Vingador Vol. II
26 25. Ignição.
Notas iniciais

Belfast, semanas depois.
Cabelo loiro, óculos de grau, terno cinzento, uma bengala por conta de um tiro na perna e o olhar desleixado. Sasuke atravessou o restaurante em direção ao bar, era uma área VIP com iluminação dourada reluzindo nos móveis, paredes e decoração escura.
Havia uma área circular no centro do restaurante, em relevo mais baixo e com uma cerca em torno, a separando da parte mais extrema.
Ao redor haviam corredores acima deles onde mais pessoas transitavam e mais olhos estavam presos na mulher de vestido claro e refinado recostada no bar.
Sasuke não podia perder tempo, era o primeiro contato que conseguia com ela desde duas semanas atrás e não foi como se tivessem tido a melhor das conversas para que cada um pegasse um rumo com tranquilidade.
Ao menos não ele.
Haviam homens da casa nórdica vindo logo atrás dele assim como assassinos de fora vindo atrás da oportunidade de degolar Sakura.
E, porra, ela já devia saber disso.
Desviou de algumas pessoas e se encostou na bancada ao lado dela, casualmente, nem longe demais para não ser notado por ela, nem perto demais para ser notado pelos que a caçava ou protegiam. Sabia que não demoraria muito para 87 retornar para perto dela.
— Whiskey Jameson, por favor. – Falou forçando um sotaque irlandês, o barman assentiu, afastando-se e ele jogou os olhos para o que ela bebia. — Ora, ora, um shot de Baby Guinness, licor Kahlua e irish cream Baileys. Fortinho pra você, não? – Comentou.
Sakura olhou para o pequeno copo, pensativa, e então suspirou, o fitando. Seu cabelo estava completamente cacheado e mais curto, com uma tiara de ouro e prata com o design de asas de cada lado.
Ela o fitou e parecia ainda mais linda e mortal do que duas semanas atrás.
Linda por quê simplesmente o era, e ele a amava tanto que não sabia o que fazer com tudo isso.
E mortal por quê, bem, sua ratinha quando fazia uma escolha, nada a tirava do foco, seja se aliar com um assassino, se isolar do mundo, dar fim a própria vida, seja liderar uma casa de assassinos e principalmente, seja passar por cima de tudo e todos para manter o filho que esperava a salvo, incluindo, passar por cima (e atirar) no pai dele.
— Seu sotaque irlandês está uma porcaria.
Não era isso que ele esperava ouvir, seriamente. Sakura olhou ainda para seu cabelo e estreitou mais os olhos com dúvida.
— E essa peruca...? Você parece um cantor pop dos anos dois mil...
— Agora foi longe demais, amor.
Ela bufou, tomando o shot de uma vez e pousando na bancada.
— O que você quer aqui? Achei que já estivesse bem claro que não queria nenhuma comunicação com você tão cedo.
— E com ninguém da Folha também, hein? – Ele disse, olhando em volta ligeiramente.
— É claro que não vou, por sua causa, perdi a reunião com a alta cúpula e meu bebê está em risco. – Sasuke segurou seu pulso firmemente impedindo-a de se afastar.
— O bebê está em risco agora. – Sussurrou. — Você está. Achou que se manter fora dos holofotes assim seria o bastante? Não é mais uma guerra fria, Sakura. Agora quem quiser você morta, vai tentar a todo custo. – Ciciou, perto de seu rosto. — E eu não posso me expor pra te proteger sem estragar seus planos, então ou me segue agora ou não vai sair desse bar viva.
— Está blefando, e está zangado.
— Estou puto sim com a merda da bala que você enfiou na minha perna, mas ainda mais por que ela ainda não sarou o bastante pra eu poder fazer direito.
— Fazer o quê?
— Proteger você. Olhe ao redor, Sakura, parece que só vieram tomar uns drinks?
Sasuke a soltou suavemente e ela olhou para o salão, vendo vários homens bem vestidos atravessando pelas pessoas que circulavam, olhos completamente encravados nela, e chegando a parar para observá-la melhor.
— Decida logo, querida, por que esses caras vieram só pra dar fim em você ou ao menos na criança.
Sakura estremeceu e gelou, lambendo os lábios trêmulos, desviou o rosto noutra direção e abriu a bolsa, pegando uma nota e pousando-a no balcão ao lado do copo vazio antes de se afastar.
— Me tire daqui. – Ciciou, afastando-se.
— Como quiser. — Sasuke respondeu, seguindo-a, no mesmo momento 33, 90 e 42 surgiram e cercaram-na apressando-a para uma porta lateral, Sakura o olhou por sobre o ombro, seus olhos verdes simplesmente apagaram e se ascenderam com um tom carmim cintilante, o centro da íris era um intricado jogo de linhas negras que formavam uma flor.
— Não falei com você. – Ela devolveu, apressando-se, os assassinos passaram por Sasuke no encalço dela. 90 parou na porta, girando e degolando um dos homens, partiu para cima dos outros enquanto o resto dos clientes fazia escândalo com isso e tentava fugir.
No andar de cima ele viu mais gente da casa sem nome levantando das mesas mas ainda estava muito impactado com aqueles olhos para fazer algo.
¤
— A filha da puta! – Sasuke atirou o terno contra o sofá, o movimento fez sua perna latejar e ele mancou novamente até a poltrona, xingando mais ainda.
— Você tem que ficar numa boa, ou essa ferida nunca vai sarar. – Kakashi disse, enquanto pacientemente manuseava o computador.
— Aquela viadinha! Ela estava me esperando! Eles estavam! Como porras?!
— Por que está tão preocupado? Queria saber se ela estava bem, e está, certo?
— E tem como saber? Haviam assassinos naquele bar! Belfast deve estar infestada...- Sasuke arquejou raivoso, xingando de novo, se ergueu mancou até a geladeira, abriu uma cerveja e ascendeu um cigarro.
Kakashi suspirou, o observando por sobre a tela.
— Tem de parar com isso. Se continuar fumando, seus pulmões vão estragar e sua resistência vai diminuir.
— Minha perna está bichada mesmo por causa daquela porra de boceta frufru. Ela deu um tiro em mim!
— Deve ter sido o mais doloroso de todos que já levou.
