Vingador Vol. II
5 4. Armardilha para Hamster
Notas iniciais

O Hotel Kensington era um dos melhores de Londres. Sakura nunca usou qualquer aposento, mas estava acostumada a acompanhar Louise em alguns eventos promovidos pela família dela lá, posto que era dona de parte dele e presidia os restaurantes nele instalados.
Louise e ela passaram a manhã conversando por todo o lugar, cumprimentando pessoas de nariz de pé ou ouvindo exacerbados elogios.
Depois do almoço as duas fugiram para a piscina, motivo real e único de tanto sacrifício. A piscina era grande e com aquecimento, proporcionando uma água bem agradável. E por melhor que fosse, não sabendo nadar muito bem, ela se limitaria a um mergulho ou dois.
Ela gostava mais de ficar deitada nas espreguiçadeiras, a temperatura estava bem baixa mas o dia se encontrava bastante luminoso.
Sakura e Louise deixaram os vestiários, carregando bolsas e cobrindo os biquínis com os robes do hotel.
Sakura nunca se sentia muito bem exibindo tanta pele, parecia que qualquer olhar que lhe dessem, se alongava demais.
Bom, era isso que geralmente se esperava, mas não sentia isso de forma natural. Como Louise e Robin se sentiriam.
Vestia um biquíni com uma parte de cima mais larga quase como uma blusa cropped, e a de baixo era de cintura alta e cobria seu traseiro todo, o que era um alívio. A cor era azul com linhas pretas nas extremidades, e para combinar, ela pôs um grande laço na cabeça, com uma fita de seda bem vermelha.
As duas se sentaram em cadeiras lado a lado. E abriram revistas enquanto Louise desfiava algumas fofocas divertidas.
— Pena que Robin não tenha vindo. Acho que ela iria ser uma modelo muito melhor. – Sakura foi sincera, Robin gostava de desfilar desde nova e já a havia visto numa campanha, achou-a muito mais altiva e adequada que as filhas dos Rosewell que estavam mais interessadas em toda a visibilidade que o desfile beneficente traria.
— Eu disse pra ela vir, mas pode ter certeza, aquelas peruas não vão mandar nesse galinheiro, eu vou desfilar e Robin também. – Louise foi enfática. Ela tinha uma rixa com as irmãs Rosewell desde o berço, mas a sociedade que os pais delas tinham, impedia que declarassem guerra.
— Eu acredito.
Louise era um doce, mas quando estava determinada, era como um trator.
— Pois acredite mesmo, humpf.
— Ora o que temos aqui. – As duas se sentaram reconhecendo o tom sarcástico de Izuna, ele se aproximava acompanhado de alguns amigos da faculdade. Ele cursava Engenharia mecatrônica, algo que Sakura não fazia muita ideia do que era, apenas que não tornava o assunto entre eles muito fluente.
Na verdade, ela não conhecia qualquer pessoa que falasse muito com ele, inclusive os rapazes que o seguiam, não pareciam diferentes dele. Calados, bonitos, mas um pouco rudes e vaidosos com sua inteligência.
Mas ela gostava e estava acostumada com Izuna. Louise bufou e revirou os olhos se pondo a ignora-los.
— Izuna! Você por aqui. – Sakura cumprimentou, empolgada. Ele usava calça e blazer e ela presumiu que não era seu plano, dar um mergulho.
— Eu que devia perguntar, o que faz aqui, gazela? – Ele devolveu, maldoso enquanto se curvava para apoiar no encosto da cadeira.
— Izuna! – Sakura reclamou, enrubescendo com o apelido malvado logo em frente os amigos dele que ela só sabia cumprimentar. — Você prometeu pra Veena-sama que não seria mais mal comigo.
Izuna revirou os olhos com tédio, mas uma pontada de molecagem nos olhos escuros, ele pegou a cereja que enfeitava o bolo que ela comia numa taça e mordeu sem dó estalando a fruta entre os dentes alvos. Puxou o laço da fita dela desfazendo o arranjo, seguiu e se afastou deixando aquela bagunça para trás.
