Vingador Vol. II
12 11. Marionetes se movem. As nuances de uma traição.
Notas iniciais

Algumas horas atrás.
Springfield Park, leste de Londres.
Haviam muitos caminhos para fazer trilha no bosque e também reserva, era uma opção aos que queriam apreciar a natureza sem ter de dividi-la com o frenesi de muitos turistas.
Mas um carro parado ao lado de uma das trilhas menos usadas, sob a copa de árvores frondosas e ainda úmidas em conta do clima frio e enevoado, era difícil de ignorar.
Izuna esperou uma das janelas do carro abrir, para então se revelar.
— Hilsener. – O homem dentro do veículo cumprimentou, sorridente.
— Ikke kast bort tiden min.- Izuna rebateu, secamente, recebendo um olhar quase surpreso.
— Oh, fala norueguês, a Kuran Uchiha sempre muito metódica no treinamento de seus novos membros.
— Em mais quantas línguas eu tenho que dizer para não me fazer perder tempo, Gulbrandsen?
— Jovens e apressados, mas muito bem, isso depende do que você tem para mim.
— Idem.
— Ora, porque tão arredio? Você muito bem o que tenho a oferecer, quer palavras doces e bajulos? Quer que o engane sobre o que você vai fazer, sobre o que queremos que faça?
Izuna bufou aborrecido, o homem injetou-lhe um olhar verde gelado e sombrio.
— Vai trair a Kuran Uchiha, entregar cada membro dela nas mãos da Alta cúpula, acha que é capaz?
— É disso que vim falar, não acho que isso precise chegar a tal ponto.
— Oh, sim? Significa então que seu tio pretende entregar o traidor como devido?
— Sasuke é um desertor, é diferente, ele ainda tem todo o acesso aos serviços da Folha, nem você pode ir contra isso...
— Mas ele matou seu pai.
— É.
— Isso o faz um traidor, ele deveria ser executado, não matamos a família. – Izuna lhe devolveu um olhar estreito.
— Mas quer que mate a minha.
Gulbrandsen riu, o jovem decidiu que as casas alemãs não eram nem de perto tão irritantes de lidar do que um único representante da casa nórdica.
Ainda se perguntava como um membro de uma casa tão pequena e nova conseguira subir ao grau de pertencer a alta cúpula em tão pouco tempo. No entanto, não poderia negar que Sigrid Gulbrandsen era um nome de peso não por conta de sua casa, mas por conta de seus feitos individuais.
O contrário da casa Uchiha, praticamente a primeira, peso imensurável capaz de ofuscar o individualismo de seus membros.
— É apenas questão de tempo, meu caro. Alta cúpula vai se reunir em breve, acho que já está para receber o convite.
— Claro... Soube que Martino, vai assumir a casa D’Amico. – Não pode deixar de ironizar, Martino não viveria mais que alguns meses naquele posto. Não tinha fibra nem cérebro para tal.
— Vai ser uma grande festa, mas, pode ser uma festa em dose dupla, tudo depende de você.
Izuna jogou um olhar desconfiado para ele, Gulbrandsen parecia ter sérias tendências a engrandecer tudo a sua volta. Não estava afim de lidar com sua megalomania.
— Que está insinuando?
— Ora, o óbvio, se você der fim nos Uchiha, será o novo cabeça da casa.
— Cabeça? Isso é ridículo, cabeça do quê? De um corpo de mortos? Não existirá mais uma casa Uchiha, e é isso que você quer, não? Agora está me oferecendo o cargo do Fugaku? A preço de quê? Ser seu bonequinho? Eu não quero nada de você, eu vim negociar a morte do Sasuke, por mais que não concorde com as atitudes dos outros, ter eles mortos não vai me ajudar em nada.
Gulbrandsen suspirou, muito aborrecido e pensativo.
— Então só quer se carta branca para Sasuke...
— É óbvio! Se me der carta branca, com um membro da alta cúpula, poderei executar Sasuke sem qualquer empecilho ou consequência, ninguém da casa Uchiha poderá me questionar por obedecer diretamente a mesa da Folha. – Ele argumentou, fervorosamente. — Se quer se livrar dos Uchiha, vai ter que fazer de outra maneira, não vou trair minha casa.
— Hum, muito heroico da sua parte... Proteger e conservar a família, mesmo que essa possa o rechaçar como um verme depois de tudo...
— Eu tenho total ciência de aonde as minhas escolhas vão me levar...
— Discurso primoroso, mas não é a primeira vez que ouço. – Gulbrandsen concluiu, aborrecido e enfadado, então se acomodou no banco. — Nem para você, não é? – Comentou, jocosamente para a pessoa que estava sentada a sua frente.
Izuna retesou vendo a outra janela escura descer, e sua mão foi imediatamente para o cabo da arma, mas congelou lá, completamente estagnado de choque ao reconhecer o rosto ali dentro.
— Quanto a sua proposta. – Gulbrandsen declarou, erguendo uma taça de champanhe. — Obrigado pela oferta, mas não me apeteceu, já recebi uma melhor, como pode ver, encontrei alguém que não tenha medo de fazer o que se deve ser feito, e que sabe pensar grande.
Izuna o encarou furiosamente e sacou a arma apontando em sua direção, mas o outro já tinha uma apontada para ele, três tiros atingiram seu peito, o som foi abafado pelo silenciador e pelo ambiente inóspito, Izuna cambaleou para trás, a arma pendendo na mão enquanto três manchas vermelhas cresciam em seu tronco, sua perna vacilou para trás e ele tropeçou rolando um barranco e sumindo entre as árvores.
