair do controle assim?
Embora o plano fosse esse, estava dando tão certo, que ela não sentia que estava em suas mãos ainda assim.
Sasuke suspirou profundamente antes de dizer.
— Quero você essa noite.
Sakura o encarou, aturdida e enervada.
— Bem, a ideia era fazer da forma sutil. – Comentou. — Mas você não me deu chance, está incrível, e eu quero muito você essa noite.
— Vo-você quer dizer...?
— É. Estou falando de transar, e muito.
Sakura juntou as mãos sobre a mesa, tentando conter o nervosismo que a tomou e desviou os olhos sem saber exatamente onde deixá-los.
Ele suspirou, levando a mão rumo as dela, e segurando.
— Eu só estou dizendo a verdade, eu não estou exigindo nada.
— E-eu, eu não sei o que dizer.
— Um Sim ou Não, você tem a resposta, Sakura, quem sabe até um Talvez. – Sakura o fitou, desconcertada e intrigada.
— E como seria um... Talvez, nestes termos?
Sasuke meneou a cabeça, pensativo, e sorriu ladino.
— Adoraria descobrir também, não sou o tipo que faz pela metade, mas acho melhor que nada.
— Hum... Eu pensei em esperar... Pelo casamento. – Confessou, embora já houvesse abandonado a ideia um pouco, após conhece-lo. Não que tivesse se sentindo pronta, mas foi fácil perceber que Sasuke não era o tipo que se importava em respeite essas conivências.
Imaginar quão “livremente” ele devia ter vivido, a fez sentir-se um tanto aborrecida.
— Infelizmente, eu sei. – Ele comentou, com um suspiro.
— Então?
— Me diga você, Sakura, acha que aguenta até lá?
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O jatinho estacionou pacificamente no aeroporto particular, um Rolls Royce branco adentrou a pista e parou próximo aonde a escada se abrira e descera.
Vários homens saíram, acompanhando o passo sereno, imponente e um tanto lento da mulher sobre sua bengala.
Ajeitando o broche na lapela do conjunto de terninho que usava, ela sentou no banco e suspirou profundamente observando as janelas.
— Onde estão? – O sotaque russo porejava e seu tom, bem com uma frieza colossal, considerando assunto que queria tratar.
— Usando a área neutra do restaurante espanhol.
Ela sorriu, de canto, ladinamente.
— Ele acha mesmo que será o bastante?
O homem no outro banco, a fitou um tanto curioso e até espantado.
— Teria coragem de quebrar a regra...?
Ela balançou a mão num gesto displicente e aborrecido.
— Eu não castigo quebras de regras, quebrando regras. Mas ele não vai morar na área neutra, pelo menos, não seria capaz de fazer isso, não agora.
— Ah, entendo...
— Mande os Lobos logo, quero estar saboreando isto antes do fim desta noite.
— Sim, senhora.
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Quando ela disse que, tudo bem, que poderia começar com aquilo aos poucos, e ver no que daria, esperava um “aos poucos” mais devagar e menos frenético.
Mas Deus, beijar era uma coisa tão boa, ou beijar Sasuke era?
Realmente não poderia dizer, pois só beijara ele, e ele, se para ter tão boa prática precisou beijar muito outras pessoas, devia ter beijado muita gente.
O pensamento, de novo, a deixou aborrecida, e também, irritada.
Talvez estivesse na hora perfeita de seguir o que Robin disse, o deixar apenas instigado.
Segurou seu pulso suavemente, e se moveu tentando desvencilhar-se um pouco de sua figura dominante e afastar os lábios do contato ardente com os deles, de sua língua ousada.
Tão logo sua boca se afastou o bastante, ela poderia sentir o ar novamente e perceber que ele estava fazendo um pouco de falta, bem como seus lábios pareciam pulsar, completamente marcados pela presença da boca dele. Sasuke a fitou, entreabrindo os olhos.
— Vai fazer algo importante?
Sakura ainda se sentia muito tonta, parecia que encerrar o beijo fora a parte mais atordoante da história, pois não sabia nem quanto tempo havia se passado desde que sentaram naquele sofá, depois do jantar, e conversaram calmamente, até que ela se sentisse segura para o deixar beija-la.