— Ela não está aqui, vai me denunciar? – Ele provocou, encarando-a de esguelha antes de ir embora, não sem antes provocar Louise também e dar um peteleco em sua testa.
— Seu idiota!
— Isso é pra aprender a me cumprimentar – Izuna declarou, com descaso antes de entrar seguido por risadas discretas dos colegas.
— Como você é mal, Izuna...
— Um filho da mãe...
Sakura suspirou, ajeitando o cabelo e a fita outra vez, esperando que ficasse bom mesmo sem a ajuda do espelho, enquanto Louise xingava com palavras não muito bonitas para uma dama, destilando a raiva que Izuna sempre fazia questão de lhe fazer.
Mas numa coisa ele estava certo, ela nunca o denunciaria. Bom, só se ele fosse mal demais. Ele era o mais jovem rapaz da família, e embora isso não fizesse mais receptivo a ela que os outros, Sakura sentia lá no fundo que Izuna gostava dela sim, mesmo que de uma forma meio cruel...
֍
“Hamsters gostam de piscinas.”
— É o quê? – Em seguida veio um print de endereço do google, destacando a localização do hotel.
Que merda está acontecendo?
“Hamsters ficam uma gracinha de biquíni.”
E depois, saiu do on-line.
Ele se saltou da cadeira e foi direto para o closet, saiu vestindo alguma coisa e passou voando pela loira no corredor.
— On-onde você vai?!
— Nadar.
— Oi?
— Eu também não entendi – Então ele sumiu no elevador, e Beca meneou a cabeça.
— Qual é a desse cara? – Bem, ela poderia segui-lo, ou, investigar melhor o quarto dele. — Hum.
Ela sabia qual escolher.
֍
Era como ser um gato vira-lata e pé rapado observando a linda gatinha do vizinho rico, frufru, perfumada e delicada, tomando um banho de sol deitada em sua almofada de seda.
Ela estava deitada na cadeira, o sol reluzindo em sua pele de marshmallow, folheando um grosso livro de capa antiga e folhas amareladas. Os pés levantados balançavam suavemente, e as mexas derramava-se nas costas, uma fita vermelha se destacava entre elas.
O biquíni de pin up, escondia mais do que ele gostaria, considerando o tempo que fazia que não via nada. Nunca fora de se conformar com pouco, mesmo.
A outra gatinha frufru, mascava uma goma com a vista escondida por óculos escuros e parecia um tanto mau humorada ou entediada. Ele se sentou na cadeira do outro lado da piscina, sem fazer parecer ao menos nota-las, deitou-se e cruzou os braços em frente o peito, com os óculos escuros no rosto ocultando onde seus olhos realmente estavam e um gorro escuro na cabeça, ocultando todo o cabelo.
Em um dado momento, ela o notou, e baixou um pouco os óculos o estreitando o olhar por cima deles. Então acenou discretamente, e ele não respondeu, dando em seguida, um longo suspiro, apenas.
Ela se sentou sorrindo abertamente, e se voltou para o hamster frufu cor de rosa, e cutucou-a. Ela a fitou espantada e indagativa e a frufru loira apontou para ele.
A ratinha se sentou pousando os olhos nele com curiosidade e dúvida. E as duas discutiram baixo sobre se ele estava realmente acordado ou dormindo.
Então parecendo convencidas, começaram a rir mandando olhares para ele.
Tolas como ratos em frente uma serpente camuflada.
A loira cochichou algo e se levantou sob os protestos da outra, tirou os óculos, as sandálias, e se afastou da beira da piscina, voltando e saltando da beira para dentro, o som do mergulho não o convenceu a simular um susto. Apenas permaneceu observando a outra, e ela a ele, toda ressabiada.
A loira emergiu, e se aproximou da beira, olhou para ele e riu mais mesmo recebendo um olhar de reprovação. Então passou a insistir que a frufru rosa viesse nadar e ele, poderia rir. Ela era o tipo que se afogava até numa banheira.
Mas ela se levantou, achando graça de algo mais, tirando os pés miúdos de dentro das sandálias, e então seguindo para a escada, as cochas brancas pareciam mais roliças ainda, a pele menos branca talvez, mais clara e transparecendo saúde.