— Ela atirou bem pra caralho! – Sasuke bateu a porta da geladeira. Ele parecia um velho cão de guarda senil que só sabia ficar rosnando e latindo para o nada de um lado ao outro. — Deu conta até de repuxo! Ela mirou, cara. Ela olhou nos meus olhos, depois de um beijo do caralho, disse que eu ia obedecer ela, vê se pode um caralho desse. E. Atirou. Na. Minha. Perna!
— Deve ter sido bem frustrante...
— E to orgulhoso! – Sasuke cuspiu, no tom que sugeria indignação total. — Que porra eu me tornei?!
— Um homem apaixonado...?
— Ao ponto de deixar ela atirar em mim?!
— Filho, veja o mundo em que crescemos. Minha namorada preferida gostava de atirar facas em mim, e sua mãe, bem, ela sempre dizia que iria usar aquele chicote no seu pai um dia e ele? Bem, ele sempre ficava com aquela cara de...
— Sem detalhes.
— De qualquer modo. O que é um tiro pra quem já está totalmente fuzilado por aqueles olhinhos, hein?
Sasuke rosnou, remoendo como se fosse um osso. Até que olhando para cerveja, pensou na última sentença do velho.
— “Aqueles olhinhos”... hein...?
Sasuke se ergueu de uma vez, mancou até a outra mesa, abriu uma das bolsas e tirou um notebook de lá e seguiu até a mesa onde Kakashi estava, puxando uma cadeira, se sentou e abriu o computador.
— O que você fará agora?
— Não enche, e vê se sai logo daí que eu quero ficar perto da tomada.
— Oh. Ideias novas?
— Uma teoria... Se eu estiver certo, aqueles olhinhos irão me levar exatamente até aquele corpinho.
¤
Portstewart, litoral da Irlanda do Norte, dois meses depois.
Sasuke estava puto que ela estivera no país o tempo todo, mas ao menos era um bom plano temporário para distrair quem a estava caçando.
— Você aqui de novo. – Sakura suspirou, assim que ele se sentou na pedra ao lado dela.
Usava uma capa branca com capuz para esconder um pouco mais a identidade. Sasuke olhou em volta, aquele ponto da praia era meio deserto, não havia mais que pedras, mar e algumas casas distantes.
— É... Presumo que esteja sendo bem vigiada através de algum rastreador...?
— Visualmente também. – Sakura disse, olhando atrás das costas dele, onde um pontinho vermelho estava. Sasuke olhou por cima do ombro e se levantou, o girou e o laser estava lá em seu peito.
— Que caralho, já não viu que sou eu? – Resmungou, apontando o dedo.
— Claro que ela sabe. – Sakura disse. — Mas 33 nunca foi com a sua cara mesmo.
— Mas que putinha...
Sasuke se sentou e puxou a carteira do bolso da bermuda, ia ascendendo quando Sakura abanou a mão.
— Pode guardar isso pra depois? Ser passiva faz tanto mal quanto ativa.
— Então seja os dois, é muito mais quente, ora. – Sakura o fitou aborrecida.
— Me refiro a nicotina, Sasuke.
Ele bufou, guardando aquilo e inspirou.
— Que seja, temos que conversar...
— Sua perna está melhor?
— Não importa mais.
— Não está mais zangado?! – Ela se espantou.
— Tsc, não, agora vamos ao que interessa.
— Droga...- Sakura bufou, inflando as bochechas, ele a encarou estreito.
— Por que eu deveria continuar zangado?
— Por que assim, era só te provocar e você começaria a falar besteiras e eu poderia apenas dar as costas e te deixar falando sozinho. Então não precisaria falar o que você quer ouvir, já que só veio aqui por isso.
Sasuke estava impressionado e puto, porém, de toda forma, ela estava com razão em algumas partes.
Sem resposta ainda, se aquietou a encarar o mar, jogou os olhos pro lado, no corpo dela, mas a capa cobria seu torso inteiro, escondendo a silhueta.
— Tá de... Está de quantos meses?
Sakura puxou as mãos para a barriga, pressionando-a um pouco e protetoramente. Ele não gostava disso, por que geralmente era a única pessoa que tinha livre acesso ao corpo dela. Tocar seus cabelos, pés ou mãos, sua intimidade e sua pele, era tudo dele, para ele proteger, a quem ela confiava apenas.
Mas agora havia alguém aí dentro, que ela queria tanto proteger que até ele foi chutado da barreira.
— Quatro meses e meio...- Sakura afirmou num muxoxo.
Sasuke não tinha resposta pra isso que pudesse ser positiva, tampouco que fosse querer ser negativo. Era só... Hey, isso está acontecendo.
— Foda...
Sakura também ficou meio sem palavras, apenas remoendo que ele não pudesse falar mais, dar mais, ser mais.
— Por que roubou o computador? – Sasuke disse.
— Por que preciso dele. – Ela afirmou, tristemente. Só havia isso para falarem.
Sasuke inspirou, ainda tentado a ascender a droga do cigarro. Sakura se levantou.
— E quanto ao Utakata? É verdade?
— Que eu matei ele? Mas é claro, até Martino viu...
— Por que fez isso?
— Por que precisava dele morto, para Martino acreditar em mim e por a Casa Nórdica abaixo.
Sasuke ficou de pé.
— Martino pode ter acreditado, mas a casa nunca cairia só com isso. Utakata vivia solto, servindo outras casas tal como a Kuran, há anos. Sigrid e qualquer um lá pode empurrar que ele era um duplo. Ele seria mais útil vivo, Sakura.
— Eu também sei disso. – Ela sorriu, fitando o mar. — Sei muita coisa agora. Assim como sei o que Itachi deixou para nós...
— E pretende usar como?
Sakura o fitou de lado antes de começar a andar.
— Você vai saber, logo receberá instruções quanto a isso.
— Ainda com essa de que vai mandar em mim? Sem beijo? Espero que sem tiro também. – Reclamou, voltando a verificar se o laser estava apontado em si.
Sakura deu uma leve risadinha.
— E você disse que não estava mais zangado...
Sasuke suspirou, alcançando sua mão, ela se virou, o fitando surpresa e nesse momento ele poderia ver o leve inchaço sob o vestido cinza que ela vestia além de grossas meias pretas para o frio.
Sasuke soltou sua mão, desviando os olhos profundamente desconcertado, deixou o isqueiro e o pacote amassado de cigarros nela, deu as costas seguindo o caminho oposto com as mãos nos bolsos.