O motor do veículo ligou e deu partida, Gulbrandsen olhou para seu acompanhante e novo sócio na empreitada para trazer uma nova era à Folha e uma revolução em todas as casas de assassinos que a compunha.
Acenou com a taça.
— Um brinde aos grandes planos.
— Um brinde aos homens grandes e audaciosos o bastante para leva-los adiante.
Gulbrandsen estreitou ligeiramente os olhos em sua direção, mas por fim, sorriu em acordo e tomou da bebida.
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Duas e doze da tarde.
Kensington Palace Gardens, Londres.
Abriu os olhos preguiçosamente, sua visão focou aos poucos no criado mudo ao lado e no anel de brilhantes pousado sobre ele.
Sakura se virou, e por fim se sentou, sentindo vontade de bocejar, o corpo languido e ainda anestesiado de uma satisfação maliciosa, porém com um pouco de frio agora, e com surpresa, encarando as janelas, viu que o dia parecia em seu ápice.
Só então localizou Sasuke, parado perto da cama, abotoando calmamente o terno e ajustando a gravata.
Ele parecia tão impecável quanto sempre, era quase humilhante posto que ela se sentia uma completa bagunça.
Não estava exatamente ciente de em que momento haviam dormido, ou apenas ela, mas percebeu que provavelmente perderam o almoço.
Como ninguém deu por sua falta? Ela oraria para que fosse apenas uma sortuda coincidência, e não que alguém estivesse ciente de o quê os dois estavam fazendo no quarto dela.
Sakura, muito ciente de que não seria hoje que lidaria completamente bem com a ideia de ficar despida diante seu futuro marido, engatinhou suavemente até o outro lado da cama, onde ele estava e dedilhou o tecido do robe que estava jogado sobre ele, afim de vesti-lo.
— Além de me fazer perder a hora, ainda dorme. – Sasuke comentou, como se reclamasse do tempo, por fim, ajustou mais uma vez a gravata e volteou os olhos para ela, de lado, com um sorriso que ninguém daria se fosse perguntar do tempo, pelo menos não se se interessasse, realmente, só pelo tempo.
Seus olhos profundamente negros espreitaram-na por inteiro, naquela mesma intensidade usada para atormenta-la em conjunto com suas mãos grandes e certeiras.
Sakura gaguejou, puxando o robe devagarzinho.
Ela nunca aprendia de primeira mesmo.
— Nã-não ouse ficar me cul-culpando.
Sasuke se voltou para ela e se aproximou do colchão, catando a ponta do robe antes que ela a tivesse, e puxando-a, fazendo a garota praticamente tombar de cara no colchão, Sakura resfoguelou com um gritinho, e ele sorriu amplamente, com sua maldade, e arqueou o cenho em apreciação total ao seu traseirinho acidentalmente empinando-se na queda.
Ela se sentou sobre os joelhos, guinchando corada e atirando o que segurava do robe nele, obviamente arrependeu-se no instante seguinte.
Sasuke largou a peça no chão, e segurou seu rosto, encarando os lábios suavemente inchados, as bochechas vermelhas, os olhos brilhantes de expectativa mal disfarçada, no rosto adornado por aquela massa de fios desordenados e muito arrepiados. Suaves marcas avermelhadas adornavam seu pescoço, o colo esguio, sobre os quadris e barriga.
Ele dedicou todo deleite que dispunha no olhar para ela, observando-a com tanto detalhismo e tanta satisfação que Sakura sentiu-se perder o ar, como que esmagada por um acolhimento invisível e poderoso. Como se tudo no mundo fosse ele, mas principalmente, como se para ele, ela fosse tudo no mundo.
— Ah, eu fiz uma bagunça com você. – Sasuke disse por fim, seus lábios se afiando num sorriso presunçoso, os olhos além daquele ar predatório e calculado, mais como um predador faminto e selvagem. Puxou-a suavemente, sugando seus lábios outra vez, e ela apertou a lapela do terno, suspirando, embevecida no sabor de sua boca perita. — Queria muito continuar bagunçando, quem sabe hoje à noite eu te faça uma visita.
Ele deveria ser pré-programado para ser arrogante.
— Quem sabe eu queira que faça. – Ela rebateu, com um bico, Sasuke estalou a língua, segurando uma resposta mais suja.
Apenas beijou-a novamente, descendo as mãos por cima do colo, pressionando a moldura que o sutiã fazia, então mais abaixo nas costelas bem recobertas de carne voluptuosa, a cintura estreita e o quadril largo, o incitando suavemente a chocar contra o próprio.
Deslizou a boca por seu pescoço, Sakura gemeu suavemente, deixando uma mão caída ao lado do corpo e a outra apertando seu cabelo.
Sasuke subiu até sua orelha, saboreando-a, e então soprando guturalmente.
— E quem sabe, eu satisfaça nós dois, rata. – E ela sequer teria dado atenção ao apelido infame, se não houvesse acertando um suave tapa em sua nádega rechonchuda.
Sakura se empertigou, com um gritinho que era mais de choque e escândalo que de dor.
Ele apenas deu a volta e seguiu para a porta.
— Hey! – Ela protestou, sendo ignorada, a porta fechou atrás dele, e Sakura enrubesceu de indignação. — Rata?!
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Quatro e quarenta da tarde.
Aeroporto Gatwick, Londres.
Uma relação de amor e ódio era o que vivia com aquela maldita bengala, talvez algo mais para necessidade e ódio.