— Na-não...? – Ciciou, piscando em busca de retomar alguma noção.
— Então não tem porquê parar. – Ele concluiu, em seguida sua boca na dela novamente, sua língua enrolando-se na dela, suas mãos grandes em torno de seu rosto e cintura.
Sakura desviou a boca, como se tentasse sair da água, como se tentasse escapar do afogamento, o sentimento de mergulhar no desconhecido quente, ampliou-se quando ele teceu beijos em sua garganta, como se soubesse como ela reagiria àquilo, como se fosse tudo tão planejado, mas ao mesmo tempo, tão natural, que seu corpo respondia de maneiras que não imaginou possível e de forma muito fácil. Chegava a ser um pouco humilhante, ele chegou a tão pouco tempo, e se apossara com tanta facilidade de muitas coisas da vida dela.
E era uma vida que ela tinha a tão pouco tempo, algo acima, uma superfície, segurando-a de um precipício escuro que eram as lembranças perdidas. E Sasuke abalava essa proteção. E ela tinha medo de ele abala-la demais.
A algum tempo, havia percebido que não sentia mais só angústia por não lembrar do próprio passado, mas que começara a sentir medo dele.
Medo de ele de alguma forma, destruir sua percepção atual do mundo, suas atuais convicções, e sua atual felicidade, seu futuro.
E estava com medo de quão profundamente e rápido estava se ligando a esta pessoa, do quão pouco ainda sentia saber sobre ele. Já nem era mais sobre casar e viver com ele, mas sobre ele ter tanto dela, e ela sentir que não lidaria com tudo dele.
— E preciso respirar...- Ciciou, pousando as mãos em seu ombro, Sasuke sugou avidamente seu pescoço, grunhindo de satisfação insana ao sentir sua pele na língua, a textura contra os lábios, o perfume inundando suas narinas.
— Respira depois. – Disse, escorregando a boca para seus lábios inchados, entreabertos, e os tomando novamente. Abraçou a cintura dela com um braço, suas mãos só desejavam mais carne e o mínimo autocontrole passava completamente longe da mente de uma cria da mais antiga família de matadores profissionais que a constituía a Folha.
Aquela poderia e era, considerada sua obsessão, e por isso o maior e melhor meio de chegar até ele, seja para mata-lo, seja para subjuga-lo.
Mas ela sempre fora muito mais que isso, mesmo tendo começado como um mero capricho estranho e fútil, Sakura sempre esteve muito acima, muito além.
Muito mais que uma obsessão, muito mais que um capricho, muito mais que um dever ou dívida.
Ela era sua ruína, mesmo em suas mãos se desfazendo por ele, era ele quem estaria sempre se desdobrando por ela, desfazendo por ela, quebrando por ela, perseguindo ela.
Sendo dela.
E no fim, só ela o subjugava.
— Não. – Ela disse, sua mão em seu peito imprimindo mais força, subitamente ciente da mão dele apertar sua cocha de maneira tão possessiva, tão próxima. Sasuke encarou seus olhos, observando-os tremularem. — Eu... eu realmente preciso respirar.
Ele tocou seu rosto, mudou até os olhos, o que a deixou temerosa. Talvez houvesse sido exagerada, talvez houvesse o provocado demais, e agora ele estava zangado.
Ela inspirou nervosamente quando o sentiu roçar os dedos abaixo da mexa de cabelo que ocultava aquela cicatriz.
— Assustei você. – Não era uma pergunta, e ela queria ter capacidade de desviar os olhos agora, mas havia algo neles que a impedia. Ou talvez fosse a entonação em suas palavras.
— Na-não...
— Não minta pra mim.
Sakura se encolheu um pouco, contra o sofá, juntou mais as pernas, sentindo-se incomodada com o tamanho do vestido, e tentou puxá-lo um pouco, bem como ajeitar o cabelo. A percepção de que ainda estavam num lugar público, ainda que discreto a deixou mais nervosa.