— Então não demore muito, quero ver você antes de acontecer.
— Acontecer...?
— O parto.
¤
Montenegro, algumas semanas depois.
Um pequeno comboio de três veículos seguia pela estrada que ligava Dubrovnik á riviera de Budva, Sakura estava bem menos ansiosa para encontrar com o representante da casa dos Balcãs do que para saber o sexo do seu bebê. Parecia que ele era tímido demais para a ultrassonografia. Ela esperava que isso fosse um bom sinal, considerando o pai.
E pensando nele, Sasuke não havia dado nenhum sinal desde que recebera as instruções certas para aparecer.
Ele provavelmente estava irritado de receber ordens como um lacaio, mas ela o dera a chance de participar disto no meio a meio e ele falhou. Agora, ela manteria as cordas consigo, inclusive as dele.
Atrás do veículo que ela seguia vinha um caminhão, Sakura não entendeu por quê precisavam de um caminhão, mas não estava com humor para ficar xeretando, essa coisa de viajar pra lá e pra cá e fuzos horários já estavam começando a exauri-la.
A sua frente seguia outro veículo igual ao que estava. Ao lado dela, 87 parecia bem sossegado lendo, do outro, Izuna seguia calado e absolutamente mau humorado.
Ele ainda não havia superado que ela tomara Utakata dele...
Quem dirigia era 73, e uma das gêmeas seguia no banco ao lado.
De repente, o rádio encaixado no painel estalou e a voz de outro membro que estava no caminhão ressoou arranhada pela estática.
— Apertem os cintos e acelerem, temos companhia.
Sakura se empertigou, tentando ver algo pela janela de trás mas o caminhão impedia.
— É Sasuke?!
Izuna olhou para o retrovisor direito e pode ver ao menos duas motos vindo atrás do caminhão e sendo fechadas por ele, puxou o cinto dela e o encaixou.
— Não. – Avisou, pegando a bolsa entre as pernas atrás de uma arma.
Sakura viu o motociclista conseguir passar do caminhão, o carro deles aumentou a velocidade significativamente mas a moto logo emparelhou com eles e o piloto sacou uma arma, atirando na direção do vidro da janela onde Izuna estava. Sakura gritou e 87 apertou sua cabeça para baixo, no entanto o vidro reforçando foi capaz de conter as balas. 73 jogou o carro contra a moto, o piloto desequilibrou-se e desacelerou deixando-os passar.
42, no caminhão, abriu a janela e atirou nas costas do atacante que caiu, o caminhão desviou da motocicleta mas esta e o corpo não puderam derrubar nenhum dos outros quatro motociclistas logo atrás.
Conseguindo fechar dois deles pela esquerda, dois passaram tentando acertar o carro do meio.
O vidro não duraria tanto tempo com essa enxurrada de tiros e 73 certamente não arriscaria manobras violentas com a garota no carro.
O outro motociclista avançou, atirando no carro da frente, este acelerou mais, ganhando distância e então deu um giro, queimando o asfalto e passando a ir de ré, os vidros abriram e quem estava dentro deixou os braços fora, revidando as balas.
De repente um estouro soou dentro do carro e Sakura pode ouvir o rugir dos motores tão claramente que chegava a ser ensurdecedor, farelos de vidro caíram sobre ela e Izuna xingou, soltando-se do cinto e jogando metade do corpo pra fora.
— Permaneça deitada. – 87 ordenou, abrindo a janela ao lado. Antes de sair olhou para 73. — Dê sinal.
Este assentiu e 33 também pôs o corpo pra fora.
Nesse momento eles trafegaram em extrema velocidade numa via mais movimentada.
Sasuke observou os veículos passarem enquanto mascava chiclete sentado numa BMW S1000RR preta, balançou a cabeça em negação e passou a perna sobre o banco.
— E dizem que eu só faço baderna... – Ligou a moto e seguiu para a via, acelerando cada vez mais. — Estou chegando, vou mandar eles pra você, velho.
— Yosh! Estarei esperando!— Kakashi respondeu.
Sasuke trocou a marcha, a moto devorou a pista alucinadamente, quase deitando no asfalto a cada curva.
Ele logo alcançou o caminhão cheio de balas cuja porta foi erguida e dentro dele, viu quatro motos Kawasaki ZZR1400 serem ligadas e saltarem pro asfalto. Ele desviou delas e todas deram a volta e passaram a seguir o segundo carro que ia praticamente em ziguezague, onde Izuna, 87 e 33 tentavam atirar nos outros quatro atacantes.
O caminhão diminuiu a velocidade os deixando tomar a frente. Sasuke acelerou vendo uma curva assim que pegaram ela, jogou a moto contra a do cara da frente, e ele praticamente voou contra o paredão, explodindo.
Avançou, puxando a arma e tentando emparelhar com o carro, atirou de volta no terceiro piloto enquanto os outros dois faziam pega-pega na frente com o terceiro carro, ou atrás com as outras motos.
— Estão com o meu ovo?! – Sasuke gritou, Izuna olhou para dentro rapidamente e assentiu.
Sasuke concordou e avançou erguendo a arma novamente e mirando. Atingiu em cheio a cabeça do piloto entre os dois carros, a moto voou para fora da pista e o corpo rolou nela indo para debaixo do segundo carro e quase derrubando os três idiotas nas janelas, que o encararam feio.
— Desculpa! – Ele riu.
— Está mesmo afim de manter seu ovo inteiro?! – 87 reclamou.
— Podem me entregar se quiserem!
— Vai sonhando. A carga é muito frágil.
Sasuke bufou e desistiu, acelerou até emparelhar com o primeiro carro e o motorista.
— Pegue a segunda via lá na frente! — O cara negou veemente.
— Muito tráfego, e o desvio vai ser maior!
— Não vai, só faça! – Sasuke desacelerou bruscamente voltando a emparelhar com o segundo carro.
— Siga pra segunda via!
— Está brincando?!
— Só um pouco! Escute, tem mais deles na rota que você traçou, desvie, ou meu ovo vai virar omelete!
— Ela vai virar omelete se trafegarmos em plena auto estrada!
— Não vai! – Sasuke atirou na direção do carro, a bala atravessando as janelas abertas atingiu o flanco do motociclista que já mirava a careca brilhante de 87. Agora o maldito o devia uma. Ele entrou novamente, dando instruções ao motorista e então para Sakura.
