Vincent

1 Amarelo


Notas iniciais
Bem, espero que gostem.

– É uma bela pintura, Vincent – Theo comentou dando um tapa afetuoso no ombro do irmão mais velho – Você não devia jogar fora.

– É um pedaço de estrume, isso é o que ela é – Vincent começou a puxar a sua orelha como fazia quando estava nervoso – Nada está certo, irmão, olhe bem pra isso. A impressão que dá é que há algo faltando e, bem, realmente há. Eu apenas não consigo descobrir o que é.

– Você vai descobrir, irmão – O garoto de quinze anos deu um sorriso sincero – Você sempre acaba achando uma maneira de resolver o seus problemas.

Vincent olhou para o seu irmão e sentiu paz mais uma vez. O garoto, assim como o irmão mais velho, ruivo sabia como acalmar o pintor. Por muitas vezes, quando se sentia aborrecido ou mesmo eloquente, a voz da razão que era Theo o acalmava. O primogênito se sentia grato por isso. Vincent encarou o seu quadro de girassóis melancólicos e deu um sorriso de satisfação.

– É, Theo, você tem razão. – Vincent comentou pegando o pincel mais uma vez e o melando com a tinta azul – Agora, eu não quero tomar mais do seu precioso tempo. Vá logo para o seu encontro, seu idiota.

– Ah, a Johanna pode esperar, tenho certeza – Theo disse colocando a mão no queixo e sentindo os primeiros fios de barba ruiva crescendo – Quero dizer, a pintura não está pronta ainda, não é? E eu quero estar aqui quando um autentico Van Gogh estiver pronto.

– Não – Vincent respondeu com convicção – Você vai dar uns amaços na irmã Bonger quando o autentico Van Gogh estiver pronto, agora vá, antes que eu pinte uma vagina nessa sua calça.

– Está certo então, seu pervertido, estou indo ao encontro – Theo respondeu já em direção a porta do ateliê – Mas não se esqueça de me mandar a foto do quadro quando estiver tudo acabado.

– Pode deixar – O Pintor parou de trabalhar para olhar para o seu irmão que partia – Ei Theo, obrigado por tudo, cara. De verdade. Eu te amo, irmão.

– Eu também te amo, seu esquisito. – O mais novo disse dando um sorriso ao sair – Agora tchau, os peitos da Johanna Bonger não vão se apertar sozinhos.

E a porta de carvalho do ateliê dos Van Gogh se fecha deixando Vincent sozinho com a sua criação. Aquele era, de fato, um momento assustador. Sem a motivação de Theo, o pintor as vezes tinha um impulso de simplesmente destruir a sua obra por completo. O ruivo suspirou se afastando do quadro e sentando em uma cadeira de madeira que estava largada por aí. O único barulho que se ouvia no ateliê era o do ar-condicionado.

Vincent olhou fixamente para o quadro. O amarelo dos girassóis o fascinava. Havia algo de melancólico e extremamente belo na mais alegre das cores. Era como se houvesse um pouco de loucuras indecifrável escondida nessa cor. Isso deixava Van Gogh curioso, porém, ao mesmo tempo, assustado. Imaginava-se amarelo. Via-se retorcido e cheio de impressões de perturbação psicológica. Pensava talvez um dia se tornar perigoso para si mesmo ou mesmo, deus o livrasse, para Theo.

Os Pensamentos confundiam tanto a cabeça de Vincent Van Gogh que quando ele havia dado por sí, já estava com pincel pronto para dar um golpe fatal em sua pintura. Deu um grande puxão em sua orelha e, depois de lavar as mãos, pegou o celular que estava jogado em algum ponto da bagunça. Talvez sair um pouco o faria se sentir melhor. Talvez menos amarelo.

...

Paul não parecia notar a presença de Vincent na mesa de bar em que os dois dividiam, estava muito ocupado fazendo anotações no bloco de notas do seu celular. Um jovem ocupado como ele deveria se organizar da melhor maneira possível e, no caso, isso incluía anotar o que comeria no café da manhã da terça seguinte. A única coisa que roubava a sua atenção por um segundo era um copo de Vodka que bebia para esquentar-se na noite fria de Arles.

Van Gogh olhava ao seu redor e, para ser verdadeiramente sincero, sentia-se bastante inconfortável com a presença de uma multidão ao seu redor. Muitas conversas e risos perto de pessoas mais velhas e, segundo o próprio Van Gogh, mais interessantes que aquele magro ruivo de dezenove anos. Estava até pensando em roubar um pouco da bebida de Paul para se sentir um pouco melhor.

– Nem pense nisso, pirralho, eu estou lhe observando – Vincent não sabia como uma vez que Paul Gauguin estava concentrado em seu celular de última geração. Alguns minutos de silêncio se seguiram até que foram cortados ao término da anotação do moreno narigudo e com bigode – Então, Van Gogh, qual é a reclamação de hoje?

– Várias, Gauguin... – Vincent admitiu – Para começar, há o fato de que esqueci o meu cachimbo em casa.