— Não é sua culpa... Eu só... não estou acostumada... Não se trata só de sexo... E-eu nunca tive outro contato... desse tipo...
Sasuke apoiou o cotovelo no encosto, apenas coçando a barba e olhando o nada, pensativo. E ela manteve os olhos no chão.
— Não fique zangado...- Ciciou, não conseguindo esconder a pontada de desespero que sentiu, e de auto depreciação. Percebendo que haviam coisas em que Robin e Louise não poderiam ajuda-la. Certamente não era o tipo de mulher que elas eram, haveria sempre algo a fazendo se sentir muito arisca ou nervosa quando se envolvia o contato íntimo com outros homens, e definitivamente não deixaria de ser assim por causa de um vestido mais curto, dicas de comportamento... Ou por ele ser seu noivo... — Por favor...
— Tudo bem, chega. – Sasuke ordenou, se ajeitando no sofá e puxando seu rosto, para si, ela o abraçou de bom grado, e escondeu o rosto em seu terno, respirando fundo o perfume sutil. — Não estou zangado. E não é sua culpa.
— Está sim.
— Mas não é com você.
— Então o quê?
— Estou zangado comigo. – Sakura sentiu o coração falhar uma batida, calor inundou seu peito, e ela quis chorar ainda mais.
— Porquê? – Soluçou.
— Porquê eu já fui muitos tipos de cara. – Sasuke puxou seu queixo, e encarou-a, seus olhos eram escuros como azeviche, ou talvez assim fossem os diamantes negros. Mas sobretudo, havia muita raiva neles, uma raiva auto imposta, e dor. — Mas eu não quero ser esse tipo de cara... Não, e não com você.
Sakura não era capaz de entender tudo, mas percebeu que entendera o principal, e se comoveu, assentiu, sorrindo um pouco, afagou o rosto dele, se aproximando um pouco para beijar.
— Você não é.
Ele parecia perturbado, inspirando profundamente, apenas a deixou se aproximar e se encolher em seu entorno, optando por ficar quietinha e esperar seu Sasuke voltar. Embora não soubesse exatamente qual era, afinal, como ele disse, era muitos tipos de Sasuke. Às vezes muito emburrado, ou rabugento, sarcástico, e provocador, às vezes apenas calado e sombrio. Mas mesmo com pouco tempo de convivência, todos eram sensíveis a ela, todos eram atenciosos, todos se importavam, e todos eram dela.
— Você não é. – Afirmou de novo, abraçando o tronco dele. Sasuke suspirou, por fim saindo de seja lá o que fosse de muito sombrio que envolvera sua mente.
Beijou a cabeça dela.
— Quer ir pra casa?
Sakura inspirou, não queria ficar mais ali, mas também não queria voltar ainda. Talvez pudessem ficar no bar, que lhe pareceu um bom meio termo.
— Outra Sangria? – Ofertou, brincalhona.
— Chega de Sangrias, estou dirigindo e não quero ter que atirar em policiais para passar.
Ela riu, alheia ao fato de que ele o faria tranquilamente, considerando quão enraivado ainda se sentia. Precisava descontar mais que frustração sexual agora, e não dava para ser só no banheiro.
— Vamos. – Chamou, erguendo-se a ajudando-a a se levantar. Sakura desamassou o vestido, um pouco constrangida com o estado que aparentava estar agora, mas pegou de bom grado o casaco de pele, quando ele lhe entregou, enrolando-se dentro dele, o acompanhou para a saída.
— Eu estive pensando, você estava no museu para me ver, naquele dia? – Indagou, quando chegaram a saída.
Sasuke parou, esperando que lhe trouxessem o carro.
— Algo assim. – Comentou, por alto. E ela inflou as bochechas ainda que não quisesse, pois aborreceu-a um pouco que ele pudesse estar lá outro motivo que não ela.
Mas desde quando era tão... assim?
— Às vezes eu pinto, no meu tempo livre. – Sasuke disse e Sakura o encarou, com aquelas bagas enormes de curiosa.
— Juuuura? Você tem quadros? Lá? Eu posso ver?
— Quem sabe...- Ele pegou as chaves de volta, e abriu a porta.
