Vinca Rosea
20 Tropaeolum Majus
Júlia cantarolava ao fazer o almoço, passeando pela cozinha murmurando uma música que havia grudado em sua cabeça quando acordara. Não tinha o costume cozinhar, muito menos sorridente. Tamanha era a diferença dos dias anteriores, que a cinco-chagas em cima da geladeira saiu de seu silêncio absoluto para se pronunciar.
– Faz tempo que não te vejo assim.
– Assim como? — perguntou Júlia, juntando as sobrancelhas ao ler a receita na tela do computador.
– Feliz, sem aqueles pensamentos lúgubres pairando sobre a sua cabeça. — a flor parecia confusa.
A mulher deu de ombros. Depois de resolver o problema com Paula seu bom humor ia voltando gradativamente.
– Nesse ritmo, vou poder partir mais rápido do que pensei.
O som de uma bacia caindo no chão e espatifando todo seu conteúdo pôde ser ouvido pela cozinha, assustando até a flor.
– Como assim? — Júlia agora a encarava com os olhos arregalados, metade de suas pernas suja de massa de panqueca.
– Você não achou que eu ficaria pra sempre, achou?
Não queria admitir que sim. Que, depois daquele dia no parque em que a havia conhecido e feito seu desejo, a teria para sempre ali.
– E meu desejo?
– Ah, ele vai embora comigo.
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