– Você não teria me convidado para uma armadilha social para alguém como você apenas para falar do seu cachimbo – Paul Gauguin comentou bebendo metade do copo de uma vez – Fala, garoto, o que foi?

Vincent encarou Paul um tanto ressentido. Era mais que usual que o moreno chamasse Van Gogh de “pirralho” ou “garoto”, afinal, ele era cinco anos mais velhos que Vincent. A maneira egocêntrica e convencida de Gaguin seria um bom motivo para Vincent se afastar dele, porém, a verdade era que Paul era o único amigo pintor do ruivo, e era o que o entendia melhor. Não poderia se dar ao luxo de perder alguém assim.

– Você sabe... – Vincent olhou para baixo – O mesmo de sempre. Eu fiquei me perdendo ao olhar mais um de meus quadros.

– Me deixa adivinhar, – Paul deu um sorriso presunçoso – Era amarelo.

– Vai se foder.

– Estou só brincando com você, Van Gogh – Gauguin tomou mais um pouco de Vodka e dessa vez fez uma careta – Você sabe que eu admiro muito o seu trabalho como pintor.

– Às vezes me parece que você e o Theo são os únicos – Vincent suspirou – Não consegui vender nenhum ainda.

– É porque eles não lhe entendem, ruivo – Paul concluiu – E me parece que nem você entende direito. O jeito que você se perde ao olhar para a sua própria obra que, como eu vejo, é a nossa própria alma. A sua confusão é reflexo da sua inquietude.

– Nossa... – Vincent se deu liberdade para rir um pouco – O que é que tem nessa bebida que lhe fez tão sábio?

– Ou vai ver... – O moreno continuou sem dar atenção ao comentário do amigo – Que o que você está precisando é de uma mulher.

O comentário de Gauguin fez com que Van Gogh automaticamente ficasse vermelho como a sua barba. A verdade era que toda a sua habilidade foi focada na pintura e as mulheres apenas o deixavam nervoso. Era um rapaz de dezenove anos e, não, nunca havia beijado uma garota sequer. Nem um misero selinho em um verdade ou desafio. Isso o deixava um tanto quanto incomodado.

– Você sabe que eu não levo jeito...

– E quem disse que você precisa de jeito? – Paul comentou dando um sorriso safado – Quando se tem um amigo rico?

– O quê?! – Van Gogh enrubesceu – Você está insinuando contratar uma...

–... Profissional do amor! Exatamente! – Gauguin continuou alegremente – O que me diz, Vincent, meu velho?

– Eu... Eu...

...

Ele aceitou. Paul havia entrado em um site de acompanhantes e havia contratado a mais bela segundo ele, para que a primeira experiência de Vincent não fosse traumática como a dele havia sido. No momento, o ruivo estava sozinho em um quarto de motel barato que Gauguin encontrou, sentado na cama, esperando a prostituta chegar. Vincent estava mais nervoso que antes, toda a sua visão lhe parecia amarela. Aliás, talvez por maldade de seu amigo, o quarto que Van Gogh era quase que totalmente amarelo.

A atenção de Vincent se voltou para a porta do quarto que se abriu repentinamente. Por reflexo, o pintor se levantou e começou a puxar a orelha direita compulsivamente. Ele só parou de fazer isso quando olhou para a garota que havia entrado no recinto.

A verdade era que Vincent admirava o refinado gosto de Paul Gauguin. E na escolha daquela garota, o respeito que o ruivo tinha para com o jovem dobrou. A garota, mesmo sendo uma prostituta, não era nada vulgar. Era até fofa, para ser bem sincero. Tinha cerca de vinte anos, cabelo loiro com franja. Usava jeans e uma camisa, adivinhe só, amarela. Seus olhos eram cor de mel e seu sorriso era provocante e encantador.

– Você deve ser o Vincent, estou correta? – A prostituta disse apertando a mão de Vincent e só depois notou o quanto estava suada – O Paul me falou sobre você.

– Vo-você e o Paul já...

– O que? – A garota pareceu confusa por um momento, mas depois riu – Ah, não. Relaxa cara, eu e o narigudo somos apenas amigos. Eu me chamo Rachel.

– Eu sou o Vincent.

– Hã... Eu já sei disso, Vincent – A garota riu – Foi a primeira coisa que eu falei quando eu cheguei aqui, lembra?

– Ah, sim. – Van Gogh olhou para o chão envergonhado – Que estúpido eu sou.

– Você é um cara muito estranho, sabia? – Rachel segurou a mão de Vincent e o levou até a cama, os dois se sentaram em seguida – Mas pode ficar tranquilo que eu vou te fazer se sentir bem mais tranquilo.

– Sim, vai se prostituir.

– Hã... É. – Rachel piscou o seu olho cor de mel meio confuso – Eu vou me prostituir.

A garota então se levantou da cama e foi até um aparelho de rádio localizado no canto do quarto. Ela sintonizou na estação que queria e a música que se faz escutar era Demons do Imagine Dragons, não a música ideal para um strip-tease, mas ainda assim era funcional. A garota olhava no fundo dos olhos azuis de Vincent e ele, nervoso, sorriu para ela.