— Porquê você tem que ser tão vago?
— Você se acostuma, gazela. – Sakura bufou, internamente revoltada com Izuna, apostava que ele que já havia enfiado esse apelido bobo, e óbvio que Sasuke usaria.
Mas, pensando bem, não lembrava de ter visto o mais novo a alguns dias, talvez estivesse ocupado com a faculdade.
Sasuke entrou no carro, desta vez a deixou mexer no rádio (algo que ela só fez por implicância mesmo), as ruas estavam mais vazias.
— Você é tão sem noção que me deixa sem noção também. – Ele disse, de repente, e ela o fitou, muito surpresa, apesar que ofendida.
— Mas o que eu fiz? – Sasuke fez uma breve careta, e começou a diminuir a velocidade, parou o carro numa esquina, e então, começou a mexer nos bolsos do terno.
— Se eu pedir para abrir o casaco agora, vai me estapear? – Indagou.
— Apenas se passar disto. – Ela avisou, ele arqueou o cenho, com um sorriso ladino.
— Oh, então nada de baixar as alcinhas? – Ela enrugou o nariz, e ele riu suavemente, enfim puxando do bolso, uma caixa de veludo preto. — Era pra te dar no restaurante, mas...
Sakura piscou, surpresa, e pegou a caixa entre as mãos.
— Realmente, você foi sem noção. – Concluiu, ao menos no restaurante seria mais romântico, ora.
— Baixe essas alças. – Ele ordenou, irritado, e Sakura riu se ajeitando no banco e encarando a caixa, curiosa e ansiosa. Era o primeiro presente que ele lhe dava afinal. Se perguntava como seria o gosto dele, e claro, como ele gostaria de enfeitá-la. Lembrava das histórias de cada maravilhosa joia que Veena-sama lhe mostrara, muito orgulhosa de como seu marido sabia agrada-la.
Abriu a caixa, e não soube se foi algum carro passando na rua que a cegou temporariamente com os faróis ou se apenas o brilho daquela pedra que apesar de negra, era a coisa mais cintilante que já vira na vida, e grande, e cercada de brilhantes.
Ela sentiu o ar faltar.
Ele observou um tanto aborrecido, os olhos dela estavam brilhando.
Maldita Bishamonten, agora além de ficar sem sexo, ficaria de bolsos vazios também.
— Cuidado, ou vai babar. – Comentou, revirando os olhos, ela se desconcertou e o encarou.
— É-é pra mim mesmo? Jura? É tão lindo, e tão grande, nunca imaginei, eu adorei, obrigado!
— Hn, é um colar de família, só tive que escolher.
— Jura? Eu fico tão honrada! Ele é lindoo.
— Okay, baixe as alças agora. – Sakura fez um bico, e ele bufou, pegando a caixa e tirando o colar. — Erga essa juba aí. – Ordenou, Sakura o fez com muita boa vontade, dando um pouco as costas, puxou a massa de fios para cima, e ele rodeou seu pescoço com o colar, o pingente pesado e gelado pousou na pele do colo dela, fazendo-a sentir arrepios, arfou e ouviu o suave clique do fecho atrás de si. Sasuke suspirou, e massageou suavemente sua nuca, deixando um beijo quente nela.
Sua pele já deveria estar toda vermelha, e soltou o cabelo, virando-se e o encarando, desconcertada.
— Ficou bom. – Sasuke observou o colar sobre sua pele branca e delgada, o pingente pousado no início do vale dos seios pequenos e suspirou, encarando-a por fim.
— Baixe as alças, preciso de uma avaliação melhor. – Sakura fez outro bico, aborrecido, e por fim sorriu, encabulada mas travessa.
— Você não iria avaliar o colar. – Acusou. Ele se inclinou, beijando sua boca e então encarou-a.
— Já me conhece tão bem, amor. – Declarou, ela riu, e ele suspirou, quase depressivo, ligou o carro, e retomou o caminho. Revirou os olhos quando ela muito discretamente mexeu no espelho retrovisor e ficou se encarando através dele, mas não reclamou porque também poderia olhar quando quisesse.