Devagar, começou a descer, fazendo um bico de espanto com a temperatura, tocou o fundo da piscina e então andou nele, onde alcançava sua cintura, seguiu mais apenas até onde cobrisse o pescoço e ficou perto da beirada.
Então as duas tagarelaram, e mergulharam vez ou outra. Uma muniu-se de um telefone caro e a prova d’água e as duas filmaram suas peripécias na piscina. Pelo menos meia hora de furdunço, até finalmente subirem, e pegarem as toalhas.
As duas seguiram para os vestiários.
Ele se levantou, e contornou a piscina a passo calmo, quando chegou até as cadeiras onde estiveram sentadas, simplesmente se sentou, e como se sempre estivesse estado lá, pegou uma das revistas, abriu sobre o colo, depois pegou da taça de suco de laranja que a rata havia deixado pela metade, provou e fez uma careta.
— Doce demais – Irritou-se, era bom estarem vigiando a glicemia dela.
Olhou para baixo, no vão entre as cadeiras, foi esquecida a bolsa da frufru loira.
Olhou em volta novamente, com ar relaxado, sutilmente baixou a mão para dentro da bolsa e tateou até encontrar o celular ainda molhado.
Se ajeitou no banco, e acionou o aparelho, era bloqueado por senha e impressão digital. Revirou os olhos, e o virou, puxando a tampa da bateria, tirou-a também, e puxou o chip, mexeu no bolso e tirou dele um isqueiro de cor preta, puxou a parte inferior dele, revelando um pequeno compartimento de onde retirou, por fim, um minúsculo ponto preto achatado, menor que sua unha do mindinho, e colou-a ao chip, o recolocou tudo de volta e já ouvia as risadas das duas garotas deixando o vestiário quando largou o telefone de volta na bolsa e se levantou.
Seguiu na direção delas com uma das mãos no bolso do calção, e elas os encararam ligeiramente espantadas. Baixou a cabeça num cumprimento rápido passando entre as duas.
— Miladys – Sentia seus olhares colados nas costas e adentrou o hotel ouvindo seu burburinho.
— Ele não me parecia daqui... Mas também não é estranho – Ciciou a loira.
— Hum, pra mim também não...?
— Que seja, vamos? Estou com fome.
— Sim, sim.
As duas encerrariam o dia no restaurante, enquanto Sakura decidia o que comer, Louise pegou o telefone na bolsa, e estranhou estar desligado, se perguntando se seria a bateria, pressionou a tecla iniciar e o viu ligar normalmente, exceto por uma estranha mancha de estática que surgiu antes de finalmente a tela inicial aparecer, franziu o rosto, muito intrigada, e reiniciou o aparelho, vendo-o ligar normalmente.
— O que foi? – Sakura indagou, percebendo sua expressão.
Louise sacudiu a cabeça, e deixou o aparelho sobre a mesa.
— Nada, essas porcarias que estragam fácil, sei lá.
— Oh, entendo.
֍
“— Aí eu disse pra ele: Porque não manda essas nudes pra sua namorada? Tenho certeza que ela vai preferir, já aceita esse tamaninho...
— Mentira!
— Claro que eu disse!”.
Ele revirou os olhos e tirou os fones, largando sobre a mesa, se levantou e seguiu até o frigobar.
Eram raríssimas as vezes, em que considerava uma ideia sua, idiota. Mas plantar um ponto para rastrear e captar, mensagens e telefonemas de uma pirralha, estava longe de ser a melhor ideia que teve.
Pegou uma garrafa de refrigerante, e seguiu até a vidraça, observando as águas turvas do rio Tâmisa e algumas embarcações cruzando-o.
Voltou-se na direção da mesa ao ouvir um suave bipe que indicava que outra linha estava ativa com a que grampeara. Voltou até lá, encarando o notebook, agora a conversa tinha mais uma pessoa.
O número criptografado, o fez soltar um estalo da língua no céu da boca.
Achara a mais uma semente de girassol que fazia um rastro até o hamster.
Sentou novamente e pôs os fones.