Sasuke só viu a cabeça dela, ajeitando-se para por novamente o cinto. Balas atingiram o vidro de trás cuspindo cacos de vidro no banco outra vez.
Ele desacelerou atrás do veículo, jogando a moto contra o oponente, este desviou e tentou atirar nele, Sasuke bateu em seu pulso e socou a costela, ele acertou sua perna quase o desequilibrando e antes de ele devolver o favor, Izuna atingiu o centro do visor do cara, o morto pendeu pro lado de Sasuke que acelerou o rapidamente, afastando-se.
A motocicleta perdeu de vez o controle e foi se estatelando pelo asfalto, um dos membros da casa, tentando desviar, também se desequilibrou e deslizou pela pista com a moto que foi bater numa placa.
Sasuke olhou para trás vendo a pessoa rolar para fora do asfalto, um dos outros deu a volta para ir ajudar e o resto avançou para o último oponente que obviamente só tentou fugir. Passou do segundo carro mas o primeiro o fechou violentamente o jogando contra um paredão.
Sasuke e os outros seguiram emparelhando todos os lados do segundo carro. Izuna voltou para dentro e eles pegaram a via indicada por Sasuke.
Era a entrada da cidade, bastante movimentada pois era alta temporada nessa época do ano. Passaram por dezenas de caminhões e veículos de passeio.
Até que Sasuke indicou uma saída para debaixo de um viaduto
Os carros e motos estacionaram perto de quatro veículos de luxo coloridos, entre esportivos e clássicos.
Kakashi acenou de um Rolls-Royce 1929, enquanto Naruto e Shikamaru estavam perto de um Zenvo ST1 prateado, havia um Mercedes 300SL e a ruiva e a loira acenaram de dentro de um Bugatti Veyron azul escuro.
— Estava bem antecipado, hein? – 87 disse, desconfiado. Sasuke deu de ombros, sentado na moto.
— Apenas fazendo o meu trabalho.
— Sejamos rápidos, eles não vão deixar de perceber a demora. – Kakashi instruiu.
— Como distraiu a segunda equipe? – Izuna disse.
— Queijo francês. – Sasuke desdenhou.
— Aquele animal ainda está vivo?
Sasuke tinha que concordar que se perguntava o mesmo sempre que tinha que lidar com Damian.
Sakura desceu do carro apressada, usava um vestido azul de alças e uma camiseta branca por baixo. Ainda não parecia bem um ovo, mas já estava redonda.
Ela passou reto por ele e só parou quando alcançou onde 32 estava, recebendo alguma atenção depois da queda da moto.
— Você está bem?! – Indagou, 33 retirou o capacete da irmã delicadamente, que só estava escoriada onde as roupas rasgaram um pouco. Ela assentiu, embora claramente dolorida e tonta, o coração de Sakura apertou e sempre apertaria, eles estavam fazendo tudo isso por ela, e se machucando por ela.
E se ela não tivesse batido o pé e escolhido o bebê, eles não estariam se machucando ainda mais.
— Ela vai ficar bem.
— Ela não precisa ir ao hospital?
— Ela irá ser atendida assim que chegarmos á mansão. Agora vá para o carro, e iremos chegar logo. – Sasuke explicou, ao lado dela. — A propósito, olá pra você também.
Sakura o fitou genuinamente sem entender por que ele estava perdendo tempo com amenidades.
— Você é tão inconveniente...
— Vai. Pro. Carro. Ovo.— Ele aponto o veículo e ela passou, aos resmungos.
Seguiu para dentro do bugatti, mas logo escapuliu de novo e foi para o carro que estava antes, implorando para abrirem o porta-malas completamente fuzilado.
Plum saiu dali, gloriosamente inteiro apesar da porcaria da gaiola estar com algumas das finas barras partidas pelos tiros e a roda quebrada.
Sasuke apontou, indignado.
— Eu tô dizendo, esse bicho não é normal! Joga isso fora! Dá azar!
Ela o ignorou, fazendo careta e entrando com a gaiola no bugatti.
— Sinceramente, eu acho que é o contrário, sempre que esse carinha está perto, Sakura escapa de alguma armadilha. – Kakashi refletiu, lembrando que havia ficado manco na mesma oportunidade em que o hamster, que inclusive teve mais sorte que ele pois uma cirurgia ainda resolvera o problema.
Sasuke subiu na moto aos resmungos e ainda teve que dar carona ao primo pois não cabiam todos nos quatro carros e quem sobrou teve que pegar carona nas motos.
Então eles seguiram percurso até a mansão perto da balada praia de Budva uma das mais requisitadas no verão montenegrino.
¤
— Sasuke-kun, esqueci de dizer. Vão ser gêmeos!
Sasuke olhou pra ela bem e disse:
— E isso é anatomicamente possível?
— Como assim...?
— Como assim? Garota você é uma smurfete gostosinha cor de rosa, pra caber dois bebês aí, eles teriam que ser pigmeus, sério isso? Tá apertado demais até pra um bebê, porra! Um ovo tem mais espaço pra um pinto dentro, Sakura!
Ela olhou pra própria barriga e começou a choramingar.
— Mas e aí, são gêmeos mesmo?
— Eu só estava brincando! – Ele nem escondeu o soquinho de felicidade que deu no ar, mas a consciência bateu e passou a afagar a cabeça dela, consolando.
— Ah, foda... Chora não, só estava brincando, cabem sete aí dentro... Se eles fossem nascer do tamanho de bolas de golfe, claro...
Karin e Ino, que observavam aquilo tudo só puderam concluir uma coisa.
— Pobre da criança.
— Que seja bonita e saudável...
— É o que resta.
— É realmente o que resta.
Sakura enxugou as lágrimas ainda bicuda e ele riu, meneando a cabeça.
— Então você queria gêmeos, que safada, na próxima você se dedica mais.
Ela inflamou-se em vergonha e se afastou.
— Po-porquê eu? Você nem conseguiu fazer com que fosse menino.
E escapuliu antes que ele assimilasse a coisa toda, encarou as costas dela e a seguiu logo, pálido.
— Você não me diz um caralho desses, em nome de deus!
— Você é ateu...
— Isso nem vem ao caso, explica isso direito! E as ultrassons?!
— Não adianta fugir da verdadeee! – Sakura cantarolou, enquanto subiam as escadas.