Ela era como um rato andando despreocupadamente em torno da ratoeira mesmo.
A parte boa, era que faria Veena pagar por ser tão intrometida, secaria os cofres da família, e daria um banho de joias na rata só para dar uma lição na sua adorável mamãe.
— Que tipo de quadros você pinta? – Ela indagou.
— Todo tipo que der vontade.
— Quando você vai me mostrar?
— E eu tenho?
— Hum...- Sakura resmungou, mas decidiu ir outro caminho, e sorriu docilmente. — Eu não sou muito boa em criar coisas, mas eu gosto de tentar, você poderia me ensinar algo como um passatempo também?
Sasuke só conseguia pensar que ela se convertera numa dondoquinha esperta pra caralho. Se estivessem na era vitoriana e ela procurasse um marido, já teria conseguido um e vários amantes. Ela realmente o estava jogando charme com essa de virar sua aluna?
Não que ele fosse se importar de suja-la de tinta, seria ótima deixa-la só com tinta, porra.
— Quem sabe eu te ensine uma ou duas técnicas. – Comentou.
— Adoraria! Eu aprendi xadrez com Shisui-kun, e a jogar banco imobiliário com Itachi-kun, além que ele me ensinou a ganhar nas cartas do Izuna, e por isso Izuna não joga mais comigo, mas ele nunca admitiria...
— Aham.
— E Veena-sama adora jardinagem, eu aprendi a pelo menos não deixar as plantinhas morrerem, mas não teria coragem de tocar nas rosas...
— Não toque nas rosas. – Ele avisou, e ela assentiu agora com mais certeza do que as rosas eram realmente importantes para Veena.
— E bem...- Concluiu com certa ironia. — Izumi tentou me ensinar a atirar, mas não foi muito bem...
Sasuke a encarou.
— Como é?
— Ela me levou num clube de tiro, e foi legal, eu acho legal que todos gostem de caçar apesar que seja meio assustador que tenham armas, mas Veena-sama disse que é um costume de família, então não vi porque reclamar.
— Sabe das armas...?
Sakura deu de ombros, a naturalidade escorrendo de sua expressão o deixaria puto, se não fosse tão bom para ela, e para ele.
— Itachi ficou zangado, será que ele não quer que eu toque em armas?
— Eu não confiaria em você com uma. – Ele foi mais que sincero, uma sombra antiga cruzando seus olhos. Sakura meneou a cabeça, aborrecida. — Realmente não te incomoda?
— Incomodou, no começo... Mas depois foi normal, acho que combina muito com a família? Me pareceu comum ver vocês com ela, oh, você também atira?
— Eu sou o melhor da família.
Ela não duvidava que ele diria isso, sendo ou não verdade, o metido.
— Hum... e você me ensinaria?
Sasuke suspirou, meneando a cabeça.
— Eu não sei se confio em você com uma arma.
Da última vez não foi legal.
— Oh, você fala como se eu fosse sair atirando...- Ela se aborreceu um pouco.
— Eu não te daria uma arma, mas não vejo porque não aprender a usar uma.
Está na mais que na hora.
— Jura?
— Aham, qualquer dia desses, a gente começa.
— Vou ficar te enchendo, você sabe!
— Sei sim, mas você vai aprender, com um jogo que vou te ensinar.
De novo.
— Jura?! Que jogo?!
— Você vai ver.
— Ain, só uma dicaaa.
— Uma dica? A dica é, quem faz mais rápido.
— Como assim? – Sakura riu, ele deu de ombros. Ainda encarando a frente com seriedade demasiada.
— Você vai ver, futura Sra. Uchiha, esse é o jogo principal da família.
O jogo era: Quem tinha uma arma montada e carregada em mãos mais rápido.
Pois quão mais rápido você poderia ser, significava sua sobrevivência naquele mundo.
Sakura já soube jogar, ela nunca tivera medo de o ver armado afinal, ela, agora, não sabia, mas vinha dele, o senso de naturalidade em estar em torno de armas.
Ela tinha instinto para isso, finas linhas que a ligavam ao passado.