“— ... E que história é essa de terem indo ao hotel sem minha presença? Esqueceram que precisam desse corpinho aqui pra chamar atenção?
— Menos, Robin, muito menos.
— Mas você disse que estava ocupada.— Era ela.
— Tanto faz, me arrastassem, não se pode perder coisas boas como essas. Eu sempre arrasto vocês pras coisas mais divertidas. Droga! Borrei a unha!
— Divertidas? Quer dizer perigosas e pervertidas?— Louise desdenhara.
— Um tanto inconvenientes?— Sakura arriscou.
— Humpf. Vocês é que são frouxas, Louise quer ser uma princesa, e Sakura, bom, você já é!
— He-hey!
— Com direito a virgindade e tudooooo.
— Pa-pare com isso!
Ele se recostou mais na cadeira, mastigando uma goma, e mal conseguindo fechar os lábios com o sorriso satisfeito, um tanto sádico que desenhava-se na boca.
— Bom, alguém tem algo mais legal para discutir além da virgindade da Sakura?
— Louise?!
— O quê?
— Que tal arranjar alguém pra pegar a virgindade da Sakura?
— Robin?!
— Relaxa, garota, nós sabemos que seu hímen está sendo muito bem protegido pelo Uta-sei-lá-o-quê.
— Utakata-san é só o meu tutor...
— Tá mais pra guarda-costas, mas okay, isso também não é novidade, agora eu tenho uma novidade.
— Vai casar também, Louise?
— Deus me livre! Eu fui convidada para uma festa, não vai terminar tarde...
— E que graça tem?!
— Robin, cala a boca? Enfim, vai ser na velha mansão Grant, já ouviram falar?
— Aquela coisa velha?
— Ma-mas não é assombrada?
— Sakura, eu vou te estapear. Eu vou enfiar a mão no telefone e te estapear!
— Você não consegue nem pintar a unha exatamente onde está....
— Louise, vai transar!
— Enfim, uns caras vão invadir ela nesse fim de semana, por música, alguns enfeites, e bebida, então teremos uma festa estilo terror mesmo, mas não pra ficar com medo na real, tá, Sakura?
— Você quer dizer, uma festa clandestina?— Sakura indagou.
— QUERO! – Robin declarou — Porra de unhas, de esmalte! Vou no salão amanhã!
— É, Sakura, uma festa clandestina, que provavelmente vai terminar com a polícia invadindo o local. Maaas, não se a gente sair antes.
— E ficar sem uma transa?
— Okay, Robin, pode ficar, ir pra cadeia, com certeza é um fetiche dela.
— Cadeia não, mas algemas, hmmmmm.
— Argh, então? Vamos? Vai ser legal! E eu sempre quis entrar lá, papai e mamãe queriam comprar mas o dono parece que prefere ver aquilo apodrecer.
— Eu mesma estarei lá!
— E-eu não posso ir!
— Claro que pode! Mesmo esquema da festa no The Vinian, você vai vir estudar na casa da Louise, afinal, ninguém confia em mim mesmo...
— Porque será? Vai ser legal, Sakura.
— Eu não me senti bem, da última vez...
— Vamos cedo, e ficamos num cantinho, sim? Aquilo lá é enorme, você não vai se sentir sufocada.
— Talvez vigiada pelos antiiiiigos moradores de lááá.
— Vê se cresce, Robin!
— Muito engraçado ouvir isso, sou a única que tem uma vida sexual aqui!
— E se ela continuar tão ativa, também vai ter um filho e uma vida familiar!
— Vai jogar praga na...
— Eu vou pensar! – Sakura soltou, embora ainda insegura.
— Ora quem diria...
— Nós vamos te acobertar, boba!
— Resolvemos isso na universidade, tenho que dormir agora.
— Tá, tá, eu vou limpar essa droga de unha...
— Boa noite, beijinhos.
— Boa noite.”
Ele tirou os fones e largou sobre o teclado, girou na cadeira e segurando a garrafa numa das mãos, balançou o líquido lentamente.
Parecia que as três ratinhas sabiam escapar do olhar dos gatos.
Iria apreciar usar isso para jogá-las em sua própria armadilha.
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