Ino se inclinou na direção de Karin, cochichando.
— Achei que não tivesse dado pra saber o sexo ainda.
— Não dá. – Karin respondeu baixinho e riu. — Mas por que ele precisaria saber?
— Ah, hahahaha! Perfeito!
¤
O chefe da Casa dos Balcãs tinha domínio basicamente sobre, Montenegro, Bósnia, Kosovo, Macedônia, Albânia e Sérvia. Parecia muito para uma casa apenas, mas não era como se fosse um reinado, tratava-se apenas de um tipo de jurisdição “política”.
Ele se chamava Stevan Savió, tinha uns quarenta anos e traços tipicamente eslavos, em suma, era dono de um dos maiores hotéis resort do país, tinha dois filhos pequenos e a esposa já era falecida, o que lhe dava a liberdade de ser um conhecido playboy na mídia oficial.
Sasuke não entendia por que Sakura ou 87 optaram por ir primeiro até um representante de uma casa numerosa mas pouco ativa na Folha. A casa Balcã era o típico grupo fechado em torno de si, que só está lá pelos benefícios e cagava pro resto.
Eles dificilmente estariam interessados em se aliar com a casa nórdica, mas também, em se aliar a quem pretendia derrubar o sistema.
De todo modo, não era como se ele fosse ter a opinião considerada.
Stevan chegou pela manhã, cheio de firulas e boa educação, fazia questão de elogiar cada centímetro daquela casa cuja decoração descambava para o extravagante.
Sasuke se manteve fora de vista, claro. Ou Sakura ficaria putíssima com ele e não sabia se ela ainda estava naquela fase bizarra de mudar de humor como quem troca de meias.
— Muito bem, adorei conhecer a casa, mas e a dona? – Stevan disse, com um sorriso sempre sutil. 87 o recebeu na porta de um dos vestíbulos.
— Atrás dessa porta. Porém, temos algumas precauções. – Ele respondeu, oferecendo a mão. — Sua arma, por favor.
Stevan achou graça.
— Está brincando?
— Não tem por que temer algo, se conhece bem a situação sabe que nós e nem a Koyosegi temos porque tentar prejudica-lo, mas a ela, podem existir muitos motivos...
O homens sorriu, nada satisfeito mas puxou a arma e deu a ele. Ainda foi revistado e só então entrou, e sozinho.
O quarto era enorme, todo em motivos marítimos desde o azul claro e objetos que imitavam conchas e animais aquáticos, chegava a ser temático.
Stevan olhou em volta, desconfiado e então notou um divã de cor azul com design que lembrava ostra perto da sacada, aproximou-se dando com a jovem de beleza multiétnica recostada, usava um vestido azul esvoaçante que disfarçava a altura do ventre, estava descalça e tinha uma tigela de macarons ao lado.
Ele se sentou, olhando-a mais uma vez e então a vista que tinha-se da piscina enorme que decorava a fachada da casa. Mais a frente a rua e do outro lado a praia lotada de turistas.
Sakura voltou-se para ele e sorriu agradavelmente com aquele vigor e brilho que toda mulher apaixonada pela maternidade.
Tocante, mas ainda levava um rebento tão promissor quanto perigoso naquela barriga. E ele não estava para trocar sua beleza por isso.
— Sr. Savió! É um prazer conhecê-lo! Oh, devo chamá-lo de Cervo branco como manda o código?
Ele abanou a mão, negando, ela tinha aquele tipo de aura dócil que tornava difícil querer ser direto ou seco. Perigosa.
— Não precisa tanta formalidade.
— Muito bem! Eu sou Sakura, como já deve saber. Agradeço muito a sua hospitalidade.
— Não há de quê, porém ainda estou surpreso com o convite para uma reunião. Ah, soube do atentado na entrada da cidade, lamento o que houve e espero que esteja tudo bem.
— Está sim! Foi apenas um susto. – Ela garantiu, então se virou um pouco e catou na mesinha uma pasta preta e bastante volumosa. — O motivo do meu convite, sr. Savió, é que tenho uma proposta deveras... importante para lhe fazer. – Sakura folheou rapidamente e então fechou e ofereceu, muito sorridente, otimista. — Poderia levar isto e avaliar? Estaremos esperando sua resposta ansiosamente.
Savió se inclinou, ainda receoso e intrigado, e pegou o documento.
— E isto seria...?
— Alguns “prós” a meu favor. – Ela declarou, muito adorável. Ele arqueou a sobrancelha.
— E os contras?
Sakura deu de ombros ainda com aquele rostinho inocente, que parecia capaz de fazer aquela pasta pesar muito mais que o esperado.
— Irá descobrir em breve. Afinal tudo se trata de equilíbrio não? E riscos sempre existirão para serem tomados. Obrigada por sua visita!
Ele se levantou, sempre encarando-a como se pudesse lê-la, e não podia, aparentemente, acenou com a cabeça e se afastou na direção da porta.
— Aproveite a estadia...
— Ah, eu irei!
87 abriu a porta e tão cordial quanto possível, ofereceu a ele seu terno e arma.
— Sua senhora é sempre tão efusiva?
— Poderia dizer que é a gravidez, mas não faria jus á personalidade refrescante dela.
— Claro. Até a amanhã.
Ele se afastou, ainda vendo Sakura acenar alegremente do quarto.
87 teve a impressão de que nem se fosse um indivíduo da pior espécie, Savió estaria saindo dali mais temeroso do que teria de lidar.
— Ah, parece que foi tudo bem! – Sakura disse, indo para a sacada. Sasuke saiu de lá, mascando um chiclete a encarou estreito.
—Você é um monstro.
— Eh? Mas o que eu fiz?!
— Passou dois anos na mão da minha mãe, isso que fez. Claro que ia dar merda.
— Hã?!
Sasuke seguiu até um criado, pegando alguma bebida, Sakura recolheu-se até a cama, levando o lanchinho.
— Por que a casa Balcã? – Indagou-a, Sakura se deitou de lado, mordiscando a massa fina e crocante.
— Nada em especial.
— É por que eles não têm representação no conselho?
— Por quê não são próximos de nenhuma cabeça de lá.
Sasuke encarou-a primeiro através do espelho que decorava a parede. Sakura acariciava a barriga carinhosamente. Se virou na direção dela, estupefato.
— O que tinha naquela pasta, Sakura?