Ele, também agora sabia, que haviam finas linhas ligando-a não só a ele, mas aos traumas que havia passado sozinha, e junto dele.
Mas era um risco que teria de correr para a segurança dela.
Era como tirar uma carta de um castelo de cartas sem derruba-lo, atiçar uma única lembrança de seu passado, sem despertar as outras, era, provavelmente, o jogo mais arriscado no qual ele já se envolveu.
— Vou cobraaar. – Sakura avisou, ajeitando novamente o casaco sobre os ombros, pois estava muito frio.
— Não disse que podia se cobrir. – Sasuke avisou, fitando-a de lado. Sakura riu.
— Não disse que ia te obedecer, ora. – Ele revirou os olhos ela sentiu um clarão vir na própria direção, ao lado, olhou para a janela e sentiu o ar faltar. — Sasuke.
Sasuke ouviu seu fio de voz ao mesmo tempo em que quase foi cego pelo clarão dos faróis de um carro. Empurrou o volante na direção contrária, literalmente jogando o veículo para o meio da rua vazia. Mas o impacto foi violento mesmo assim.
O carro foi jogado pela lateral, girou duas vezes e atingiu a parede de um prédio comercial e um hidrante antes de ficar parado de cabeça para baixo.
Outros dois veículos chegaram pelas outras duas ruas e um homem desceu do primeiro carro, amassado na frente, segurando uma AK.47 em mãos e atirando contra a lataria blindada.
Sasuke lutou contra o cinto e a tontura da batida, e apertou um botão vermelho abaixo do painel que acionaria tanto a KuranUchiha, quanto os serviços básicos da Folha.
Olhou para o lado, tocando o rosto de Sakura, ela estava presa ao banco pelo cinto, e sangue respingava de seu couro cabeludo, um pouco do vidro do espelho retrovisor atingira seu rosto deixando cortes miúdos, mas a janela do lado dela, blindada, ainda resistia aos tiros de calibre pesado. Tocou seu pescoço verificando a pulsação, e então se soltou do cinto.
O homem contornou o carro tombado e apontou a arma para a janela do motorista, atirou nela mirando a jovem no outro banco, mas o vidro rebateu sua investida. Ele o chutou com o pé, e ignorou o porta-malas se abrir suavemente e então fechar. Sasuke saiu dele e seguiu até o segundo e terceiro homem que veio em sua direção, desviou o corpo do cano da arma, e atingiu seu pescoço com um golpe do antebraço, quebrando-o num estalo alto.
Tomou a arma de suas mãos já moles e atingiu o outro, se abaixou desviando dos tiros daquele que tentava de todo modo, chegar em Sakura, e era impedido pelas portas trancadas.
Subiu sobre o veículo e saltou em suas costas, atingiu em cheio seu rosto com o cotovelo, ele perdeu a arma no processo, mas avançou, tentando aparta-lo pela roupa e o impedindo de manejar a arma que segurava. Sasuke jogou força contra ele, os dois se afastaram do veículo aos empurrões, até que ele atingisse suas canelas com chutes, soltasse a arma que pegou, e o agarrasse pela roupa, girando o tronco num golpe de judô que levou-o ao chão duro da calçada.
Girou sobre os cotovelos e acertou seu rosto com um chute, ia se abaixar para pegar a arma quando um dos carros veio em sua direção, rolou para o lado, e o cara quase se chocou com a parede, e deu ré.
Ele sacou a arma que levava na cintura e atirou contra o para-brisa também blindado, mas o bastante para os tiros trincarem o vidro e dificultar a visão do motorista que deu ré violentamente, até chegar do outro lado da rua e bater no poste.
Ele já ouvia as sirenes da polícia e novamente ouviu tiros atingindo agora, o motor e tanque de seu carro.
Seguiu de volta, apanhando a arma no chão e atirando na direção dos dois homens novos na briga, eles se esconderam atrás do carro devolvendo os disparos e Sasuke ficou atrás de uma pequena mureta de concreto, das escadas da entrada do prédio.
Olhou de lado, vendo os homens saírem do carro que bateu contra o teto e atingiu a cabeça de dois, então se atentou ao carro que deveria proteger agora.