Embora inegável a sua necessidade de utiliza-la enquanto andasse, tudo se revertia em frustração quando sentia o mínimo ímpeto de se apressar, a perna avariada, ficava dolorida, e consequentemente perdia o equilíbrio da outra, e a sincronia na mão que conduzia a bengala se desfazia.
Era definitivamente uma sombra do homem que já foi.
Por fim, chegou ao saguão de desembarque, e ajeitou o chapéu sobre a cabeça, olhando fortuitamente as câmeras de segurança ao redor.
Logo um grupo de recém-chegados ao país, atravessou os portões, se espalhando pelo espaço, cumprimentando conhecidos e familiares e indo buscar as malas.
Um pequeno grupo veio diretamente em sua direção, dois homens e uma mulher, ao mesmo tempo em que notou a vinda de mais uma convidada da mesma direção em que viera, aos resmungos, e muito chamativa para os padrões dele, no entanto, com um suspiro, ele voltou a aceitar que definitivamente estava naquela situação: Quem não tem cão, caça com gatos.
Só que isso definitivamente só o fazia ter que lidar com a realidade de que, estava pondo gatos no encalço de verdadeiros cães treinados, disciplinados e calculistas. Os quais não seriam fáceis de derrubar apenas com astúcia e paciência.
— Bem-vindos à terra da rainha. – Cumprimentou, cordialmente.
— Tem tudo pronto? – Eles seguiram em frente, pegando pouquíssima bagagem e rumando para a saída.
— Tenho, mas como imaginei, teremos de apressar nossos planos.
— Não brinca. – O primeiro disse, enquanto abria uma pastilha de balas de menta.
— Descobri que vai haver uma reunião em Roma daqui algumas semanas, talvez menos.
— Do que se trata? – A mulher indagou, ajeitando os fios pretos sintéticos dentro do gorro laranja que usava.
— Sei que falei pouco das outras casas, mas basicamente, uma nova cabeça vai insurgir na principal casa italiana, isso basicamente vai fazer com que boa parte da Folha se reúna para prestigiar em um evento fechado.
— Uau, isso me cheira a muita putaria, drogas e armas...- O outro disse.
O velho homem riu, e suspirou tendo que voltar a diminuir o ritmo graças a perna defeituosa.
— Nada é como parece de primeira, esse tipo de coisa é feita em grupos que procuram esbanjar tudo que é proibido longe dos olhos da sociedade comum, com toda liberdade que o dinheiro pode pagar. A Folha não é uma organização de lazeres proibidos, mas de negócios proibidos, e a vida, é o seu carro-chefe de movimentação financeira. São clãs de assassinos, onde embora juntos, o que prevalece é a busca por maior influência, maior poder de matança discreta. Por isso, pode parecer algo como uma festa de amigos e sócios, mas estão todos de olho no rabo um do outro.
— Não é tão diferente assim, de alguns aspectos comuns, só mais VIP. – A outra mulher disse, ele deu de ombros.
— Então acha que isso vai nos forçar a fazer tudo mais rápido porquê? Não é meio que apenas uma festa diplomática?
— Seria, em épocas normais, mas não estamos numa época comum, nem de paz. Já expliquei em parte a que ponto as consequências do que houve em Tóquio poderiam ir, mas principalmente que a Folha está saindo de seu objetivo original, e levando as casas para a ruína.
— Grande coisa ruim para o mundo, se um monte de bastardos assassinos morressem...
— Vocês acham mesmo que tamanha rede de informação, equipamentos, tecnologia, armas e dinheiro conseguiria funcionar por quase dois séculos apenas matando pessoas inocentes e comuns? Crianças tolas. Todo tipo de pessoa move a Folha, se seu nome for posto no sistema, e um lance por sua cabeça for dado seja livre ou para algum assassino, você pode ser tanto um pai de família boa gente quanto um estuprador de criancinhas. Você quer alguém morto, você terá, se alguém contratar um assassino da Folha para te matar, te resta aguardar, pois se se livrar de um, virá outro, e outro e outro.
Pararam em frente a faixa de pedestres esperando o sinal permitir sua passagem enquanto absorviam as palavras daquele homem.
— Não é tão diferente do que ele fazia então...- Ela ciciou.
Ele riu, batendo de leve a bengala no chão, com impaciência, o tempo estava correndo, tudo, ao que indicava, explodiria logo.
Mas não sabia de onde, quando, e por meio de quem a primeira bomba explodiria, tinha certeza que seria devastador.
Tinha que chegar a tempo.
Não se permitiria tal erro novamente.
— A Folha mata qualquer um para quem pagar mais. De modo que muitos pais de família gente boa simplesmente eram mortos por nada, por dinheiro, por inveja. E muitas famílias eram destruídas, e absolutamente não podiam fazer nada para conseguir justiça, porque a Folha está em tudo, de cima abaixo nas camadas sociais, e vigia qualquer um que possa vir se tornar um problema. De modo que, mais vítimas poderiam ser feitas ao longo dos anos apenas para manter a fachada.
— E?
— E? E é simples, ele não foi feito para isso, foi talhado para ser o melhor, tão melhor que já era visto de forma estreitada quando ainda dentro do seio da Kuran, no entanto. Ele acabou pensando melhor, questionando melhor, e no fim, querendo o que julgava melhor, e então, acabou procurando fazer o que nasceu para fazer por algo muito melhor, fácil de conseguir, fácil de querer dar. Porque vingança e justiça, são como irmãs gêmeas, siamesas.
Atravessaram a faixa, embora ainda encarando a paisagem londrina com admiração e curiosidade, não deixaram de manter a atenção nas palavras do homem.