Sakura o fitou, parecendo não entender por que ele fazia tanto alarde por isso, a mais crua inocência até.
— Os melhores motivos para que a casa Balcã sirva a mim, e não a alta cúpula... – Ele seguiu até a cama, apenas encarando-a, subiu no colchão com os joelhos, continuando a se aproximar.
Sakura não se intimidou, o olhando de volta com firmeza e um toque de malícia.
Ergueu a mão e tocou a ponta da gravata dele.
— Nem a alta cúpula, nem a Folha, sequer a si mesmos. O clã dos assassinos da casa Balcã, se quiser sobreviver ao que virá, terá de curvar para mim.
— Você quer dizer nós. – Ele corrigiu, estreitando os olhos, Sakura puxou a gravata um pouco, cada vez mais perto do rosto dele.
— Sim... Nós... – Ronronou.
Seus lábios roçaram sensualmente e ela desviou, o puxando para a cama, ao lado, e então se levantando.
— Eu e o meu bebê. – Concluiu jogando a caixa de macarons para ele, sorriu indo até o espelho e arrumando o cabelo. Sasuke atirou a caixa para o lado e tomou um trago da bebida.
— E eu no meio desse negócio...?
— Você continua a minha marionete. Eu te dei a chance e você fugiu quando eu mais precisava.
— Você não vai superar isso, hein?
Sakura catou uma bolsa e antes de sair, aproximou-se da cama, lançando um olhar duro.
— Não, por quê, por mais que eu tenha ficado longe, ou te feito esperar e sofrer... Eu nunca fugi de você, fugi de suas decisões.
— Eu fugi das suas.
— Não, você fugiu de nós, nós não somos uma decisão ou um plano que pode desfazer e voltar atrás quando quiser. Você pode calcular á vontade, correr, atirar por aí, Sasuke. Mas nós somos imutáveis, não vou esperar até que decida quando é mais vantajoso pra você. Escolhi você quando nunca foi vantajoso ou fácil para mim, e você sabe disso. – Ela inspirou, dando a volta e seguindo para a porta.
— Se não pode fazer isto sem estar “armado” o bastante para ir até o fim. Então você pode ter mil amas para nos fazer reencontrar um ao outro, e continuará incapaz de encontrar uma única solução que nos faça ficar juntos de uma vez.
¤
Savió atirou a pasta contra a mesa, furiosamente, encarou Sakura.
— Que infernos significa isso?!
— Exatamente o que parece, senhor. – Ela afirmou, provando um gole de chá.
— Como teve acesso a tudo isso? Existe mais?
— É claro que tem mais, senhor. E quanto a onde consegui, é apenas a boa e velha verdade de que, nenhum crime se mantém insolúvel para sempre. Ainda mais tantos crimes como esses.
— Seja mais clara, mulher, como conseguiu todos esses documentos, informações e fotos? Tem coisas aí da época do meu bisavô!
Sakura deu de ombros, inocentemente.
— Eu não sei, mas sei que herdei e pretendo usá-lo.
— Como?
— Ah, isso depende do senhor.
Savió finalmente se sentou, como se precisasse disso para se acalmar, passou a mão pelos cabelos loiros, voltando a jogá-los de volta para trás. Sakura percebeu que achava isso muito charmoso nele, as tatuagens que cobriam as falanges dos dedos eram um detalhe contrastante com sua figura séria e profissional.
— Se você divulgar isso... Seja dentro ou fora da Folha... É o fim.
— Eu sei.
Ele inspirou profundamente e então a fitou.
— O que quer de nós?
Sakura sorriu gentilmente.
— Sua colaboração. – Ela se recostou mais no sofá e suspirou, esfregando a palma sobre o estomago. — Primeiro, este bebê tem que nascer e viver, segundo... A Folha tem que cair.
Stevan estreitou os olhos, intrigado.
— Querer reiniciar a linhagem Uchiha, eu entendo. Mas destruir o sistema que eles próprios ajudaram a criar...? Meio dissonante, não acha?
Sakura negou, naturalmente.
— Eu não quero que esta criança nasça, porque ela é uma Uchiha, quero que ela viva por que merece viver e é o que qualquer mãe desejaria, não?
Acenando de leve para 92 que vigiava a porta, ela permitiu que mais gente entrasse enquanto Savió refletia profundamente.
Sasuke e Izuna entraram, ambos irritados pelo tratamento dispensando a eles.
Savió olhou para trás de si, encarando-os em completo choque.
— Além do mais, senhor. A família Uchiha nunca precisou ser reiniciada. – Sakura completou.
Sasuke revirou os olhos, vendo que ela estava gostando demais desses encontrinhos com o montenegrino.
Savió olhou para ela e sorriu de volta com a expressão de quem admitia que esta foi uma ótima jogada, ainda que estivesse furioso por estar cercado pela desvantagem.
Porém ele era um homem que sabia pensar em todas as possibilidades e vantagens que qualquer nova opção poderia trazer.
— Senhorita Uchiha... – Olhou para eles que o enviaram uma encarada irritada e malcriada. — Senhores Uchiha.... – Savió acomodou-se na cadeira, cruzando uma das pernas sorriu mais que a vontade, pegando uma xícara na mesinha. — Sou todo ouvidos.
¤
Semanas depois, aeroporto em Budva.
O jatinho estava para decolar rumo algum lugar da América do Norte.
Sasuke não gostava nada disso de não saber onde exatamente ela estaria nos próximos meses, mas parecia que quanto mais tentasse entrar na cabeça de Sakura, mais era empurrado para a posição de lacaio.
Não gostava que teria de aturar uma parceria com Savió e muito menos de quão bem ele estava com essa chantagem toda.
Izuna também foi cuspido pra fora como um cão e Damian sumiu outra vez e de muito bom grado depois de uma conversa com Sakura.
Ela desceu do carro, trazendo consigo apenas uma bolsinha felpuda com o rato dentro e uma caixa preta com um laço discreto.
— Não vá se atrasar para o seu voo. Sr. Savió parece muito pontual. – Ela disse, ele a fitou com sarcasmo.
— Me faz querer tomar uma caipirinha antes de ir.
Sakura balançou a cabeça, sorrindo um pouquinho.
— Você tem ideia do que está pedindo, hein? Mandar “mensageiros” para espalhar sua chantagem, Sakura. Você pode estar reunindo um exército para si, ou contra si. – Advertiu e ela suspirou, sem disposição para discutir isso agora.