Ouviu o motor potente de uma moto rasgar a noite, e viu ela vir com faróis altos e muito fortes, principalmente devido ao poste do outro lado da rua ter se apagado com o choque do outro carro.
O piloto sacou uma arma e passou atirando nos homens atrás do carro dele, Sasuke se levantou num salto, vendo fogo começar a minar do carro, se jogou no chão, abaixado, vendo o motoqueiro, voltar e ir contra os últimos homens, destravou a porta com o controle e se arrastou para dentro do carro, girou o corpo, e soltou o cinto de Sakura.
Pegando seu corpo com cuidado, rastejou para fora do veículo e se afastou dele até ouvir a primeira explosão, e então se esconder novamente atrás da escada.
Sentou com ela no colo, e voltou a verificar sua pulsação. Ela se remexeu acordando e ele inspirou pesadamente, apertando o rosto dela contra si e pressionando a mão contra sua boca e nariz.
Sentiu-a despertar e lutar até que a falta de ar a deixasse sem consciência novamente e só então, deixou-a respirar.
Deixou a testa cair contra sua cabeça e suspirou.
Isso foi tão por pouco.
Ouviu passos se aproximarem e encarou o homem que parou a sua frente segurando uma arma prateada, e que sorriu largamente mesmo com olhos glaciais.
— Bonsoir, primo favorito?
Sasuke sorriu maldosamente, e acenou com a arma que tinha em mãos.
— Bonsoir pra você também, primo que poderia estar morto faz tempo.
— Senti falta do seu bom humor, Sasuke. Ah, se não é ma petit rose, está encantadora hoje, posso leva-la?
— Só por cima do meu cadáver.
— Não parece tão difícil fazer isso agora, primo.
Pior que ele tinha razão.
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Hotel Izicovisk, Londres, duas e quarenta da manhã.
Saiu do banheiro e seguiu para a mesa de chá perto da varanda, a lua estava bem cheia agora pela madrugada, e ela se sentou na cadeira, olhando o telefone sobre ela, e o esperando tocar.
O aposento estava na semi penumbra mas não se importava. Esperou serenamente, enquanto a empregada trazia o chá, ou se o telefone tocaria.
Ouviu a porta abrir, e passos silenciosos seguirem pelo cômodo até ela. Uma sombra depositou um pouco de chá dentro da xícara, e ela suspirou, aborrecida pela demora, pois já não tinha mais idade para ficar até tão tarde esperando pra ter um serviço bem feito.
O bule foi deixado de lado, e ela bufou, resolvendo se entreter com o chá, baixou a mão para pegar o pires, mas este foi pego antes, deixando-a temporariamente aturdida.
A pessoa contornou a mesa calmamente e ocupou a cadeira com elegância, sentando-se segurando o pires como era devido, e cruzando a perna na postura esperada de um lorde.
Suas mãos estavam sujas de sangue e a pele ainda tinha pedaços de vidro penetrando-a.
Ela suspirou, e se voltou para seus olhos, e não os viu escuros não por conta da escuridão a qual ele já parecia tão bem incorporado, mas porque seus olhos estavam vermelhos como sangue vivo.
Ele tomou um gole do chá, saboreando-o lentamente como era esperado e respeitável para um chá tão caro e raro.
Então baixou a xícara dos lábios e sorriu com todo o charme e magnetismo que havia herdado e aprendido a talhar.
— Olá, Antanasia?
Ela suspirou e por fim, sorriu minimamente, começando a servir a si mesma de chá, posto que duvidava que algum empregado ainda viria, ou mesmo algum de seus seguranças.
— Ou devo dizer. – Ele prosseguiu. — Vovó? Ah, como poderia? Avós não tentam matar seus netos, tentam?
Antanasia poderia ter rido, e entreabriu os lábios secos pela idade, para o corrigir.
Sasuke prosseguiu, tirando a arma de dentro do terno e cruzando os braços com ela visivelmente pousada contra um bíceps. Seu olhar se afilou, num brilho carmim e cínico.
— E netos, não tentam matar as avós, tentam?
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