— Às vezes você pode agradar apenas uma, ou apenas a outra, mas não pode esquecer que elas estarão sempre ligadas, e que às vezes, o que pode parecer ser correto apenas para uma, não deixará de, bem lá no âmago que compartilham, afagar a angústia e satisfazer, ao menos um pouco, a outra.
— Onde vamos agora?
— Ah, encontrar uma pessoa.
— Quem?!
— Um aliado, ao menos, é o que espero.
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Cinco e cinquenta da tarde.
Igreja Holy Trinity Brompton, Londres.
Sakura se levantou, fazendo sinal da cruz, e beijando suavemente o terço de cristal e pérolas que tinha enrolado em torno do pulso direito. Encarando a imagem sofrida e ao mesmo tempo, serena de Deus em forma de homem preso na cruz.
Não havia hora certa para uma conversa com o altíssimo, no entanto, havia para usar o confessionário, ela suspirou e por fim, despediu-se da imagem acima e deu as costas seguindo para fora da grandiosa e antiga construção em estilo neogótico.
Precisava se apressar um pouco, pois não poderia se atrasar para o jantar, posto que sequer estivera no almoço. Pensar no porque, a fazia queimar de diversas formas, ruins e boas, e dentro da igreja, era no mínimo uma conduta desrespeitosa.
Antes de chegar a porta, reconheceu a figura que parecia aguarda-la e se surpreendeu.
— Oh! Utakata-sana! – Exclamou, alegremente.
Não o via direito desde o problema da festa com as meninas, Utakata teve que se ausentar por algum problema pessoal, e ela meio que achou melhor assim, seus dias depois daquela bagunça foram muito caóticos e provavelmente, com a severidade e rigor com o qual ele sempre cobrava de sua postura, ela provavelmente entraria em surto.
Utakata parecia estoico e intangível como sempre, mas cumprimentou-a com algum afeto mais apurado e conduziu-a até o carro.
— Como foi sua estada fora? Ocorreu tudo bem? – Indagou-lhe.
— Exatamente como devido. Quanto a milady, soube que nem tanto.
— Oh... Acho que soube do assalto...- Sakura se encolheu, um pouco constrangida, enquanto guardava o terço dentro da bolsa, e ajeitava as luvas nas mãos.
Ele se acomodou no banco ao lado dela, o que lhe casou uma leve estranheza, e sob as lentes de grau, mandou-lhe um olhar pontiagudo e certeiro.
— E do evento que a levou para Bibury, em primeiro caso.
Sakura quis se afundar no estofado, por fim, desistiu de tentar se esconder, e ajeitou os ombros, suspirou e encarou a janela discretamente, por fim voltou-se ao tutor e sorriu.
— Ah, então também soube que o meu noivo finalmente chegou? – Indagou. — Acho que você o desaprovaria em primeiro caso! – Riu-se, Sasuke era praticamente tudo o inverso do que Utakata passara quase dois anos ensinando-a a ser, e também o resumo de cara que ela deveria ser manter longe.
Bom, não poderia trocar de noivo, mas ao menos fazer com que ele sentisse que não desperdiçou o trabalho que dedicou nela para mantê-la como uma moça valorosa.
Utakata apenas cruzou uma das pernas e observou a janela ao lado, ajeitando os óculos com um suave toque.
— Já desaprovei. – Comentou, casualmente, tanto que ela não teve certeza se ouvira mesmo dizer isso, e o encarou com curiosidade. Deparando-se com um sorriso incógnito surgindo na face geralmente empedrada de seu tutor, e a forma como seus olhos castanhos, deslizaram sobre ela de forma muito ampla, ela ficou ainda mais ciente da rara e singular aproximação que estavam tendo no momento. — Mas não desaprovaria você, nunca, Sakura.
Sakura piscou lentamente, buscando raciocinar o que havia.
Mas não conseguiu, não foi possível, sua mente travou em total incredulidade, indo com todas as forças contra a dedução que seu corpo, suas sinapses nervosas lhe mostraram, quando seu tutor, apoiou a palma da mão em seu joelho próximo, e deslizou-a até o interior da sua perna empurrando praticamente toda a resistência do tecido de seu vestido.
E então só havia um sentimento gelado de horror, choque, assombro.
E tudo o que sua mente passou a rebobinar desde então foi a pergunta:
O que eu fiz de errado, para isso acontecer?
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Sete e quarenta da noite.
— Até que enfim chegou. – Mikoto comentou, enquanto dobrava um guardanapo e verificava a mesa, recém preparada. — Onde está Izuna? – Indagou.
Shisui encolheu os ombros e puxou uma cadeira, sentando-se com uma certa expressão de enfado e desabotoando o terno.
— Não faço ideia. – Estava cuidando de algumas coisas na empresa. — Moveu os olhos para Sakura sentada a mesa do outro lado, ela tinha os olhos baixos, embora eles se movessem de um lado para o outro, inquietos, e mordiscasse as unhas e dedos nervosamente. — E você? Algum problema? – Indagou.
Mikoto ergueu o queixo, fitando a jovem, e franziu a testa em desaprovação.
— Isso é fome? Pra estar comendo as unhas? – Sakura parecia completamente alheia, e ela cruzou os braços. — Sakura?
Ela saltou da cadeira, derrubando-a, e causando um estrondo que assustou-a muito mais, afastou-se da mesa, diante dos dois olhares afiados e inquisitivos e então deu as costas correndo para fora da sala.
— Me desculpe!
Veena descruzou os braços e encarou o sobrinho, que encolheu os ombros mais uma vez.