Sasuke tocou o rosto dela, olhando-a nos olhos.
— E você ainda me quer longe mesmo assim? Quer ficar desprotegida?
— Não vou estar...
— Eu não sei onde estará, nem como estará, pra mim é o mesmo.
Ela ficou sem jeito, com seu tom tão aflito como não recordava de ter visto antes. Sabia que se continuasse assim, iria querer desfazer tudo e simplesmente se esconder com ele esperando pelo melhor a cada dia.
— Ao menos me diga onde estará, para eu te encontrar, sempre que puder. – Sasuke insistiu, um ronrono angustiado. Beijou o rosto dela e cheirou seu cabelo. Sakura inspirou o perfume e a presença dele além do possível.
— Vai saber, na hora certa. – Respondeu.
— Que hora? Quando vai ser? Por que precisa tanto ficar longe de mim?
Sakura negou, olhando para baixo, o fitou novamente.
— Eu não quero. Eu preciso de você perto, o tempo todo. Mas também preciso longe... Fazendo o que sabe fazer melhor.
Ela ergueu a caixa e ofereceu a ele, com um olhar sincero.
— Garotas como eu, homens velhos ou fracos, crianças, mulheres, você estava lá cobrando quase nada para dar alguma justiça a eles. Esse homem é você, não só um assassino da Kuran.
Sasuke olhou para a caixa, desconfiado, segurou-a e Sakura juntou as mãos abaixo da barriga.
— Eu não quero que seja um “mensageiro da minha chantagem”. Quero que cumpra a minha ameaça. “Ou se juntam a mim, ou caiam diante de mim”, de nós. 87 e Stevan vão trabalhar em trazer mais casas para esta revolta, mas se uma delas vier contra nós, você e Izuna, quero que as derrubem. Esse é o trabalho que estou passando á você... – Ela ecoou, afastando-se na direção do avião
Sasuke a encarou, intrigado e arrancou a tampa da caixa em segundos, empurrando papel de seda e encontrando uma peça de couro negro e fosco, liso e cheio de detalhes discretos.
— Isso é...?
— Será que você ainda se lembra? De ser uma lenda? “O homem de mil armas”, ainda está vivo aí? – Sakura indagou.
Ele largou a caixa, segurando o sobretudo longo numa mão, se voltou para a figura dela que já subia as escadas.
— E qual o meu pagamento?
— O de sempre. – Sakura o fitou por cima do ombro, nostálgica a saudosa. — Minha vida será sua para fazer o que quiser.
Ela embarcou e o avião iniciou a decolagem rapidamente.
Sasuke deu a volta em direção a moto.
— É um bom preço.
Antes de chegar, deu de cara com Savió, o fitando uma traiçoeira satisfação.
— Parece que conseguiu reatar com sua noiva?
— Algo assim.
— Mais parece que ela o domesticou novamente.
— Sou difícil de lidar. – Sasuke cuspiu, quase rosnando em desdém. — Já você, ela cadelizou bem rápido. Mas considerando sua posição, eu não o culparia.
Savió sorriu falsamente, mordiscando as pontas dos dedos para conter a raiva sem deixar a máscara cair, ambos a um passo de cair em animosidade. Então rosnou na direção de Sasuke, mordendo o ar e ele recuou o rosto ainda mais afim de acabar com essa parceria antes mesmo de ela começar.
— Cuidado, até os cães mais adestrados podem ser imprevisivelmente selvagens. – Stevan avisou, afastando-se.
Sasuke subiu na moto, o sangue quente de ira.
— Eu sei bem, e vou lembrar disso. – Avisou. Vestindo o sobretudo novo e pondo o capacete. Savió entrou no carro dele, e o Kakashi que observava tudo de longe, torcia para que essa parceria arranjada por Sakura, não se tornasse uma bomba relógio nas mãos dela.
¤
Em algum lugar da Noruega.
Sigrid Gulbrandsen era um homem de visão, e um homem que detestava dividir.
Por causa dessa personalidade dominadora e individualista, ele deixou de ter irmãos e um pai o mais cedo possível. E a casa nórdica sendo quase um nada dentro do grupo Folha, não teve muita atenção dirigida a essas lamentáveis perdas que ocasionaram o estreitamento entre ele e posse da chefia do clã.
Daí foi trabalhar arduamente, afie sua língua melhor que suas facas, ele dizia para si mesmo. As palavras eram as verdadeiras armas de quem queria poder. Se você usasse o discurso certo, o resto era apenas consequências positivas.
Massas seguindo sua filosofia, matando e morrendo por ela, foi assim com Jesus, Maomé e Hittler. Mas Sigrid não se considerava tão ambicioso.
Ele não queria cartazes com seu rosto, nem que se matassem por ele. Mas que matassem para ele.
Ele queria a folha na palma da mão, e não pretendia esperar o vento derrubá-la em sua direção. Ele subia na árvore e pegava a folha certa, quebrava os galhos, derrubava outras folhas, até mesmo a árvore inteira, que se danem os frutos. A Folha seria dele.
Mas como fazer isso sem ser chefe de uma casa forte? Um homem apenas não era capaz disto, nem seu pai, seus irmãos, ou os filhos que tivesse seriam tão ambiciosos como ele, outros parentes e membros, muito menos.
Então ele desistiu do coletivo e focou em si mesmo, e aqui estava, era o membro da mesa mais novo, considerado mais moderno, flexível, alguém de visão.
Claro que nem todo mundo iria gostar, claro que alguém iria gostar, mas o que ele menos contava, era que alguém iria bater o pé e continuar á própria maneira.
E esse alguém era um clã fundador, muito mais antigo, orgulhoso, arrogante e letal.
O clã Uchiha tinha tanto prestígio, seguia tão bem a tradição e as regras, que ele próprio fazia suas regras e todo mundo batia palmas pra eles, isso Gulbrandsen odiava neles.
Um filho desertor deveria ser o que ele precisava para diminuir o peso da Kuran na mesa e sua influência sobre as outras casas fundadoras, mas não, eles tinham que respeitá-los tanto, que deixaram eles fazerem como quisessem por anos.
Esse tipo de poder, Sigrid sabia que nunca teria, pois esse poder, um só homem não conquistava e desfrutava com sua família. Esse poder era acumulado ao longo de gerações. Por causa dos feitos magnânimos dos seus antepassados, os Uchiha desfrutavam de um status de quase deuses inquestionáveis.