Ela começou a dançar de forma sensual e a mexer no seu cabelo loiro enquanto lentamente ia tirando a sua camisa, Van Gogh não sabia exatamente para onde olhar naquele momento. Será que olhar para os peitos dela era algo indecente? Será que olhar nos olhos era muito intimo? Resolveu, então, olhar para o pescoço dela. Ainda assim, Rachel tinha um pescoço muito bonito e deixou excitado da mesma maneira. Vincent sentia-se bem, mesmo assim, algo o incomodava. Rachel era divertida, aparentemente inteligente e estupidamente linda. Como ela havia chegado a uma vida como aquela? Não parecia certo.

Ela já estava de sutiã rosa a mostra quando Van Gogh resolveu para-la.

– Espera. – Vincent pediu – Vamos conversar.

– Ah... – Ela deixou escapar certo tom de decepção – Você é desses?

– Aparentemente sou – Vincent Van Gogh disse dando pequenas batidas do seu lado na cama indicando onde Rachel deveria se sentar – Agora senta aqui.

– Ok, tanto faz, mas eu vou continuar sem camisa caso você mude de ideia – Ela disse se sentando – E o seu amigo vai continuar pagando mesmo se a gente conversar.

Os dois ficaram se encarando por algum tempo. Vincent não sabia mais o que dizer. Ele havia conseguido fazer com que ela parasse, mas ainda assim, não tinha um plano. Ela o fazia se sentir nervoso e, concordemos, ela fazia de propósito.

– Você disse que eu sou estranho – Vincent comentou coçando a sua barba rala e ruiva – Você está errada. Na verdade, você tem um ar de loucura também.

– Claro Sr. Amarelo, eu sou a esquisita aqui – Ela respondeu com ironia, Van Gogh ficou surpreso ao notar que ela fazia referência a cor favorita de Vincent – Não fique tão surpreso por eu saber disso. Paul me contou.

– Aquele maldito... – Van Gogh amaldiçoou seu amigo narigudo – Mas, sim, qual é a sua relação com o Gauguin?

– Já lhe disse, – Rachel respondeu com paciência – Somos apenas bons amigos.

– Mas você é...

– Uma prostituta, sim, você é um doce por notar isso – Rachel deu um sorriso cínico – Eu faço isso para me ajudar a pagar a minha faculdade de jornalismo. Não é tão ruim quando você se acostuma, na verdade, pode até ser divertido. Só por eu vender o meu corpo não significa que eu não posso ter amigos na aristocracia.

– É, parece que a sua simpatia lhe garante isso. – Vincent arriscou um elogio – Afinal você é, hã, simpática.

Rachel deu uma risada gostosa de se ouvir.

– Nossa, cara, você é horrível com cantadas! – Ela parou para dar um sorriso sincero para Vincent – Não me admira que você tenha me contratado.

– Você notou? – Vincent riu também – Eu pensei que iria conseguir conquistar você com esse meu jeito atrapalhado.

– Quer saber de uma coisa, Vincent? – Ela comentou em tom natural – talvez você consiga.

– A verdade é que eu... – Van Gogh não sabia exatamente o motivo de estar revelando isso para aquela prostituta -... Nunca beijei uma garota.

– O que? Sério? – Ela pareceu verdadeiramente surpresa – As garotas de Arles são doidas por ruivos.

– Eu não moro em Arles faz muito tempo.

A conversa entre os dois se estendeu por mais de uma hora. Rachel, mesmo com o seu jeito sensual e apelativo, fazia Vincent se sentir relaxado. E Vincent, mesmo com o seu jeito romântico e sem jeito, fazia Rachel se sentir excitada. A garota até tentou dar pistas que ele poderia se aproveitar dela na hora que ele quisesse, mas ele estava mais interessado em descobrir um pouco mais da vida da loira. O papo só findou quando Rachel notou que já havia passado do horário da visita a mais de trinta minutos.

– Bem, — ela disse se levantando e mexendo no cabelo – O seu tempo acabou, Vincent, eu preciso ir. Foi muito bom conversar com você.

– É, concordo. – Van Gogh se levantou também e apertou a mão de garota – Foi um prazer lhe conhecer, Rachel.

Rachel ficou encarando Van Gogh por algum tempo. Ela imaginou que ele fosse entender o sinal que naquele momento ele poderia beija-la se quisesse. Mesmo assim, nada ele fez e continuou apertando a sua mão. “que se dane” foi o que ela pensou a avançar em direção a Vincent e lhe dar um beijo. Ela fechou os olhos, mas em poucos instantes o garoto havia se afastado.

– O que...

– Ah, meu deus. Desculpa, Vincent, eu não queria...

– Não – Ele continuou pegando no rosto de Rachel – Eu gostei.

E então foi a vez dele se inclinar e dar um beijo na garota. Os dois ficaram lá por algum tempo até que se separaram e com um sorriso meigo se despediram. Vincent estava só no quarto do motel mais uma vez.

Mas o amarelo não lhe parecia tão triste agora.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.