— Sasuke? – Ele presumiu, ela bufou, aborrecida, e meneando a cabeça. Olhou a hora e viu que já estava se atrasando também, ainda mais se pretendia ainda ter uma conversa com Sakura, algo optativo que, ao que parecia, agora era por algum motivo, extremamente necessário.
Duvidava que fosse Sasuke também, ele parecia ter contornado a situação de mais cedo perfeitamente bem, bem demais, até.
Ela não queria criar rugas se preocupando com netos, definitivamente não era a hora para netos ou qualquer cogitação a eles.
— Dê um jeito de encontrar Izuna. – Avisou antes de seguir aos próprios aposentos para se preparar.
Vestiu-se com aprumo, mas dispensando vestidos, um traje discreto e que garantia boa mobilidade, arrumou os cabelos num coque perfeito, e usou o colar de pérolas brancas e brincos, destacando-os na roupa preta. A maquiagem foi executada eximiamente, bem como algumas armas guardadas nos locais mais acessíveis e sutis que o corpo de uma dama poderia oferecer.
Olhando no relógio, ela suspirou, e se encarou no espelho, perguntando-se se voltaria a ver esta imagem novamente no espelho, ao fim da noite, ou pela manhã, se haveria aquela mesma paz para isso.
Cansada de rodeios auto impostos, Mikoto deixou os aposentos e seguiu até os de Sakura, ao entrar no corredor, encontrou Sasuke parado ao lado da porta, parecendo muito à vontade em ficar esperando-a sair, embora tenha batido na porta com mais força do que o necessário, encarou a mãe com um olhar aborrecido, mas a mão dentro do bolso da calça, estava em punho.
— O que foi dessa vez? – Ele disse. Ela suspirou, parando a sua frente ajeitando sua gravata.
— Eu não sei, esperava que soubesse.
— Não desde que foi a igreja, em que igreja a está mandando ir? Não é uma daquelas que pedem um carro de dízimo e fazem mulher usar calcinha de ferro, é?
— Seria uma tortura difícil para você, não?
— Estou falando sério.
— Não a imponho à ir Igreja, ora. Ela sempre fez questão de ir, só ficou difícil quando quis que fôssemos também. – Ela segredou, rindo suavemente, Sasuke fez uma breve careta, e por fim riu.
— Não pediria se soubesse como é realmente.
Mikoto suspirou, e ergueu a mão, afagando seu rosto, e encarando seus traços, tão dela, e tão de Fugaku. Uma pena ele todo não poder pertencer somente a eles.
Sakura havia monopolizado cada parte, e odiou-a muito por isso, no entanto, o que Sakura tinha, estava à salvo de uma maneira que nem pais, nem ninguém poderia fazer.
E então, se viu tornando-se agradecida, e em dívida.
E iria pagar, a seu modo.
Moldando Sakura da melhor maneira que podia.
— Prometa que o que quer que aconteça hoje, não o deixe cegar.
Sasuke ergueu os olhos para ela, negros e cintilantes de um calculísmo frio, no entanto, ele ainda era muito presunçoso, e custava a acreditar que tinha algo que ainda não era capaz de compreender.
Ele esteve longe da família por muito tempo, e sabia o que ele pensava de estar com a Kuran novamente, não importava quantas Sakuras tivessem em mãos, uma hora ele ainda partiria, com ou sem ela.
A diferença era que sem ela, ele estaria convertido em algo que Mikoto ou Fugaku jamais iriam querer que ele se tornasse, não importava o modo como o haviam criado.
Eram filhos de assassinos, assassinos e criaram assassinos, mas não criaram monstros, por isso a ligação com a família era aquilo que mais exigiam acima de qualquer perícia, de qualquer frieza e força.
— Eu não ajo por impulso.
— Age sim, como uma força da natureza, como agora que está para arrebentar essa porta apenas porque foi ignorado por algumas horas. – Ela rebateu, severamente, e ele bufou, irritado.
— Algo aconteceu...
— Eu não duvido, deixe-me descobrir. De qualquer forma, prometa que não vai se cegar, não importa o que aconteça. – Mikoto segurou seu rosto mais firme, e inspirou tentando manter as próprias emoções em ordem. — A Alta Cúpula tem planos, e eles divergem, mas não sabemos o quanto, ou quais, e muito menos se podem divergir ao nosso favor, tudo o que peço é que espere até que descubramos o que é, quem é, e isso vai ser esclarecido esta noite.
— Quer que eu fique parado sendo protegido.
— Quero que mostre quão bom realmente é. – Sasuke a fitou, enviesado e desconfiado.
— O que está armando, mãe?
— Se você é tão bom quanto diz, Sasuke, se é o melhor de nós, o melhor da KuranUchiha, se é o melhor assassino da Folha, a hora de mostrar isso vai chegar. Lembre-se, meu querido, um assassino não é feito apenas de armas.
— Um assassino é a própria arma.
— Sim, tudo em suas mãos, tudo o que ele é, se converte numa arma, e sobretudo...
— Discrição e sutileza, não imitamos um personagem, somos um...
— Um personagem, como nenhum outro autor ou poeta jamais conseguirá encarnar. Sasuke, apenas peço que, embora não queira voltar a ser um de nós, lembre-se de como era ser um de nós, lembre-se que é um Uchiha, e porque somos a mais alta casa da Folha e que sempre seremos, mesmo que só venha a sobrar um de nós.
— Mikoto.
Ela o soltou e se afastou, inspirando longamente, e segurando a maçaneta da porta enquanto tirava uma chave reserva do quarto de Sakura do bolso, ele franziu o cenho momentaneamente irritado por não ter uma destas, mas continuou focando na mulher.