E foi quando Sigrid percebeu que, se eles tinham todo esse privilégio acumulado como uma herança para desfrutar, o que mais eles tinham e poderiam usar sem que ele soubesse e como isso poderia afetar e até mesmo minar sua escalada?
Não, não havia como especular e ficar só nisso. Os planos precisaram ser apressados. Ele tinha que conseguir um Uchiha logo, um único traidor.
Um único câncer para infectar todo o corpo. Pensou em pegar o moleque desertor, mas este se escondia bem demais, então pegou o irmão, mas ele não era tão fiel assim, era escorregadio.
Mesmo com queda da Kuran, mesmo tendo-o descartado, Gulbrandsen ainda foi traído por ele.
Uma peça que ninguém poderia imaginar entrou no jogo. E ela era uma pequena parasita traiçoeira. De peça, ela se infiltrou e tomou a cadeira do oponente dele.
Gulbransdsen sabia que ela estava armando, e ele já estava ficando sem meios para manter a alta mesa distante dela.
As coisas estavam ficando perigosas e nebulosas.
Ele não conseguia enxergar seus movimentos na névoa criada por tantos fatos que desconhecia.
Se Itachi a deixou mais do que o maldito relógio.
Se ela estava fugindo ou buscando aliados, se queria reiniciar a Kuran ou vingá-la.
Se Sasuke Uchiha era uma carta na manga ou um estorvo tanto para ela quanto para Sigrid, nessa aparente busca obsessiva.
Ele poderia ser uma peça de Itachi? Quem realmente matou a família Uchiha?
E Utakata se aliou ao desertor ou era uma isca?
Estava tudo muito nebuloso e agora havia uma criança Uchiha no meio.
Um pequeno leãozinho fruto da antiga linhagem.
Se o velho leão Sigrid queria estabelecer sua própria “prole”, sabia que tinha de mastigar esse filhote e montar a maldita mãe dele como os leões de verdade faziam depois de eliminarem o antigo líder do lugar. Ele achou que houvesse cuidado disso quando mandou matar Itachi e a vagabunda dele.
Mas Sakura Haruno se convertera em leão e leoa. Então ele teria de matá-la para tomar seu reinado recém começado, e mastigar o pescoço do filhote dela para acabar com sua linhagem de vez.
Era um bom plano, e ele gostava de ter uma meta já bem traçada. Mas chegar até lá estava nebuloso demais.
Gulbrandsen vestiu seu casaco e catou a bengala ao lado, estava na hora de visitar alguns dos amigos que fez nessa trajetória até a folha.
Eles poderiam ajudá-lo a limpar a névoa conspiradora em seu caminho e voltar ao passo em que sempre prezara estar.
A frente de tudo e todos. Matando quantos leões, leoas e filhotinhos fosse necessário.
¤
E em algum lugar das Filipinas, Utakata despertou e segurou brutalmente a mão que tocava sua testa. Ainda haviam aqueles olhos verdes os atormentando até depois de ela puxar o gatilho.
— Ai! Está machucando!
Ele olhou para a mulher loira, usando jaleco e de cabelo muito curto e ela afastou o braço, mais irritada do que dolorida.
— Belo jeito de cumprimentar ao acordar.
Ele jogou os olhos ao redor, o que parecia um quartinho de uma cabana qualquer com poucos recursos, era só o que havia pra ver, podia ouvir o barulho do mar e vozes de crianças ao redor da casa.
— Onde eu estou? – Interrogou, olhando para o lugar onde deveria haver o buraco com sua sentença de morte. Um tiro no esterno, pouco acima do coração era pra ter sido o bastante no estado em que ele estava antes.
Era pra ter sido o presente que ela tanto queria dar. A maldita.
— Você não lembra? Qual o seu nome? Qual a última coisa que lembra? – A mulher indagou, preocupada.
Utakata olhou um calendário na parede, se passaram tantas semanas? E estava em filipino, o descartaram ali? Não, trabalhoso demais pra se livrar de um corpo que só precisaria ser incinerado.
— Onde estão minhas coisas? – Blefou, podia ser tudo uma armadilha, e ela nem ser médica.
— Você foi encontrado pelos pescadores sem a carteira ou passaporte, e suas roupas não deram muita margem para advinhar, parecia ser daqui...
— Daqui...?
— Não se recorda de nada? De ter sido assaltado ou coisa assim?
Utakata saiu da cama, ignorando pedidos de cuidado, deixou o quarto do que parecia ser uma pensão, chegou a uma sala aonde o piso ainda era de terra batida e crianças filipinas brincando e comendo em mesas longas. Todas, inclusive as professoras o fitaram com curiosidade. Ele seguiu até as portas abertas, bambeando, encontrou mais crianças, a praia estonteante e uma placa que dizia que o lugar era um tipo de ONG.
“— O que quer de mim...?
— Retribuir o favor. Utakata-san...”
— Ei! Você está bem?! Precisa voltar pra cama! Alguém ajude!
Utakata apenas se deixou ser conduzido, embalado por um bando de mulheres de volta ao quarto, deitou-se na cama muito calado e perturbado. A médica fitou as cicatrizes que marcavam e deformavam o rosto dele, assim como lembrou das outras tantas que pareciam muito mais antigas e tornavam-no um mistério sombrio.
Talvez sombrio demais para querer se manter por perto.
Ele inspirou, apertando os olhos por um momento, e pareceu ter chegado a conclusão de algo.
— O que aconteceu comigo...
“— ... Naquele dia no trem, em que me fez lembrar da minha triste história, você me deu a chave para o meu futuro, e então eu me reconstruí a minha própria maneira pela primeira vez...”
— Se recorda?
“—...E eu acho que você é como eu era...”
Ele abriu os olhos e encarou a mulher, por fim declarando:
“—...Então, se eu lhe der sua chave...”
— Não, não me recordo de nada. Meu nome, quem sou, o que faço ou fiz... É tudo... Algo que eu desconheço.
“— ...Você poderia me agradecer?
Ele não iria, mas tinha o pressentimento de que ela viria buscar por isso mais cedo o mais tarde.
O passado sempre volta pra te atormentar, e sabia que Sakura pressionara o botão de ignição de algo muito maior do que poderia imaginar.
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