— A alta cúpula tem planos. – Repetiu. — Mas nós também temos. Então por favor, pare e pense, antes de tudo, nada é como parece ser, certo? É assim que trabalhamos, nas sombras, e movendo as cordas, não importa o quanto o Conselho tenha tentado nos dominar ao longo dos anos. Nossa lealdade á Folha é um trato, mas nossa lealdade a família, é nosso sangue e nada vai tomar-nos isso, nossa natureza. Agora vá e não faça nada por impulso, pense em Sakura.
Ela destrancou a porta e entrou no aposento, encontrando primeiramente nada mais que o som irritante do hamster batendo nos móveis enquanto andava dentro daquela bola. O quarto estava em perfeita ordem, embora um pouco abafado, com as janelas fechadas sem qualquer circulação de ar.
Mikoto caminhou desconfiada até a porta do banheiro, encontrando-a semi aberta e uma blusa pesada de frio no chão. Empurrou a porta vendo o resto das peças no chão e encontrou o ruído dos soluços de Sakura vindo da banheira, cuja espuma estava quase extinta na água que estava aos poucos se tingindo de vermelho enquanto ela esfregava incessantemente a cocha e o joelho com uma esponja grossa, formando uma marca vermelha, afinando a pele delicada e fazendo-a ceder abrindo minúsculos cortes.
Consternada, a mulher se aproximou, abaixando-se e observando-a repetir o gesto incontrolavelmente.
— Eu não fiz, eu não quis, eu não fiz, eu não quis, eu não fiz, eu não quis.
Mikoto ergueu os olhos encarando sua face avermelhada, notando que a água estava muito quente também, e seus olhos verdes perdiam-se numa cena de terror e medo muito viva em sua mente.
Repassando meticulosamente os fatos na cabeça, Mikoto não demorou a perceber o que havia tornado aquela verdadeira marretada contra a Caixa de Pandora a sua frente.
— O que o Utakata te fez? – Indagou, duramente, e não precisou conter o pulso de Sakura ela mesma, a jovem estagnou ainda mais assombrada ao ouvir aquele nome.
E então teve um ataque de choro.
Veena pousou a mão em sua nuca, e por fim concluiu.
Os planos da Alta cúpula já estavam em andamento, afinal, algumas de suas marionetes, já estavam sendo movidas sobre o palco.
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— Sem notícias do Izuna? – Madara perguntou, enquanto ascendia um charuto.
— Não, ele anda bastante avulso e aborrecido. – Itachi disse, servindo um copo com whisky.
Madara suspirou, pesadamente.
— Deveria ter mantido ele mais tempo comigo, Satoru não era um exemplo ruim apenas como pai.
— Ele é apenas imaturo, ele não é como o Izanagi. – Fugaku disse, voltou-se para Sasuke que estava parado perto da janela. — Sua mãe e Sakura?
— Decidindo os convites do casamento. – Ele ironizou. — Eu não sei, a garota se trancou no quarto desde que chegou da igreja.
Pensando bem agora, ele se perguntava se ela não havia dado uma passada no confessionário. Se havia... E considerando quão sem noção era, o padre deveria ter recomendado que ela fosse passar um ano em algum convento antes do casamento.
— Isso me lembra, por que convocou Utakata de volta? – Shisui indagou, soltando uma baforada do charuto recém aceso.
Fugaku franziu o cenho ligeiramente, e então, sua expressão se converteu na de uma fera sombria e ele esmagou o copo de whisky entre os dedos, fazendo o resto deles o encarar. O homem se virou dando um olhar de lado a Sasuke.
— Eu não o convoquei.
Ao chegar até as portas duplas que davam à sala, abriu-as de uma vez deparando-se com Sakura, ela recuou um passo, palidamente espantada com a primeira vista de sua expressão. Vestia um vestido vermelho escuro, de barra até as canelas, e mangas de renda grossa, e gola e colo fechados, os cabelos completamente presos num coque.
— O que aconteceu? – Indagou-a, ela se empertigou como se tivesse sido capaz de ler a real intenção da pergunta, e baixou os olhos, evasiva.
— E-eu, Izuna-kun havia me pedido para avisar que ia ficar estudando para um teste, por isso não viria para o jantar...
— Apenas?
Ela parecia a ponto de desmaiar, ela parecia a ponto de ter um acesso de pânico, e praticamente quis dar a volta quando percebeu Sasuke se aproximar com os olhos fixos em si.
Bishamonten pousou as mãos em seus ombros, assustando-a um pouco e sorriu ao marido, docilmente.
— Oh, deixem a menina, sabem como Izuna é, não duvido que tenha mentido para ir ficar com alguma namoradinha. Cuidamos disso depois, temos outras prioridades no momento, não? – Ofertou, empurrando Sakura para contornar o sogro. — Nada do nosso convidado? E nós achando que estávamos atrasadas, não é, Sakura?
— Sim... – Ela balbuciou, receosa.
— Demoraram sim. – Sasuke disse, encarando as duas, Sakura fugiu de sua presença e foi até a janela, e ele encarou Mikoto que apertou seu queixo com um olhar de aviso.
— Estávamos apenas conversando, coisa de meninas. – Declarou, antes de se afastar. — Lembre-se do que conversamos. – Alertou suavemente. — Oh, onde está Izumi? Ainda no salão? Essa menina vai se refazer toda lá?
— Resolveu descontar o tédio em roupa. – Itachi disse.
— Você não faz muito para entretê-la. – Shisui alfinetou, bem-humorado até, Itachi o olhou de lado.
— Fiscal de foda, agora?
— Rapazes... – Veena alertou, enquanto afagava carinhosamente o queixo do marido numa troca de olhares que só traduzida por ambos.
Sakura gostaria tanto de estar entre eles, de apreciar aquela rara interação da família praticamente completa.
Mas havia só um sentimento de que não merecia sequer estar ali, e ainda por algo que se quer fora capaz de controlar.
Ou talvez fosse, talvez houvesse, de alguma forma, em algum momento... Dado a entender sobre aquilo.
Mas não tinha como saber, estava completamente nauseada demais, assustada e constrangida demais para dar descanso à própria mente, mas tampouco, capaz de encontrar uma resposta que não significasse que era culpada.
O que só a fazia acreditar que era, seja consciente ou não.
— O jardim não vai desaparecer se tirar os olhos dele um instante. – Sasuke ecoou em seus ouvidos. Ela jogou o olhar para os pés, sentindo dor e vergonha de si mesma.
Porque Sasuke era bom, e seria um bom marido, porque gostava dele, porque o estava amando, porque havia se deixado aprender a deixa-lo toca-la, finalmente.
Ainda assim, outro havia a tocado também, insinuado coisas, dito coisas, que a faziam sentir como se tudo o que havia mantido guardado para ele, não fosse tão importante assim, não valesse tanto assim.
Como se, qualquer um pudesse ter como bem queria o que ela tinha a oferecer, e ainda como se, fosse ela que estivesse oferecendo de alguma forma, em algum momento.
“O que eu fiz de errado?”
Porque se sentia tão incapaz? Porque só queria morrer?
— Nossa, eu devo estar sendo muito desagradável hoje. – Sasuke concluiu, com sarcasmo, se afastou um passo, e esfregou a barba, claramente furioso. — O que eu fiz dessa vez, Sakura, respirei muito perto?
Então ela simplesmente fugiu, atravessando as portas novamente quase derrubando a empregada que vinha anunciar a chegada da visita.
Sasuke rosnou uma risada irada, e acertou o copo de whisky na parede antes de marchar atrás dela.
— Utakata a abusou. – Mikoto declarou, cortando sua frente, ele parou no lugar encarando-a com uma centelha demoníaca e descrente nos olhos.
— É o quê?
— Então ninguém o convocou de volta. – Fugaku concluiu.
— Deixou o tutor tocar nela? – Sasuke rosnou baixo, os dentes rangendo como os de uma fera pronta para rasgar a pele humana que a ocultava.
— O motorista não foi informado que deveria manter ela longe dele. – Veena esclareceu, arquejante. — Apenas o dispensamos normalmente, posto que sua única obrigação era manter ela estudando e longe de outros rapazes. Ele nunca fez nada! – Gritou quando ele a contornou. — Se tivesse feito, saberíamos, ele foi mandando, é óbvio! Sakura ainda não tinha sido avisada de que não o veria mais, porque estava ocupada com você e poderia ser muito chocante pra ela. Lhe disse para agir com calma! Sasuke!
— Eu estou calmo, eu vou apenas arrancar a cabeça do filho da puta que tocou minha mulher, muito calmamente.
— Deixe-o. – Fugaku a conteve.
— Mas...
— Ele não vai atrás de Utakata ou suas chefias agora. – Ele a soltou acenou para a empregada. — E temos outras prioridades no momento.
֍
Sasuke cruzou o corredor e a sala, chegou até o segundo andar vasculhando-o até chegar na biblioteca, adentrou-a e seguiu até a mesa que ficava ao centro do aposento, não encontrando-a lá, seguiu até um dos cantos, mais apertados e parou refreando a própria respiração pesada ao encontra-la.
Estava de joelhos voltada para o estreito pedaço de parede entre uma estante e outra.
Como uma mártir implorando pelo fim do tormento.
Se aproximou, abraçando seu tronco e erguendo-a enquanto ela chorava escondendo o rosto entre as mãos.
— Você é a coisa mais pura que já encontrei. – Afirmou. — Nada vai mudar isso. – Soltou-a apenas para vira-la para si e puxar suas mãos. — Nem ninguém, nem mesmo eu. Entenda e aceite isso. Entenda e aceite que também não importa o que aconteça, você é minha, eu escolhi você e você a mim, mais do que imagina.
Sakura se escondeu em seu abraço, recusando-se a soltá-lo quando ele parecia ser tudo o que havia para mantê-la sã e inteira.
Sasuke beijou sua cabeça, e suspirou.
— Vai ficar tudo bem, você é apenas minha, e nada vai mudar isso, Sakura, eu te tenho, finalmente.
— Será que tem mesmo?
Ele bufou antes de se virar e Sakura achou que fosse apenas o choque e a angústia ainda um pouco presentes, que a impediram de reconhecer aquela voz.
Sasuke se virou, o som de um estampido seco inundou o ambiente e ela encarou-o, vendo-o recuar um passo com o olhar consternado por um momento.
Baixou a vista para o tronco dele, e recuou horrorizada ao ver uma enorme mancha vermelha e viva começar a crescer sobre a lateral do estomago dele, juntou as mãos contra rosto, berrando, e Sasuke puxou seu braço para si, antes de outro estampido ecoar na biblioteca o fazendo empurra-la contra as estantes. Um livro caiu da prateleira com um furo na capa dura.
Sakura caiu levando mais alguns livros e ficou entre o corredor de estantes o vendo cair sentado e puxando uma arma do terno, ele a fitou de lado, e já pálido apontou para longe.
— Saia, saia daqui!
Ela se arrastou em sua direção ainda gritando, ele apontou a arma na direção de onde os tiros vieram erguendo mais o braço a medida que passos suaves se aproximavam dele.
Um braço surgiu apontando uma arma prateada na direção dela.
— Filho da puta. – Sasuke rosnou para cima.
— Não xingue a mãe.
Sakura ergueu os olhos e sentiu como se houvesse caído em algum tipo de pesadelo.
Talvez estivesse dormindo o dia inteiro, talvez ainda estivesse na cama junto ao corpo de Sasuke, e tudo o que houve depois de ter supostamente acordado, fosse só um pesadelo sem sentido.
Talvez Utakata sequer houvesse voltado de viajem, e muito menos a assediado, talvez não tivesse tido aquela conversa com Mikoto, e talvez, agora só estivesse chegando a conclusão do pesadelo, a parte final e aterrorizadora, onde Itachi tinha atirado no próprio irmão, e apontava uma arma para ela.
— Então é isso? Deixando os cães entrarem quando já era um deles? É bem sua cara mesmo. – Sasuke cuspiu, venenoso. Itachi o fitou com sua habitual face estoica que agora parecia convertida na de um demônio de gelo.
Muito rápido, chutou o irmão na ferida e Sasuke atirou no teto, ele arrancou sua arma num puxão muito rápido, Sakura não conseguia acompanhar nada, apenas gritar de horror.
— Saia daqui! – Sasuke voltou a berrar para ela. — Saia daqui, Sakura! Ele está louco, vai te matar!
— Louco? – Itachi achou graça. E então, voltou-se para ela, passando por Sasuke. — Pare de iludir a menina. Chega de joguinhos e atuações, Sasuke. E não era você que mais estava cansando disso?
— Sakura!
— Venha aqui, Sakura, tenho que te ensinar umas coisas.
Ela gritou, virando-se e engatinhando pelo chão, se levantou aos tropeços e tentou contornar a estante antes de ter a mão dele em torno de seu amontoado de cabelo, gritou de dor e horror, praticamente na ponta dos pés. Itachi a forçou a se virar na direção de Sasuke, já praticamente de pé, o encarando assassino.
— Está tudo fácil demais, não acha? – Itachi declarou. — Todos pegos como cordeirinhos indo ao abate.
— Solte-a. – Sasuke ameaçou, cambaleando. — E eu dou um jeito em você.
— Não duvido, mas veja, você está muito atordoado ainda, aquele whisky de mais cedo, o charuto, fazem essas coisas, você não percebe até que a adrenalina simplesmente não aja no momento crucial. Veena não bebe whisky nem fuma, naturalmente a que deu mais trabalho. – Dito isso, ele se afastou arrastando Sakura, ela se debateu chorando, e ele soltou seu cabelo apenas para envolve-la pelo quadril e continuar. — Vou levar a Sakura, Sasuke. Você sabe como me encontrar, a questão é quando. E o que vou ter feito pra passar o tempo com ela até lá.
— Itachi.
— Irmão. – Ele acenou com a arma antes de sair arrastando-a pela porta e um homem entrar, atirando uma garrafa de álcool contra uma das estantes de livros, e depois ateando fogo nela, a fumaça não demorou a preencher o cômodo, Sasuke o deixou com os olhos ardendo, a garganta travando.
Desceu as escadas deixando o andar praticamente todo em chamas, e encontrando corpos dos empregados pelo caminho.
Chegou até a sala quase tropeçando em Danica, degolada ao pé da escada, seguiu até a sala de jantar vendo a porta escancarada e encontrou primeiramente Madara largado contra a poltrona, com um filete de sangue descendo pela testa.
Primeiro foi ele.
Seus olhos correram para a mesa aparador onde ficavam as bebidas e encontrou Shisui, praticamente sentado contra ela, fincando à parede por meio da espada de Sasuke.
Depois ele, demoraria para reagir porque uma traição justamente de Itachi seria difícil de engolir.
Chegou até a mesa de jantar e contornando-a, se abaixou, cedendo ao torpor da toxina no sangue que o impedia até mesmo de sentir a dor do tiro realmente, e parecia fazer sem sangue escorrer como água.
Fugaku jazia ao seu lado com três tiros nas costas e um corte de espada no flanco.
Ele não empunharia uma arma contra um filho.
Ou ele teria feito contra Sasuke a muito tempo.
Pendeu a cabeça para o lado e encontrou Mikoto, os olhos azuis abertos, as pérolas do colar espalhadas pelo chão, e os cabelos escuros espalhados numa massa de fios e sangue.
Ela não perdoaria a traição de um filho, mas também não seria capaz de executá-lo.
Ele ergueu olhos, vendo as chamas consumirem a casa por inteiro, e puxou sua cabeça para o colo, afagando os fios, e percebendo que sua própria ruína, levou à ruína de seu sangue inteiro.
A fumaça terminou de nublar seus sentidos, mas ele ainda socou com gosto o rosto do homem com máscara de gás que se aproximou de repente, surgindo da fumaça e das chamas.
Mais deles, apareceram, verificando os corpos ao redor, e o mesmo que havia socado, talvez não com a força que achara ter usado, se aproximou e o puxou pela roupa, arrastando-o pelo chão, e ele urrou, a toxina começou, finalmente a perder o efeito, ou talvez a fumaça tenha tido um efeito de antídoto em seu sangue.
De qualquer forma ele lutou e rugiu, sua mente clareou também, e ele tinha que matar Itachi, seus aliados.
Tinha que encontrar Sakura, viva ou morta, para viver ou estar morto com ela.
Essa ainda era e continuaria sendo sua sina afinal.
E ele iria matar todo e qualquer um que entrasse em seu caminho para isso.
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